Seda Vermelha
1 Maldita seja a devassa de cor púrpura
Notas iniciais
Seda Vermelha
“Ela me enfeitiça e me encanta, com a negritude infinita dos cabelos dela, tal qual o fogo infernal, onde jamais arderei por render-me ao pecado de teu amor.”
O tecido esvoaçante que lhe caía sobre as curvas bem desenhadas era o protagonista do meu ódio por ela.
Todos os dias que levava Lavignia para a aula de balé, passava pela porta sempre aberta do estúdio de tecidos acrobáticos. A seda resistente, mas ainda assim líquida no ar, suspendendo as garotas que rodopiavam pelos ventos da gravidade.
Por que eu tinha que ter um ódio tão ardente por aqueles seres? Por aquelas culturas tão estranhas? Seria a xenofobia impregnada no brasileiro? Deveria ser isso.
Ou então o que já me decorei a cabeça para minha vida inteira.
“Que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso. Não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso, porém com boas obras (como é próprio às mulheres que professam ser piedosas)” — 1 Timóteo 2.9-10
E isso me fez automaticamente olhar para o próprio corpo em dúvida. Seriam apropriadas minhas vestimentas naquele momento?
Saí de casa com pressa, estava atrasada para levar Lavignia ao balé e ir direto para o escritório. O que a minha chefe diria se eu chegasse lá com, Deus me perdoe, uma saia florida e blusa listrada? Estava ridícula.
A vaidade em mim chega a ser cômica. O pior pecado de fato é o orgulho, pois com ele você comete todos os outros. E é ele que me faz odiar aquelas malditas magricelas que dançam no ar, caindo sobre os tecidos pendurados ao teto. Ódio. Um ser de ódio é um ser impuro. Não sou melhor ou pior que aquelas garotas tão voluptuosas mostrando seus atributos delineados pela seda branca.
Mas havia uma que não dançava sobre tecidos brancos.
Descobri que seu nome era Ametista. Gozado, a bíblia diz às mulheres para que não se adornem com joias, e me caio em encanto singular por alguém com o nome de uma.
Os meus olhos deslizavam pela silhueta de ponta cabeça da garota. Ela deveria estar em seus vinte e dois anos. E eu aqui, uma senhora de trinta e nove, querendo olhares com alguém dessa idade. O que o Reginaldo diria se eu contasse isso a ele?
O negro dos cabelos lhe caía sobre as costas desnudas da roupa de ginástica. Quando deveria medir aquele cabelo? Uns sessenta centímetros? Talvez mais. Eram longos demais. Parecia que nunca os havia cortado (talvez tenha realmente o feito).
Sua pele era motivo para ser feita uma longa poesia de mil estrofes. Claríssima, parecia ser feita de ouro branco. Revestia um corpo jovem e bem desenhado pelo tempo. Seus braços longos, seu queixo fino, seu nariz esnobe, sua cintura fina, seus quadris largos, e bem… O resto, me tornaria mais pecadora a dizer.
Há algo de peculiar em seus olhos. O que dizer ao encontrar uma descendente da inestimável Elizabeth Taylor? Seus olhos tinham uma coloração “arroxeada”. Era possível ver que eram azuis, mas… O brilho era púpura. Um par de caríssimas, raríssimas, e infernais ametistas intensas, delineadas por negros cílios curvos.
E como a seda rubra do seu tecido acrobático, os lábios eram sempre pintados por um batom da mesma cor. Seriam vermelhos e carnudos realmente, sem a presença deste? Não teria coragem de perguntar.
Eu sempre a vejo, e a sinto. Mas não quero tocá-la, pois isso irá me lançar em chama ardente do tártaro.
Isso mesmo. A seda esvoaçante, tão líquida no ar, que pintava suas curvas em meio aos rodopios bizarros no ar, era como fogo. Fogo infernal. Ardente, pecaminoso, e tentador fogo infernal.
A almejo, mas não posso tê-la. E não a terei. Até o fim de meus dias, meu coração de homossexual enrustida estaria preso por trás de grades de ferro, que me protegem da seda ardente do meu primeiro amor.
Notas finais
Beijos de groselha ♥
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