Capítulo 3

Ele baixou a camisa quando reparou que os olhos do pirata desviaram para o seu abdômen.

— Você está aceitando? — disse Ethan surpreso. Pensava que Eleonor nunca aceitaria, era uma missão suicida se ela já traiu o pai uma vez, a segunda vai ser ainda mais difícil.

Eleonor piscou.

— Ainda não. — Eleonor tirou uma adaga de sua coxa, e ficou a girando em cima da mesa — Mas adoraria que meu nome estivesse no topo da lista de inimigos dele. — admitiu com um sorriso malicioso.

— Já falou demais. — intrometeu o homem ao lado de Eleonor — Diga o seu plano, Ragnar.

Sebastian, Ethan fora avisado a tomar cuidado com o homem.

— Certo, o plano seria Eleonor se infiltrar em Eros. — conseguiu dizer. Seu coração estava batendo a mil por hora.

— Sem chance. Não vai me…— começou Sebastian.

— Cale a boca. Continue.

Ethan não tinha mais nada, precisava escrever uma redação? Era esse o plano, os meios ele não sabia, mas sabia que iria dar certo.

— E-era só isso. — gaguejou. Piscando confuso, Ethan deu um sorriso sem graça.

— HA! Sensacional! — Eleonor se levantando da cadeira e apoiando as mãos na mesa — Você vem aqui, incomoda minha tripulação e me faz tirar o meu precioso tempo para ouvir sua baboseira, para dizer que era só isso? Sem um plano bolado para apresentar, como vamos fazer para meu pai acreditar em mim? Como eu vou me infiltrar? Com certeza. Sem chance. — havia desgosto na sua voz e Ethan segurou a vontade de se encolher.

— Mas eu juro que se aceitar me ajudar, podemos bolar um plano. — Ethan estava quase ficando de joelhos, ele precisava, desesperadamente da ajuda dela.

— Sebastian, Honesto. — disse Eleonor.

Eles entenderam, pegaram os dois braços de Ethan e o arrastou pelo o navio inteiro de volta a saída.

— Por favor Eleonor! — gritou Ethan.

Eleonor estava os seguindo conforme eles o arrastavam.

— Desculpe Ratinho, mas eu não posso te ajudar

— Por que?

Ela não respondeu.

Mas ele entendeu.

— Você está com medo, né? Está com medo de voltar. Eu sei como pode ser difícil por causa de tudo que você passou, mas prometo que vai ser diferente, posso conseguir contatos, posso…— sua voz saiu entrecortada — Por favor, eu faço qualquer coisa. — implorou.

— Não.

Chegaram ao convés, o sol bateu em seus olhos sensíveis, cheiro de fumaça invadiu suas narinas. Nesse momento a única coisa que conseguia lembrar enquanto seus olhos se adaptavam à claridade, e era uma voz feminina que o atormentava sempre que tinha oportunidade.

"Cuide bem desses olhos, eles podem ser valiosos e também perigosos. Entretanto podem ser sua salvação

Ethan não se recordava de quem dissera, mas o marcou tanto que às vezes só tinha ela em sua cabeça.

Eles já estavam perto da rampa para jogá-lo de volta ao Porto Tigre, a ruiva tinha parado em frente a rampa mas mantinha distância dele.

Então se deu conta de algo que poderia fazer que Eleonor mudasse de ideia.

— Ela está viva! Clare, está viva! — gritou, mas os homens não pararam.

De primeira ela não entendeu, mas, depois..

Ela arqueou as sobrancelhas.

— Parem!

Eles cessaram.

— Clare? — repetiu ela.

Ethan concordou desesperado com a cabeça.

— Não posso dizer muita coisa, mas posso dizer que ela está viva… e bem. — estava quase sem fôlego, seu coração batia a mil dentro de seu peito.

— Como sabe disso? — perguntou Eleonor.

Sem pensar duas vezes. E nem sequer notado quem poderia esta ouvindo, respondeu:

— Eu trabalho pra ela. E minha missão é fazer você se infiltrar na realeza de Eros.

Clare, irmã mais velha de Eleonor. Uma irmã gentil que amava profundamente a mais nova, — bom, era isso que todos falavam quando perguntava sobre ela — mas também foi por causa dela que o inferno começou quando a mais nova estava ainda no castelo.

O Príncipe sabia da história e investigara quando entrou para o grupinho de Clare. Não confiaria em alguém no qual não sabia sobre o seu passado.

Ethan olhou para Eleanor, — que agora parecia distante — não para os seus cabelos rebeldes cor de fogo que incrivelmente chamavam a sua atenção. E sim para os seus olhos, verdes esmeralda. Então ele viu, o que ninguém podia ver, e nem devia ver.

"Era dia, o sol estava irradiando por todos os lugares do corredor aberto para um jardim central.

Muito tempo, sentia que tinha muito tempo.

Talvez, tivesse todo o tempo do mundo.

Uma ilusão cruel para uma criança. Mal sabia que o tempo, não para, e nunca vai parar, nem mesmo para um espírito inocente, nem mesmo para pessoa mais egoísta e ignorante.

Porém, entre tantos contratempos, ainda tínhamos tempo.

É isso que uma garotinha de cabelos ruivos sentia enquanto saltitava com sapatinhos de boneca, o barulho ecoando pelas paredes do castelo. Não aparentava ter mais de 6 anos.

Ethan estava nos corredores do Castelo de Eros, na época em que não tinha ar mórbido, era colorido com flores do jardim e quadros que sempre decoravam o ambiente. De quando a Rainha ainda estava viva.

O garoto visitou o lugar quando tinha seus 12 anos, depois da morte da rainha, seu pai que também havia perdido sua amada, sentiu compaixão ao rei e decidiu suspender sua rivalidade por alguns dias em respeito a morte de sua esposa.

Dizem que depois disso, o castelo ficou sombrio.

Mas isso não era suas lembranças, ele nunca foi ao castelo Eros antes da morte da rainha, só ouvia as informações que a própria Clare disse, que o lugar, um dia, foi lindo.

Aquilo seria memória da pirata, então?

A garota saltitava pelos corredores e o príncipe a seguiu até ela entrar em um dos quartos.

— Clare! Clare! — chamou a menina

Uma garota na faixa etária de 15 anos, com cabelos negros longos, estava em um vestido branco, estilo medieval, a elite de Eros adorava esse estilo.

Ela era bem diferente da Clare que conhece, se é que era a mesma.

Mas então ele olhou nos olhos da garota que olhou de volta para Ethan, — como se soubesse que rapaz estava ali — e teve a certeza que era a mesma, seus olhos azuis eram como chamas, uma chama que parecia quente, porém, era fria, mas mesmo assim quando chegava perto demais, queimava.

O príncipe teve a mesma sensação da primeira vez que viu Clare, não era medo, era como um canto, extremamente hipnotizante e viciante, sabe que deve fugir mas quer entrar e se afogar junto com a melodia. E foi assim que Clare seduziu Ethan.

A garota voltou o olhar para a menina e abriu o sorriso. Que o príncipe jurou ser falso.

— O que foi foguinho? — respondeu Clare.

— Olha! Olha meu vestido novo! — a ruiva rodopiou com o vestido degradê de vermelho para branco, com desenho de raposas na barra e quando ela rodava dava a impressão que o animal corria. Uma ilusão de ótica. Genial.

A menina rodava e rodava, até ter que parar após ficar tonta.

Clare soltou uma risada. Estridente demais, falso demais.

Ethan fez uma careta.

— Que lindo foguinho! Quem deu? — perguntou Clare ainda com sorriso se agachando para ficar do tamanho da irmã.

— Papai.

O brilho do sorriso de Clare se esvaiu, sua cara fechou, como o céu se preparando para uma tempestade.

— Papai? — repetiu a garota. Com desgosto, muito desgosto.

Eleonor assentiu com a cabeça.

— Gostou? — disse a menina com sorriso mais largo que tinha, em um tom inocente.

— Vá embora, Eleonor — Clare falava com ódio, mas Ethan sabia que não era por causa da mais nova, mas mesmo assim, era uma criança, ela não deveria descontar o seu rancor por seu pai, nela.

— Mas…— a garotinha tentou dizer.

— Vá!

A ruiva sentiu ódio, dava para vê que entendeu, e saiu do quarto cabisbaixa.

Aquilo era cruel, ver o jeito que Clare falava, e olhava para a ruiva enquanto saia do quarto, fez Ethan querer sair no soco com a mais velha.

Mas ver a garotinha com a cara vermelha de tanto que estava se esforçando para segurar o choro, era de partir o coração, era um soco no estômago, era como se tivesse destruído a esperança.

O garoto seguiu a versão mini da pirata até seu quarto e viu a mesma perder a luta de segurar as lágrimas, e então começou a chorar baixinho.

— Porque ela me odeia tanto? — sussurrou a garota entre os soluços.

Ethan teve vontade de abraçar Eleonor, mas quando se aproximou o cenário mudou.

Era o dia seguinte, ou talvez semanas após o ocorrido, Eleonor acordou com olhos inchados e se espreguiçou indo para o banheiro, tinha mudado de roupa, um pijama bem colorido, com animais que nunca tinha visto. O príncipe não a seguiu quando passou pela porta branca entreaberta.

Era tão pequena que fez com que as portas do banheiro fossem enormes.

Quando voltou, reparou em algo que não tinha visto antes ao se levantar da cama, — nem ele mesmo reparou — no chão estava seu vestido de raposa que tinha gostado tanto, em trapos, a peça de roupa estava cortada e com lama. Então a garota chorou mais uma vez, e dessa vez alto.

Ethan sentiu que essa foi apenas uma, das muitas infelicidades que Clare fazia. Isso tudo por ódio do pai, que ela descontava em uma pessoa que não tinha haver com isso."

Ethan piscou e todo o cenário sumiu, como se nunca tivesse existido.

O príncipe estava imobilizado de tamanha surpresa. Como conseguiu ver isso?

Aquilo…aquilo eram as lembranças dela, Certo? Tudo foi em um segundo. Como…?

— Clare? — disse o homem baixinho segurando um dos seus braços, com um brinco de estrela em uma das orelhas e supôs ser Honesto. — Quem é Clare?

Eleonor acordou do transe, sua cara dizia que era realmente era a lembrança dela. Isso apertou ainda mais seu peito. Se lembrou da mini pirata que viu, e ficou ainda mais com vontade de abraçar Eleonor, abraçá-la e dizer que iria ficar tudo bem.

— Ninguém importante. — respondeu a pirata.

Os homens ainda seguravam Ethan, eles o arrastaram até o final da rampa e soltaram o príncipe no Porto.

— Prince…Capitã Eleonor! Por favor!

— Não importa se Clare está viva, ficaria muito feliz se ela estivesse sete palmos abaixo da terra — e Ethan sabia que a felicidade seria sincera, ela pôs as mãos dentro dos bolsos da calça — Foi bom te conhecer. Até nunca, Ratinho.

Se virou voltando para dentro do barco, e seus companheiros a seguiu.

Parece que não funcionou. Plano B.

Ethan se pôs de pé irritado.

— Eleonor! — ele gritou, bem mais do que queria, com a voz bem mais grave do que queria. A mulher se virou com as sobrancelhas arqueadas.

— Sim? — debochou.

— Olha em sua volta. — começou — Você não pode se enganar! Não pode virar a cara, simplesmente! Entendo que o odeie, entendo que a ideia de voltar para o castelo não seja uma das melhores. Mas precisa tentar!

A pirata escureceu o olhar. Voltou para a borda do barco.

— Não sabe um terço do que eu passei lá, não sabe como aqueles vermes podem ser cruéis quando querem. Então a ideia de botar os pés naquele lugar é a pior que se tem. Não, ratinho, não quero tentar, não quero ser a Heroína. — a incrível cor verde de seus olhos tomou o tom muito, muito, escuro. Antigo. Ameaçador. Triste. Raivoso.

Ethan reprimiu mais uma vez a vontade de se encolher.

— São vidas! Vidas! Eleonor, quando você vai parar de ignorar o que está acontecendo em sua volta? Pare de ser egoísta, de beber ou fazer orgias no meio do oceano! Faça algo de útil, seja útil.. — ele suspirou — Olha, você é a única…a única que pode mudar o jogo. Salve a esperança dessas pessoas. Salve o seu reino.

A ruiva olhou em volta, e Ethan também, percebeu que tinha falado alto demais seu discurso. E com certeza, voltaria para Save sem as cordas vocais.

— Eu não faço a menor ideia do que está falando, seu bostinha. — disse entre os dentes. Então a vontade de abraçar ela desapareceu, não parecia o tipo de pessoa que precisava de um abraço. — O que o rei de Eros faz não é problema meu. — terminou.

A mulher o fuzilou com o olhar, com certeza se tivesse perto o suficiente, Ethan estaria morto.

Então ela voltou a andar para dentro do navio.

— Três dias! — Ethan voltou a falar Eleonor parou na frente a batente da porta — Todos os três dias depois desse, estarei no Bar do Tabaco, ficarei de meio dia à meia noite, caso mude de ideia. — ele olhou para a borda do barco onde estava escrito o nome — Espero que faça jus ao nome do seu barco.

Ethan deu um meio sorriso e foi embora.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.