Secret Base

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Uma breve One Shot inspirada na OST de AnoHana: Secret Base.

Texto em itálico: Lembranças.

As correntes de vento daquela noite levantavam as madeixas já bagunçadas, provocando pequenos arrepios de satisfação ao ter a face tocada pelo ar gélido. Sempre gostara daquela temperatura mais fria, ao menos desde o colegial onde conhecera o prazer que poderia sentir. Um breve suspiro deixou os lábios do homem de vinte e três anos que, ao consultar as horas, concluiu que já estava atrasado. Mesmo que fosse atrasado para um compromisso até então unilateral.

Desceu do parapeito da ponte onde estivera sentado e se pôs a caminhar tranquilamente. Mantinha o olhar fixo no céu estrelado, deixando que os pés o levassem inconscientemente para seu destino: apesar de anos, sempre saberia como chegar lá mesmo de olhos fechados. Apesar de ser véspera de ano novo, as ruas ainda estavam tranquilas àquele horário, trazendo um singelo conforto ao homem solitário.

De tumultuada já bastava sua mente. Essa que fazia questão de trazer à tona suas mais queridas lembranças do colegial. Um novo suspiro escapou dos lábios enquanto uma torrente de vento passava, balançando os cachos verdes e fazendo com que se encolhesse brevemente. Com os olhos verdes esmeralda ainda presos no céu, rendeu-se àquelas memórias.

Ao final de seu treinamento com All Might, o jovem caminhava exausto rumo ao dormitório da turma. O entardecer já dava as caras quando chegou, encontrando-se com o garoto de cabelos bicolores que também retornava de onde quer que fosse. Deixou-se perder em questionamentos ao constatar que era a primeira vez que o via no dia, visto que não se lembrava do mesmo estar nas aulas:

— Midoriya, não vai entrar? – a voz grave interrompeu seus pensamentos.

Percebeu que o maior já havia entrado e mantinha a porta aberta, encarando-o impassível embora devesse estar se questionando para onde sua mente se perdera daquela vez:

— Hum? Ah! Sim, obrigado, Todoroki-kun!

— De nada...

Adentrou sorridente e fechou a porta atrás de si. Agora se encontrava em um dilema: tomar banho, jantar e dormir ou tomar banho e dormir direto? Enquanto se decidia, acompanhou o bicolor em direção ao elevador para então ir ao seu quarto. Ainda no modo automático, pegou uma muda de roupa limpa e deixou seu celular na cama enquanto voltava a sair.

Ao chamar novamente o elevador, deparou-se mais uma vez com Todoroki, o mesmo também com roupas em mãos:

— Estamos nos encontrando mais que o normal hoje, não acha, Todoroki-kun? – deixou a pergunta escapar.

Observou o garoto menear positivamente a cabeça, mantendo o olhar inexpressivo fixo em si; situação que levou o esverdeado a sorrir nervoso. Dirigiram-se em silêncio ao banheiro, porém antes que tivessem a chance de entrar, a porta foi aberta em um solavanco:

— Sai da frente, Deku de merda! – Bakugou o empurrou com o ombro parecendo mais irritado que o normal – Você também, meio a meio!

— Ka-Kacchan?!

O loiro simplesmente seguiu caminho pelo corredor, pisando forte e bufando. Logo viram Kirishima também sair do banheiro, correndo atrás do amigo e pedindo desculpas silenciosamente a eles. Midoriya ainda tentou compreender a situação por mais um tempo, porém finalmente desistiu e entrou, constatando que fora deixado sozinho do lado de fora.

Todoroki já estava lavando os cabelos quando acabou de se despir e seguiu para um dos chuveiros. Manteve-se em silêncio durante o banho, aproveitando o momento para estudar o que poderia vir a melhorar em seu treinamento como One for All. Estava tão alheio que não percebeu quando o olhar se fixou no garoto que terminava de se enxaguar:

— Midoriya? – a voz parecia abafado em sua mente – Midoriya?

— Hum? O que foi, Todoroki-kun? – despertou no segundo chamado.

— Você quer me dizer algo?

— Não, por quê?

— Esteve me fitando por uns dois minutos...

Era apenas sua imaginação ou o bicolor estava um pouco corado? Izuku inclinou a cabeça em confusão com a recém demonstração de sentimentos na face sempre tão estoica. Ao perceber que novamente estava se distraindo, levou uma mão aos cabelos os bagunçando:

— Desculpe, devo ter me perdido em pensamentos e nem reparei...

— Tudo bem...

Após o outro se retirar, permaneceu por mais um tempo até decidir que precisava dormir para assim descansar sua mente. Essa que agora insistia em lhe mostrar a imagem do maior corado.

Agora que relembrava, foi a partir daquele momento que passou a prestar mais atenção no colega de turma. Naqueles dias ainda era inocente acerca das coisas que o rodeava. Caso não fosse, provavelmente teria reparado mais cedo no sentimento que crescia entre Kacchan e Kirishima. Deixou um breve riso escapar ao recordar do momento em que descobriu que os dois estavam namorando às escondidas.

Seu celular vibrou com uma notificação e pegou o aparelho ansioso para ver o remetente. Não pode evitar um suspiro frustrado ao constar que era Uraraka. Ela e Iida estavam o convidando para passar o ano novo junto deles e do filho. Sorriu terno ao lembrar da confissão de ambos alguns dias antes da formatura.

Optou por responder agradecendo pelo convite, mas informando que já possuía compromisso. Sempre dava a mesma resposta a todos que o convidavam naqueles últimos anos. Apenas não queria que se preocupassem, ciente de que se dissesse que passaria sozinho não teria descanso. Voltou a andar assim que enviou a mensagem. Ainda mantinha uma esperança ínfima de que daquela vez seria diferente e, apenas por isso, tratou de manter um pequeno sorriso no rosto.

O grupo de amigos conversava a caminho do refeitório. Ou pelo menos, Midoriya e Uraraka conversavam, com Iida eventualmente pontuando algum tópico e Todoroki apenas observando. Esse último tinha se aproximado bastante do esverdeado nos últimos meses, passando a andar com o trio desde então. Ochako e Tenya até estranharam no começo, mas como conhecia o enorme carisma do amigo, que parecia abraçar a tudo e a todos, logo se acostumaram ao novo integrante:

— O que acham de irmos ao shopping nesse sábado? – a garota se pronunciou – Faz tempo que não saímos juntos!

— Uma vez que não temos provas na próxima semana, acho que tudo bem...

Os garotos observaram Iida e suas reações quase robóticas e apenas concordaram. A morena soltou uma exclamação animada, chamando atenção dos alunos próximos e, de praxe, recebeu uma repreensão do maior. Midoriya permitiu-se rir da situação, atraindo para si os olhos heterocromáticos que vinham provocando arrepios em seu corpo.

Ao tomar ciência da direção de seus pensamentos, não pode evitar o calor em suas bochechas. Pegou seu prato e correu para a mesa, tentando ao máximo disfarçar o nervosismo. Mesmo que correr estivesse longe de ser um bom disfarce. O período de almoço transcorreu sem maiores imprevistos e logo já estavam à espera do professor para as aulas vespertinas.

Izuku deixou o corpo cair exausto sob o encosto do sofá assim que chegou ao dormitório. Naquela tarde, Aizawa e All Might optaram por realizar uma simulação de resgate onde a vítima era única e exclusivamente ele mesmo. Ainda fora proibido de utilizar sua individualidade, restando a si apenas se deixar ser carregado e jogado de um colega a outro. Como se não bastasse, os professores escolheram Kacchan e Todoroki como vilões: estava quase surdo das inúmeras explosões que teve que ouvir e jurava que ainda sentia suas pernas congeladas.

Um suspiro satisfeito e até manhoso deixou seus lábios ao sentir um calor agradável a envolver suas pernas. Permaneceu de olhos fechados, aproveitando a sensação confortante, ignorando o pequeno alerta que sua mente lhe mandava. Teria continuado naquela letargia se a voz grossa que se manifestou não houvesse provocado uma descarga de arrepios em sua coluna:

— Peço desculpas por exagerar durante a aula, Midoriya...

As pálpebras se abriram em um rompante e o esverdeado teve que levantar a cabeça para enxergar o maior, visto que se encontrava caída devido sua posição no estofado. Prendeu o fôlego ao ver o bicolor atrás do sofá com a mão esquerda pousada em sua perna, o que explicava o calor que vinha sentindo. Porém o detalhe que de fato o deixou imóvel foi perceber que o outro estava entre suas pernas, os mesmos olhos inexpressivos presos a si.

Assim que retomou a consciência, afastou-se em susto, concomitante a uma queda vergonhosa do sofá. Massageou a cabeça na região onde atingira o chão e riu nervoso ainda sem voltar a olhar o garoto:

— Não precisa se desculpar, Todoroki-kun! – a voz soou mais aguda do que pretendia.

— Midoriya, você está...

— Hey, nerd de merda! Tá fazendo o que jogado aí no chão?! – o grito de Bakugou interrompeu qualquer raciocínio – Deixa de ser inútil, Deku!

Antes que pudesse falar algo, o loiro explosivo já sumira de vista. Novamente observaram quando Kirishima também apareceu, logo desaparecendo na mesma direção em que Katsuki foi:

— Como Kirishima-kun consegue lidar com o gênio terrível do Kacchan? – indagou incrédulo

— Não sei...

Fitou surpreso o bicolor por não estar esperando por uma resposta de fato, mas se deixou rir de verdade, recebendo um singelo sorriso em contrapartida.

Seus pés continuavam a leva-lo inconscientemente, os tradicionais tênis vermelhos vez ou outra chutando algum pedregulho pelo caminho. Lembrava-se que quando foram ao shopping aquela vez, Uraraka e Iida simplesmente os abandonaram nos primeiros cinco minutos. Sem terem muito o que fazer, optaram por dar uma volta no parque próximo à Yuuei. Até porque ainda não se sentia muito à vontade no centro comercial, naquela época, em virtude de seu encontro com Tomura.

Fizeram das árvores mais afastadas daquele parque seu refúgio pessoal e, sempre que precisavam desabafar ou apenas de uma companhia silenciosa, marcavam de se encontrar lá. Riu jocoso ao relembrar que apelidara aquele lugar como sua base secreta e em como Todoroki parecera satisfeito na ocasião. Ao fim de seus encontros amigáveis, retornavam juntos para a academia enquanto conversavam sobre aleatoriedades, ou ao menos, ele conversava.

Sentiu os olhos lacrimejarem, o sentimento de perda e vazio tomando seu íntimo como sempre acontecia quando se permitia reviver essas lembranças. Às vezes se perguntava se teria feito algo de diferente naqueles dias se soubesse que não seriam eternos.

Seus passos foram interrompidos pela explosão de cores no céu noturno. Explosão essa antecipado já que faltavam alguns minutos para a virada do ano. No entanto, foi o bastante para as lágrimas verterem dos olhos esmeralda; em sua mente, a imagem do ano novo que compartilharam com os colegas de turma antes da formatura. Novamente, se soubesse que seria a última vez, teria feito algo diferente?

Balançou a cabeça em negação e voltou a caminhar, não era o tipo de pessoa que guardava arrependimentos e provavelmente faria tudo igual de novo, quase tudo igual.

Era o último verão como alunos. Estavam sentados abaixo das copas que se tornaram sua base secreta. Falava sobre algo aleatório enquanto sentia o olhar heterocromático atento a seu rosto, dificultando para que pudesse se concentrar em sua própria conversa. Não era mais tão inocente para não reconhecer seus sentimentos em relação ao garoto bicolor.

Desde que o conhecera quando entraram na Yuuei, pode acompanhar de perto o crescimento de Todoroki como herói e pessoa. Admirava-o pela maneira como driblara todos os impedimentos que havia ao seu redor e, mesmo que pouco, sentia orgulho de si mesmo ao saber que teve alguma participação nisso. Reconhecia a pessoa que ele fora, gostava do jovem que viu se crescer e agora amava o homem que se tornara:

— Midoriya?

— O que foi, Todoroki-kun?

— Você parou de falar do nada...

— Oh! Desculpe-me, perdi-me em pensamentos!

Fechou os olhos e sorriu. Devido a isso, não percebeu a aproximação repentina do bicolor, tornando-se ciente apenas ao sentir os lábios finos e mornos tocarem os seus próprios. As esmeraldas arregalaram-se surpresas e se depararam com os olhos de cores tão diferentes agora bem próximos de si. Uma vez que não demonstrou se iria se afastar, as mãos de temperaturas opostas lhe tocaram o rosto, acariciando com ternura as bochechas sardentas. Quando o maior se distanciou, não pode evitar de esconder o rosto atrás da mochila que repousava em seu colo:

— O-O que foi isso, Todoroki-kun?!

— Eu gosto de você, Midoriya...

— Co-Como...? Desde quando? – retirou a mochila de frente do rosto corado.

— Acho que começou após o festival esportivo no primeiro ano...

Encarou atônito o garoto a sua frente, estava em dúvida se isso não passava de mais um dos seus muitos sonhos. Todoroki o fitava atentamente, quase ansioso, parecendo estar esperando por alguma resposta sua. Bom, se aquilo fosse um sonho, não teria problema algum, não é? É, não teria problema:

— E-Eu também gosto de você... – sua voz soou baixa, mas perceptível para o bicolor – Na verdade, eu te amo, Todoroki-kun...

Felizmente, ao voltar a sentir os toques dos lábios do outro percebeu não se tratar de sua fértil imaginação. Nunca seria capaz de imaginar tão bem como seria ser beijado por ele, bem como todas as sensações que vinham de combo. Permaneceram desfrutando daquela troca de carícias leves até perceberem que já estava na hora de retornarem à academia. Naquela noite, descobriria o quanto o gelo é capaz de queimar.

Encontravam-se no auditório da Yuuei, esperando para que a cerimônia de formatura começasse. Procurava pelo namorado quando o viu junto de Endeavor, pareciam estarem quase entrando em uma discussão pela expressão que o mais novo carregava no rosto. Aproximou-se com a intenção de reduzir o clima pesado, porém foi ultrapassado por Momo:

— Todoroki-kun, não acho que esse seja o momento e local ideal para essa discussão... – a voz feminina foi baixa, quase como se contasse um segredo, o que deixou Midoriya confuso.

— Ouça sua noiva, Shouto... – as palavras do Flame Hero nunca soaram tão cruéis aos seus ouvidos – Achei que essa fase rebelde já houvesse acabado...

Afastou-se discretamente do trio e, assim que se viu sozinho, passou a correr sem destino. No entanto, não passara desapercebido para o melhor amigo que agora agarrava seu braço, fazendo-o parar em um solavanco:

— Solta, Kacchan...

— O que aconteceu, Deku? Você deveria estar lá dentro todo eufórico...

O timbre anormalmente sereno daquelas palavras foi o suficiente para que se deixasse desabar nos braços do loiro que, confuso, apenas afagou sem jeito os cachos verdes. Permaneceram daquela forma até que seus soluços de um choro desesperado foram se acalmando, bem como ouvirem o diretor Nezu chamar todos os formandos.

Deu um pequeno sorriso ao amigo querendo mostrar que já estava melhor e rumaram de volta ao auditório. Infelizmente, naquele momento não percebera que Todoroki também fora atrás de si.

Assim que a cerimônia encerrou, os alunos passaram a se despedir um dos outros. Midoriya se aproximou do namorado, tinha decidido que deixaria para conversarem no dia seguinte sobre o que quer que estivesse acontecendo:

— Imagino que irá jantar com sua família... – começou animado – Então, podemos nos ver amanhã, Shouto?

— Fique com Bakugou... – a voz mais fria que seu lado direito fez com que arregalasse os olhos – Adeus, Midoriya.

Incapaz de mostrar qualquer reação, ficou ali parado observando o bicolor se afastando com o pai e os irmãos. Quando ele finalmente não estava mais a vista, as lágrimas começaram a transbordar sem controle, caindo em um novo choro desesperado e preocupando os amigos próximos e o ídolo que vinham parabeniza-lo. Da mesma forma que aquele verão, eles também chegaram ao fim.

Igual àquela época, sentia as lágrimas correrem soltas. Dias após a formatura que percebeu que Todoroki provavelmente o vira com Kacchan e tirara alguma conclusão errônea. Mas então já considerava ser tarde demais, principalmente quando Endeavor anunciou à mídia sobre o noivado do filho caçula.

Claro que ficara surpreso quando, meses depois, Shouto e Momo cancelaram o compromisso e a mulher assumiu estar em um relacionamento com Kyoka Jiro. Enji não parecera nada satisfeito, mas pelo visto já não possuía controle algum sob o Todoroki mais novo.

Chegou ao seu destino faltando poucos minutos para a virada. Deixou-se deitar embaixo das árvores tão conhecidas de sua antiga base secreta e passou a observar o céu por trás das copas. Aos seus vinte e três anos, já tinha realizado seu sonho de se tornar o maior herói, superando até mesmo seu tutor. Porém, em seu âmago, sentia-se vazio. Esse sentimento não o abandonara em nenhum momento desde a formatura e, em noites como aquela, apenas vinha a lhe assolar com mais força.

Fechou as pálpebras quando os fogos de artifício começaram a iluminar a noite, anunciando um novo ano. De tão imerso não percebeu a movimentação ao seu lado, reagindo surpreso quando sentiu a mão quente a lhe afagar os cachos:

— S-Shouto?

— Recebi sua mensagem... – os olhos heterocromáticos voltaram-se a si – Você acha que pode ser um novo ano para nós também, Izuku?

Jogou-se nos braços do maior, incapaz de responder, sentindo o cheiro e o misto de temperaturas dos quais tanto sentira saudades. Tomou os lábios alheios em um beijo saudoso, confiante de que aquilo bastava para transmitir sua resposta. Seu coração sempre estaria aberto para Todoroki Shouto.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!