Season of the Witch

1 Prólogo — Prelúdio


Notas iniciais
Boa noite a todos e todas! Espero que gostem do capítulo. Lembrando que como a fanfic aborda um panorama que a série não abordou, não há necessidade de assistir ao seriado para compreender a fanfic. Quem quiser ler sem base nenhuma vai entender tudo perfeitamente. Podem encarar como uma fic de fantasia medieval. A gente se fala mais nas notais finais! Que a magia da boa leitura flua em todos vocês!



“I am a forest, and a night of dark trees: but he who is not afraid of my darkness, will find banks full of roses under my cypresses.”



Três era sem dúvidas um número de significado. A Santíssima Trindade. O ciclo da vida cristã: nascimento, morte e ressurreição. Ascensão, apogeu e queda, como Carlos Magno e os grandes imperadores romanos compreendiam tal transcurso.

Para si, três representava o conjunto do que fora até então o auge de seu poder.

O monarca esticou seus dedos indicador, médio e anelar, de maneira discreta. Contava em pensamento três nomes de relevância incomparável.

Wessex.

Nortumbria.

Mercia.

Três dos maiores Reinos das terras saxãs estavam sob seu jugo. O Rei Ecbert de Wessex, antes um governante limitado as pálidas terras ao sul do país, governava agora não apenas suas baixas planícies quanto o centro e o norte dos territórios. Tinha vantagem estratégica sobre as terras que ainda não conquistara, e poderia ser considerado um rei visionário, capaz de unir territórios em constante conflito sob uma mesma Coroa.

Mas não terminaria ali. O que antes eram três tornar-se-iam tudo.

Apenas mais dois Reinos restavam para unir a Bretanha saxã em um único Reinado: Ânglia Oriental e Gales.

E era por isso que, naquele momento, presidia um banquete para diversos convidados.

O Rei se sentava na cabeceira da mesa com elegância, metade de si atento a conversa cordial travada com o monarca que o visitava, a outra metade de seus rápidos pensamentos ocupada em trabalhar com antecedência os próximos movimentos.

Ao seu lado esquerdo, o rei irlandês da província de Tara, Áed Oirdnide se sentava, acompanhado de seu genro, o também irlandês príncipe Ulstan Leinster, seguido de sua jovem esposa.

Na frente de Ulstan estava o príncipe Aethelwulf, filho e herdeiro de Ecbert, que por sua vez se esforçava para travar um diálogo amigável com o outro príncipe e general de guerra. Por suas feições sisudas, Ecbert pôde perceber que seu filho encontrava dificuldade de compreender o inglês antigo falado pelos forasteiros, por conta de seu sotaque acentuado. Ao lado dele, pôde vislumbrar Judith, sua nora — e também confidente e concubina — com seu rosto doce revelando fingida mansidão. Ecbert manteve na jovem um olhar de soslaio, e pôde notar que ela cruzava os dedos, fingindo estar absorta no que quer que a jovem princesa forasteira falava.

Judith não o fitava, parecia insistente em evitá-lo, mas aquilo não o surpreendia.

Independente da proximidade resguardada, ele a conhecia bem. Seu rosto denotava ares suaves, mas seu olhar afiado revelava argúcia em suas íris claras. Sabia que Judith era inteligente e já deveria ter deduzido a dimensão da importância da aliança que naquela noite seria firmada.

Ecbert convocara aquela reunião que unia nações diferentes por um objetivo em comum: o que o levaria a ser o Alto Rei inglês, e o que traria a Áed poder absoluto sobre seu território a mares de distância, se unissem suas forças.

— Meu caro amigo — o rei saxão interrompeu o monarca do país vizinho, fazendo uso de expressões simpáticas há muito ensaiadas — Acredito que a melhor forma de começarmos esta noite será propondo um brinde as suas façanhas. Em homenagem ao homem que baniu de suas terras os invasores do Norte! — Ecbert o enalteceu, mencionando os feitos de Áed contra os vikings. Foi aplaudido pelo bispo Edmund, não muitas cadeiras distantes de si, e da maior parte da mesa.

— Você também chegará lá — Áed respondeu em sua voz roufenha e sotaque excêntrico, sua barba grisalha e crespa se movendo por um sorriso torto. — Seus feitos também são conhecidos, Alto Rei da Inglaterra. — Foi a vez do Rei irlandês trocar cumprimentos bajuladores.

— Eu espero que nossas trocas sigam tão frutíferas quanto nossos movimentos contra nossos mútuos invasores — o príncipe Ulstan levantou seu cálice, dando ao monarca saxão um olhar duro. Mal sorria ou piscava seus olhos. — Quem sabe, um desses frutos possa ser que aprendam o nosso idioma — sugeriu com um sorriso amplo, como se fizesse uma piada. Mas o monarca inglês compreendera a zombaria disfarçada.

A língua nativa do Éire, a Irlanda, era o gaélico irlandês. Dividida em diversos Reinos, assim como a Inglaterra, aquela ilha passara por uma era de cristianização com a chegada de São Patrício, no século V. Ecbert aprendera sobre aquilo lendo os tratados dos imperadores conquistadores.

Algumas ordens católicas localizadas em Reinos de renome, como a província de Tara, ensinavam aos nobres idiomas como o inglês antigo e latim. Eram línguas fundamentais para que a realeza pudesse decidir e negociar com o país vizinho. Mas a recíproca não era verdadeira, uma vez que a Inglaterra era uma nação de maior poderio bélico e financeiro. Não se sentiam obrigados a aprender o gaélico irlandês, pois estavam na vantagem.

— O conhecimento é infinito, jovem príncipe — rebateu a crítica, bebendo um gole de vinho. — Sem dúvidas não deve haver limites para o aprendizado humano — continuou evasivo, em uma postura de falsa humildade para ressaltar a arrogância do convidado. Ulstan nada mais falou.

Enquanto voltava a conversar com Áed, o monarca inglês varreu os olhos pela mesa, e reparou que Judith lhe retribuiu o olhar com um sorriso discreto. Notara a resposta e se divertira. Aethelwulf outra vez se dispunha a guardar as atenções do outro príncipe, e o bispo Edmund perigosamente avançava para uma quinta dose de vinho.

Ao lado do príncipe estrangeiro, porém, Ecbert reparou em algo... Inesperado. A princesa, filha do rei Áed, tinha seus olhos postos nele, o encarando diretamente. Aquilo lhe passava uma impressão estranha. Como se ela pudesse ler algo exibido em seu rosto.

A garota não lhe chamara atenção antes. Era uma jovem pacata, de cabelos castanhos acobreados e olhos também castanhos, de feições belas mas ordinárias, comuns. Seus traços passavam uma ideia de tranquilidade constante, de submissão. Feições ingênuas, podendo passar despercebida em uma multidão de moças da corte.

Percebera que não escutara a voz da princesa estrangeira em momento algum. Aquele pensamento, junto com o olhar fuzilante que lhe dera, fizeram lhe surgir uma sensação inusitada. Como se fosse uma espécie de agouro.

Mas Ecbert não era um homem de se abalar com situações excêntricas. O fora do comum, na verdade, tinha efeito contrário sobre si.

Instigava-o.

Aquele momento durou apenas uma fração de segundo. Logo depois, como se ele próprio tivesse imaginado a cena, a garota estava sorrindo para Judith com o mesmo semblante simplório com que se apresentara ao monarca e a corte inglesa.

O anfitrião franziu as sobrancelhas, sem mais gastar seu tempo com aquelas considerações. Passou o restante do banquete dirigindo suas energias a entreter seus convidados especiais — o Rei Áed e seu genro —, até o momento em que todos se recolheram aos seus aposentos, deixando o salão principal.

Ao chegar em seu leito, Judith estava deitada em sua cama, para sua surpresa. Não dormiam juntos há algum tempo, desde quando se ressentira dele pelo que fora forçada a fazer contra Kwentrith, a outrora rainha de Mércia. Pelo visto ficara satisfeita com a última manobra planejada e resolvera recompensá-lo na cama.

Ele mesmo estava satisfeito consigo, até mais do que de costume. Não era sempre que podia colocar em prática um esquema capaz de unir forças internacionais para subir ainda mais degraus na escada do poder.

Horas depois, adormecera há muito quando despertou, sem razão aparente, em meio a profunda madrugada. A luz alvacenta do luar avançava por suas janelas amplas, e nada restava de diferente para que ele pudesse ter tido aquela súbita iluminação. Judith ressonava delicada, ao seu lado.

E tudo o mais era silêncio noturno.

O Rei se vestiu, silente como mais uma sombra na penumbra. Não seria a primeira vez que acordara no mistério da madrugada. E o resultado disso, na sua primeira e até então única experiência, tinha sido uma visão assombrosa e abençoada.

Athelstan?, pensou Ecbert, lembrando-se do saudoso monge. Em seguida,decidiu descer as escadas de seu castelo. Alguns dos guardas lhe perguntaram se tudo estava bem, mas o Rei apenas os dispensou em um gesto displicente. Pretendia rumar para a sala do primeiro andar onde o santo padre costumava passar a limpo os textos sagrados. Local onde vira anteriormente sua anunciação.

Todavia, não era a porta destes aposentos que estava aberta. Mas sim uma saída aos fundos, usada pelos criados e servos da corte. A madeira rangia, uma brisa breve soprando como se o chamasse, afável.

É você, meu querido amigo?, o Rei desejou em pensamento, saindo aos jardins dos fundos de seu castelo. O que Athelstan queria dizer-lhe? Dar-lhe forças naquela nova investida? Abençoá-lo como futuro e verdadeiro Alto Rei da Inglaterra?

Contente pela visita que prenunciava, o monarca inglês avançou rápido, ultrapassando árvores, arbustos, até alcançar uma pequena clareira. Uma sombra vestindo uma capa branca estava de costas para ele. Tinha uma mão espalmada no tronco da árvore, um salgueiro antigo, que a família do monarca conhecia há gerações.

— Athelstan... — o monarca sussurrou, emocionado, mas um som distinto cortou sua voz. Um ruído murmurado, mas audível. Afinado, singelo, discreto... E incompreensível.

Tiocfaidh an samhradh, agus fásfaidh an féar...* — cantou a presença desconhecida. Uma voz feminina. Que ele não ouvira até então.

Entoando uma música que não soava apenas como uma canção, mas algo distinto. Etéreo. Como uma oração.

Ecbert entendeu quem era antes que ela abaixasse o capuz alvo, voltando apenas o rosto para encará-lo. Ainda tinha uma das mãos no tronco, e o fitava como se não estivesse surpresa por sua aproximação. Nem parecia incomodada pela interrupção de seu cântico.

— Minha senhora Brigit — o Rei fez menção de se desculpar por instinto, embora se houvesse alguém para duvidar da conduta naquela situação não seria o monarca. Era seu território, afinal.

— Peço perdão se o aturdi, meu senhor — a filha do rei Áed falou em um tom lenitivo. Tinha uma voz mais madura do que suas feições sugeriam. — Não pude dormir.

— Estou certo de que nossos servos poderão ajuda-la com isso. Podem preparar-lhe um chá ou o que for de seu agrado — mostrou-se polido, embora não soubesse de todo o que extrair daquele panorama.

— Não há necessidade. Retornarei aos meus aposentos. Boa noite, meu senhor — a princesa estrangeira fez uma reverência sutil, parando de tocar na árvore. Caminhou devagar alguns centímetros mais perto do Rei, estático a cerca de um metro de distância. Ele notou que a princesa estava descalça, os pés roçando delicados na grama.

— A lua... — Brigit levantou os olhos para o céu estrelado. — ...É mesmo uma deusa estranha, não é?

Ecbert sentiu um arrepio insondável percorrer seus braços protegidos do frio noturno. A garota o mirava, fitando-o com seus olhos de corça. Suas feições tão enigmáticas quanto aquela referência prevista em mistérios.

Um segundo depois, deu-lhe um sorriso jovial e se afastou, sem nada mais dizer. Andou pelas árvores do jardim na direção do castelo, desaparecendo na silenciosa madrugada.

O Rei continuou ali parado por algum tempo, sorvendo o que acontecera.

Três. O número sagrado para os cristãos.

Três.

O salgueiro.

A princesa.

O Rei.

Não poderia compreender tão rápido o que acontecera, mas sede de conhecimento jamais lhe faltara. Independente dos enigmas, a busca por respostas sempre fora constante em sua vida.

Ainda descobriria o tríplice significado daquele encontro.

Notas finais
*O verão chegará e a grama crescerá, da canção celta irlandesa "Vontade de Verão"; ~ O que acharam do prólogo da "temporada das bruxas", heehe? Espero que tenham gostado; ~ Alguma expectativa pro próximo? Adianto que vão conhecer a Einmyria nele. Será contado da perspectiva da Brigit; e ~ Aguardo reviews!