Second Floor
1 one shot
Saio do meu apartamento e vou pegar o elevador, ele chega, eu entro e aperto o botão para ir para a garagem, o elevador para no andar de baixo e uma garotinha entra. Era bem pequenina, parecia ter uns 10 ou 11 anos,
-Oi- ela me cumprimentou
-Oi
-Meu nome é Anelise, e o seu?
-Amy- respondo
Noto que seus braços estão cobertos de marcas roxas, ela percebe que eu estou olhando para ela e cruza os braços
-O que aconteceu com seus braços?- pergunto preocupada
-É... Que.... Eu... Cai da escada! Isso! Eu tava descendo a escada e escorreguei e acabei rolando por dois níveis, olha o elevador parou no térreo tenho que sair tchau!- disse ela nervosamente correndo para fora do elevador assim que a porta se abriu.
Estranhei o comportamento da menina, ela é uma criança, deve ser por isso.
Fui trabalhar e acabei de esquecendo dela, quando voltei eram por volta de 19 horas, encontrei Anelise sentada em um banco da praça que ficava em frente ao prédio, ela abraçava os joelhos e olhava para os lados aparentemente preocupada com alguma coisa, notei que em suas pernas havia marcas de queimaduras e hematomas.
-Anelise?- perguntei chegando ao lado dela
Ela se assustou e deu um pulo, mas se acalmou ao me ver
-Amy!-disse ela, sorrindo forçadamente
-Tudo bem?-perguntei
-Aham -disse ela nervosamente- Amy, me promete uma coisa?
-Sim
-Olha, sempre você de vê ouvir barulhos muito estranhos no andar de baixo né?
Lembrei-me que às vezes eu ouvia gritos e objetos se quebrando no andar de baixo
-Sim
-Se você ouvir de novo, chama a policia ta? É, que eu...- ela parou e começou a tremer, mantendo o olhar fixo no prédio
Olhei para o prédio, e na janela de um apartamento do segundo andar havia uma mulher, olhando fixamente para nós duas
-T-tenho que ir- disse ela correndo para dentro do prédio
Fui atrás dela, mas ela aparentemente tinha subido de escadas, quando passei pela portaria do prédio parei para falar com o porteiro
-Escute, aquela garotinha me mandou chamar a policia
-É, ela é meio problemática, não se preocupe não
-Mas as vezes eu ouço alguns gritos no andar de baixo, ela pediu pra que eu chamasse a policia se ouvisse os gritos de novo
A expressão do porteiro mudou, ele parecia aflito, como se eu houvesse descoberto um segredo sobre ele
-A mãe da garotinha... Gosta... De assistir novela com o volume bem alto, e a garotinha não gosta disso, então... Não precisa chamar a policia certo?
-Hm
Subo no elevador e vou para o meu apartamento, coloco um pijama e vou para a sala de estar ler um livro, novamente os gritos começam
-O QUE VOCÊ FALOU PARA ELA SUA DESGRAÇADA?
-NADA EU JURO!
-INFERNO! VOCÊ TRANFORMA MINHA VIDA NUM INFERNO! ISSO SIM!
Um barulho de vidro se partindo seguido de um grito fino
-PARA MAMÃE! PARA! AAAAH!- mais um barulho de vidro se partindo
-VAI PRO INFERNO DEMONIO! PRO INFERNO!
Algo que parecia madeira de partindo, então uma porta é destrancada e fechada com um estrondo
Calço meus chinelos e desço as escadas correndo, quando chego lá encontro o elevador descendo, e um rastro de sangue que saia de um apartamento e ia até o elevador.
Aquilo foi realmente muito estranho. Fui dormir, no dia seguinte eu estava descendo no elevador e Anelise entrou
-Você não chamou a policia...- disse ela triste
-Mas é que...
Anelise ficou encarando assustada a câmera do elevador, em seguida abaixou a cabeça e ficou quieta
Fiquei em silencio também, como de costume o elevador parou no térreo e ela desceu fui para o trabalho, passei o dia todo pensando nisso e me decidi que iria chamar a policia se ouvisse de novo.
Quando voltei do trabalho encontrei Anelise novamente sentada na praça, ela tinha lago nas mãos, uma bonequinha, estava costurando a bonequinha enquanto conversava sozinha.
-O cabelo da mamãe é loiro e escorrido assim, seu olho é verde que nem esse botão, sua boca é vermelhinha, a mamãe é tão bonita!- então ela tateou em volta e pegou um gravetinho no chão- A mamãe sempre segura um cabo de vassoura- disse ela costurando o graveto na mão da bonequinha
Então ela pega uma grande tesoura de costura e corta a cabeça da bonequinha, então ela larga a boneca na calçada e puxa para frente seus cabelos presos em um rabo de cavalo, pega a tesoura e corta seus longos cabelos loiros bem curtos, ficando parecida com um menino
-Anelise?
-Amy!
-Por que cortou os cabelos?- perguntei
-É que... Ele tavamuito sujo e... Tava ficando difícil lavar ele!
Ela olha para o prédio novamente e se assusta, então pega os tecidos, a tesoura as agulhas e os restos da boneca e corre para o prédio.
Esta noite não ouvi nenhum barulho vindo do segundo andar, isso me fez ficar aliviada.
O dia seguinte era sábado, então acordei um pouco mais tarde, fui caminhar pelo parque que fica aqui perto.
Quando estava saindo do prédio encontrei Anelise no salão de jogos do prédio, estava sentada em cima da mesa de ping pong e brincava com uma bonequinha decapitada.
-Anelise? O que está fazendo aqui sozinha?
-Amy! Minha mãe não está em casa, eu não gosto de ficar sozinha no apartamento
-Quer passear no parque comigo?
Ela olhou para os lados, parou e pensou um pouco,
-Sua mãe fica brava?
-Não, eu acho, então vamos!
Fomos para o parque, Anelise brincou no balanço, encontrou alguns coleguinhas da escola e jogou pão para os patinhos do lago.
Na volta comprei um sorvete para ela, foi a primeira vez que a vi sorrir verdadeiramente.
Quando chegamos à frente do prédio ela já havia terminado o sorvete, olhou para a janela do apartamento e suspirou aliviada.
-Tenho que ir para casa, obrigado pelo passeio e pelo sorvete!
-De nada
Ela correu e subiu as escadas rapidamente, fui por trás dela, cheguei ao terceiro andar e entrei no meu apartamento, decidi tomar um banho.
Quando sai do banho já era noite, me sentei na sala e fiquei assistindo TV. Então começaram a gritar no andar de baixo.
-VOCÊ SUJOU TODA SUA ROUPA SUA INGRATA! AGRADEÇA POR EU AO MENOS TE DAR ALGUMA COISA PRA VESTIR!
-MAS MAMÃE FOI SEM QUERER EU JURO! NÃO! A VASSOURA NÃO! AAAAH!
Vários golpes, rapidamente pego o telefone e ligo para policia, eles já estava caminho, corri para o segundo andar para tentar deter a mãe estressada, parei na porta do apartamento de Anelise e tentei abrir a porta, não deu certo, fiquei ouvindo os gritos, como ninguém havia chamado a policia antes?
-Mamãe, por favor, n-não- ouço a voz tremula de Anelise vinda lá de dentro.
-Morre logo! Morre! Morre!
Ouço um chiado de fogo sendo apagado e mais um berro.
Os policiais chegam, e arrombam a porta, detém a mãe e a levam presa, entro no apartamento e encontro Anelise deitada no chão, com lagrimas nos olhos, sangue escorria de sua testa, cobrindo seu rosto, havia cacos de vidro cobrindo seu corpo, e uma queimadura horrível em seu pescoço e estava abraçada com uma bonequinha de cabelos pretos
-Anelise!
-Amy... E-eu não sei se eu vou continuar aqui... Toma, eu fiz pra você- disse ela estendendo para mim a bonequinha- É você- disse ela sorrindo fracamente
-Anelise, agüenta firme, CHAMEM UMA AMBULANCIA!
-Não dá... Deixa Amy, eu estou vendo uma luz. Eu não sei se vou conseguir continuar a viver bem com todos esses machucados. Tchau Amy, obrigada por ser minha amiga- então o brilho sumiu de seus olhinhos, não agüentei e chorei abraçada ao corpo dela ainda quente, mesmo com os cacos de vidro ferindo meu rosto.
Os policiais levaram o corpo dela para fazer a autópsia para determinar quantos anos de prisão a mãe dela ia pegar.
No dia seguinte a noticia já estava nos jornais:
“Mulher que tinha problemas mentais agride a filha até a morte. Ela tinha um caso com um carpinteiro e dessa relação nasceu a garotinha, quando o homem a largou ela culpou a menina por tudo, os vizinhos nunca chamaram a policia pois o porteiro os ameaçava, uma vizinha tomou coragem e chamou a policia, a garotinha, Anelise Costa, morreu ontem as 8 da noite, com vários traumatismos no corpo, os médicos suspeitam que a causada morte dela foi um traumatismo craniano, causado pelas agressões continuas, a mãe e o porteiro já foram indiciados.”
Deixo o jornal em cima do sofá, pego a bonequinha que Anelise fez e penteio os cabelos feitos de lã preta que ela tinha, ainda sinto que Anelise está perto de mim.
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