Season of the Witch
2 Capítulo Um — Névoa
Notas iniciais

A manhã cinzenta se erguia pelos arredores da vila romana construída no entorno do antigo castelo de Wessex. Fora erguida durante a ocupação do Império Romano na Bretanha, composta por altas muradas, reforçadas e vigiadas por guardas noite e dia, e divididas em três vastas áreas: a pars urbana, onde viviam o proprietário e sua família — agora o Rei Ecbert e a dinastia de Wessex —, a pars rustica, moradia dos servos e trabalhadores rurais, e, por fim, a pars frumentaria, com seus campos, bosques e rios.
A princesa Brigit Oirdnide caminhava transpondo a divisão do espaço reservado aos hóspedes irlandeses — a pars urbana, próxima dos entornos privilegiados do local —, para a pars rustica. Os belos pátios decorados por árvores bem podadas e jardins ornamentados eram aos poucos substituídos por porções de terra batida e casas modestas. A jovem princesa abaixava o capuz da capa branca que usava para ver melhor, testemunhando serviçais que passavam carregando baldes repletos de peixes e suprimentos, retirando água de poços ou simplesmente andando rápido de um lado ao outro, ocupados em sua rotina.
Uma garota loira se destacava na multidão, por ser muito alta e ter a pele mais alva que os demais. Seus olhos verdes pareciam distantes, como se pensassem em um horizonte além de Wessex. Levava nos braços uma criança de cabelos um pouco menos dourados que os seus, apoiada em seus ombros. Alguns homens mal disfarçavam olhares cobiçosos em sua direção, enquanto ela caminhava e se perdia em uma viela que Brigit não identificou.
Alguns feirantes montaram algumas barracas, nas quais negociavam com os trabalhadores locais preços por carnes, queijos, ervas e até mesmo roupas e calçados. A jovem irlandesa, interessada, seguiu até os feirantes, observando as mercadorias expostas.
Enquanto tentava se distrair com alguma possível compra, a estrangeira se lembrava da noite anterior. Ela, seu pai, Áed Oirdnide, e seu marido, Ulstan Leinster, bem como alguns membros da corte de Tara, foram recebidos pelo Rei Ecbert e sua corte inglesa, em uma festividade bem preparada, com um banquete abastado e muitos sorrisos cordiais pela aliança política recém-formada.
Todavia, apesar de jovem, Brigit não era ingênua. Seu pai não a levara como mera acompanhante decorativa. Sabia do tino político da filha, e queria prepara-la para o futuro governo que seria herdeira, assim como seu genro. E, mais do que isso, sabia da secreta vantagem que os Oirdnide dispunham.
O dom celta que Brigit herdou de sua mãe.
Mantido em segredo da comunidade cristã, a princesa herdeira da província de Tara fora agraciada com o que poderia ser chamado de dom da leitura e da profecia, um dom visionário, como alguns de seu povo — pela linhagem materna — chamavam. Os clãs celtas valorizavam aqueles dotados dessa capacidade, como sua mãe, uma famosa vates, druidesa que se ocupa de estudar e conhecer as artes da adivinhação e intuição.
Mas os cristãos rejeitavam este tipo de fenômeno considerado... Profano. Os celtas eram vistos com maus olhos tanto na Irlanda quanto nas ilhas bretãs vizinhas, pelos saxões e convertidos ao cristianismo. Sua cultura pagã era considerada desvirtuada, mundana, ligada ao submundo e a magia negra.
Assim, conforme sabia que seria da vontade de seu pai, e para sua própria segurança, a jovem princesa guardou para si esta capacidade. Por nunca ter sido trabalhada com o acompanhamento de sacerdotes, não sabia utilizá-la ao seu bel-prazer, era como um fenômeno instintivo. Às vezes, podia pressentir quando aconteceria, e, a partir disso, tentar fazer aparecer sua segunda visão.
Para sua surpresa, Brigit tivera seu primeiro vislumbre maior em terras saxãs na noite anterior. Durante o jantar com a família real de Wessex, a princesa irlandesa cruzara olhares com o Rei inglês, e, sem que pudesse imaginar, teve a reação instantânea.
Acontecia como uma espécie de leitura mental. Brigit nem sempre era capaz de prever acontecimentos futuros, mas conseguia vislumbrar o que já ocorrera. E, naquele momento, pôde enxergar lembranças da mente do Rei Ecbert, envoltas por uma espécie de bruma, névoa que sempre permeia o que não se vê claro a sua frente, mas que se pode relembrar em pensamento.
Viu fragmentos de memórias. Uma mulher jovem chorando em silêncio, com seus cabelos castanhos suados, seu rosto pintado em uma morbidez pálida, deitada em uma cama de sangue, cercada de parteiras. Um bebê urrava, desesperado, e sons de lamúrias eram escutados ao redor. Brigit pôde sentir a lancinante angústia do Rei, como se fosse uma lembrança sua, as lágrimas descendo impávidas e molhando seu rosto.
Em seguida, enxergou uma outra jovem em vestes noturnas, seus olhos azuis em uma expressão de receio. Em seguida, mirou com os olhos do Rei além dos aposentos fechados em que se encontravam, na direção da janela e do luar de uma noite tempos atrás. Ouviu a voz do Rei saindo de seus lábios, a dizer: “A lua é uma deusa estranha...”
Por fim, a última memória que pôde antever. A coroa de Mércia era colocada acima dos cabelos do Rei Ecbert, e ela pôde senti-lo sorrir, vendo com seus olhos do passado o bispo que o coroava governante de um dos mais importantes Reinos ingleses.
Brigit relembrava aqueles pedaços de lembranças alheias, mas que recebeu por sua segunda visão como se fossem suas. Encrespava as sobrancelhas, enquanto segurava em seus dedos direitos uma porção de framboesas. Seus olhos miravam as frutas, mas não as enxergava realmente.
— Deseja leva-las, Vossa Graça? — uma senhora de olhos manchados e pele macilenta lhe perguntou, abrindo um sorriso com poucos dentes. Oirdnide não entendeu a pergunta, ainda tentando se acostumar ao inglês antigo.
— Perdão? — Arqueou as sobrancelhas, sobressaltada. Deixou as framboesas no lugar em que as tirara, por impulso.
A feirante levantou uma das mãos como se lhe pedisse desculpas. — Perguntei se gostaria de experimentá-las, Vossa Graça. Como convidada do Rei, não há necessidade de pagamento — esclareceu, falando mais devagar. Deveria ter notado o sotaque da princesa forasteira.
— Não há problema, eu faço questão! — Brigit retirou uma moeda do bolso, dando um sorriso educado à fornecedora. A moeda era irlandesa, mas decerto o metal teria valor em terras inglesas.
— M-mas, minha senhora... — A feirante balbuciou, arregalando os olhos assim que a princesa deixou a moeda diante dela, em cima do balcão da barraca. A garota colheu consigo algumas framboesas e as guardou em uma bolsa de pano que trazia. Deu uma piscadela disfarçada para a senhora humilde, e sussurrou:
— Ninguém precisa saber. — Soltou um sorriso um pouco maior, olhando rápido para os lados. Em meio a manhã atarefada, nenhum trabalhador gastava sua atenção com o pequeno diálogo das duas.
A serviçal apenas concordou, sem jeito, guardando rápido a moeda.
Brigit começou a mastigar algumas framboesas, agora passando por vielas além do pátio. A princesa estudava os casebres modestos, os modos dos ingleses, reparando em como as mulheres se vestiam com recato e pouco falavam.
Silenciosa e discreta, a princesa outra vez se cobriu com o capuz, seguindo por um beco até uma das muradas do entorno. Decidira fazer aquela caminhada não apenas para se habituar melhor com Wessex, mas para, quem sabe, descobrir algo de relevante para as próximas empreitadas dos Oirdnide.
A surpresa que a aguardava fez com que a jovem derrubasse a framboesa que estava em seus dedos no chão de terra.
Parado ali, junto a murada, um animal quadrúpede a fitava, piscando devagar. Moveu seu rosto para o lado esquerdo, e para lá seguiu.
Brigit sentiu seus lábios se entreabrirem enquanto arfava. Com chifres, porte vistoso e olhos expressivos, um cervo perdido dentro da vila da capital de Wessex passou a caminhar ao longo da murada, pacífico como se estivesse em seu ambiente natural.
De imediato, decidiu segui-lo. A princesa rumou apressada em seu encalço. Pôde apenas ver seus cascos traseiros e seu rabo virando em uma esquina, para onde a jovem se dirigiu.
Ao lá chegar, viu que em uma parede aos fundos de uma casa que parecia servir de ferraria, um homem moreno de cabelos compridos fechava as mãos ao redor da mesma jovem loira que a garota antevira algum tempo atrás. O cervo parara longe deles, comendo folhas de uma planta próxima.
— Einmyria, olhe o que me obriga a fazer! — O homem apertava os dedos contra o pescoço da jovem, o que fez Brigit cobrir a boca com as mãos. A garota parecia resistir, tentando puxar os punhos do agressor para baixo, e bufava com agressividade.
— Você não é homem o suficiente para tanto — retrucou, e soltou uma exclamação esganiçada quando ele intensificou o aperto. A filha do Rei Oirdnide notou que a garota agredida tinha um sotaque diferente daquele dos saxões. Sem saber como ajudar, apenas se aproximou, receosa.
Atônita, Brigit testemunhou a jovem serviçal erguer as saias de seu vestido azul, e, simultaneamente, levantar uma das pernas com brutal decisão de encontro a pélvis do ofensor. O homem urrou alto, soltando o enlace contra o pescoço da jovem, que levantou um dos cotovelos contra seu nariz, o forçando a se afastar ainda mais.
— Meretriz imunda... — o agressor cuspiu entre uivos de dor, tentando puxá-la de volta. Dessa vez, retirou uma lâmina do gibão que vestia. A decisão nos olhos escuros do homem era apavorante. A garota loira já estava em posição de defesa. A irlandesa logo percebeu que a serviçal de fato sabia lutar.
— Einmyria! — Brigit faltou alto, como se ralhasse com a desconhecida. Os dois que não a haviam notado, tampouco ao cervo, enfim levantaram seus rostos e a viram. Era centímetros mais baixa do que ambos.
Ao cruzar olhares com a garota loira, outra vez o estranho fenômeno da noite anterior se deu. Foi atropelada por lembranças alheias, pertencentes a Einmyria, desenhando-se sem aviso em sua mente.
Viu uma mulher loira parecida com a serviçal a embalando em seu colo, cantando uma canção em uma língua desconhecida, porém familiar de uma forma desagradável. Tinha um belo sorriso doce em seu rosto.
Em seguida, a névoa das memórias permitiu que visse outros fragmentos. Seus ouvidos foram cortados por gritos ensurdecedores, vindos da própria garota loira, que fitava ao longe inúmeros soldados munidos de bandeiras saxãs, cavalgando e queimando com tochas pessoas amarradas em altas toras de madeira, berrando ainda mais do que a jovem.
Depois, pôde vislumbrar a mesma linda mulher loira que embalara a serviçal em sua primeira memória. Mas estava sangrando, com uma lança atravessada em seu peito. As lágrimas desciam úmidas pelo rosto de Einmyria, fitando o cadáver que mirava o céu, sem vida em seus olhos claros.
Ao voltar a si, um pouco tonta, seus olhos deixaram as brumas das lembranças e se focaram na realidade. Brigit percebeu que vira duas memórias que Einmyria tinha de sua mãe. Reuniu coragem para não gaguejar, ao passo que abaixava o capuz e andava até a jovem loira.
— Você está atrasada. Fui informada pelos servos do Rei Ecbert que você seria minha aia pessoal. Não apareceu em meus aposentos até esta hora da manhã. Obrigou-me a vir ao seu encontro, neste lugar... — A princesa olhou ao redor, fingindo nojo. — Que tipo de péssimo serviço é este? — Fingiu-se exaltada, erguendo o queixo e mirando a plebeia com desprezo ensaiado.
— Eu... — A garota loira a fitava com uma expressão confusa, como Brigit esperava. O homem guardava a faca que portava, percebendo pelo sotaque e pela aparência bem cuidada da princesa estrangeira que era uma das hóspedes do Rei.
— Sem desculpas. Limpe-se dessa sujeira e vá para meus aposentos preparar meu banho — a irlandesa ordenou com pompa. Deu um olhar gélido para o desconhecido que atacara a jovem loira. Depois daquela interrupção, outros plebeus já passavam por aquela viela, alguns pasmos com a visão do cervo se alimentando.
— E deixem o cervo sair daqui intacto — a princesa exigiu, percebendo o olhar cobiçoso de um serviçal que se aproximava do animal. Sua expressão pareceu um tanto desanimada, mas não ousou contrariá-la.
Brigit decidiu que fora o suficiente por aquela manhã. Saíra naquela rápida exploração e agora passara tempo o suficiente para que seu pai tivesse se preparado para se reunir com seu marido.
Em verdade, um dos motivos que levara a princesa Oirdnide a sair para desbravar a vila fora o fato de que, como era de costume, seu marido não dormira em seus aposentos. Passou algum tempo após a aurora aguardando sua volta, o que não ocorreu. Não tinha a menor dúvida de que seu esposo passara a noite na esbórnia, dormindo nos braços de outras mulheres, provavelmente outras que receberiam moedas irlandesas por atos carnais.
Mas ela não se importava. Nunca houve amor em seu casamento, tampouco sentimentos românticos. Ao menos de sua parte. Tudo não passava de mais um jogo político, um movimento pensado no tabuleiro que a permitiria avançar rumo ao poder que buscava. A liberdade que queria conquistar.
Talvez aquele cervo fosse um bom sinal. Para os celtas, os cervos eram uma espécie de guia para outro mundo. Poderia representar a intuição, visão espiritual e o companheirismo.
Com tais reflexões em mente, a princesa já havia ultrapassado a fronteira para a pars urbana, voltando a abaixar o capuz. Lembrou-se de que usara aquela mesma capa na noite anterior, quando, sem conseguir adormecer, saíra de seu quarto e fora caminhar por entre os jardins reais, encontrando um salgueiro. Descera porque tivera a intuição de que deveria fazê-lo. Algo lhe chamava naquele lugar.
Momentos depois, enquanto cantarolava para si mesma, fora interrompida pelo Rei Ecbert. Aquilo não a surpreendeu. Quando tinha aquele tipo de pressentimento, raramente estava errada. A herdeira celta sabia que Wessex escondia mais do que aparentava, e seus moradores também.
Não pôde resistir. Teve de fazer uma menção a lembrança do Rei que conseguira acessar, apenas para vislumbrar a dúvida em seus olhos. Sabia que ele não fazia ideia de seus dons, o que deixava tudo mais divertido. O Rei Ecbert era famoso por sua argúcia. Mas ninguém fazia ideia da perspicácia de Brigit.
A princesa sorria para si mesma quando pediu licença para entrar na antessala dos aposentos de seu pai. Como imaginava, Ulstan já estava lá, de pé defronte a uma mesa, estudando alguns mapas da província de Tara. Áed sentava-se ao seu lado, os dois discutindo de maneira acalorada.
Seu marido era um homem bonito. Tinha o rosto quadrado, com uma barba castanha bem cuidada e cabelos do mesmo tom que desciam até seus ombros. Seus olhos eram de uma tonalidade castanho claro, quase como a coloração do mel.
Seu pai, Áed, envelhecera mal, munido de uma barba crespa, cabelos grisalhos rareando e frágeis, e muitas rugas no rosto. Mas o que lhe faltava em aparência distinta sobrava em seu intelecto visionário. Afinal, fora capaz de unir clãs celtas e a comunidade cristã em seu território. Aos clãs, deu alguns territórios longínquos, nas florestas e terras de difícil exploração, onde poderiam praticar sua cultura longe da jurisdição cristã. E aos cristãos, estavam reservadas as terras próximas ao castelo.
— Brigit! Finalmente! — seu pai falou em sua voz roufenha, ao passo que a jovem lhe dava uma curta e gentil reverência, assim como para seu marido. Áed fez um gesto para que se sentasse ao seu lado. — Por onde andava?
— Fui até a feira — disse com simplicidade, sem comentar sobre a ausência de Ulstan. O marido mal lhe deu atenção, fitando o Rei irlandês. Seu pai a mirou por breves segundos, logo voltando suas atenções para o genro. Era como se ele fosse seu filho, e não ela.
— Você voltará com o filho do Rei Ecbert para Tara. O Príncipe Aethelwulf é o Comandante de guerra em Wessex. Portanto, quero que vocês, juntos, expulsem aquela maldita ordem de Columban do meu território, já causaram desavenças desnecessárias. E você vai mostrar a ele nossa eficiência, entendeu? Esse primeiro movimento vai fazer toda a diferença para que nos respeitem. Não podemos parecer meros mercenários. Temos de mostrar que temos um Exército tão bem treinado quanto os saxões — ressaltou ao genro, que apenas meneava o rosto em concordância. — Que temos o mesmo poderio que eles, mesmo que não tenhamos a mesma fortuna. — Apontou ao redor para aqueles aposentos ostentosos.
— Pai, se me permite uma ressalva: não acha que os ingleses poderão estranhar o ataque aos padres de Columban? Os monges saxões costumam ser pacíficos. Não é comum que as ordens católicas aqui saibam lutar — comentou Brigit em um tom humilde.
— É melhor que estranhem — seu marido respondeu no lugar de seu pai, fitando a esposa com um olhar condescendente. — Se nos temerem, saberão que não somos tão facilmente maleáveis.
— Eles nos tomam por pagãos subdesenvolvidos. Pensam que são superiores a nós. Se matarmos cristãos... — Brigit teve a ousadia de discordar, ainda mantendo o tom submisso. Os olhos de Ulstan pareceram escurecer, perigosos.
— Nós somos cristãos — Áed cortou sua fala, a mirando devagar. A princesa engoliu em seco. Pelo tom do pai, percebeu que não deveria discutir. — Tão cristãos quanto eles. Os ingleses já foram pagãos um dia. Nós temos São Patrício como padroeiro! — redarguiu o Rei irlandês, erguendo as mãos. Ulstan tinha uma das mãos no queixo, e apenas concordava em silêncio, bajulador. Os dois trocaram olhares, incrédulos com o ceticismo da princesa naquela manobra.
— Você tem razão, meu pai. Perdoe-me — a jovem baixou o tom de voz e a cabeça. Áed a mirou com olhos compassivos.
— Você é muito nova. Tem muito o que aprender — falou com o mesmo tom condescendente de Ulstan, o que a revoltou internamente. — E agora... Tem algo a nos contar? — O Rei irlandês murmurou, como se temesse que as paredes tivessem ouvidos. Seu marido enfim a olhou com interesse. Sabia dos dons da garota.
— Nada. Não consegui ver nada muito significativo — admitiu a princesa, mexendo em uma mecha de seus cabelos ondulados castanhos acobreados, e a expressão interessada de seu esposo logo murchou. Áed respirou fundo, desapontado.
— Mas eu diria para que tomassem cuidado com o Rei Ecbert. Vi a coroação dele em Mércia, quando conquistou os três maiores reinos ingleses. Estava muito satisfeito consigo mesmo, como se concretizasse um desejo há muito esperado. — Pausou a fala, e logo a retomou. — Como um homem que passa dias sem se alimentar e enfim encontra comida. Ele me parece uma pessoa movida pela ambição — segredou, e algo cintilou nos olhos de seu marido.
— Eu disse. Não consigo confiar nesse saxão — Leinster afirmou ao Rei Oirdnide, franzindo o cenho. O Rei irlandês soltou um muxoxo desdenhoso.
— Qualquer homem para chegar a posição dele teria de ser assim. Isso não é novidade — refutou as informações, como se de nada lhe adiantassem. Brigit cruzou as mãos em punho embaixo da mesa, controlando a própria raiva por ser tão diminuída. Sabia que se fosse um dos filhos homens do Rei, o tratamento reservado a ela seria bem diferente.
— Mas... — o genro de Áed quebrou o silêncio, entretanto o sogro o parou com uma mão.
— Basta. Às vezes precisamos fazer alianças arriscadas por um bem maior. — Moveu os olhos do rosto de Ulstan para a garota.
— Algo mais para nos contar? — interpelou-a, austero.
Brigit recordou a lembrança do Rei Ecbert na qual vira uma jovem morena de olhos azuis. Reconhecera-a. Era Judith, a nora do Rei. Pela desejo notável na forma com que o Rei inglês a olhava, era evidente que a relação entre eles ia além de sogro e de nora.
Aquilo poderia ser útil. Algo que os Oirdnide poderiam usar se, no futuro, precisassem criar discórdia entre a Igreja cristã e seu suposto abençoado monarca inglês.
Porém, despeitada com o pai, manteve aquilo para si.
— Não, meu amado pai — mentiu com uma expressão sonsa em seu rosto gentil.
Áed soltou um suspiro.
— Filha, vá se banhar e se arrumar. Preciso que esteja radiante na despedida de seu marido. Você continuará comigo na Inglaterra até a volta de Ulstan e alguns de nossos homens. Continue estudando nossos aliados — ordenou, e a garota apenas anuiu em concordância.
— Sim, meu pai.
Depois de sair daquela antessala, a princesa estrangeira voltou aos seus aposentos, onde foi recebida por Einmyria. Havia deixado uma mesa posta com frutas, pães, manteiga e queijos. O quarto estava limpo e arrumado, e uma jarra pequena de vinho colocada com dois cálices na mesa.
— Ah! — exclamou a irlandesa, surpresa. Esquecera-se do que ordenara para a serviçal loira. — Então você veio. O banho está pronto? — indagou, e Einmyria meneou o rosto de forma positiva, as mãos unidas na frente das saias do vestido, subserviente.
— Certo. Obrigada — agradeceu polida com um sorriso discreto. A serviçal apenas se curvou em respeito.
Quando seguia com a aia na direção do quarto de banho, Brigit de súbito se voltou para ela. Não resistiu ao impulso de questioná-la sobre algo que despertara sua curiosidade.
— Senhorita Einmyria... Você fala o inglês antigo com uma pronúncia que não reconheci. Você nasceu em que local da Inglaterra? — perguntou com um sorriso simpático. A jovem quase vinte centímetros mais alta do que a princesa lhe respondeu:
— Não nasci neste país, Vossa Graça. — Seus olhos verdes mostraram um lampejo rápido de desânimo, e logo retornaram à expressão cortês e submissa.
— É de que ilha bretã? — a irlandesa insistiu, ainda mais interessada. Não imaginava que encontraria outra jovem estrangeira.
Einmyria meneou o rosto, desviando o olhar. Brigit encrespou o cenho, sem compreender a negativa.
— Não sou de nenhuma ilha bretã — a serviçal disse, sem alegria na voz. A princesa estrangeira manteve a expressão incerta. A nobre irlandesa se preparava para inquiri-la novamente, mas não houve necessidade.
— Sou da Noruega — afirmou a jovem loira. O queixo da princesa de cabelos acobreados caiu outra vez.
— Você... É nortenha? — perguntou de maneira retórica. Einmyria a fitou, dizendo um curto “sim”, com um olhar que por um segundo pareceu demonstrar desafio. Logo depois, a chama audaciosa de suas íris verdes desvaneceu e deu lugar a sua expressão obediente costumeira.
Brigit, de fato, começara a cumprir a profecia que sua mãe fizera sobre si.
Era apenas o início da sua caminhada entre dois mundos.
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