Seasons
1 um.
Aquele era mais um dia de outono. Agradável, desbotado e cheirando a normalidade, se arrastando no tempo com uma preguiça quase palpável. As árvores perdiam suas folhas, formando um tapete amarelado sobre o chão da pracinha isolada, perdinda num bairro onde seus moradores estavam ocupados e apressados demais para dedicar-lhe um minuto de contemplação. Mas a pequena praça, entretanto, não se via preocupada com isso. Não enquanto pudesse contar com a presença do garotinho loiro e de seus grandes e curiosos olhos.
Lembrava-se bem de quando o vira pela primeira vez, sozinho e com uma expressão dura demais à uma criança. Mas logo as visitas se tornaram frequentes, assim como o sorriso doce e as bochechas coradas após uma corrida desenfreada em busca de algo que ela demorou a descobrir. Ele queria atenção, do mesmo modo como um dia já quisera também — até encontrá-lo.
Os anos passaram timidamente, folha a folha, outono a outono, absorvendo o ar infantil do garoto da praça, mas não o brilho inocente que enchia o olhar e buscava respostas e abraços e risos. Sempre em busca.
Num dia que não outonal, dessa vez rosado, bobo e floril, a praça se viu observada por um novo par de olhos. Azuis, brilhantes e, como veio a perceber mais tarde, ousados. Ousados ao roubarem o seu menino, ao conquistar em pouco tempo tudo aquilo que a pequena praça levara anos pra conseguir. E até mesmo o que não conseguiu: preencher o vazio que se insinuava a cada olhar longo do loiro.
Assim surgiu a amizade entre o castanho e o azul, entre o loiro e o moreno, entre aquele que por tanto tempo implorara por ser visto e aquele outro que, de repente, sanou-lhe todas as necessidades com um simples gesto. O de amar. Não saberiam dizer o que sentiam, tão pouco definir os laços que haviam sido construídos — agora de flor em flor, mas a certeza de que faziam bem um ao outro se descortinava sobre os sentidos, tingindo em cores os sonhos antes guardados entre os galhos nus.
A praça, então, observadora e já livre do ciúmes de seu precioso garoto, descobriu que a primavera podia ser tão doce quanto o outono.
E sem saber, eles concordavam com ela.
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Owari
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