Notas iniciais
boa leitura!

Ela ficou envergonhada do tom de suas palavras. Por que ficava daquele modo na presença dele? Antes de achar a resposta, ele continuou: — Eu queria mesmo ir embora, mas os deuses do tempo traçaram outras linhas para o meu destino — ele ironizou. — Nevou muito a noite toda e as estradas ainda estão bloqueadas.

— E quando vão ser liberadas? — ela perguntou, olhando para os pés.

— Não há previsões.

— Então estamos presos aqui? Juntos? — E o que parece.

Ela não sabia o que dizer diante da nova situação. Tinha tanta certeza de que ficaria sozinha naquela manhã e tê-lo ali, sob o mesmo teto, preparando o desjejum com tanta calma, a deixava desconcertada. Desconfiada, perguntou: —— Como sabe que as estradas estão bloqueadas? — Se não estivessem, eu já estaria bem longe daqui — ele respondeu contrariado. — Acha que sua companhia é tão agradável que eu queira passar mais tempo com você? Estou acompanhando as notícias pelo rádio, que está sempre informando sobre as condições das estradas.

Sem jeito, ela foi pegar pires e xícaras no armário. Estava sem o mínimo apetite, mas sentia que precisava de uma xícara de café quente. Estava pronta para sentar-se em frente a ele na mesa da cozinha, mas o olhar de poucos amigos daqueles olhos azuis a fizeram mudar de ideia e ela foi para a sala.

Que pesadelo! Poderia estar rindo com Bonnie naquele momento, conversando e pondo em dia os assuntos dos últimos meses. Em vez disto, estava presa, sem saber por quanto tempo, com um homem que a desprezava e que tinha motivos para tal, pensou, encostando a testa no vidro frio da janela. O comportamento dela na noite anterior fora infantil, tinha arriscado a vida! Devia estar agradecida por ele ter ido a seu socorro, mas nem conseguia ter um comportamento, no mínimo, aceitável.

Passou algum tempo com os olhos pregados na neve que cobria os montes, até sentir um arrepio na nuca. Sabia que ele estava atrás dela. Virou-se depressa, desconcertada com a presença dele.

— Estava admirando a paisagem — ela disse, irritada pelo desejo de explicar-se. — É linda, não? É uma pena vir até aqui e não aproveitar para esquiar.

Ele parecia aborrecido, olhando sobre o ombro dela para a paisagem.

— Eu não pretendo perder nada — ele comentou.

— O que quer dizer com isto? — perguntou, perturbada.

— Apenas, amor — ele disse, penetrando-a com os olhos —, que há uma porção de neve lá fora para se aproveitar. O que mais acha que eu queria dizer? Será que estava pensando que eu me referia de algum modo a você? — ele completou, com sarcasmo.

— Claro que não, mas...

— Ainda acha que seu corpo é tão irresistível que eu estaria louco por ele? A ideia por certo o divertia e ela o encarou com raiva.

— Eu não tenho um ego tão grande assim — ela respondeu. — Mas acredito que você é convencido o bastante para julgar que todas as mulheres queiram ir para a cama com você. Pois bem... Encontrou uma que não quer!

— Cara dama, eu preferiria me deitar num ninho de cobras, se bem que não notaria a diferença.

Colocando a caneca sobre a mesa ruidosamente, ele vestiu o abrigo e saiu, batendo a porta da frente. Sentindo as pernas tremerem, ela se deixou cair sobre uma cadeira.

Mais uma vez Klaus a tinha feito perder a estribeiras e ela nem sabia por quê. Caroline reconhecia que tinha um temperamento forte. Depois de um incidente extremamente doloroso na infância, que ainda a atormentava como uma cicatriz, ela lutava para controlar este temperamento, evitando que a raiva a dominasse. Até Klaus aparecer em sua vida, tinha ido muito bem, mas ele tinha um jeito todo especial de derrubar as barreiras que tinha construído com tanto cuidado, ameaçando pôr à mostra as emoções que ela escondia. Poderia ser tudo diferente. Sorriu ao imaginar o que o fim de semana poderia oferecer se pertencesse à legião de admiradoras de Klaus. Estava vivendo uma fantasia, presa na neve com um símbolo sexual e tudo o que conseguia era brigar com ele.

Tremeu ao pensar que não era imune a ele, no que tinha sentido com os beijos inebriantes. Tudo nela parecia se rebelar na presença dele. E se fosse além dos beijos? Como seria deixar que ele a tocasse? Passou a mão nos cabelos, tentando afastar os pensamentos febris. Não podia deixar que suas barreiras desmoronassem, nem em pensamento, se quisesse continuar a viver de cabeça erguida.

A imaginação é poderosa. Se a deixasse correr solta, podia perder a razão... Como tinha acontecido à mãe dela. Ingênua, tinha imaginado estar apaixonada por um homem que prometeu sonhos impossíveis de riqueza, de uma vida melhor, apenas para abandoná-la ao ridículo e à vergonha.

Por ser o resultado desta loucura, Caroline devia estar bem preparada contra a sedução dos glamorosos. Era terrível reconhecer que, mesmo com tudo o que sabia, ainda não estava livre dos traiçoeiros desejos de seu corpo.

Uma hora mais tarde, seu olhar voltou a perder-se pela vas¬tidão da neve que se acumulava nas montanhas, sem a mínima idéia do que fazer. Tinha tentado ler, mas sua atenção era atraída para o que estava acontecendo lá fora e, apesar de contrariada por ceder com tanta facilidade, voltava a observar o corpo atlético de Klaus deslizando pela neve. Mesmo não tendo experiência, sabia que ele não era nenhum principiante e era um prazer observá-lo. A elevação por ali era suficiente para ele poder praticar,, mas deveria ser frustrante, para alguém tão experiente como ele, se ver preso a uma área de amadores.

Dando as costas para a janela talvez pela centésima vez, ela suspirou, frustrada. Poderia estar se divertindo lá fora com Bonnie, mesmo que nenhuma das duas soubesse nada sobre esquis. Agora se sentia como uma colegial de castigo depois da aula. Reconhecia que apenas sua teimosia a prendia dentro de casa. Como Klaus não era o dono da neve, não havia motivo para ela não sair e ir se divertir na neve, também.