Secrets

9 Secret 9 - Fly away by your own way


Notas iniciais
~ Esse capítulo se passa entre os episódios 71 a 81 de YYH;
~ O começo do capítulo é um pouco estranho. Para se localizar melhor: os primeiros momentos deste capítulo se passam após o final do episódio 71, durante a Saga do Capítulo Negro, quando a Genkai pede que todos durmam na mansão onde Yusuke foi "seqüestrado"aa para no dia seguinte resolverem os problemas relacionados ao buraco do Makai.

Botan não precisou abrir os olhos para saber que estava de noite. Seu corpo ainda estava pesado de sono, e o chão daquela mansão não era nada confortável. Estavam todos na mansão onde Yusuke — supostamente — havia sido seqüestrado. Aquilo, porém, não era uma verdade absoluta. Há algum pouco tempo, havia sido descoberto que tudo não passava de um desafio proposto por Genkai, e que os garotos que haviam confrontado Botan e o Time Urameshi eram habitantes de Mushiyori que adquiriram habilidades territoriais.

\"Todos\", porém, era um termo errado. Virando-se de lado no chão duro, Botan podia enxergar o vulto irregular de Kuwabara, roncando initerruptamente. Kurama estava um pouco abaixo de seus pés, recostado numa pilastra qualquer da mansão; a ferry girl não fazia ideia se ele dormia ou estava acordado, por causa da total ausência de luz. Yusuke e o restante reuniam-se perto da porta, todos adormecidos. E Hiei, bem ela não fazia a mínima ideia de onde ele poderia estar. Há algumas horas mais cedo, ele havia se retirado, dizendo que pouco se importava com o que aconteceria ou não por causa daquele buraco. No fundo, Botan achava que aquilo era mentira dele. Ele mentia demais, afinal. De alguma forma, Hiei parecia temer demonstrar algum tipo de afeição que fosse. Não queria demonstrar que gostava de seus amigos, que queria ajudá-los, por mais que pouco se importasse com um buraco enorme que cuspisse um bando de youkais. Ele jamais admitiria que gostava de alguém. \"Bom, se ele sequer admite o parentesco com a Yukina-chan para todo mundo, porque haveria de admitir amizade com quem quer que fosse?\", pensou Botan. Suas entranhas reviravam de fome e insônia. Aquilo não era bom. Iria começar a se perder naqueles pensamentos desconexos, como sempre ocorria quando ela estava sem sono. \"Eu não queria que ele tivesse ido embora. Vai fazer falta para os meninos na hora de lutar!\", concluiu ela. De certa forma, fazia um pouco de falta para ela, também. Hiei era a sombra daquele time. Uma sombra que chamava, um pouco, a atenção da guia espiritual. \"Até parece!\", bufou ela consigo mesma, revirando-se no chão duro. Ia ficar com dor nas costas. \"Não é que eu sinta falta dele. Eu sinto falta de todo mundo. Ele sempre me chama de idiota, mas acho que ele também é um pouco idiota, saindo assim, sem pensar na falta que ele faz. Na falta que ele faz para todo mundo\", Botan sublinhou mentalmente as duas últimas palavras, encolhendo-se no chão fria, uma raiva de si mesma escorrendo pelas veias. \"Isso que dá não dormir direito! Amanhã acordarei cheia de dores, e ainda fico com esses pensamentos idiotas. Hiei, você ainda vai se arrepender por largar a gente assim\". A ferry girl fechou os olhos, a respiração regulada e calma. Na sua cabeça, ecoavam os adjetivos que ela mesma usava para construir a imagem de Hiei. Orgulhoso, orgulhoso e orgulhoso.

E ela se distraía tanto nas palavras que o arquitetavam que sequer pôde perceber que ela também estava sendo orgulhosa.

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Lá embaixo, os barulhos, a fumaça, as luzes. Ali em cima, apenas o vazio do silêncio. Era por isso que Hiei gostava daqueles lugares altos. O koorime encontrava-se na cobertura de um prédio comercial qualquer. Seus olhos estavam voltados para o céu noturno abarrotado de nuvens negras; não conseguia ver a lua. Os braços repousavam atrás da cabeça, e os lábios estavam levemente comprimidos, num claro sinal de que ele se encontrava pensativo. Odiava ficar daquele jeito, ainda mais naquela hora da noite. Queria dormir, apenas isso. E a insônia, invisível e intocável, ria-se, enquanto o atormentava daquela maneira. Se pudesse, Hiei a multilaria em uns 5 pedaços, pelo menos. Mas a insônia era invisível e intocável. A maioria das coisas que ele odiava, na verdade, era invisível e intocável.

Além da insônia, odiava também aquela coisa nova que se apoderara dele. Culpa. Não, definitivamente não era culpa. Não podia ser. Era injusto, era errado. Alguém como ele, sentir culpa? E quem lhe fazia sentir assim...

- Escute, Hiei. — ela fez uma pequena pausa. Parecia estar dando tudo de si naquilo. — Você não foi oficialmente retirado da lista de procurados do Reikai, certo?

- E daí, Onna?

- Se você nos ajudar a salvar o Yusuke, o que acharia se o Reikai não tivesse mais nada a tratar com você?

(...)

- Oficialmente absolvido, certo? Tudo bem. — as palavras saltaram secas e inexpressivas da boca de Hiei.

... era a baka Onna.

\"Não é ela. É a promessa que eu tinha com ela.\", pensou Hiei. De certa forma, ele sentia-se como alguém que agira horrivelmente errado. Tinha ido embora, deixado todos lá, mesmo tendo prometido a ela que os ajudaria. \"Mas eu prometi que ajudaria a resgatar o maldito do Yusuke, não que seria útil no que desse e viesse depois disso\", ponderou o koorime, enquanto os orbes rubros vagavam pelo céu turbulento. Era tarde da noite, e aqueles humanos ainda faziam tanto barulho. Sim, era isso o que ele havia prometido. Mas Hiei sabia que não havia feito nada para resgatar Yusuke, apenas complicara isso mais ainda, ao ser capturado logo no início. E lá vinha aquela culpa de novo. O youkai mordeu o lábio inferior, inconformado consigo mesmo. Não era culpa dele. Era tudo culpa daquela Onna, que lhe propunha coisas impossíveis de se cumprir, que adorava agir de um jeito estranho e único apenas para confundi-lo. Jogar toda aquela culpa nela, de certa forma, não adiantava de muita coisa. Era como jogar a culpa na sua mão esquerda.

\"De qualquer forma, agora eles vão se virar sozinhos, para verem se aprendem alguma coisa. Não tenho mais nada a haver com o que acontece ou deixa de acontecer com eles\". Com essa última ideia em mente, Hiei fechou os olhos, escondendo os orbes rubros. Sua boca continuava levemente contraída, o que mostrava que ele não conseguiria dormir tão cedo assim, apesar de tudo.

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Mushiyori era uma cidade como qualquer outra. Aquilo entediava um pouco Botan. Ela caminhava ao lado de Kuwabara, Kurama e Kaito, em busca do centro do buraco. Sentia as pernas e a coluna doloridas, horrivelmente doloridas, por causa da péssima noite de sono e das grandes distâncias que já haviam transposto. Apesar disso, continuava a ser a mesma Botan de sempre, sorrindo com certa saisfação e a voz saindo-lhe sempre alegre e curiosa. Estava curiosa, de fato. Toda aquela situação nova e assustadora despertava sua curiosidade. E, além do mais, ela queria se distrair. Precisava se distrair, porque haviam coisas muito mais importantes acontecendo, além daqueles pensamentos todos confusos, resultantes de uma noite mal-dormida. Em determinado momento, quando Kurama havia sentido a presença de alguém os seguindo, ela acreditou que pudesse ser Hiei, e o pensamento lhe provocou um estranho contentamento. \"Ele deve ter se preocupado com os amigos\", pensou ela. Não se incluía no grupo, porque se Hiei não admitia afeto para com seus próprios amigos, que dirá com uma reles ferry girl? Botan apertou a cabeça com as duas mãos, suspirando. Odiava aqueles pensamentos.

- Você está incomodada com alguma coisa? — quis saber Kuwabara, que começava a reparar no comportamento estranho da garota. Ela rapidamente armou um sorriso.

- Não! Eu estava apenas pensando no Yusuke e nos outros, se está tudo bem com eles. — sentia o sorriso congelar no seu rosto. Que mentira deslavada era aquela?

- Ah. — Kuwabara voltou a olhar entediado para frente. Botan suspirava, aliviada, e já ia murmurar consigo mesmo \"essa foi por pouco\", quando sentiu uma presença estranha um pouco acima de si. Olhou rapidamente; não era a mesma presença que ela e Kurama haviam detectado há alguns minutos. E não chegava a ser uma presença estranha, de fato. Pela primeira vez naquele dia, a ferry girl quis dar um sorriso verdadeiro.

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De fato, a primeira presença que Kurama e Botan haviam sentido era desconhecida. A segunda, já não era. Pertencia a um koorime de cabelos negros e bagunçados pelo vento, que saltava por entre o topo dos edifícios.

Não era a intenção de Hiei seguir Botan e os outros, a princípio. Acontecera por acaso: enquanto se deslocava pela cobertura dos prédios, com saltos leves e ágeis, sentira a presença de Kurama, Botan, Kaito e Kuwabara, uns duzentos metros abaixo de si. Não era do feitio de Hiei espiar nem seguir ninguém; mas, naquele momento, sentia uma certa irritação com aquelas pessoas. Apesar de ter sido ele quem os abandonara, o koorime sentia uma certa \"raiva\" ao ver que todos estavam seguindo normalmente sem ele. Principalmente aquela Onna. Era especialmente desagradável para ele ver que ela continuava sorrindo e gritando naquele tom desesperado e infantil, como se pouco se importasse com o fato de ele estar ali ou não. Toda a culpa que ele reprimia dentro de si explodiu e morreu ali mesmo. Não devia sentir culpa; aquela Onna não sentia culpa nenhuma, e ele não iria perder para ela tão fácil. Ele mordeu os lábios, enquanto assistia, do topo de um prédio azulado, Botan rir e responder qualquer coisa que Kuwabara tinha perguntado — não conseguira escutar, porque mesmo que sua visão a distância fosse muito boa, a audição não o era igualmente. Viu Botan fazer um movimento rápido, como se fosse olhar para cima. Na mesma hora, Hiei recuou uma bela distância, salvando sua presença espiritual de ser reconhecida pela Onna.

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Os trens do Ningenkai faziam um barulho engraçado. Botan apertava-se numa poltrona marrom qualquer do trem, enquanto suas pernas balançavam para frente e para trás. Ao seu lado, ia Genkai, e, na poltrona da frente, Kurama e Mitarai. Kuwabara fora raptado, por isso, não estava ali. Kaito e seu colega iam logo atrás. O trem levava a uma estação que ficava próxima a caverna Irima, onde iriam se encontrar com Yusuke para deter Sensui, que estava abrindo o buraco que levava ao Makai dentro daquela caverna. Botan sentia-se um pouco contente. Tinha esperanças que, com a volta de Yusuke, pudessem resgatar Kuwabara, e tudo ficaria um pouco melhor. Não era apenas isso que lhe contentava, apesar de tudo. O passeio por Mushiyori, enquanto procuravam o centro do buraco e seu conjurador, havia lhe animado um pouco. Ocorrera-lhe a ideia de que Hiei não estava tão distante de todos eles, afinal. \"E então, Kurama-kun e Yusuke irão encontrá-lo de volta, e ficará tudo bem!\", pensou Botan, enquanto espiava as árvores passarem como um borrão verde pela janela do trem. A guia espiritual era muito inocente, afinal de contas. Ela acreditava que toda aquela sua preocupação por Hiei ter se afastado decorria apenas do fato de Yusuke precisar muito dele, e de ambos serem amigos. Não era ela quem sempre tomava as dores de Yusuke, afinal? Era assim que agia Botan. Raramente ela conseguia enxergar seus próprios sentimentos. Talvez ela mesma não fosse tão diferente de Hiei o quanto ela acreditava ser.

- Acho que estamos chegando — arriscou Kurama, reparando que a velocidade do trem se reduzia gradualmente.

A ferry girl prestou atenção enquanto as árvores da janela começaram a definir suas silhuetas, e o barulho do trem se tornou mais audível e lento. A vegetação agora era rasteira e o árido das pedras aparecia mais. O trem parou com um apito de fumaça, e as poucas pessoas que ocupavam o trem se levantaram rapidamente, e Botan fez o mesmo. A guia espiritual desceu pela porta da frente, junto com Genkai. O ar quente do começo da tarde tocou seu rosto, e ela sorriu. \"Vai ficar tudo bem, Yusuke. Hiei vai voltar para lhe ajudar, e todos vocês voltarão a ser um time\". Era nisso que ela acreditava. Acreditava que todos os seus pensamentos relacionados a Hiei eram exclusivamente por causa do cuidado que ela tinha com Yusuke, e da falta que ela sabia que o koorime fazia na hora da luta, para Yusuke. Não era um erro dizer que ela estava enganada; Botan se enganava com muita facilidade.

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Uma coisa em especial atraíra Hiei para aquela floresta. E não havia sido a brisa agradável e refrescante, nem o barulho suave dos carros que passavam pela estrada. Era um confronto entre duas energias grandes e oscilantes. E uma delas não lhe era desconhecida. Naturalmente, o koorime não fazia a menor ideia do que era aquilo, mas resolveu averiguar.

Os pés leves de Hiei tocaram o topo irregular de um pinheiro, enquanto ele fechava os olhos e sentia. Escutava. Não havia dúvidas; era a energia espiritual de Yusuke.

Hiei assistiu a luta, escondido. De fato, aquele maldito Yusuke parecia lutar contra alguém, mas ele não via contra quem era. Que coisa estranha. Passados alguns minutos, o oponente finalmente aproximou-se de Yusuke, e ele pôde enxergar com certa clareza. Era um humano qualquer, que empurrava a distância um imenso caminhão contra Yusuke. Ia acertá-lo em cheio, tinha boa mira.

Hiei teve muito pouco tempo para pensar. Seu impulso inicial de descaso e frieza foi deixar Yusuke agir por si mesmo, e ver os resultados. Ao olhar para o rosto de Yusuke, porém, o rosto de Botan lhe veio em mente. Aquela Onna de novo. Ela provavelmente passaria o resto da sua vida chorando em cima de alguma pia com torneira aberta. Se na morte de Genkai ela já ficara tão abalada, que dizer na morte do seu querido Yusuke. Querido Yusuke. Aquela expressão, ao lembrar do rosto de Botan, provocou-lhe um sentimento estranho e irritante. Por um milésimo de segundo, a sua vontade foi deixar Yusuke morrer ali mesmo. O rosto dela lhe retornou à mente, mais uma vez. Lembrou-se dos cabelos azuis desalinhados da garota que chorava no banheiro cheio de água, pela morte de Genkai. Os soluços, os ombros sacudidos pelo choro. Não era pena o que ele sentia. Então, o que era? Ele não teve tempo de averiguar os próprios sentimentos; apenas saltou. Saltou da árvore, atirando-se contra Yusuke para salvá-lo. Salvar aquele maldito que ganhava toda a atenção por tudo era a última coisa que ele queria fazer. E era a primeira de todas as outras coisas, também. Pela Onna. Para a baka Onna não chorar. Ele sabia que, algum dia, poderia se arrepender por poupar a vida do humano que era tudo o que ele queria ser, embora não admitisse isso. Mas nunca se arrependeria de não fazer a baka Onna chorar. E também não admitia isso.

O koorime pousou, junto a Yusuke, no mesmo rochedo onde se encontrava o homem contra qual Yusuke lutava. Atrás deles, a fumaça do caminhão explodido subia em gordas nuvens. O oponente usava uma jaqueta vermelha estranha, e olhava um tanto surpreso para Hiei.

- Hiei... — o youkai ouviu Yusuke dizer, em tom baixo.

- Ainda é cedo demais para você morrer. — Foi tudo o que Hiei disse em resposta.

- Eu não deixarei ninguém interferir no nosso objetivo! — o humano contra qual Yusuke lutava apontava uma arma para ele, ao proferir essas palavras. Hiei sentiu uma bizarra vontade de rir. Mas permaneceu impassível. O outro gritou: — Suma daqui! — e começou a atirar.

Hiei desviou do rastro da bala com facilidade. O atirador apontava em todas as direções em que o koorime surgia, tentando acertá-lo, sem sucesso. Com um movimento ágil, Hiei se atirou na frente do homem que tentava atingi-lo, cravando a espada bem no meio do busto do mesmo. Ele silenciou, o rosto chocado, a boca levemente escancarada. Hiei permanecia indiferente.

- Hiei! — gritou Yusuke. O koorime girou os olhos, antes de responder:

- Eu evitei qualquer ponto vital.

Antes que pudessem dizer qualquer coisa a mais, o youkai sentiu o braço forte do homem que ele acabara de ferir enrodilhando seu pescoço, segurando-o. Enquanto isso, o outro braço trêmulo dele apontava a arma para Yusuke:

- Eu não deixarei ninguém interferir nos planos de Sensui-san...

Hiei girou os olhos outra vez. \"Por isso que eu odeio dar uma de santo. Esses caras me tiram do sério, e esse Yusuke também não sabe fazer nada para se defender\", pensou Hiei, enquanto puxava novamente sua espada e desferia um golpe rápido e simples no braço esticado que apontava a arma. O homem deixou escapar um gemido, antes de cair no chão, desacordado. O koorime olhou com certo nojo sua espada, cheia de sangue humano.

Yusuke e Hiei encararam-se por breves momentos. O koorime aproximou-se do colega, os olhos buscando a luz clara do céu do dia. Parecia um pouco mais calmo.

- O vento sopra com melancolia. Ele está agradável e calmo. — disse Hiei. Apesar de tudo, gostava de coisas agradáveis. — Esse é o vento do Makai, misturado com carne podre e sangue.

Yusuke o olhava sem compreender. Os olhos do koorime admitiram um tom sério.

- Veja. A entrada para o inferno está prestes a ser aberta.

Os dois voltaram as faces para uma faixa escurecida do céu, onde algo semelhante a uma descarga elétrica feia e sem muito brilho estalava, dourada e negra, ao mesmo tempo. O buraco. Yusuke deu um murro no chão, despertando a atenção de Hiei.

- Isso me deixa mal! É tão difícil lidar com esses caras! Nunca imaginei que eles causariam tantos problemas! — ele cerrou os dentes, lembrando-se do amigo de cabelo laranja que fora seqüestrado por Sensui. — Droga! Kuwabara! Tenho que me apressar...

- Apressar-se? Por que você está com pressa? — quis saber Hiei.

- Não é óbvio?! Eu vou resgatar o Kuwabara! — respondeu Yusuke, enquanto Hiei o olhava cheio de desinteresse. — E depois acabarei com aqueles caras!

O koorime estreitou os olhos enquanto puxava mais uma vez sua espada. Com um movimento rápido, estava poucos centímetros atrás de Yusuke, pronto para lhe desferir um golpe.

- Hiei! — gritou Yusuke surpreso, o que apenas irritou o youkai. Não aguentava mais escutar seu nome sendo gritado de um lado para o outro.

Com um salto ágil, Yusuke desviou-se de um grande dano que a espada poderia ter causado nele; apenas a ponta da lâmina encostou no seu pescoço, empunhada por um Hiei sério.

- Com isso, é a segunda vez que você quase morre hoje. — sibilou o koorime, sentindo aquela inveja de Yusuke queimar por dentro dele, mais uma vez. Era bom saber que estava sendo superior a ele, mesmo que por um momento. Durante um instante breve, ele desejou que Botan pudesse ver aquilo. — É dessa maneira que você acabará com eles? — ele riu baixo. Era algo extremamente raro, fazê-lo rir. Mas ele ria, sem nenhuma alegria. Apenas um contentamento leve, que ele jamais chegaria a atribuir a Botan.

- O que disse? — resmungou Yusuke, com um olhar um tanto feroz. Aquilo definitivamente alegrou Hiei. Estava mesmo precisando bater em alguém, e ninguém melhor que o queridinho de Botan para isso. Não iria matá-lo, certo? Então, não haveria problema. Decidiu provocá-lo.

- O Kuwabara é um idiota, uma vez que se deixou ser levado por eles. — ao ouvir isso, Yusuke fez uma careta feroz, levantando-se rapidamente, e berrando:

- Maldito! — a diferença de alturas não abalou Hiei, embora ela fosse considerável.

- Será que acabo com você de verdade? — replicou Hiei, os olhos estreitando-se com rancor.

- Por mim, tudo bem! — respondeu Yusuke.

Os dois se encararam por alguns momentos breves. Hiei se utilizava do seu olhar para derramar todo o rancor que tinha contra Yusuke. Contra todas as coisas que ele conseguia. Sabia que o que estava fazendo não era certo, mas, afinal, ele tinha raiva daquele humano. Raiva do que ele conseguia ser, e da afeição que ele despertava em... outras pessoas. Além disso, Hiei sabia que se fizesse aquilo, estaria ajudando Yusuke. Ajudando-o a perceber que ele precisava crescer mais, se quisesse derrotar os malditos que estavam abrindo aquele buraco. Era aquilo que os humanos chamavam de matar dois coelhos com uma \"facada\" só. Ou qualquer coisa assim.

Os olhos de Hiei brilharam, enquanto seu youki se materializava ao seu redor, dourado e dançante. O vento ao seu redor fez uma pequena pressão e estourou, empurrando Yusuke uns dois metros para trás. Foi aí que a energia dele também começou a se materializar, mas num tom diferente, um azul-claro e doce. Lembrava os cabelos da Onna. Hiei reprovou-se mentalmente pela comparação.

Um segundo depois, já estavam lutando. Os movimentos eram rápidos e eqüitativos, como se tivessem treinado para aquilo tudo. Se Hiei acertava Yusuke, o mesmo lhe acertava também. Alguns minutos depois, porém, Hiei já detinha uma certa vantagem, socando e atingindo Yusuke com facilidade. O mesmo foi atirado longe pela violência dos socos de Hiei, caindo no solo seco e rochoso.

\"Será que eu o matei?\", pensou Hiei, observando o vulto desacordado de Yusuke no chão enquanto escutava as marteladas de seu coração nos ouvidos. Seus olhos estavam levemente arregalados, esperando algum movimento do oponente, enquanto ele arfava pelo cansaço. Se o tivesse matado de verdade, não seria nada bom. Uma horda de amigos de Yusuke provavelmente correria atrás dele — incluindo a baka Onna, o que causou a Hiei um certo desgosto -, e ele próprio ficaria se sentindo culpado por dar vazão aos sentimentos e matar um amigo. Ficou tão espantado com tudo isso que nem percebeu quando Yusuke se levantou e o acertou em cheio no rosto, começando um contra-ataque feroz. Dessa vez, foi Hiei que caiu. Mas por muito pouco tempo. No outro instante, ele já corria mais uma vez, acertando um soco no rosto de Yusuke, embora uma calma leve fluísse pelo seu corpo. Yusuke o acertou também. Depois de alguns minutos, já estavam de volta ao estágio inicial, brigando com forças iguais. Isso durou até o momento em que Yusuke defendeu um soco de Hiei com o braço, e o koorime fez o mesmo. Separaram-se com um salto ágil, um para cada direção. Yusuke parecia terrivelmente atingido, e Hiei trazia alguns ferimentos leves.

O braço direito de Hiei se esticou para o lado, numa posição horrivelmente conhecida. \"Ele vai usar o Ensatsu Kokuryuu-ha¹!\", concluiu Yusuke, sem deixar de expressar um certo pavor. Hiei parecia realmente disposto a fazer isso. Seus olhos se estreitaram, pensando na satisfação pessoal que sentiria ao ver o enorme dragão de fogo negro confrontando seu... adversário. E, mais uma vez, sua onda de pensamentos e impulsos de raiva foi interrompida pela imagem de Botan, e pelo som que as lágrimas dela faziam. Hesitou, e odiou-se por isso. A imagem da ferry girl acalmou um pouco os pensamentos bagunçados de Hiei, e ele pôde concluir que, afinal, se realmente usasse o Ensatsu Kokuryuu-ha em Yusuke, não sobraria nenhum fiapo dele para contar história. E o seu objetivo não era esse, certo? Não. Não era. \"Tudo o que eu quero é fazer esse idiota perceber que precisa evoluir para derrotar aquela gente. Nada mais\", Hiei repetia isso mentalmente. Tudo isso se desenrolou em segundos, apenas. No momento seguinte, ele flexionava o braço que erguera a pouco, lambendo o sangue que escorria do machucado provocado por Yusuke, quando Hiei ergera o braço para defender-se do murro do detetive espiritual.

- Estou mais calmo, agora. Parece que seus poderes espirituais não desapareceram por completo — comentou Hiei despreocupadamente. Yusuke o mirava com certa incompreeensão, demonstrada na sua face confusa.

Um segundo depois, ele já entendia tudo.

- Maldito! — gritou Yusuke, arreganhando os dentes. — Você me provocou só para me testar, não é mesmo?!

- Como se sente, fazendo tudo o que bem entende, depois de todo esse tempo? — quis saber o koorime, depois de murmurar um \"Hn\". Em seguida, cuspiu o sangue no chão. — Há um minuto atrás, você estava com uma cara de frustrado. Esses caras vieram com uma tática muito boa; contiveram seu poder no mínimo, enquanto davam o máximo de si.

Yusuke ainda estava levemente atordoado. Hiei curvou-se para apanhar de volta a manta negra que vestia, botando-a com facilidade.

- Lute de cabeça fria. De qualquer forma, posso estar perdendo meu tempo ao te falar isso. — enquanto falava isso, o koorime olhava para o céu. Achava que se olhasse nos olhos castanhos do Reikai Tantei² à sua frente, acabaria se lembrando novamente de Botan e o socando ainda mais. Maldita fosse aquela Onna.

Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, ouviu as risadas de Yusuke atrás de si. Virou o rosto, quase arrependendo-se de não tê-lo socado mais:

- Qual é a graça?

- Nada... é que... — Yusuke tentava conter o próprio riso — Nunca imaginei que você me diria para esfriar a cabeça! Isso é demais!

Hiei soltou um \"Hn\" um pouco mais irritado que o normal. \"Talvez eu devesse tê-lo socado até a morte mesmo\", pensou ele.

- Hiei, valeu. Isso me reanimou. — agradeceu Yusuke, depois que parou de rir. O koorime olhou com indiferença e caminhou para a direção oposta, até Yusuke falar: — Hiei, venha comigo!

Hiei olhava-o de lado. Não demonstrou nenhuma vontade.

- Não temos tempo — insistiu Yusuke. — Em dois dias... quer dizer, amanhã, o buraco estará totalmente aberto.

- Não venha puxar meu saco — replicou o koorime com frieza. — Eu não suportaria sair com você por aí. E se o buraco do Makai abrir, eu poderei voltar para lá.

- Você não quer a fita do Capítulo Negro, do Reikai? — lembrou o detetive.

- Capítulo Negro? — repetiu Hiei, franzindo o cenho.

- É, aquele vídeo que mostra todas as atrocidades cometidas pela humanidade. Dizem que Sensui roubou a fita do Reikai. Uma vez que ele for derrotado, eu poderia pegá-la para você — sugeriu Yusuke, com um ar de suborno.

- Você acha que eles vão deixar você pegá-la? — perguntou Hiei, com descrença. Não sentia nenhuma vontade de ter aquela fita, apesar de tudo.

- Não importa! É um sacrifício pequeno em comparação a uma grande vitória.

- Você finalmente está voltando a agir como antes — observou Hiei, com um meio-sorriso seco. Ele olhou para o lado e reparou na aproximação soturna de dois youkais — Temos visitas.

Felizmente, os dois youkais não eram nada perspicazes. Em poucos minutos, foram derrotados. Hiei acabou decidindo por ajudar os amigos, apesar de tudo. Não tinha nada melhor para fazer mesmo. Havia algo — ou alguém, provavelmente — que o tornava mais relutante em retornar para a companhia dos outros. Mas o koorime era orgulhoso demais para admitir aquilo para si mesmo.

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O céu tomava tons alaranjados, ocasionalmente interrompido pelo carmesim das nuvens iluminadas pelo sol poente. As copas de árvore quase não balançavam; naquela hora do dia, tudo se tornava mais calmo, mas tranqüilo. O vento não passava de uma brisa suave, que mal se podia sentir. Numa canção morna, os pássaros piavam para todos os lados, anunciando o fim da luz. O canto deles também foi morrendo, como tudo mais que morria com o pôr-do-sol.

Na orla da floresta, bem próximo de onde a caverna Irima — onde estavam Sensui e Kuwabara — se encontrava, um grupo aguardava. Kurama estava ao lado de Mitarai, Genkai, Kaito e seu amigo, e, mais na frente, destacava-se Botan. A guia espiritual torcia as mãos dentro dos bolsos do casaco marrom que usava, e depois tirou-as dali, apenas para ficar entrelaçando os dedos e cantando de boca fechada. Com aquilo, Botan tentava acalmar a si mesma. Sabia que Yusuke estava demorando para chegar ali, e podia quase sentir que algo de grave havia acontecido com seu amigo. Os olhos rosados da ferry girl estavam irrequietos, como se esperassem por qualquer sinal de Yusuke. E foi então que ela viu.

- Ahn? Olha lá... — ela murmurou, vendo dois vultos se aproximarem pela pequena estrada. — Bem, bem, o que temos aqui?

Logo Botan reconheu a silhueta forte e mediana de Yusuke, o que a aliviou bastante. Enquanto os outros ainda espremiam os olhos tentando reconhecer aquela forma baixa que caminhava preguiçosamente ao lado do Reikai Tantei, a ferry girl rapidamente reconheceu, exclamando:

- Hiei está junto com ele!

Kurama e Genkai olharam para Botan levemente surpresos, provavelmente pelo rápido reconhecimento que a guia fez do koorime. Sentindo suas faces esquentarem — que estranho! — por alguma razão desconhecida, ela rapidamente se voltou para Yusuke e Hiei, que já estavam a pouca distância.

- Hã? Quando eles chegaram aqui? Devem ter nos ultrapassado de trem. — comentou Yusuke, enquanto observava os contornos dos amigos, a poucos metros.

Hiei não escutava mais. Seus olhos haviam rondado pelos vultos de Kurama, Mitarai, Genkai e todos os outros, buscando desviar apenas de Botan. Não sabia porque fazia aquilo. Quase podia sentir que, uma vez que olhasse para a Onna de cabelos azuis, seria difícil desviar dela. Havia algo muito estranho daquela vez.

Invariavelmente, os olhos irrequietos de Hiei acabaram esbarrando nos cabelos azuis de Botan, que o olhava com um ar curioso e retraído. Hiei sentiu algo se remexer desconfortavelmente dentro dele.

Quando o koorime e Yusuke chegaram nos amigos, Genkai rapidamente chamou todos para perto de si, no intuito de discutirem as preliminares do plano para invadir a caverna Irima e salvar Kuwabara. Hiei se dirigia para perto da anciã com passos duros, sem olhar para lugar nenhum que não fosse os próprios pés. O propósito de tudo aquilo era simplesmente evitar Botan. Não entendia porque fazia isso, nem tinha a menor vontade de entender. Mas, para ele, olhar para Botan agora era algo extremamente desconcertante. Talvez fosse culpa daqueles pensamentos toscos que ela o fazia ter, foi o que o koorime concluiu. Estava tão concentrado em caminhar firme até Genkai sem olhar para canto nenhum que sequer escutava as conversas dos colegas ao seu redor. Quando escutou algo, foi um estalar seco que soou incrivelmente alto na sua cabeça, como se fosse a própria consciência se rachando. O koorime se virou rapidamente, voltando-se para a fonte do som; estreitou os lábios, arrependendo-se por ter se virado. Lá estava aquela Onna. O barulho provinha de um galho no qual ela pisara sem querer, partindo-o no meio. Ao contrário dele, ela vinha caminhando um pouco mais atrás, desatenta a tudo e contando as nuvens no céu com uma alegria inocente. Após pisar no galho, porém, lançara um olhar culpado e assustado para frente, fazendo com que seus orbes rosados encontrassem os rubros de Hiei. E, como seu inconsciente havia previsto, ele não conseguiu desviar os olhos dela. Botan sentia o rosto corar. Não precisavam de palavras. Não precisavam do sol poente iluminando de laranja suas faces. Não precisavam da grama que batia em seus tornozelos. Enquanto se olhavam, os pensamentos de ambos pareceram nus, aos olhos um do outro. Era como se, naquele tempo todo em que estiveram separados, estivessem estado mais juntos do que nunca, unidos apenas pelas mentes.

O rosto de Botan permanecia muito corado. Hiei apertava os lábios, demonstrando indiferença; não era tão sensível como Botan ao ponto de corar. E não tinha nenhuma vergonha, em certos casos. Os olhos atentos dele prestaram atenção nos lábios finos dela entreabrindo-se para buscar algum ar, e ele sentiu uma vontade estranha de arrancar todo o ar dela, por aquela boca rosada. Mas não chegou a fazê-lo. Continuavam olhando-se, em silêncio. A felicidade silenciosa infectava cada partícula de Botan. \"Por quê?\", questionava-se a ferry girl. \"Não há motivo para eu estar assim! Será que é tudo por causa do Yusuke? Eu fiquei tão feliz assim por ele estar contente pelo retorno do Hiei?\", era o que ela se questionava mentalmente. O ar começava a parecer escasso a Hiei também, mas ele nada demonstrava. O sol descia, as nuvens rodavam, e eles continuavam ali, apenas se olhando. Não eram mais um segredo um para o outro. Mas eram um segredo para todo o resto do mundo. O laço imaterial que os unia, nunca mencionado nem pelas vozes deles, era um segredo. Um segredo que eles amavam demais para poderem verbalizar.

E continuaram ali, sem saber porque se olhavam tanto, e porque aquele reencontro parecia tão constrangedor. Botan inspirou; ela queria dizer alguma coisa. Precisava dizer alguma coisa. Seu rosto ardia. Ela não queria mais mascarar seus sentimentos por detrás de alguém; não queria associar suas emoções a reações secundárias do que Yusuke sentia. Não queria falar palavras de amor, nem nada do tipo. Não naquele momento. Era tímida demais até para perceber quando gostava de alguém. Naquela hora, apenas queria que Hiei sentisse que fizera alguma falta para ela. Talvez ele até entendesse, mesmo sem nenhuma palavra. Mas ela também precisava mostrar que era corajosa, e que não hesitaria em admitir que ele fizera alguma falta para ela.

O ar que entrou nos pulmões da guia espiritual lhe deu uma certa coragem. Hiei continuava a mirar, tudo, desde as curvas suaves do cabelo azul até os olhos e boca rosados. Seus olhos não podiam mais desgrudar dela. A boca dela se abria de novo; ia falar algo, ele quase podia sentir. Ela queria materializar parcialmente aquele laço invisível que os unia, e aquilo surpreendeu o koorime. Ela era corajosa.

- Andem logo, todos vocês! — a voz de Genkai soou como um chicote que os despertou para a realidade. Hiei virou-se bruscamente, arrancando os olhos do rosto de Botan para o céu pálido e sem graça a sua frente. Botan sentia as palavras presas em sua garganta escorregarem lentamente de volta para si mesma, o que resultou num gemido de descontentamento. Apesar disso, a imagem de Hiei a olhando fixamente não saía de sua mente. Olhou o koorime à sua frente, caminhando num ritmo lento e informal, já bem próximo de Genkai. Botan sorriu, entrelaçando as mãos soltas. Não conseguira expressar a falta que ele fizera, em três ou quatro palavras. Mas conseguira o olhar mais lindo do muito, de alguém que fora embora há apenas um dia, que soava como uma eternidade. E aquilo valia muito, para Botan, e para Hiei também.


Notas finais
¹Ensatsu Kokuryuu-ha = as famosas Chamas Negras Mortais do Hiei XD

²Reikai Tantei = detetive espiritual.

N.A.: Me desculpem pela demora! @_@ Eu tinha prometido postar esse capítulo dois dias depois do 8, mas um monte de coisas aconteceu, e eu não pude, infelizmente, só hoje. Apesar de tudo, eu gostei desse capítulo! XD Ficou bem grande, né? Eu busquei retratar da melhor forma possível os sentimentos deles. Demorei uns 3 dias para escrever tudo isso, porque uma parte do capítulo (como a luta do Yusuke e do Hiei) foi tirada literalmente do episódio, até as falas. Então, é isso, espero que tenha ficado ao gosto! XD Eu postei uma nova fanfic HieixBotan, chamada "Aroma", quem quiser ler é só procurar no meu perfil. Espero que tenham gostado do cap., o próximo virá em breve!