Sede de Sangue
23 Lembranças.
Megan se levantou da cama, ela havia acabado de ter um pesadelo, sua mãe estava de plantão no hospital. Por um momento ela se sentiu atordoada, sua vista estava embaçada...
–O que faz acordada meu amor?- Disse Clarice saindo de seu quarto, provavelmente ela havia ouvido Megan se levantar.
–Vovó? -Pergunta Megan. O que estava acontecendo?
–Deixe-me adivinhar, teve um pesadelo?
–Vovó... Você... Como...
–Quantas vezes tenho que dizer? Quando tiver um pesadelo basta me chamar. -Clarice diz parecendo nem ter ouvido Megan. Então ela beija a testa de sua neta.
Mas não havia sido normal, ela encostou em Megan, mas não era possível senti-la. Era como se ela não estivesse lá.
E não estava, Megan estava sozinha no corredor do andar de cima de sua casa. Quando saiu daquela paranóia chacoalhou a cabeça, então limpou seu rosto, ela ainda não havia entendido o ocorrido. Então três fortes batidas na porta ecoaram pela casa.
Megan desceu as escadas, então parou em frente a porta. Colocou sua mão na massaneta e respirou fundo, ela não sabia se estava preparada pra um "Eu sinto muito". Mas mesmo assim decidiu encarar seja lá o que estivesse por vir, ela abriu a porta e em seguida viu Kevin parado do lado de fora.
–Kevin?
–Eu vim ver se está pronta.
–Eu...-Megan não sabia o que dizer, tudo em sua mente parecia sem sentido- Eu nem comecei me arrumar.
–Tudo bem, eu volto daqui a pouco.
–Não!- Megan diz segurando o braço de Kevin. Ele se volta para ela novamente- Por favor não me deixe sozinha.
Kevin acente, os dois entram na casa. Tudo o que ele queria era abraça-la... Porém não sabia se devia. Aquela dúvida o fez optar por não abraça-la. Eles subiram as escadas e logo chegaram no quarto de Megan.
Ele se sentou na cama e ficou observando Megan tirar todas as roupas de seu guarda-roupa, ela estava escolhendo o que iria usar para o funeral. A escolha não era difícil porque ela queria estar bem vestida, era difícil porque ela estava dispersa, não conseguia se concentrar.
Depois de espalhar todas as suas roupas pelo quarto ela desiste, se senta no chão encostada na parede. Lágrimas começam a cair por sua face, ela não sabia se conseguiria superar.
–Meg... -Kevin diz se aproximando e sentando na frente dela- Vai ficar tudo bem, eu prometo.
–Não da, eu não vou conseguir passar por isso de novo.
Suas lágrimas aumentavam a cada segundo, Kevin queria arrancar toda aquela dor dela.
–Eu estou aqui Megan, não vou abandonar você.
–Porque tinha que ser ela? Eu não vou conseguir Kevin... É tudo culpa minha, se eu não tivesse... -Ele a interrompe.
–Você vai superar, tudo vai ficar bem, não foi sua culpa Megan. E acredite, sua mãe não iria querer ver você se culpando.
–Promete que vai ficar do meu lado?
–Sim, eu juro. Nunca vou te abandonar.
Megan o abraça, molhando o ombro de sua jaqueta com suas lágrimas. Ela queria parar de chorar, parar de se sentir uma garotinha... Mas como poderia?
Kevin a ajudou levantar do chão. E ela pegou o primeiro vestido preto que encontrou, ele não tinha quase nenhum detalhe, estar bem vestida era o que menos importava para ela agora. Com um suspiro de tensão ela olhou para o espelho.
–Não sei se eu devo ir... Vai estar cheio de pessoas lá, eu não quero ver todos aqueles olhares de pena dirigidos a mim.
–Eu vou estar lá, vai dar tudo certo.
Kevin estende sua mão, Megan olha fixamente, e depois de alguns segundos a segura. Então os dois saem da casa, logo em frente havia um carro parado.
Peter desceu do carro quando viu os dois, e depois de dar um abraço apertado em Megan ele abriu a porta para que ela e Kevin entrassem. Então prosseguiram até o cemitério.
Assim que viu o local do velório Megan sentiu seu estômago embrulhar.
–Meg espere aqui, eu e Kevin vamos ver se tudo esta seguro. -Peter disse caminhando em frente junto a Kevin.
Megan ficou parada, ela olhava fixamente para o caixão de sua mãe, parado há apenas alguns metros de distância dela. Ela se esforçava para não começar a chorar, mas sabia que cedo ou tarde iria desabar.
–Eu sei que tudo isto está sendo difícil... Mas Clarice não gostaria de nos ver chorando.
–Mãe!?- Megan diz olhando para o lado e vendo Marcela.
–Ela iria querer que a gente fosse forte...
–Mãe!? Como você!?
Marcela a abraça, mas Megan não sentia nada, nem o calor de seu corpo, nem mesmo sua respiração.
–Olha, eu prometo que tudo vai ficar bem, vamos nos mudar... Sei de uma cidade onde as casas não são tão caras, se chama Groovery Born. Pensei em irmos para lá... Acho que ficar nesta cidade será muito mais doloroso.
–Não entendo, como você...–Um toque no ombro faz Megan sair de seu transe.
–Oi Megan... Eu sinto muito, sei como se sente. -Diz Luna, Megan demora um tempo para perceber que tinha que responder.
–Não, você não sabe. -Megan responde por pleno impulso.- E se não se importa quero ficar sozinha...
–Quando eu tinha oito anos... John também matou os meus pais, foi na minha frente. Com o passar dos anos eu até que estou melhor, mas ainda tenho pesadelos com tudo aquilo, realmente, eu sei como se sente.
–Eu sinto muito.
–Ainda quer ficar sozinha?
Megan sinaliza negação com a cabeça, então as duas se sentam em uma das várias cadeiras em frente ao caixão. Logo Peter e Kevin voltam. E então o velório começa, com a leitura de um texto. Megan já havia decorado aquele texto, o trauma de perder sua avó a fez decorar aquelas palavras.
E então uma brisa fria chegou em seu rosto, a fazendo lembrar ainda mais do enterro de Clarice. Naquele dia as árvores balançavam com o vento, e o frio só piorava. Isso fez Megan pensar em Marcela, teria tudo sido diferente se ela tivesse se oposto sobre a mudança?
Esse pensamento a fez se sentir ainda mais culpada. E quando o enterro acabou, tudo o que ela queria era ir pra casa. Peter a abraçou, um abraço tão apertado, que por um momento Megan se sentiu menos infeliz... Mas de que adiantava? Ela havia vivido toda sua vida tendo um pai ausente e uma mãe presente, seria agora o contrário?
Ela continuou andando junto de Kevin até o portão do cemitério. Então abriu a porta do carro.
–Meg... -Ela ouviu antes de entrar, em seguida se virou, era Sarah- Eu... Sinto muito.
Ela acentiu.
–Então... Você o encontrou?- Megan perguntou.
–Não... Ainda não... Mas vou continuar tentando.
Novamente Megan acentiu, então entrou no carro. Logo depois Peter disse da janela.
–Vou ajuda-la a encontrar John.
–Ok... Mas, tome cuidado.
–Claro.
Em seguida Kevin começou a dirigir. Enquanto isso Luna ainda estava pensativa dentro de seu carro. Essa coisa de velório sempre a deixou para baixo. Ela respirou fundo mais uma vez, então olhou de relance para o lado. "Me encontre no nosso lugar". Dizia o bilhete deixado sobre o banco do passageiro.
Ela deu um breve sorriso, sabia que era Max, e sabia também onde encontra-lo. Era um riacho nos limites de Groovery Born, os dois costumavam se encontrar lá quando a humanidade ainda lhes pertencia.
Ela parou seu carro, e assim que desceu viu Max sentado embaixo de uma árvore. Ele a encarou, do jeito que sempre fazia, ela sorriu, mas seu sorriso desapareceu quando ela pensou no que aconteceria se alguém descobrisse sobre seus encontros com Max.
–Ta tudo bem?- Ele perguntou parando em sua frente.
–Sim... É só que funerais me deixam distante...
–Não se preocupe, eu te trago de volta.
Ele a beijou, ela nunca havia dito, mas gostava do jeito como ele a puxava pela cintura e a colocava perto de sí, do jeito como seus dedos passavam pelo cabelo dele. E mais ainda do jeito que ele olhava para ela a cada beijo.
Ela não sabia ao certo o que aconteceria se alguém descobrisse sobre os dois, mas sabia que estar com ele valia qualquer risco.
*
Kevin parou o carro, ele e Megan desceram logo em seguida. Já se podia ver Mike sentado na varanda, quando notou a presença dos dois ele se levantou.
–Mike?- Megan perguntou.
–Oi... Megan eu sinto muito pela sua mãe.
–Obrigado.
–O que faz aqui?- Kevin pergunta já imaginando a resposta.
–Eu vim me despedir, tenho que me afastar de tudo um pouco.
–Pra onde vai?- Meg pergunta dando um passo a frente.
–Ainda não sei. Mas talvez eu volte.
–Vamos sentir sua falta.
Mike a abraça, e em seguida olha para Kevin.
–Cuide bem dela.
Ele acente e Mike o abraça também. Ele sorri com um sorriso de "até um dia", então segue seu caminho.
Megan e Kevin entram na casa, ela se senta no sofá com uma expressão completamente triste. Kevin nunca havia visto ela assim, ele se aproxima e senta ao lado dela.
–Porque tem que ser assim? As pessoas próximas a mim... Sempre se machucam. Tem alguma coisa errada comigo?
–Não, não tem nada errado com você. A culpa não é sua se John é um psicopata Megan. Mas um dia ele vai pagar por tudo de ruim que fez.
–E o que eu faço até esse dia? Eu sento e assisto as pessoas que eu amo morrerem?
–Ninguém mais vai morrer. Vamos encontrar John antes e acabar com isso.
–Eu quero ajudar.
–É perigoso Megan. Você não... -Ela o interrompe.
–Eu posso me tornar uma vampira, posso me alimentar, e posso matar John.
–Megan, mesmo que se tornasse vampira, John ainda seria muito mais velho que você... Mas não se preocupe com John, vamos conseguir mata-lo.
–Eu não queria que você fosse... Não posso perder você também.
–Não vai. Eu prometo.
Megan esboça um pequeno sorriso, que desaparece em seguida, dando espaço a mais lágrimas. Kevin abraça, enquanto ela chorava debruçada em seu ombro.
*
–IMPRESTÁVEIS! É ISSO QUE VOCÊS SÃO!- John gritava para seus capangas.
–Senhor nós já tentamos de tudo, mas ela não fala.
John se aproxima dele então diz lentamente.
–Faça ela falar antes que eu mate você!
–John!- Diz outro vampiro entrando na sala as pressas.
–O que é!?
–Procuramos Joseph por toda a parte de fora da igreja, mas não encontramos seu corpo. O senhor tem certeza que jogou o corpo dele lá?
–É claro que eu tenho!
–Mas nós procuramos...-John o interrompe.
–Volte ao México e procure de novo! Será que só tem imprestáveis aqui!? Nessas horas Max faz falta! Saia da minha frente!- Ele passa pela porta.
–Onde é que o senhor vai?
–Vou fazer aquela vadia falar!
Ele sai de lá batendo a porta com toda sua força, então caminha depressa pelo corredor, estava determinado a descobrir onde estava seu baú. Ele iria precisar do conteúdo dele se quisesse fazer o feitiço.
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