Seasons Of Love
1 Seasons Of Love
Notas iniciais
Fic escrita em pouquíssimos minutos, sejam bonzinhos ._.
Eu sabia bem que fazia parte do grupo de risco desde minha adolescência, e nunca fiz nada para evitar isso. Sabe, quando se tem catorze anos e você acha que o mundo é ridículo demais, que as pessoas –inclusive seus pais- estão erradas e que você é invencível, especial, e que cada segundo do seu ano tem que ser aproveitado como se fosse o último, estar em um grupo de risco é só um detalhe. Acontece que quando você passa dos vinte e a comida parece nunca ser o bastante, seu peso começa a desaparecer e a gripe que você pegou há mais de um mês não sara com medicamentos comuns, você começa a ter idéias estranhas sobre estar doente.In daylights, in sunsets, in midnightsIn cups of coffeeIn inches, in miles, in laughter, in strife.É engraçado lembrar que fiquei no metrô um bom tempo abraçado ao envelope, com medo de que ele voasse para longe e eu nunca chegasse a saber o resultado. Engraçado também pensar que não me lembro de coisas importantes como o nome do médico que me atendeu, o nome do hospital, mas lembro perfeitamente que havia um junkie sentado bem na minha frente, com a namorada. Lembro de ter pensado em como eram felizes e divertidos, e me perguntado por um bom tempo se eles realmente se amavam. Lembro também de estar usando uma camiseta roxa do Misfits e uma jaqueta de couro por cima – eu sentia muito frio, mesmo sendo primavera – lembro de quanto tempo fiquei no metrô e de todos que dividiram o vagão comigo.Lembro de ter pensado que eu poderia não chegar a descobrir o resultado se acontecesse algo e eu morresse ali, e percebi que não ficaria nem um pouco chateado. Foi quando me dei conta que precisava mesmo abrir aquele envelope e ver o que ele dizia. Minhas mãos tatearam o papel com um pouco de medo, e a cada movimento meu, eu sentia um frio na barriga. Quando tirei de verdade o papel de lá de dentro – e respirei fundo – senti como se meu estômago estivesse prestes a derreter dentro de mim.Eu teria que olhar uma hora ou outra, que fosse naquele momento antes que eu o perdesse eternamente!Não fiquei surpreso, não quis chorar, não arregalei os olhos, não tremi......não acreditei.Eu era HIV positivo.Poderia ter amaldiçoado a Deus por ter me dado essa doença, mas a voz da minha consciência dizia que Deus não tinha nada a ver com isso, que não foi Ele que me apresentou as drogas injetáveis, nem quem me mandou namorar um homem.Eu era uma pessoa horrível, não merecia viver, e no entanto eu tinha a chance de sobreviver.Por quanto tempo? Três meses, quatro? Um ano?Quanto é um ano?In five hundred twenty-five thousandSix hundred minutesHow do you measureA year in the life?Um ano tem 8.76.581.277 horas, 525.600 minutos, 31.556.926 segundos em seu total de 365 dias. Como você conta o seu ano?Existe quem conta seu ano em quanto recebeu de salário em todo ele; existe quem conte seu ano em moedas que recebeu nas ruas enquanto pedia esmola; existe quem conta seu ano em números de telefone, contas bancárias, propriedades que adquiriu, que vendeu, que alugou......quantas pagaram o aluguel.Como eu contaria meus últimos anos de vida, sendo que nem um tempo exato eu tinha? Em um momento eu achava que era eterno, e no outro eu sabia que ia morrer a qualquer momento, de qualquer coisa, de qualquer doença besta que eu pegasse.Eu tinha que começar a contar meu ano em quantos comprimidos de AZT eu teria que tomar, em quantas vezes eu teria de ir ao médico, em quantas agulhas eu teria que arranjar para não contagiar mais ninguém quando me drogasse.E ainda sobraria tanto tempo...How about love?How about love?How about love? Measure in loveSeasons of love. Seasons of loveLembro que comecei a pensar seriamente em tudo isso, em como eu cuidaria de cada minuto que eu tivesse de vida ainda, de como cuidaria para que ele ficasse bem. Eu morreria, ele não deveria morrer, ele tinha que continuar vivo, ele era tudo que eu amava, era a única pessoa que eu protegia e a única pessoa em quem eu confiava. Ele sabia que eu estava com AIDS, ele sabia e não queria acreditar, e quando eu desse a notícia, para ele seria só a confirmação.
Five hundred twenty-five thousandSix hundred minutes!Five hundred twenty-five thousandJourneys to plan.Eu não posso recordar quantos passos dei até nosso apartamento, o quanto andei, ou como foi que contei pra ele, só me lembro das lágrimas, das palavras de desespero que soltei e do sorriso calmo dele me garantindo que aquilo era só um detalhe que não faria a menor diferença entre nós.Conversamos por horas e horas, anoiteceu, a madrugada veio, amanheceu e eu não consegui fechar os olhos. Ele estava deitado por cima de mim no sofá pequeno e desconfortável do nosso apartamento quase sem mobília. As drogas me fizeram vender tudo.E ele não se importava desde que ficássemos com a cama, o sofá, a geladeira e o fogão velho.Ele era uma pessoa boa, eu não. Foi a partir daí que decidi que pelo menos nesse pouco tempo eu seria como ele, seria bom e daria mais valor às coisas que diziam ser realmente importante na nossa vida.Five hundred twenty-five thousandSix hundred minutesHow do you measure the lifeOf a woman or a man?In truths that she learned,Or in times that he cried.In bridges he burned,Or the way that she died.Os anos passaram sem que eu visse, eu piorei, tive crises terríveis, várias vezes disseram que aquela era a última, e erraram.Comecei a freqüentar grupos de apoio, parei com a heroína, e já fazia cinco anos, o AZT me mantia de pé, e meu namorado e meus amigos me mantiam vivo, na medida do possível. Cada minuto de risos, cada minuto de choro, cada minuto de uma nova amizade, cada minuto aproveitando as velhas, cada minuto que eu amei foi válido.Cada minuto que eu ajudei alguém, cada minuto que chorei por alguém do grupo de apoio que se foi antes de mim, cada noite que acordei imaginando se aquela seria a última.It\'s time now to sing out,Tho\' the story never endsLet\'s celebrateRemember a year in the life of friendsRemember the love!Remember the love!Seasons of love!Faz mais ou menos três semanas que eu vim para o hospital, nenhum cobertor me aquecia mais, meu rosto não tinha mais cor, perdi quilo após quilo como se fosse mágica, e eu tremia, e não conseguia parar de tremer, e suava como se fosse verão, mas eu estava gelado. Fui medicado mas dessa vez não me deixaram voltar para casa. Por horas e horas durante todos os dias meus amigos vem me visitar, alguns parentes, e ele. Eu não queria ir embora hoje, não queria deixa-lo para trás justo no Dia Dos Namorados, mas sei que não vou conseguir continuar até amanhã.Eu não tive como comprar algo caro, à altura do que ele merecia por todo esse tempo me agüentando, cuidando de mim, estando comigo e insistindo nisso mesmo sabendo que hora ou outra ele iria ficar sozinho, mas deixei o presente escondido em nossa casa. Minha voz não sai mais, e eu não sinto mais o calor das mãos dele segurando as minhas, só escuto ele chamando meu nome com lágrimas nos olhos, aqueles que eu amei tanto...Não sei dizer se sorrio, ou se tenho alguma expressão no rosto, mas ele parece assustado.Ele vai encontrar o presente, eventualmente.E vai encontrar alguém que estará com ele para sempre, assim como ele esteve comigo. Queria ter forças pra agradecer, pra dizer que o amo mais uma vez, para desejar ‘feliz dia dos namorados, Gee’ mais uma vez. Mas não tenho mais tempo.Não tenho mais...E enquanto meus olhos se fecham devagar eu me pergunto se vamos nos reencontrar um dia em algum lugar onde poderemos viver juntos para sempre.Se eu pudesse, esse seria meu último pedido.-Bert?! Bert, fala comigo! Bert? Bert!?…Oh you got to got to Remember the love! remember the love, You Measure in love know that love is a gift from up above Seasons of love. Share love, give love spread love Measure measure you life in love 14 de Fevereiro de 1994, Newark, New Jersey.
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