Secrets

13 Secret 13 - I hate this heartbreaker


As janelas de vidro denunciavam o dia claro que já fazia lá fora, e, ao mesmo tempo, abafavam os ruídos matinais vindos da rua. Do lado de dentro do quarto, as paredes claras abrigavam a cama fina e cheia de cobertores rosa, dentre os outros móveis do aposento. Por entre os vários lençóis, cabelos azuis e soltos se espalhavam num travesseiro fofo e peludo, num tom rosa um pouco mais claro que as cobertas. O rosto de Botan trazia as pálpebras fechadas e uma expressão confortável de sono.

Enquanto assistia o corpo pequeno e encolhido da garota que dormia, Hiei não teve coragem de se mexer. Estava com os pés e uma das mãos pousados num tapete felpudo logo abaixo da janela, por onde acabara de entrar. Seus olhos imediatamente registraram a imagem adormecida e calma da ferry girl, e ele a mirou por longos segundos, sem saber o que diabos fazer. Por fim, o koorime se levantou, limpando dos joelhos e da mão a felpa do tapete. Hiei se aproximou da cama a passos lentos e decididos, imaginando porque ela dormia tanto. Já era mais de 9h da manhã, ele tinha plena certeza.

Os cabelos azuis faziam um contraste suave com o travesseiro rosado, o que chamou a atenção dele; não se lembrava de alguma vez ter visto os cabelos dela, soltos como estavam. Hiei esticou-se para ver o rosto dela; estava pálido e quieto, adormecido. Mesmo que não estivesse sorrindo, Botan ainda trazia um quê de alegria enquanto dormia. Ela vestia um pijama branco e largo, totalmente oculto pelos lençóis.

- Ei, acorde — foi tudo o que ele disse.

Nada. Ela permanecia adormecida, e Hiei se perguntou se teria falado baixo demais. Normalmente, Botan preferiria ser acordada por algo mais carinhoso e gentil que um simples \"Ei, acorde\", mas o koorime ignorava essa particularidade.

- Acorde, Onna — falou o koorime com a voz um pouco mais elevada. Botan não acordou; limitou-se a encolher um pouco mais o corpo, ainda adormecida. Hiei soltou um \"Hn\" mal-humorado, enquanto se abaixava até a altura da cama. Será que ela estava morta? Surda? Ele teria que gritar? Afastando essas ideias incômodas, Hiei se debruçou sobre a lateral direita da cama, até chegar próximo a orelha dela. Haviam algumas mechas azuis que caíam por ali, mas ele não quis se deixar tocar nela.

- Onna — ele chamou com a voz rouca.

A primeira coisa que Botan sentiu foi a respiração suave do koorime em seu pescoço, lhe fazendo cócegas. O chamado ecoou de forma agradável na cabeça da ferry girl, e ela imaginou que aquilo deveria ser um sonho — apenas mais um — que estava tendo com Hiei. Ela fez um barulho engraçado com a boca, o que chamou a atenção de Hiei; pelos céus, ela estava acordando. As pálpebras da guia piscaram rapidamente, revelando por instantes ínfimos os orbes rosados. Botan virou o corpo para o outro lado, dando de cara com aquele rosto belo e sério que a contemplava.

- Hiei! — o gritinho escapou da boca da ferry girl, enquanto ela se sentava rapidamente e puxava as cobertas até o pescoço, assustada.

O koorime franziu a testa.

- Qual foi sua surpresa?

- Eu... bem... é que... — o rosto corado dela deu um sorrisinho nervoso — Como eu ia imaginar que você ia estar bem ao meu lado quando eu acordasse?

- Hn. Eu lhe acordei, baka.

Botan continuou piscando, descrente na figura de olhos vermelhos na sua frente.

- Eu não imaginei que você viria, Hiei!

- Por que não? — ele franziu as sobrancelhas para a garota.

- Porque... você demorou seis meses, e você gosta de mentir — ela fez um bico.

O koorime enviesou um sorriso maldoso.

- Eu estava muito ocupado. Você me pediu para voltar, eu voltei, então não deveria reclamar tanto.

Botan abriu a boca para protestar, mas acabou por desistir; talvez Hiei tivesse alguma razão. Fora ela que insistira para ele voltar, certo? Sim, havia sido. E por que ela pedira que Hiei voltasse? Por que tinha gritado na cara dele que o amava, se ele nem sequer parecia ter escutado isso? A guia mordeu os lábios, irritada consigo mesma. \"É claro que eu não amo Hiei\", pensou ela, sem notar o olhar que o koorime suspendia sobre ela, confuso com o silêncio pensativo da garota. \"Eu não sabia o que estava dizendo. Fiquei nervosa com o fato de ele ir embora, e falei tudo o que me veio na telha\". É, devia ser isso.

- Qual o problema que você tem? — a voz leve de Hiei interrompeu seus pensamentos bruscamente.

- Huh? — a guia espiritual riu nervosamente; uma risada meio falsa, mas ela não pôde conseguir nada melhor. — Que bobagem, Hiei! Saia um momento, eu quero me vestir.

- Você não me engana. — ele agarrou o pulso que ela estendia na direção dele para empurrá-lo fora do quarto, e olhou fundo nos olhos ametistas da garota. — Me diga o que você tem, Onna.

- Eu não tenho nada! Eu quero me vestir! Você vai sair ou vou ter que usar a força? — ela conjurou o remo voador e o agitou de maneira engraçada.

Hiei largou o braço da garota, e saiu marchando para o corredor. Botan correu a passos elásticos e fechou a porta, soltando um gemido tristonho.

- O que diabos comigo? — ela massageou as têmporas nervosamente. — Por que eu estou tão feliz por ele ter voltado? E por que tenho vergonha disso?

A ferry girl silenciou, mirando a bagunça do quarto em silêncio. Depois, explodiu.

- Ah! Não vou mais me importar, que seja! — ela chutou as roupas espalhadas pelo caminho e saiu em direção a gaveta da cômoda onde guardava suas roupas. Depos, se virou para a porta fechada num gesto defensivo e berrou: — Não vou ficar louca por sua culpa, Hiei! — esperava não ter gritado alto o bastante para que ele escutasse.

O koorime desenhou seu costumeiro sorriso mortiço nas faces. Ele não queria demonstrar, mas estava satisfeito por estar ali.

Meia hora depois, ambos estavam na cozinha apertada e clara de Botan; a ferry girl se ocupava em ter sua luta diária com a máquina de café expresso, enquanto Hiei encontrava-se sentado em um banco alto atrás de uma pequena bancada de madeira, observando ela se descabelar.

- Já é a quarta vez na semana que essa máquina não quer funcionar! — queixava-se Botan, visivelmente irritada. Ela usava um suéter amarelado de mangas compridas que não combinava nada com o clima, e uma calça jeans comum.

- O que você está fazendo? — perguntou Hiei em sua voz inflexível.

- Café — ela respondeu quase rosnando. Estava irritada.

Não era surpresa para Hiei as mudanças bruscas de humor sofridas pela ferry girl; de toda forma, ele raramente havia a visto irritada e confusa como ela estava naquele dia. E mal podia imaginar que a culpa de grande parte daquele tormento sentimental que se desenrolava dentro dela era dele.

A guia acabou desistindo da máquina e puxou um coador do armário, enquanto botava uma chaleira no fogo. Hiei achou interessante o modo como ela conseguiu fazer chamas brotarem daquele estranho aparelho de metal tão redondo apenas apertando um botão barulhento, e começou a prestar atenção no que ela fazia. O koorime nunca tinha reparado como as mãos de Botan eram pequenas e finas, e como seus gestos conseguiam ser graciosos e alegres, mesmo que ela estivesse irritada como estava. Os cabelos azuis dançavam enquanto ela se mexia de um lado para o outro, e Hiei amaldiçoou o encanto que ela exercia sobre ele.

As mãos de Botan tremiam convulsivamente enquanto ela enchia o coador com o pó fino de cheiro forte. Ela sentia os olhos de Hiei varrendo suas costas, e aquilo a deixava consideravelmente nervosa. \"Por que eu fui botar uma roupa tão feia?\", pensou ela, quase tendo um acesso de nervosismo ali no meio da cozinha.

- Isso vai acabar se rasgando de tanto pó que você botou dentro, Onna — alertou Hiei, apontando o coador com os olhos indiferentes.

- Ah! — Botan se lamentou ao perceber que ele tinha certa razão; tinha enfiado ali pelo menos umas doze colheres de pó de café. A guia apressou-se em derramar a água fervente dentro do coador, cantarolando nervosamente de boca fechada e quase se esquecendo de por uma xícara abaixo do coador de pano. Ainda com mãos trêmulas, fez o mesmo na outra xícara, e carregou as duas para a bancada onde estava o koorime, enquanto um tilintar constante de xícara batendo contra pires se fazia ouvir graças as mãos trêmulas da garota.

- Está sem açúcar — comentou Hiei depois de bebericar o conteúdo escuro da sua xícara.

- Café forte e sem açúcar é ótimo para começar o dia! — exclamou Botan, erguendo os braços numa posição altiva enquanto fazia uma leve careta pelo sabor desagradável da bebida.

O koorime não conseguia entender como ela conseguia ser tão idiotamente adorável.

- Então, Onna — ele pousou a xícara de volta no pires e reclinou-se para trás, encostando-se na parede com um olhar profundo voltado para ela. \"Céus, eu não sabia que ele tinha esse olhar galanteador oculto\", pensou Botan, sentindo-se um pouco idiota enquanto sorria. — Você não vai me contar o que você tem?

- O que eu tenho? — a ferry girl franziu a testa. Depois, deu um risinho afetado. — Hiei! Eu já disse que não tenho nada.

- Hn. Estou tentando ajudar você, baka. Diga porque está com essa cara nervosa e quase quebrou tudo aqui.

- O quê? Eu não fiz nada disso! — protestou Botan com um gritinho, embora soubesse que ele estava parcialmente certo. — Estou bem! Estou normal! Estou...

- Minha presença aqui te irrita? — interrompeu ele, com um meio-sorriso.

- N-não! Ei, Hiei! — ela assistiu o koorime se levantar rigidamente, sem olhar para ela. A angústia que se retorcia dentro dela pareceu crescer cem vezes. — Onde você está indo?

O koorime se virou de volta para ela. Seu olhar gélido deteu-se sobre ela; sentiu uma estranha vontade de abraçá-la e gritar para ela o quanto ela era idiota e linda.

- Eu voltarei quando você for capaz de falar abertamente comigo, Onna. — foi tudo o que ele disse, antes de se virar e sumir num borrão negro.

- Ei! Hiei! — Botan se viu chamando no vazio da cozinha. O silêncio não lhe respondeu, e ela sentiu os olhos arderem. — Por que a cada dia que passa você fica mais louco e anormal?!

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A chuva molhava os vidros por detrás das cortinas claras, enquanto Shizuru fingia não escutar os pingos batendo com ferocidade em sua janela. A mulher se encontrava no sofá, as pernas recolhidas a um lado, enquanto assistia um filme qualquer e acendia um cigarro. O céu nublado fazia a casa ficar escurecida, mesmo que ainda fosse apenas o começo do fim de tarde. Ela se perguntava se Kuwabara iria demorar a voltar para casa, agora que a chuva tinha aumentado. No mesmo instante, escutou batidas tremidas vindas da porta de casa.

- Ora, ora... — Shizuru suspirou. — Será que aquele idiota do Kazuma esqueceu a chave de novo? É só eu pensar nele, e ele me aparece...

Ela se levantou do sofá preguiçosamente, deixando os cabelos castanhos escorregarem sobre o ombro. Um trovão surdo ecoou lá fora, enquanto ela destrancava a porta e preparava-se para dar uma boa surra em Kuwabara.

Surpreendeu-se, porém, ao ver a figura diminuta que se encontrava do lado de fora; uma figura que ela conhecia bem, por sinal, mas não naquele estado. Cabelos azulados, olhos róseos, pele clara e corpo pequeno, vestida com um suéter amarelo e uma calça jeans, ambos encharcados. Gotas de chuva escorriam por entre as mechas azuis de cabelo, e o rosto dela estava vermelho e inchado de choro. Os olhos estavam grandes e abarrotados de lágrimas, e ela soltava gemidos inexpressivos de choro pela boca; parecia um gato abandonado na chuva.

- Botan-chan! — exclamou Shizuru, sem poder conter a surpresa na voz. — O que aconteceu com você?!

A garota de cabelos azuis abriu a boca e tentou falar alguma coisa; apenas um gemido torcido saiu de sua boca, enquanto ela ainda chorava, as lágrimas se confundindo com a chuva. Sem esperar mais resposta, a outra puxou-a para dentro de casa, empurrando a porta com o salto do sapato e sentando-a no chão atapetado.

- Espere aqui, eu vou trazer uma toalha e algo quente para você — disse a irmã de Kuwabara, antes de sair da sala e subir as escadas laterais. Botan apertava as mãos e soluçava, tentando parar de chorar. Seus olhos vidraram-se por alguns instantes na TV; comerciais alegres e berrantes ocupavam a programação.

- Aqui está — Shizuru disse, depois de descer as escadas e cobrir o corpo soluçante da amiga com uma toalha amarela e fofa. — Vou fazer um chá para você e roupas secas, Botan-chan, tudo bem?

A ferry girl soltou um \"obrigada\" esmagado que mais parecia um gemido, enquanto abraçava o corpo com a toalha, segurada pelos dedos trêmulos e enrugados pela água. Cinco minutos depois, a mulher voltava com um roupão branco e seco apertado entre seus braços.

- Aqui, vista, eu sei que um roupão não é a melhor peça de roupa, mas vai ser bom para aquecer — ela tentou demonstrar confiança para a amiga, e saiu rapidamente para a cozinha, determinada a preparar um chá bem forte e quente para acalmar a amiga.

Quando Shizuru voltou segurando uma xícara fumegante que soltava um cheiro leve de camomila, encontrou Botan vestida com o roupão seco, parecendo sentir um pouco de frio enquanto tentava engolir o choro e secar os cabelos úmidos com a toalha amarela.

- Aqui, Botan-chan, beba — orientou a irmã de Kuwabara, estendendo a xícara para as mãos trêmulas de Botan. A ferry girl aceitou o chá e deu um \"obrigada\" tremido e choroso; mesmo daquele jeito, ela não deixava de ter um ar cômico. — Agora, me diga o que aconteceu, estou preocupada!

Botan ficou em silêncio por alguns minutos, apertando a porcelana entre as mãos e mirando seu reflexo na superfície semi-transparente do chá. Shizuru conhecia Botan bem o bastante para saber que aquilo significava que a ferry girl ia gritar alguma coisa que estava martelando na sua cabeça de uma vez só, e não deu outra.

- O HIEI! — a voz da guia saiu alta e esganiçada. — Eu o odeio! Odeio com todas as minhas forças! Odeio demais! Quero bater nele com meu remo até que ele fique roxo!

Uma lágrima tímida brilhou no olho esquerdo dela quando Botan gritou, e ela bebeu largos goles de chá, como se fosse um homem falido tentando afogar suas mágoas no álcool.

- O Hiei-kun... — disse Shizuru, sem entender. A mulher franziu a testa. — Ele fez alguma coisa com você?

A guia não respondeu. Ela tentava demonstrar calma, desembaraçando as mechas azuis do cabelo e respirando lentamente. As lágrimas assomaram novamente, porém, e antes que Shizuru pudesse entender alguma coisa, a ferry girl já estava chorando e berrando de novo.

- Por que ele tem que ser tão complicado?! Eu queria poder entendê-lo! Eu irrito ele tanto assim? Ele me odeia tanto assim?! — ela descontava o desespero numa pobre almofada de renda que recebia seus socos sem força. — QUE DROGA! POR QUE EU AMO TANTO ESSE IMBECIL GROSSEIRO CALADÃO QUE...

Botan interrompeu abruptamente os gritos, sentindo os olhos de Shizuru captarem suas palavras com atenção. A garota sentiu o rosto esquentar, e algo denso se balançou no seu estômago. Rapidamente, fingiu um acesso de tosse para encobrir os gritos que dera antes.

- Então... — a irmã de Kuwabara parecia descrente. — Você está apaixonada pelo Hiei-kun?

A ferry girl piscou, sentindo o calor das bochechas aumentar. Depois, explodiu numa risada forçada.

- Shizuru-chan! — ela ainda ria. — O que você está dizendo?! Claro que não! Eu só...

- Você gosta dele sim, estou vendo — disse Shizuru em tom conclusivo, cruzando os braços com autoridade. — Mas não entendo o porquê das lágrimas.

O riso de Botan congelou no seu rosto, desfazendo-se aos poucos como um cubo de gelo. O chá estava morno entre seus dedos, pousado no colo da garota.

- Eu também não sei. — admitiu Botan num múrmurio. Sentia que seus olhos queriam soltar lágrimas de novo, e os esfregou rapidamente, decidida a não chorar. — Eu... Hiei me faz ficar assim. Estranha. Fraca. Ferida por qualquer coisa. Eu não sou assim! — os olhos róseos estavam úmidos.

- Eu imaginava algo assim — comentou a irmã de Kuwabara, abraçando a amiga pelos ombros com um braço, tentando lhe dar algum conforto; Botan fungou no casaco marrom da outra. — Você andava muito estranha nos últimos tempos. Isso começou já há algum tempo, não foi?

- S-sim — gaguejou a guia, olhando a TV; as lágrimas presas em suas pálpebras faziam com que ela enxergasse apenas borrões luminosos. Quando deu por si, já estava contando tudo, ocasionalmente tendo certa vergonha.

- Hum... — fez Shizuru depois de escutar. — Então, você está triste por que ele parece não gostar de você da mesma forma e por ter saído de forma brusca?

- É.

- Mas ele beijou você — comentou a outra, sem poder deixar de dar um sorrisinho.

- É — repetiu Botan em voz tímida, o rosto corado -, mas isso n-não quer dizer muita coisa.

- Por que não?

Botan limpou algumas lágrimas insistentes na manga do roupão.

- Porque já ouvi Keiko-chan d-dizendo que a maioria dos garotos b-beija as garotas apenas por diversão.

Shizuru riu do comentário.

- Tinha que ser a Keiko... mas, Botan-chan, você sabe melhor que eu que o Hiei-kun não é desse tipo.

Botan nada disse, apenas fungou mais uma vez e prestou alguma atenção ao filme na sua frente. A chuva amansara um pouco, e a mulher de cabelos castanhos se esticou para apanhar um cigarro.

- Você tem sorte que Kazuma não esteja aqui — disse ela, referindo-se a Kuwabara enquanto prendia o cigarro entre os lábios e puxava o isqueiro. — Seria lamentável ter de explicar tudo isso a ele.

- Eu pensei em ir na casa da K-Keiko-chan porque imaginei que ele estivesse aqui, mas fica tão longe, e acho que ela está estudando para as provas do colégio, ou algo assim... — Botan fez uma careta triste. — Eu só ia incomodar.

- Não diga bobagem. — Shizuru se levantou do tapete em direção a luz amarelada da cozinha. — Vou ligar para pedir algo para a gente comer, o que você acha? Kazuma deve chegar logo e cheio de fome, e imagino que você queira comida também.

- O que eu vou fazer quando ele chegar? — Botan perguntou, insegura; se explicar tudo para Shizuru já fora difícil, ela nem conseguia imaginar como seria explicar para Kuwabara que estava amando o baixinho mal-humorado que ele tanto odiava.

Shizuru rolou os olhos.

- Nós inventamos qualquer história... eu digo que você veio me visitar sem um guarda-chuva, e acabou ficando muito molhada. Kazuma é idiota, ele vai acreditar em algo assim. — A mulher suspirou. — Mas você vai ter que parar com essa choradeira.

Botan fez um sinal de continência e sorriu para a amiga, enquanto a outra retribuía o sorriso e alcançava o telefone na cozinha. Depois de fazer o pedido com facilidade, voltou para a sala, deparando-se com uma Botan chorona.

- Botan-chan! — Shizuru olhou cansada para a amiga. — Pensei que tinha dito para você parar de chorar.

- Mas... e-esse filme... — ela apontou a tela da TV, que mostrava um casal jovem e alegre de mãos dadas dançando em uma paisagem de ar parisiense, antes que os créditos começassem a descer, anunciando o fim do filme. — Eu queria viver um amor assim! Se fosse para gostar de alguém, eu queria gostar de um homem gentil e carinhoso, que sorrisse para mim e me dissesse coisas lindas! Por que eu não me apaixono por alguém assim?!

Shizuru reprimiu a vontade de rir, enquanto Botan chorava irritada. A mulher esperava que Kuwabara ainda demorasse a chegar, porque seria difícil enganá-lo se Botan estivesse com marcas de choro no rosto.

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A noite escura e poluída do Ningenkai inspirava uma certa melancolia em Hiei. Ele estava jogado em um canto qualquer de um terreno vazio, observando o longínquo movimento dos carros. A preferência do koorime eram os lugares altos, obviamente, mas ele sentia um cansaço psicológico horrivelmente grande, que lhe impedia de se mover até para fazer aquilo que gostava — não sentia nenhuma vontade de se sentir bem. Depois que deixara Botan gritando por ele, pensara que tinha sido a coisa certa a se fazer; um minuto depois, começou a se questionar. Aquilo irritou Hiei; estava se tornando tão inseguro quanto ela. Pelo resto do dia, ficara vagando sem rumo pelo Ningenkai, observando a chuva cair e se deixando molhar por ela. Por volta do fim da tarde, decidira voltar a casa da ferry girl; suas entranhas doíam e pediam por ela. Esmurrou a porta com certa violência ao chegar lá, mas nada lhe respondeu — ela era sensível, sabia que dificilmente abriria a porta para ele depois daquilo. Ao subir numa árvore para espiar a janela dela, porém, se deu conta que ela não estava lá. O cheiro característico e doce dela não rondava aquela casa, que parecia morta e sem graça sem ela. Hiei esperou durante algumas horas a fio, mas ela não reapareceu. Mal-humorado e irritado, fora embora dali e chegara naquele terreno arenoso e seco, que a chuva não conseguira umedecer totalmente, onde estava até agora.

Não haviam estrelas no céu. Não havia nada de interessante naquele maldito céu. Hiei alisou a pedra Hirui que pendia em seu pescoço, redonda e lisa, pensando em usar o resto do tempo que tinha ali para ver Yukina; não estava disposto a voltar para o Makai, e ter de encarar todas aquelas coisas que antes pareciam tão interessantes e sangrentas, e agora pareciam tediosas. Acabou desistindo de ir ver Yukina, porque apesar de ter certeza que a irmã permanecia no templo de Genkai, não se sentia no direito de vê-la. Talvez Botan tivesse alguma razão ao dizer que ele estava sendo cruel ao não contar para Yukina sobre o parentesco deles.

- Hn. — murmurou ele consigo mesmo — Estou até dando razão para a Onna, agora. O ar desse mundo não me faz bem.

A imagem alegre de Botan lhe ocorreu na mente, enquanto se perguntava se ela teria chorado ou se importado com o que ele havia feito; conhecendo a personalidade impulsiva da ferry girl, ele sabia que ela provavelmente choraria, ou o amaldiçoaria até a morte, ou faria os dois. Não combinava com ela ficar indiferente. Hiei sabia que, se a procurasse, poderia achá-la facilmente, na casa de algum conhecido. Mas não estava disposto a dar explicações para ninguém, nem encarar o rosto dela, fosse contorcido de fúria, ou banhado de lágrimas, ou ambos. Ver o rosto dela naquelas condições o faria querer gritar para ela parar de ser tão... tão feminina e sensível, e gritar para si mesmo por ter feito as coisas a seu modo.

- O que ela queria, afinal? — ele bufou, enquanto refletia. — Ela não quis me contar o porquê de estar daquele jeito mais estranho que o normal. O que tem de errado em querer entender aquela idiota?

Isso fez Hiei pensar por que ele fazia questão de entendê-la. Por que tinha voltado para o Ningenkai, quando poderia simplesmente ignorar o pedido dela? Por que a presença dela tornara-se tão significativa e esquisita? Por que, de repente, ela passara a ser uma das figuras mais lindas que já havia visto na vida?

E por que, diabos do inferno, ele tinha beijado-a daquela forma, seis meses antes?

E o pior é que achava que ainda tinha vontade de beijá-la, de novo.

Maldição.

Hiei decidiu-se por voltar ao Makai; sentia que seria capaz de enlouquecer, se continuasse ali, pensando naquela Onna estranha e nas coisas que ela o fazia sentir. A sua Onna. Hiei quis rir de si mesmo ao pensar assim.

- Que seja. Não é como se eu gostasse daquela boba ou algo assim.

Talvez ele gostasse mais do que imaginava.

Notas finais
N.A.: Primeiramente, quero pedir desculpas pela demora! A correria de fim de ano não me deixou pensar direito nem ter tempo, e acabei demorando um pouco mais de uma semana para escrever esse capítulo. Eu estava realmente sem ideias para o que eu ia escrever, e tinha medo de fazer algo muito meloso que fugisse das personalidades dos dois. Por fim, acabei fazendo eles brigarem! x_x Peço desculpas a quem não gostou disso, mas isso é para melhorar o clima da fic, porque as coisas entre eles não podem ser resolvidas tão facilmente. Afinal, estamos falando do Hiei e da Botan, né? XD Eu fiz dessa forma porque achei que as coisas estivessem correndo rápido demais, então dei uma "quebrada". Mas não se preocupem! Isso foi feito para que capítulos melhores[?] possam vir. Ah, sim! Estou pensando em escrever outra longfic sobre HB, o nome dela vai ser "Valentines" ou algo assim, quem quiser pode dar uma olhada no meu perfil e ver se eu já lancei (não sei se vou começar a escrever agora XD). Espero que tenham gostado, e deixem reviews! Obrigada pelo incentivo e pelas ideias, estou lendo tudo, viu? Beijos!