Notas iniciais
Não se acostumem, eu não costumo postar um capítulo no dia seguinte ao anterior, mas eu sempre faço isso em primeiros capítulos para manter os leitores. Enfim, espero que gostem!

Ora, é uma coisa engraçada morrer. Sabem, sentidos como olfato, tato e paladar não passam de uma memória distante. Mas sua visão, ah, sua visão se expande. E sua audição também, não é mesmo? Afinal, como aprender todos os segredos sem um cochicho no pé do ouvido?

Uma coisa que me deixou muito chocado depois de eu morrer foi saber que depois de alguns dias do meu funeral, a vida com meus colegas de classe e de meus amigos praticamente voltara ao normal. E fora a partir daí que eu aprendi os segredos mais obscuros dos meus amigos, muito além daqueles segredos superficiais que eles contavam para mim.

Eu me suicidei na segunda-feira, na quarta fora meu velório e na sexta meus amigos haviam combinado de passar em casa para pegar as coisas que eu havia deixado para eles no meu “testamento” improvisado que eu havia brincado há alguns meses na escola. Acho que desde aquela época eu sabia que eu iria me matar em breve, afinal eu peguei uma folha de caderno e fiz um testamento deixando livros, pôsteres, desenhos que eu fazia durante as aulas e tudo mais... É uma forma desses filhos da puta nunca esquecerem de mim, já que se passou menos de uma semana e parece que nada aconteceu.

Nesse dia na escola, logo após as aulas acabarem, meus amigos, como sempre, saíram por último da sala. Com a sala vazia, Luan perguntou:

– Que horas vocês vão para a casa de Matheus, pegar as coisas?

– Umas 18. – disse Laís, enquanto colocava sua bolsa embaixo do ombro. – Tenho um compromisso antes, por isso vou chegar um pouco mais tarde.

– Laís, Matheus era nosso amigo. – fala minha amiga Karine, a patricinha. – Pelo menos tente chegar mais cedo.

– Eu vou tentar. – fala Laís, saindo da sala. – Juro que vou tentar. Agora tenho que ir, se não perco o ônibus. Beijo!

Laís sai da sala com pressa, já que tem que adiantar seu compromisso. Após fechar a porta, meus amigos olham estramante uns para os outros, imagino que sabendo que há algo estranho ali.

– Ela nunca nos fala desses compromissos, não é mesmo? – fala Fernando, enquanto acompanha meus amigos para fora da sala.

– Nunca. Ela deve só estar indo se encontrar com Leandro. – fala Natália, acompanhando sua melhor amiga do grupo, Ju. – Ela e o namorado têm que transar de vez em quando.

– Transar? Laís é virgem! – fala Daniel, lentamente acompanhando meus amigos.

– Daniel, claro que ela não é. – fala Ju, enquanto anda pelo corredor das salas junto aos meus amigos. – Ela só diz isso para se fazer de pura para a gente.

– Eu acredito. – fala Daniel.

No momento em que acaba-se o tópico sobre a virgindade de Laís, meus amigos já desceram as escadas e se viram ao ponto de se separarem, indo cada um para um portão diferente da nossa imensa escola particular, cada um para pegar seu ônibus ou esperar seus pais no portão para voltar para casa, ou não.

Isso é o engraçado de se morrer. Eu, quando vivo, realizava essa rotina sem reclamar, assim como meus amigos. Mas agora, vendo isso tudo, vejo que não somos amigos de verdade. Alguns de nós não vamos para casa depois da aula. Como é o caso de Laís, que dentro do ônibus, pegou o seu celulr e discou um número que já sabia de cor. Depois de chamar algumas vezes, falou com a pessoa do outro lado do telefone:

– Oi, amor. Olha, vamos ter que nos encontrar mais cedo hoje, tenho que estar antes das 18 na casa do Matheus para recolher as coisas que ele me deixou naquele “testamento”.

– Sem problema. – respondeu a pessoa. – Sua casa está vazia?

– Sim, acho que a faxineira já foi. – responde Laís.

– Ótimo. – responde a pessoa. – Em alguns minutos vou passar por lá.

– Certo. – responde Laís para a pessoa que ama. – Beijo.

E assim Laís voltou para casa, claro, como sempre faz todos os dias. Mas hoje, iria provar mais uma vez para a pessoa amada o fato de já ter perdido sua virgindade.

Naquele mesmo momento, Fernando entrou no carro de seu pai, com seu rosto emburrado como sempre, nunca esboçando um sorriso. Nem Fernando nem nenhum de nós, amigos dele, nos lembramos da última vez que vimos tio Carlos sorrir. Fernando não disse nada em todo o caminho para casa, e ao finalmente chegar em seu apartamento, deu de cara com Milena, sua madrasta, linda e de cabelo loiro mal pintado, tomando uma taça de vinho branco e com sua cara horrível de sempre.

– Bom, agora que você já foi buscar o punheteiro na escolinha, podemos continuar a conversa onde você me explica o fato de ter uma marca de batom na sua camisa? – gritava Milena, enquanto Fernando ignorava a confusão diária e entrava em seu quarto.

Fernando se jogara na cama, enquanto ouvia os gritos de seu pai e sua madrasta na sala:

– Não é nada! O batom é seu! – gritava seu pai, apesar de Fernando saber muito bem que estava mentindo. Ele sabia dos casos de seu pai, desde que ele tinha 11 anos.

– Não me venha com mentiras, Carlos! – gritava sua madrasta Milena, na sala. – Eu não uso batom vermelho forte e você sabe disso!

– Você é louca, Milena! Louca! – grita Carlos.

– Sim, eu sou! – gritou Milena, e nesse momento, Fernando pôde ouvir a taça de vinho se espatifar no chão. É, iria sobrar para ele limpar isso de novo.

– Milena, eu não traio você! – grita Carlos. – Eu larguei minha mulher para ter você!

Ui, devo admitir que isso eu não sabia. Fernando nunca desabafa conosco sobre isso. Apenas imaginávamos que era normal. Mas um caso? Largar uma mulher por outra? Uau, Fernando, não me surpreende você ser depressivo.

– E já tem outra na fila! – respondeu Milena.

– Milena. – falou Carlos, em tom normal, mas que Fernando ainda escutava. – Que tal irmos para algum lugar para esquecer isso, hein? Fazer uma viagem, para Paris, Londres, Budapeste... O que você quiser, sem o otário de meu filho.

Eita, eu sabia que Fernando não tinha a melhor das relações com tio Carlos, mas seu pai chegar a odiar o filho? Uau, isso ele nunca contara para nós.

Milena parou um pouco, e como sempre, cedeu ao charme do dinheiro de tio Carlos.

– Bem, eu sempre quis conhecer Cancun. – fala ela e depois Fernando consegue ouvir uma pausa, que imagina ser os dois se beijando, depois ouvindo sua madrasta falar: — Mal posso esperar para viajar e me ver longe desse país, dessas pessoas, do otário de seu filho...

– Nem eu. – responde tio Carlos.

As lágrimas escorriam dos olhos de Fernando, e logo depois ele levantou-se da cama e foi para o banheiro de sua suíte. Abriu a gaveta abaixo da pia e tirou uma navalha que guardava ali. Passou-a em seu pulso, demonstrando o ódio por si mesmo. Olhava-se no espelho, com seu rosto cheio de espinhas e lágrimas escorrendo de seus olhos e pensava como alguém poderia amar alguém como ele. Depois que sua mãe morrera nunca mais se sentira amado por ninguém. É, morrer faz você poder interpretar melhor as emoções dos outros.

Naquele momento, Laís chegava em casa, e abria a geladeira, revelando o almoço básico que sua mãe deixara para ela. Esquentou-o no micro-ondas e comeu, e logo após acaba-lo, sua campainha tocou.

Laís abriu um sorriso na hora, e q uando abriu a porta, viu a pessoa que amava.

Com pernas perfeitas, corpo magro e pele árabe, Larissa apareceu em sua porta, com o sutiã na mão.

– Quem começa a se despir? – pergunta Larissa, que eu acredito que eu já mencionei ser namorada de meu amigo Daniel, que também é amigo de Laís.

– Você, com certeza. – fala Laís, puxando Larissa para dentro de sua casa, e fazendo amor com ela até onde pôde.

Devo dizer que enquanto via essa cena, pensei em como Daniel e o namorado de Laís se sentiriam caso descobrissem. Claro, nunca saberiam, pelo menos não por enquanto. Daniel estava muito ocupado jogando e o namorado de Laís estava muito ocupado em sua faculdade. É, é triste ver duas pessoas tão egoístas. Que foi? Não é só por que estou morto que deixo de ter minhas opiniões. São egoístas e mal amadas! Se eu soubesse disso quando vivo, ah, elas iriam saber o que é raiva.

Naquela noite, meus amigos se encontraram em meu apartamento para pegar minhas coisas que deixei para eles.

Meus livros de Harry Potter, minha saga preferida, ficaram para Ju, a mais leitora de nós.

Todos os itens que comprei em minha viagem para Londres para mim dividi entre meus amigos homens.

Meus pôsteres ficaram para Natália, já que sei o quanto ela ama decorar seu quarto.

Meus desenhos, para a pessoa que mais os aprecia. Karine.

E foi quando Karine foi tirar meus desenhos do armário, que ela puxou os papéis e deixou cair muitas caixas no chão. Essas caixas se espalhavam pelo chão do meu quarto, deixando tudo bagunçado.

– Muito bem, Karine. – fala Luan, batendo palmas. – Agora vamos ter que arrumar essa merda.

– Cala a boca, Luan. – fala Karine, se abaixando para apanhar os papeis no chão. – Vamos, me ajudem a arrumar isso aqui.

Meus amigos, com toda sua mal vontade de sempre, colheram os papeis inúteis de fichas de escola, curso, livros didáticos e revistas Playboy que Luan guardara discretamente em sua mochila. Mas foi aí que eles acharam uma coisa. No meio de tantos papeis agora inúteis, encontraram um pequeno papel oriundo de um bloco. E foi quando Natália achou e leu, fazendo cara de espantada.

– Natália, o que tem nesse papel? – pergunta Ju, tratando algo que eu me esforcei tanto para esconder de uma forma banal, pegando o papei e lendo em voz alta para todos:

– Me desculpe. Perdoe-me, por favor. Eu prometo que nunca mais faço nada contra você.

– Mas, o que é isso? Matheus escreveu? – pergunta Daniel, pegando o papel.

– Não sei, está em letra de forma. – fala Natália, gelada.

– Ai, meu Deus! Vocês acham que foi por isso que ele se matou? – pergunta Fernando, lendo o papel.

Nesse momento, Karine pega o papel, e com milhões de pensamentos em sua cabeça, pergunta em voz alta para si mesma:

– Matheus, o que você fez?

É, segredos não são fáceis de esconder, ainda mais quando se está morto. Eu tenho pena de meus amigos, que agora estão atormentados após encontrarem esse pequeno pedaço de um segredo meu. É, vai ser um longo luto para meus amigos. Por que esse não é o único segredo com que eles têm que se preocupar.

Notas finais
Obrigado por ler, deixe suas impressões nos comentários! Próximo capítulo semana que vem!