Se você deseja algo... Basta pedir
1 Capítulo 1- Um grande desejo
Notas iniciais
Acomode-se bem em seu(sua) cadeira/cama/chão/nave alienígena ou seja lá onde quer que esteja lendo essa fanfic.
Bem, existem muitas coisas as quais gostaria de dizer, mas vou escrevê-las nas notas finais para que possam ir diretamente a fanfic.
Boa leitura.
Mais um turno de trabalho começava no Departamento Despachante dos Shinigamis e, com extrema calma e serenidade, o supervisor William T. Spears, entrava pelas portas da sede Londrina do Departamento. Os cabelos negros estavam, como sempre, perfeitamente arrumados para trás. O terno de alfaiataria, precisamente passado e ajustado ao corpo alto e magro, porém forte. Na face, a mesma inexpressiva expressão, acompanhada pelos óculos de grau, necessários para tanto dar-lhe o titulo de shinigami quanto para seu alto nível de miopia.
Pois bem, William carregava consigo seu livro de mortes, sua deathscythe e alguns relatórios atrasados de seus subordinados. Ao passar pela porta da sua sala, o supervisor encostou-se na porta fechada e deixou escapar um suspiro baixo. Seus olhos brilhantes correram até a janela ampla que dispunha-se atrás de sua mesa, que encontrava-se com seu tampo completamente ocupado por diversos livros da morte já preenchidos, caixas com relatórios que deveriam ter sido descartados à algum tempo e copos de café vazios.
Ele deu de ombros e suspirou pesarosamente, deslocando-se a contragosto em direção a mesa e sentando-se na poltrona pequena de couro negro. O moreno colocou as pastas que continham os relatórios sobre uma pilha já grande e passou a folhear a primeira destas. Alguns minutos passaram, mas, por mais que se esforçasse, seu olhar sempre retornava ao estado deplorável que se encontrava o escritório “tanto o que fazer... mas acho que não há mais maneira de evitar... terei que por esse lugar em ordem. Se não, não conseguirei trabalhar” Praguejou internamente enquanto usava os dedos indicador e médio para arrumar seus óculos, que ameaçavam cair. William contorceu seus lábios e pigarreou enquanto entrelaçava seus dedos e em seguida, girando seus braços para fora, fazendo-os estralarem. “Vamos William, são só algumas caixas...” disse para si mesmo tentando abrandar a situação, sem muito sucesso. “Se não fizer isso hoje, terá que fazer amanhã e se tiver que fazer amanhã perderá dois dias de trabalho” argumentou colocando ambas as mãos acima da mesa, derrubando algumas coisas acidentalmente.
— Droga — xingou baixo enquanto levantava-se da poltrona e se abaixava para juntar a papelada que derrubou. Ao tomar as folhas em mãos ele decidiu finalmente arrumar aquela bagunça.
...
William ficou em pé e checou o horário no relógio de pulso, nele indicava 14 horas e 36 minutos. “Não acredito que já se passaram 2 horas e 36 minutos desde que comecei isso” sim, toda aquela falta de ordem o havia feito perder-se no tempo.
O moreno tirou os óculos por um instante e passou o indicador nos olhos a fim de tentar, mesmo que sem efeito, manter os olhos abertos. Seu sono não estava em dia, ele havia trabalhado muito nos últimos dias, tanto por causa das investigações quanto por ter que fazer horas extras graças à bagunça que se apoderara do escritório.
O moreno já tinha se livrado dos copos descartáveis de café e de duas das caixas que continham relatórios, mas não parecia ter mudado nada o estado do ambiente. Ao contrário, na visão de William, mexer naquela papelada e nas caixas o havia deixado ainda mais preocupado com o fato de que não sabia se terminaria aquilo naquele dia ou não.
Uma pequena gota de suor escorreu pela lateral da sua face ao abrir outra caixa. “Lá vou eu de novo” pensou com sarcasmo, mas antes que pudesse tocar nas fichas, alguém bateu-lhe a porta duas vezes.
— Wiru-chaaaaan! — exclamou Grell Sutcliff entrando abruptamente na sala do supervisor. William revirou os olhos e bufou de descontentamento.
— Grell Sutcliff, o que você quer? — perguntou rispidamente, voltando os orbes para a pasta que segurava. A figura vermelha exibiu uma expressão indignada e andou até onde seu chefe estava.
— Wiru não deve ser grosso assim com uma dama! — reclamou gesticulando com a mão livre, tendo em vista que carregava uma pasta na canhota. William soltou um som de desprezo e arrumou os óculos novamente.
— Não há dama alguma aqui para que eu não seja grosso. — disse indiferente. Grell fechou seu semblante “Wiru isso machuca... isso me machuca muito” pensou o ruivo com os olhos marejados. O moreno olhou para o outro ao ouvir uma fungada vinda dele. “Baka” pensou e em seguida voltou a olhar para as folhas. — Repetirei minha pergunta já que o conheço o suficiente para saber que é lerdo ao ponto de tê-la esquecido... — alfinetou com o mesmo tom de sempre, sem deixar transparecer qualquer emoção. — O que você quer? Digo, comigo, no meu escritório, durante o seu expediente? — as esmeraldas brilhantes que eram os olhos dele encontraram com os do outro causando um arrepio no ruivo, que limpava os olhos tentando controlar as lágrimas que insistiam em querer sair.
— Certo Wiru chato... eu vim entregar meus relatórios... — murmurou estendendo para o superior a pasta que continha os documentos. O moreno mirou o item “Ótimo mais documentos para serem anexados a esta bagunça” reclamou internamente esticando a mão e tomando a pasta do outro.
— Atrasados eu suponho... — alfinetou novamente enquanto folheava o item, surpreendendo-se com o fato de todos os relatórios possuírem a data de hoje. Grell sobressaltou-se e em seguida negou fervorosamente.
— Naa... Não são atrasados, são todos de hoje Wiru. Pode olhar nas datas eu fiz tudo direito desta vez... — seu tom de orgulho ferido era de certa forma até engraçado, mas quando finalizou a frase sua voz saiu só como um sussurro.
William olhou de relance para o ruivo, a verdade era que desde o caso de “Jack o estripador” o comportamento de Grell havia mudado, claro ele continuava a assediar o chefe e qualquer outro homem bonito que via pela frente, incluindo certo demônio, para desgosto do moreno, mas ele havia tornado-se um pouco mais comprometido com o trabalho, entregando seus relatórios na data correta ou com dois dias, no máximo, de atraso.
O supervisor deixou um suspiro baixo escapar pelos seus lábios e fechou a pasta, levando-a até a sua mesa e colocando-a sobre a pequena pilha que havia trazido mais cedo.
— Certo você já me entregou... agora pode ir. Tenho muito trabalho a fazer e não posso desperdiçar meu tempo com você e a suas trivialidades. — sua voz fria fez o coração do ruivo palpitar “como amar dói” disse internamente suspirando e indo até onde o outro estava.
— Wiru, o que está fazendo? — perguntou Grell ignorando o comentário dele sobre não desejar sua presença ali. O moreno fechou os olhos e pegou uma caixa que estava aberta em cima da mesa. “Masoquista” xingou mentalmente o outro, dando alguns passos até parar em frente ao lugar onde estava separando os documentos em duas caixas diferente, a caixa “encaminhar” e a “descartar”. A descartar estava praticamente “transbordada” enquanto a encaminhar possuía dez folhar ou menos. — Posso ajudar? — questionou após ser respondido pelo silêncio do outro. William suspirou ao notar que não conseguiria livrar-se da presença incômoda e torceu os lábios.
— Contanto que não atrapalhe... — impôs de maneira fria sem o olhar diretamente para Grell que sorriu exibindo seus dentes pontiagudos.
O moreno instruía o ruivo com o que deveria fazer e poucas horas mais tarde eles já haviam se livrado de mais da metade da papelada. Caixas se empilhavam do lado de fora do escritório separadas com especificações para onde deveriam ser mandadas.
— Sabe Wiru, eu achava que o seu trabalho era fácil porque você nunca faz horas extras... — murmurou o menor analisando um documento que “pulava” para fora da ultima gaveta da escrivaninha de William. O moreno sorriu internamente e antes que pudesse retrucar com a resposta que tinha na ponta da língua, o ruivo completou seu raciocínio — mas agora eu vejo que é realmente complexo. Wiru, porque você nunca pede ajuda? Olha se você quiser alguma coisa tem que pedir, se não ninguém perceberá e tu vai acabar de novo enterrado nesse mar de relatórios... — questionou, dando uma pequena bronca no seu superior. O moreno parou um instante de fazer o que fazia e encarou o nada tentando processar as palavras de Grell. “Como se fosse fácil assim conseguir que alguém me ajudasse... todos não querem ter que fazer horas extras e me ajudar atrasariam seus horários...” pensava ainda olhando para o nada. O ruivo notou que William havia se perdido em pensamentos e o chamou. — Wiru! — exclamou olhando para ele.
O moreno ergueu a face, retornando a realidade e em seguida olhando as horas no relógio pendurado na parede. “Humm, 18 horas e 47 minutos... preciso de um café” pensou ele ficando de pé, ainda sendo seguido pelo olhar do ruivo. “Acho melhor oferecer-me para buscar um para ele também afinal ele realmente está ajudando” disse para si mesmo antes de transmitir o pensamento.
— Hum... Sutcliff eu vou ir buscar uma café para mim... quer um também? — questionou em seu tom robótico, ficando com um leve rubor nas maçãs do rosto. O ruivo corou entreabrindo os lábios, em um pequeno êxtase, uma mistura de felicidade e surpresa.
— Ahn Wiru, é muito gentil da sua parte, mas eu vou recusar não gosto do café do departamento... tem gosto de morte. — disse sorrindo de forma doce para o moreno que rapidamente girou seu corpo para trás, tentando esconder o fato de seu rosto estava muito ruborizado. “mas o que e isso agora, por quê ? Porque? Porque?” gritava histericamente em pensamento, tocando o centro de seu peito e sentindo seu coração batendo muito rápido.
— Certo, apenas não quebre nada. Já volto. — disse “batendo em retirada” com passos largos e apressados.
“Etto, calma William pare de agir como uma adolescente apaixonada!” pensou, encarando-se no espelho do banheiro. Seu semblante possuía a mesma inexpressividade de sempre, mas suas bochechas se encontravam muito vermelhas, denunciando que ele alguma coisa realmente sentia. O moreno inspira e expirava tão rapidamente que o oxigênio quase não tinha tempo para circular nas correntes do rapaz, deixando-o tonto e com a vista embaçada. “... se você quiser alguma coisa tem que falar...” as palavras suaves de Grell dançavam em sua mente “O que ele quis dizer com isso?”
...
Enquanto isso Grell continuava olhando as papeladas nas gavetas de William, agora soltando pequenos suspiros apaixonados. Suas bochechas ainda estavam coradas quando ele, procurando dentro da gaveta por mais relatórios sem olhar para a mesma, acaba abrindo um compartimento secreto na parte de cima da gaveta. “O que é isso?” questionou confuso, abaixando-se até a altura da gaveta para que pudesse olhar melhor a geringonça feita obviamente pelas mãos do moreno.
Um fundo falso que deveria estar na gaveta superior havia de desprendido do lugar e exibia dois objetos, um deles era um caderno de capa dura de couro negro e o outro um pequeno envelope que lhe pareceu familiar. “Eu já vi você” disse para o envelope tentando recordar-se de onde o “conhecia”.
Grell ergueu o pedaço de papel e sentiu o aroma adocicado de rosas, ou melhor, de perfume de rosas, seu perfume de rosas. O ruivo correu os olhos até onde deveria estar o lacre porem este estava rompido, provando que o moreno abrira-o.
Sabendo disso, Grell abriu o envelope e de lá retirou uma fotografia, tirada dois meses antes da formatura na academia de shinigamis, a mágica época em que eles eram amigos. O ruivo perdeu-se nas lembranças e foi desperto por batidas baixas na porta. Arregalando os olhos por reflexo, Grell devolveu o caderno a seu lugar de origem, mas manteve a foto consigo a colocando dentro do bolso interno do sobretudo vermelho.
— Spears-senpai? — chamou Ronald olhando pelo escritório do supervisor a sua procura. Grell ergue-se soltando um suspiro aliviado em saber que não era o superior e o aloirado se sobressalta assustando-se pelo fato do outro aparecer “do nada”. — Sutcliff-senpai! Que susto! — ele queria que seu tom saísse repreensivo porem o mesmo soou trêmulo.
— Eu que o diga Ronnie, quase morri. — disse com as mãos no centro do peito, tentando acalmar o coração. — de novo... — completou dando uma risada gostosa.
— ih... to vendo que o senhor ta feliz senpai, aconteceu alguma coisa com o Spears-senpai? — disse com um tom debochado olhando para a figura vermelha que levou ambas as mãos em direção as faces, tentando cobri-las e não deixar que seu subordinado as visse coradas.
— O que quer Knox? — disse William parado atrás de Ronald. O mais novo sentiu seu sangue parar de correr por suas veias e artérias e teve a impressão de escutar o barulho de seu cinematic record começar a ser exibido.
— S-s-spears-senpai! — exclamou em choque. Grell riu baixo, mas depois parou, quando o subordinado ficou pálido demais.
— Ronnie? — chamou o ruivo levantando-se da cadeira e indo até onde o mais novo estava, ainda estarrecido. — Ronald! Ei olha se você desmaiar a mamãe não vai deixar você ir à festa que vai acontecer hoje! — disse tentando tirá-lo do estado de choque. A brincadeira que eles desenvolveram alguns meses atrás, de Grell ser a “mãe” de Ronald, pareceu intrigar William, mas depois ele perguntaria sobre aquilo. — Wiru, vamos levá-lo para a enfermaria! — disse com um tom decidido, já dando apoio ao mais jovem, pondo o braço dele sobre seus ombros. O moreno não tinha muita escolha, sentia-se culpado pelo que fizera com o subordinado e agora apoiava o outro braço do loiro em seus ombros.
...
— que susto Ronnie! Quer que eu morra do coração mesmo não é? Deixou-me muito preocupada... — disse o ruivo abraçando o subordinado com um pouco de força, já na enfermaria.
O mais novo estava sentado em uma das macas, com Grell ao seu lado e parado a sua frente estava William que evitava olhar nos olhos do menor.
— Gomen’nasai Knox-kun . — disse o moreno curvando-se solenemente para o mais jovem que já se sentia bem.
— não é necessário Spears-senpai, foi só um susto e ... — Ronald tentava não ficar encabulado com aquela situação completamente inédita para ele. Mas Grell o cortou.
— Precisa sim. Ronnie! Pelos céus! Você podia ter morrido ou pior podia ter caído encima das caixas que eu e Wiru passamos HORAS arrumando. — dizia o ruivo passando possessivamente as mãos no cabelo do menor, como se ele fosse uma criança que fora empurrada muito forte pelo pai enquanto se balançava e tivesse ralado o joelho.
— Bom ver quais são as suas prioridades “mamãe” — disse o aloirado com tom sarcástico soltando uma gargalhada em seguida. Nos lábios de Grell se formou um bico que deixava-o com uma expressão triste. — Ei, Sutcliff-senpai, sabe que eu estou brincando não é? Vamos não faz essa cara. — dizia o menor com uma ponta de preocupação no tom de voz.
— Você é mais insensível do que eu pensava Knox, fazer uma dama chorar é algo que deveria ser punido severamente — disse William olhando-o de soslaio. O loiro e o ruivo olharam de forma confusa para o superior que apenas rolou os olhos para outro lado, ficando levemente corado. Grell também corara e Ronald apenas olhava aquele estranho acontecimento. “Mas que diabos está acontecendo aqui?” se perguntava o aloirado. Alguns instantes depois quando ele finalmente compreendeu a situação¹, um sorriso desdenhoso brotou em seus lábios.
— Gomene Sutcliff-senpai. — pediu olhando para o superior que sorriu sem jeito. — Acho que vocês deveriam ir agora, ainda me sinto um pouco indisposto, quero descansar estar bom antes da festa de hoje a noite. — disse recostando-se na maca e acomodando os fios louros no travesseiro macio que estava a sua disposição.
— Oh, sim. Descanse meu bem. — disse Grell dando a volta na cama e dando um leve ósculo na testa do menor que cerrou os olhos, adormecendo rapidamente. William sentiu uma pontada de ciúmes do menor, mas ficou calado apenas presenciando a cena como um telespectador oculto. — Vamos Wiru? — chamou a figura ruiva parada na frente dele. William acenou e seguiu Grell até saírem da área movimentada do departamento. Porem ele parou de andar e segurou o braço do ruivo, fazendo-o parar também.
— Ah, Sutcliff... lembra do que você disse mais cedo... de “se você quiser alguma coisa tem que pedir”... — a frase saiu entrecortada e seu tom relativamente tenso.
— Sim... — disse o ruivo em resposta — você quer alguma coisa Wiru? — perguntou o menor olhando dentro dos olhos de William, como se tentasse ler seus pensamentos. Uma gota de suor escorreu pela lateral da face do moreno que baixou os olhos.
— Você quer ir beber alguma coisa comigo? — disse corando levemente enquanto o ruivo corou até a ponta das orelhas, mas ele logo acrescentou — Como amigos, sabe, não é um encontro ou algo do gênero. — a frase pareceu sair como uma espécie de desculpa esfarrapada, mas nem mesmo assim diminuiu a animação do outro.
— Claro que sim! Será como quando nós éramos estudantes! — disse empolgado, mesmo que a desculpa do outro tivesse tocado em sua ferida aberta. O moreno retorce os lábios e forma um singelo e pequeno sorriso, quase imperceptível.
***
Os dois saíram do departamento do horário correto, pois já haviam cumprido suas tarefas e William guiou o ruivo até um pequeno restaurante que costumava frequentar porque possuía salas individuais onde os clientes ficavam com mais privacidade para suas conversas sem ter os olhares dos outros sobre si.
Chegando lá, foram guiados até o compartimento 7, favorito do moreno, e sentaram-se a mesa.
— O mesmo de sempre Taylor? — perguntou o garçom. Este era alto, de corpo forte, feições agradáveis, cabelos castanhos bagunçados e olhos da cor do mel, seu cheiro era uma mistura do comum de seres humanos com algo pútrido, mas instigante. Grell olhou para William, incrédulo. “Porque Wiru contou para este homem qual o seu segundo nome? O que tem esse humano de tão especial?” questionava-se o ruivo abaixando os olhos. O rapaz amigo do moreno então se deu conta da presença de Grell e virou-se para ele. — Perdão senhorita, não vi que o senhor Spears estava acompanhado. — pediu curvando-se para o ruivo que levou a canhota aos lábios, surpreso, logo assentindo, corando um pouco. O garçom foi até William e lhe sussurrou. — Então é ela a garota de que você sempre fala... — o shinigami se sobressaltou e deu uma fraca cotovelada no humano, com sua inexpressividade visivelmente modificada. O humano entendeu o recado e voltou a ficar de pé em frente ao ruivo. — Então senhorita, o que deseja? Nós temos diversos pratos refinados, tenho certeza que algo há de te agradar. — questionou tirando seu bloquinho do bolso do pequeno avental negro que trajava acima das vestes. Grell lançou um olhar de dúvida para o moreno e ele pigarreou.
— Caham, Tristan! — chamou William, fazendo o garçom lhe olhar. — Traga vinho do porto para nós, minha acompanhante ainda não escolheu o que vai querer. — disse olhando sério para Tristan. O humano rabiscou rapidamente o pedido e fez uma mensura antes de sair pela porta fechando-a.
— Ufa. — pensou em voz alta Grell soltando um suspiro aliviado. — Ele realmente achou que eu fosse uma dama? — questionou olhando para o moreno. — ou só disse aquilo por gentileza? — completou abaixando o cardápio. William arrumou-se na cadeira e sorriu de forma suave.
— Ele a tratou como deveria, afinal você é uma dama. — disse ele com um olhar gentil. O ruivo ficou estarrecido “mas que diabos aconteceu com ele?” pensou corando abruptamente.
— O-o que você d-disse? — perguntou incrédulo nas palavras do moreno que desviou o olhar, corando suavemente. Grell encolheu-se um pouco na cadeira, mas em seguida arrumou-se rindo nervosamente. — Quem é você e o que fez com o supervisor William Taylor Spears? — brincou apontando o indicador para William, que arfou em uma risada contida.
— Grell eu... — começou a dizer, sendo interrompido por três batidas na porta. Ele suspirou pesadamente. — Entre — seu tom tinha um nível de descontentamento quase superior ao de quando tinha que fazer horas extras.
Pela porta entrou Tristan carregando duas taças, uma totalmente transparente e a outra com uma borda vermelha, e uma garrafa de vinho.
— Perdoe-me pela demora, mas eu estava procurando por isto aqui para a donzela. — disse pondo a taça com a borda vermelha diante do ruivo que sorriu em resposta. O garçom abaixou-se na altura do ouvido dele e sussurrou — ...o senhor Spears que pediu, foi difícil de conseguir, mas acho que para ver este belo sorriso em seu rosto valeu apena para ele... — Tristan entregou os créditos a William que se perguntava sobre o que eles cochichavam. O ruivo corou ainda mais e baixou o olhar.
— Certo, certo. — disse William, indicando que o outro deveria sair. Sim, o moreno novamente estava cm ciúmes de Grell.
— Oh sim, perdão senhor. Se desejarem alguma coisa basta me chamar eu estarei a vossa disposição. — murmurou o moreno saindo pela porta de madeira. William demorou o olhar na porta, perdido em pensamentos sobre como aquele meio-humano não era tão burro quanto a maioria, quando foi desperto pela doce voz do outro.
— Obrigada... — disse Grell corado olhando de forma delicada para ele. O moreno não compreendeu a que ele se referia e por isso franziu suavemente o cenho. — pela taça, é realmente gentil de sua parte, ninguém nunca havia pedido para conseguirem uma taça de minha cor para mim... — murmurou tocando o objeto a que se referia. William arrumou seus óculos pela curva do nariz e sorriu internamente, deixando em seu rosto uma expressão plácida.
— Por nada, apenas ver seu sorriso já me foi gratificante — afirmou olhando para o ruivo, levemente ruborizado. Grell ficou em silêncio, sorrindo novamente. “Meu coração não resistirá a este jantar” — você parecia triste estes últimos dias — completou lançando-lhe um olhar terno.
Novamente o silêncio, mas dessa vez mais durador. Quase mortal. Os corações de ambos batiam rapidamente, porém em Grell era mais visível à agitação do que em William, como sempre.
O ruivo cruzou as pernas em baixo da mesa e olhou para sua taça. “Beber poderia me acalmar” e como se William pudesse ler seus pensamentos, o moreno se levantou e abriu a garrafa, despejando o liquido escuro em ambas as taças.
— Obrigada Wiru — murmurou a figura vermelha deslizando os dedos no cabelo e empurrando uma mecha para trás da orelha.
— Não há de que. Esses garçons de hoje em dia estão cada vez mais incompetentes. — observou William tentando puxar assunto com o menor que estava estranhamente tímido e dando um longo gole no vinho.
— Mas ele conseguiu a taça, o que não o torna completamente incompetente... — defendeu Grell enfiando a mão no bolso interno do sobretudo por acidente. Foi quando ele lembrou-se da fotografia, retirando-a de lá e a observando, esquecendo-se da presença do superior.
— Onde você achou isso? — perguntou o moreno olhando fixamente para a foto que estava nas mãos do outro. Grell então retornou ao momento atual e deu-se conta do que fez. — Grell! Onde você pegou isso? — perguntou irritado, lançando um olhar furioso para o menor.
— A-achei no meio d-dos papéis que você me mandou verificar n-na sua escrivaninha — gaguejou em resposta corando de vergonha. William rangeu os dentes ao perceber que estava quase encima dele e pegou a fotografia, deslizando para o outro lado da salinha, onde havia um sofá pequeno de dois lugares. Grell suspirou envergonhado “não devia ter feito isso, agora Wiru está bravo comigo” martirizou-se. — Porque guardou isso? — pensou em voz alta e ao dar-se por conta disso, levantou-se da cadeira e andou até o moreno que apertava a fotografia suavemente nas mãos.
Os olhos vidrados de William estavam fixos na imagem registrada em suas mãos. Ela mostrava Grell abraçando William. O moreno, na foto, tinha os cabelos bagunçados e um meio sorriso nos lábios lineares. Grell ainda usava os cabelos “curtos” e pouca maquiagem, parecendo menos com o ele de agora. Na ponta direita inferior da foto, com a caligrafia do ruivo, havia um coraçãozinho desenhado e, dentro dele, escrito “W + G”.
Uma pequena lágrima escorreu pelo rosto do moreno, que rangeu os dentes com raiva. Mas antes que ele pudesse limpá-la Grell se antecipou e deslizou a ponta dos dedos sobre a pele alva, retirando aquela lágrima inconsistente com a inexpressividade e falta de sentimentos do superior.
— Shh — fez o ruivo lançando o pescoço do outro e puxando-o para um abraço demorado. William apertou o menor com força, deixando sua cabeça repousar no ombro dele e mais algumas lágrimas sofridas pingarem em sua camiseta. — eu estou aqui William, não vou te abandonar novamente... — disse com tom firme enquanto acariciava os fios negros do outro e sentindo o abraço se apertar ainda mais.
Os corações novamente batiam aceleradamente, porém desta vez por estarem próximos batiam completando as batidas um do outro em uma sinfonia perfeita e completa.
William nesse instante afasta-se de Grell e olha no fundo de seus olhos, as palavras do mesmo ainda batiam em sua mente “se você quiser alguma coisa tem que falar... tem que falar...” pensava respirando com um pouco de dificuldade devido ao nervosismo. Por fim ele fechou os olhos, inspirou e depois disse:
— Grell eu vou te beijar. — e antes que o outro pudesse absorver suas palavras, William selou seus lábios.
Não era agressivo, nem era bruto. Aquele beijo era suave, contido, mas mesmo assim carregado de anseio e sentimentos contidos. Suas bocas dançavam com movimentos delicados e gentis, completando uma a outra como um quebra cabeça de duas únicas peças que somente se encaixariam se fossem elas a se conectarem.
As mãos de William desceram pelo corpo de seu amado até chegar a sua cintura fina, enlaçando-a, fazendo seus corpos ficarem colados. Grell acarinhava os cabelos do maior perdido em seus devaneios e na sensação de ter um de seus maiores desejos realizados, porém foi desperto quando o outro pediu passagem para dentro de sua boca que foi logo concedida. A sensação agora era de êxtase, muito superior a que um orgasmo com um qualquer, pudesse proporcionar. Apesar de estar carregado de luxuria e toques ousados ainda tinha a essência romântica e delicada do contato inicial. Instantes mais tarde eles separaram-se e absorveram o ar que lhes era necessário.
— Você quer ir passar a noite no meu apartamento? — perguntou o moreno acariciando as bochechas de Grell que corou um pouco com a proposta. — Digo, está tarde e chovendo e eu não vou te deixar voltar sozinho para casa de jeito nenhum... Alem disso a minha é mais perto — disse William com um pouco de malícia enquanto puxava rosto do outro e beijava a ponta de seu nariz.
— V-vamos logo então — disse olhando de modo sensual para seu amado.
***
A noite passou como chamas que ardem em brasas. Ambos ansiarem em segredo pelo mesmo acontecimento tornara tudo aquilo ainda mais prazeroso e ardente.
Era como o encontro entre os mundos de fogo e gelo da origem do universo segundo a mitologia nórdica. Grell viu a luz surgir em meio à escuridão a sua volta e sentiu cada toque de seu amado como se fosse o ultimo.
Eles estavam entregue totalmente um ao outro e em uma confusão de beijos, carinhos, dor e prazer, acabaram por adormecer com Grell deitado sobre o peito de William.
***
Na manhã seguinte William despertou sentindo falta do peso em seu peito onde deveria estar o ruivo. Os olhos verdes, nublados pela ausência dos óculos de grau, seguiram até a luz que adentrava no ambiente pela porta entreaberta do banheiro. “Grell” pensou o moreno escutando o barulho de algo caindo no cômodo ao lado.
Ele rapidamente se levantou e procurou os óculos na mesinha de cabeceira ao lado do lado da cama em que ele dormira. Assim que achou seu alvo William caminhou com passo rápido até o banheiro ignorando o estado que o quarto estava.
— Grell você esta bem? — perguntou o moreno com um tom preocupado adentrando no espaço do banheiro da pequena suíte. Seus olhos se encontraram com os do ruivo que tinha ambas as mãos apoiadas na pia de mármore escuro.
— Ah sim, foi apenas um mal estar. Senti-me tonta por um instante. — disse Grell com os olhos fechados. O moreno olhou para o outro preocupado e aproximou-se dele, abraçando-o pela cintura.
— Você está realmente bem? — perguntou depositando um suave beijo no topo da cabeleira ruiva. Grell abriu os esmeraldinos e os moveu olhando pelo espelho até se encontrar com os do outro.
— Desde quando se importa tanto? — perguntou sorrindo, provocando o outro que torceu os lábios em reprovação. “O que ele está querendo?” pensou o moreno baixando seus lábios até o pescoço do menor, fazendo um caminho de beijos por toda a sua extensão até chegar à orelha do mesmo.
— Grell... koishiteru — disse o moreno com segurança e seriedade. Grell estarreceu com as palavras do outro. “Eu quero acreditar e você meu amor...” pensava ele suspirando. Porém um desconforto veio a seu estômago e o ruivo levou a canhota na direção dos lábios enquanto usava a outra para se soltar dos braços de William. — você ... — William não terminou nem a frase nem o pensamento, pois Grell abaixou-se diante do vaso sanitário e começou a vomitar.
O moreno arregalou os olhos e abaixou-se também, ficando de joelhos ao lado de Grell que segurava os cabelos com uma das mãos e tentava apoiar-se com a outra. Ao ver isso William segurou a mão livro do outro lhe dando apoio e usou a outra para acarinhar suas costas. Alguns minutos mais tarde o ruivo parou de vomitar e ergueu-se com ajuda do outro.
— Sente-se melhor? — perguntou o moreno estendendo a toalha de rosto para Grell que lavava o rosto e a boca com a água corrente da torneira prateada. O menor pegou a toalha da mão do outro e secou seu rosto delicadamente.
— Sim, apenas um pouco fraco. — disse em resposta olhando para William. — Acho que é porque não como nada desde a hora do almoço de ontem — murmurou apoiando-se na parede. O moreno foi em seu auxílio segurando-o no colo em posição de noiva.
— Eu vou arrumar alguma coisa para você comer enquanto faço uma refeição descente. — disse William carregando Grell até a sala de estar, deixando-o sentado em um divã de onde o moreno poderia observá-lo da cozinha. — Confortável? — perguntou ele colocando um travesseiro nas costas do ruivo que assentiu sorrindo fraco. O moreno andou até a cozinha e abriu uma das portas do armário suspenso e examinando os itens ali presentes — Bom... o que você quer comer, biscoitos de soja ou amanteigados? — questionou recebendo um gemido de volta.
William pegou a embalagem que continha os amanteigados e levou até a sala. O ruivo, ao ver o pacote na mão do outro, devoro-o com o olhar e estendeu a mão pegá-lo e assim que o teve em mãos comeu dois dos biscoitos praticamente inteiros.
O moreno sentiu-se culpado, afinal era sua culpa que o menor não tivesse jantado na noite anterior. “Mas ele podia ter ingerido algo depois que terminou de recolher suas almas e fazer seu relatório.” Argumentou o lado racional de sua mente. Ele voltou à cozinha e procurou por alguma coisa que pudesse preparar que fosse nutritivo. Não achando nada a não serem ovos crus e fatias de pão de forma, William suspirou.
— Grell, não tenho nada que seja realmente nutritivo ou ideal para você, então terá que se contentar com ovos poached*, por enquanto. — O moreno olhou para o relógio na bancada e constatou que ainda era cedo o suficiente para cuidar do ruivo sem perder o turno vespertino.
— Tudo bem Wiru. Quando chegarmos ao departamento eu como algo mais substancial — respondeu o ruivo lambendo dos dedos as migalhas dos biscoitos. Os olhos esmeralda do menor corem toda a sala onde estava até que se detiveram em um pequeno porta-retratos pendurado na parede, nele estava a foto da turma de formados do ano de 1799 e as figuras de Grell e William se destacavam entre os demais shinigamis. “Ele tem a dele ainda” pensou lembrando-se de seu próprio exemplar que repousava na mesa de cabeceira de seu quarto.
Alguns minutos mais tarde William apareceu na sala com um prato de sobremesa onde repousavam dois ovos em pequenos suportesinhos de louça.
— Obrigada Wiru, parecem deliciosos. — disse o ruivo, provando-os em seguida. — isso aqui tá muito bom! — murmurou enquanto levava outra colherada em direção aos lábios. William ruborizou suavemente, já que fazia um tempo considerável que alguém elogiava sua comida.
— Ei coma mais devagar assim vai se engasgar ou por tudo para fora de novo... — advertiu o moreno segurando a mão do menor. Grell começou a mastigar mais devagar sentindo todos os sabores da descoberta culinária.
...
E assim se passaram dois dias, com Grell e William terminando de se livrarem das caixas no escritório do moreno e passando bastante tempo um na companhia do outro. Qualquer um no departamento podia reparar em como eles estavam próximos e foi quando começaram a surgir os boatos. Diversos boatos como: “Eles voltaram a ser amigos” ou “ eles finalmente param de negar o que sentiam” até coisas mais agressivas e despeitadas como “finalmente aquela aberração sossego” e “finalmente ele conseguiu fisgar o chefe, vai demorar pouco tempo até tomar o posto dele”. As piores afirmações vinham dos membros de posição inferior ao shinigami vermelho e ficavam entre eles mesmos, porque caso o contrário o supervisor seria capaz de dar uma punição muito severa para eles ou até afirmar que eram eles desertores.
Mas como nem tudo são flores, o ruivo sentia fortes tonturas durante o dia, porém se recusava a ir à enfermaria. “Eu estou bem é só um mal estar” era o que ele dizia todas as vezes que o moreno tentava leva-lo para a enfermaria. Até o acontecimento de exatos 3 dias após Grell e William iniciarem seu relacionamento secreto.
...
O dia estava relativamente frio para a primavera, mas fora isso nada de estranho tinha de acontecido até então. Ao final da tarde, Grell possuía uma alma para ceifar e teria que ir juntamente com Ronald, que era seu aprendiz, mesmo com William oferecendo-se para ir no lugar do ruivo, mas o chefe do departamento foi unanime “Ou Sutcliff recolhe alguma alma hoje ou ele será rebaixado.” . Grell notou a preocupação no olhar do amante sobre si e sorriu
— Wiru, não tem problema. Eu estou me sentindo bem hoje. — disse o ruivo já a sós com o moreno no escritório deste. Por mais que ele afirmasse aquilo o superior não conseguia para se preocupar com a saúde de Grell. — Eu farei isso e terei folga, é por isso que ele está me pressionando a ir colher essa alma, não te contei porque queria que fosse uma surpresa. — revelou o menor dando uma olhadela em direção a porta e depois enlaçando o pescoço do superior.
— Grell, eu terei folga este final de semana... nós poderíamos viajar então? — disse abrindo um pequeno sorriso. O menor sorriu amplamente e selou rapidamente seus lábios com os do moreno que lhe censurou com o olhar e depois sorriu brevemente.
Eles se olhavam de forma doce e apaixonada e nada parecia poder estragar aquele momento, onde estavam abraçados de forma carinhosa, porem a realidade lhe bateu a porta, literalmente.
— Sutcliff-senpai? Está ai? — perguntou Ronald Knox do outro lado da porta, sem ousar abri-la com medo dos superiores. William bufou e deu uma ultima olhada em Grell antes de dar a volta em sua mesa e sentar-se ali, se fingido concentrado no papel que repousava a sua frente. Grell saltitou até a porta e a abriu.
— Ronnie você chegou! — Exclamou abraçando o seu aprendiz de forma carinhosa. — Vamos ceifar aquela alma, DEATH! — disse animadamente fazendo seu movimento com a mão de sempre. Ronald olhou de soslaio para William que lançou um olhar repreensivo para Grell.
— Sutcliff! Silêncio, estou tentando me concentrar aqui... — disse com o tom severo. O ruivo abanou a mão na direção dele e puxou o mais novo para fora da sala.
— Até mais tarde meu amor! — gritou Grell fechando a porta do escritório com força. O loiro soltou uma risada e seguiu seu chefe que caminhava a passos rápidos. — Vamos lá Ronnie, vamos nos divertir um pouco.
— Senpai, não acha que o Spears-senpai está lhe tratando... hum... diferente? — murmurou cuidadosamente enquanto continuava seguindo o ruivo, que parou abruptamente. — Senpai? — chamou Ronald tocando o ombro do mais velho. Porém o outro apenas virou-se para ele, olhou em seus olhos com uma expressão sofrida e desfaleceu revirando os olhos em suas orbitas e caindo violentamente no chão. — Sutcliff-senpai! — exclamou o loiro abaixando-se até onde seu superior estava caído. — Senpai! Senpai! — chamava ele girando o corpo inerte do ruivo para que pudesse ver seu rosto.
Os minutos seguintes foram agonizantes para o menor, que ainda não sabia como usar sua deathscythe para se teletransportar e teve que pedir ajuda a um humano para levá-lo até onde ele sabia que havia um portal para o departamento. A grande coincidência de toda a situação foi que esse humano era justamente o “dono” da alma que deveriam ceifar, portanto ele levou o homem até o departamento onde outros shinigamis o ceifaram enquanto outros acudiam o ruivo desmaiado.
Ronald correu em pânico até a sala do supervisor entrando por ela esbaforido.
— Knox!? Onde está seu senpai? — perguntou William levantando-se e indo rapidamente em direção ao subordinado.
— ... Sutcliff-senpai... e...ele desmaiou antes de iniciarmos a coleta... — foi tudo que ele conseguiu dizer antes de seu superior sair correndo pelo corredor, arrastando-o até a enfermaria, onde acreditava estar seu amado.
— Eu sabia que não era uma boa ideia... — sussurrou William tentando manter sua expressão o mais neutra possível.
Quando chegaram à enfermaria, os orbes esverdeados do moreno correram por entre as macas até pararem onde estava Grell. O ruivo estava deitado com a cabeça recostada em um travesseiro azul e, em pé ao seu lado, estava Alan Humphries, que segurava sua mão delicadamente. Ao lado do moreno estava o senpai deste, Eric Slingby, que parecia muito distraído olhando para o seu kohai.
William suspirou baixo e deu passos “calmos” até a maca tentando não demonstrar, falhando miseravelmente, sua preocupação. “Esteja bem” era o pensamento do supervisor ao chegar aos pés da maca e olhar para seu amado que tinha os olhos fechados.
— Spears- senpai — disse Alan ao notar a presença do superior. William não tirou seus olhos de Grell, mas assentiu, mostrando estar lhe escutando. O moreno prosseguiu — ele está bem, apenas dormindo agora. — murmurou voltando seus olhos para o amigo que descansava. — mas o médico realizou alguns exames por causa do histórico desta ultima semana, para tentar descobrir o que esta causando esses mal-estares nele. — concluiu suspirando. Alan estava preocupado com a saúde do amigo e temia que descobrissem se Grell possuía a mesma doença que ele.
William rangeu os dentes e deu a volta na maca, ficando ao lado de onde o ruivo estava deitado. “Quer saber? Dane-se isso tudo! Dane-se a sociedade dos Shinigamis! Dane-se meu emprego!” gritou mentalmente levando a mão esquerda na direção do rosto plácido e adormecido de Grell.
— Se você estiver doente e morrer... — disse com o tom embargado e choroso. — eu não sei o que será de mim... — uma lágrima fria rolou pela sua face.
O motivo de seu pranto e desespero era mais do que obvio, pois a única doença que realmente atingia shinigamis era a possuída por Alan, popularmente conhecida como “espinhos da morte”, e esta era fatal.
Os outros shinigamis surpreenderam-se com a reação do superior, mas a primeira reação foi de Alan, provavelmente o mais sensível deles, que sorriu.
— Ele vai ficar bem William-kun — disse tentando não apenas convencê-lo, mas também a si mesmo. O carinho que havia adquirido pelo ruivo se comparava ao fraternal, tão forte que contara a ele sobre seu relacionamento com Eric.
—... hum... escute o baixinho... vou ficar bem... — murmurou Grell fazendo todos aqueles olhos esmeraldinos o encararem. — que foi? Tem alguma coisa no meu cabelo? — perguntou ele tentando olhar para seus cabelos.
A agonia que estava presente no ar foi substituída por um misto de alívio e surpresa, ao verem William indo de encontro aos lábios do ruivo. O shinigami moreno selou seus lábios aos de seu amante sem importar-se com os olhares curiosos de seus amigos e o indignado de seu chefe que entrou pela porta da enfermaria naquele exato momento.
— Mas que pouca vergonha é essa? — perguntou o shinigami grisalho que andou pisando duro até onde o pequeno grupo estava. Grell arregalou os olhos e empurrou suavemente William para trás.
— Wiru... — gemeu o ruivo fechando seus olhos. O moreno ergue-se ficando de pé e olhando para o outro que vinha como um tornado. Porém antes que o chefe do departamento pudesse esbravejar tudo que estava em sua mente, o médico que estava cuidando de Grell apareceu carregando consigo uma folha onde continham os resultados dos exames, que graças às tecnologias mais avançadas pertencentes aos shinigamis haviam ficado prontos naquele mesmo dia.
— Eu e o senhor Sutcliff temos que ter uma conversa séria, será que os senhores poderiam nos dar licença? — pediu o shinigami que trajava um jaleco branco aos demais que estavam no recinto.
O grisalho lançou um olhar mortal para o medico e saiu da mesma forma que entrou. Eric parecia ainda estar em um pequeno estado de choque, assustou-se quando Alan tocou sua mão e o puxou para fora da sala. Ronald que exibia um semblante vitorioso foi até William e lhe deu batidinhas no ombro.
— É senpai, já não era sem tempo... — disse o aloirado em meio aos risos abafados. Porém ele parou quando viu a preocupação estampada no semblante do moreno. — Vamos lá senpai, depois... — dizia ele logo sendo interrompido.
— O Wiru pode ficar? — Perguntou Grell com tom trêmulo e olhos embaçados pelas pequenas lágrimas que ali se formavam. O médico o fitou e depois o moreno, que ainda não tirava os olhos do ruivo.
— Pela cena que vi alguns instantes atrás, posso constatar que sim. — disse suspirando. — Senhor Knox, nos dê licença sim?— murmurou o médico com um tom impaciente.
— Certo doutor Craver. — murmurou revirando os olhos e parando-o no ruivo — Depois me conte tudo mamãe. — disse dando uma piscadela para seu senpai, que sorriu nervosamente e depois assentiu.
O aloirado levou a destra até o meio de suas costas e segurou seu cotovelo com a canhota, saindo andando assim, demonstrando despreocupação enquanto na verdade estava muito preocupado.
O medico acompanhou o mais jovem com os olhos até que ele saísse pela porta, voltando-os para o casal assim que teve certeza que ninguém os espionava.
Grell apertava com muita força a mão do amante, pois alem de ter medo de estar doente possuía medo de médicos. O moreno acarinhava a mão dele com o polegar tentando fazê-lo acalmar-se para que ele mesmo ficasse mais calmo.
— caham — pigarreou Craver, chamando a atenção dos dois shinigamis para si. — Bem, como já disse, a conversa é séria, portanto vou pedir ao senhor Spears que se sente — disse apontando para a cadeira que jazia abandonada alguns metros atrás da maca do ruivo. O moreno foi até o objeto e trouxe-o para mais perto, sentando-se em seguida.
— Certo, já estou sentado, agora pelo amor dos céus me diga o que está acontecendo com ele! — falou William arrumando seus óculos de maneira nervosa, visivelmente exaltado.
— Bem... — começou o medico elevando as folhas de papel que tinha em suas mãos e dando uma ultima olhada, como se procurasse ter certeza do que estava a dizer. — Senhor Sutcliff, a sua condição é muito delicada. Não é sempre que se vê algo do gênero, principalmente com shinigamis... — disse com um tom sério, trocando seu olhar de Grell para William. — chama-se na linguagem leiga de Hermafroditismo, porém não é exatamente como os senhores podem estar imaginando. O senhor Sutcliff possui os órgãos reprodutores femininos internos enquanto tem genitália masculina... O que pude concluir, com base em um exame de sangue comum, foi que o senhor, senhor Sutcliff, está grávido. — as palavras do homem pareciam a maior loucura que poderia ser dita e atingiam o casal como bombas.
Grell piscou longamente os olhos, tentando digerir o que acabara de escutar. “Ele só pode estar brincando comigo... isso... isso... é impossível! Não é?” era o pensamento dele. O ruivo procurou desesperadamente pelos olhos de William e ele se deparou com uma expressão pasma no rosto do amante.
“Eu estou sonhando, só pode ser... n-não existe uma explicação plausível para isso” era o único pensamento que vinha a mente do moreno que deixou seu corpo cair na cadeira.
— I-isso é possível? Digo, possível mesmo? — questionou William levando a destra em direção ao rosto, retirando os óculos e olhando para Craver profundamente.
— Bem, sim. Isso é possível e é real. — murmurou olhando para a cara incrédula de Grell, que deixou sua canhota escorregar até seu ventre, tocando onde estaria “supostamente” sua criança. — Se desejar... — disse o médico chamando novamente a atenção dos dois. — eu poderia removê-lo. Seria, provavelmente, indolor e...
— Você está louco? — interrompeu William recebendo as olhares surpresos tanto de Craver quanto de Grell. O moreno recolocou os óculos e girou o corpo na direção do ruivo. — Você sempre quis isso... e agora aconteceu... Grell se acredita em milagres como dizia acreditar... veja, um aconteceu diante dos seus olhos! — o brilho nos olhos esmeraldinos de Grell, assim como nos de William, refletiam algo além da compreensão humana.
— Wiru... eu vejo... — disse com a voz embargada e pequenas lágrimas já lhe rolando pela face que emanava um brilho glorioso. Porém a realidade novamente lhe bateu a porta, literalmente.
— O que está acontecendo ai dentro! — disse o chefe batendo fervorosamente na porta de madeira que permanecia intacta de forma inacreditável.
— só mais um instante! — exclamou Craver, já impaciente com o shinigami “espancando” a porta de seu lugar de trabalho. — Então essa é a decisão de vocês? Sabem que terão que arcar com as consequências, certo? — perguntou olhando-os seriamente.
— Depende de você Grellie, pois por mim a resposta é sim. — Disse o shinigami moreno com convicção enquanto tocava delicadamente a mão do parceiro que repousava sobre o próprio ventre. O ruivo lançou um olhar carinhoso para o outro ao notar o toque e suspirou .
— Claro que sim! — exclamou com os olhos cheios d’água pela felicidade que transbordava de dentro de si mesmo.
— Muito bem, vou conversar com o chefe e pedir para que ele providencie os papéis da sua aposentadoria... — Grell o olhou de forma apreensiva. — o que? Achou mesmo que eu, como seu médico, permitiria que arriscasse a sua vida e a dessa criança que aceitou carregar? — perguntou Craver de forma repreensiva. O ruivo baixou os olhos “Ou é você ou o meu trabalho” disse internamente, falando com seu filho que nem era nascido ainda. Grell sorriu e voltou seus esmeraldinos para William.
— Claro que não, apenas queria fazer isso eu mesma. — respondeu decidido, exibindo novamente sua expressão de pura felicidade.
— Certo, mas por ainda estar fragilizada pelo acontecimento de mais cedo irei tratar da papelada e de acalmar o chefe. — murmurou o médico indo até a porta — felicidades — desejou antes de quase ser derrubado ao abrir a porta.
Grell e William estavam tão distraídos se entreolhando de forma carinhosa que nem notaram quando os outros três shinigamis se aproximaram de onde estavam.
— Porque estão com essas caras? — perguntou inocentemente Ronald, olhando para as expressões de felicidade de seus senpais. Ambos acordaram de suas divagações e olharam a sua volta deparando-se com os olhares curiosos do três amigos.
— Bem... — começou Grell que levou a mão livre aos cabelos, brincando com uma das mechas. — eu, quero dizer, nós... — corrigiu-se ao sentir a mão de William apertar a sua — vamos ser pais! — disse eufórico.
As expressões dos três shinigamis eram impagáveis. Ronald olhou para os dois, pasmo, e depois começou a rir incontrolavelmente, indo até os superiores e abraçando-os. Eric sorriu de canto abaixando os olhos, deixando uma lufada de ar sair por entre seus lábios. Porém Alan ficou estático e arregalou bem seus grandes olhos, apertando o braço de seu senpai por cima do terno negro dele.
— Parabéns, parabéns! — exclamava o aloirado em estado de euforia, dando pequenos saltinhos de felicidade pelo amigo.
— finalmente cometeu um erro, hein Spears? — disse Eric com sarcasmo, logo recebendo olhares repreensivos de Ronald, William e Grell. Ele ergueu as mãos em sinal de rendição praguejando qualquer coisa, baixinho.
— Isso é... — murmurou Alan fitando o nada. O loiro ao seu lado baixou os olhos até o seu amante secreto, preocupado. — bom. Fico feliz por você Grell. — disse esboçando um pequeno sorriso, mas com tom distante. O ruivo notou a reação estranha do amigo, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa o menor balançou a cabeça e olhou nas paredes a procura de um relógio. Quando o achou, constatou que faltava menos de um minuto pra acabar o intervalo deles e com isso em mente disse: — Grell, eu realmente estou feliz por você, mas agora nós três temos que voltar ao trabalho.
— Eu também? — questionou Ronald girando os olhos até o moreno e expressando seu descontentamento em um bico. Alan assentiu e o mais novo bufou — Tchau mamãe, tchau papai, tchau bebê — disse o aloirado acenando para o casal. Grell riu levando a mão livre aos lábios enquanto William corou com o modo como foi chamado pelo subordinado.
— Até mais casal apaixonado — disse Eric já na porta do local por ter sido arrastado pelo menor.
Agora os dois estavam finalmente a sós e os sorrisos pareciam ainda mais felizes que antes. Um suspiro escapou pelos lábios rosados do ruivo, que pareceram extremamente tentadores aos olhos de William, mas antes que ele pudesse fazer qualquer movimento Grell se moveu na cama sentando-se melhor e olhando dentro dos olhos do moreno.
— E agora... o que faremos? — perguntou o menor, mordendo o lábio inferior. — eu não poderei continuar no meu apartamento e... — gaguejou abaixando a cabeça e pensando em todas as coisas que teria que abrir mão.
— Ei, shh, acalme-se meu amor. — disse William sentando-se na beirada da maca e envolvendo o ruivo com seus braços. — acha mesmo que vou te deixar na rua? Você vem comigo pro meu apartamento. Não tem nenhuma regra que impeça isso... não vou deixar a pessoa que amo e que é a mãe do meu filho ao relento. — afirmou decididamente. O menor entre seus braços soluçou.
— Mas eu vou ser praticamente demitido, vou perder meu posto de shinigami e... — dizia com a voz falha já mudando de sua felicidade para desespero.
— nada de, mas Grell Sutcliff — disse William com o tom firme — se eles quiserem te na rua vão ter que me colocar junto! — exclamou apertando ainda mais o abraço. — Koishiteru — sussurrou puxando o rosto do outro para cima.
— Eu tembém — respondeu Grell selando seus lábios ao do outro
...
Mais alguns dias se passaram e tudo pareceu começar a se ajeitar entre William e Grell. O ruivo mudou-se para o apartamento do superior e teve seu pedido de aposentadoria aceito, sendo permitido a ficar com sua amada deathscythe após jurar não interferir novamente na existência de nenhum humano.
Aos poucos o apartamento, razoavelmente espaçoso do moreno, transformava-se em um lar, com direito a uma bela cozinha, uma sala bem decorada com diversas cores e fotografias, uma cama de casal decente no quarto deles e o começo de um quarto para o bebê.
Grell enjoava muito, mas para sua sorte William havia recebido férias do departamento e estava em casa para ajudá-lo como podia.
Ronald os visitava quase todos os dias, sempre com um amplo sorriso, ficando algumas horas falando sobre como tudo estava no departamento e questionando se eles estavam conseguindo se virar bem.
William cozinhava para Grell contando-lhe sobre como era o lugar onde crescera e sempre lhe questionando como estava se sentindo. O ruivo estava bem, mas sentia-se um pouco triste pela falta de contato com Alan, que segundo Ronald, andava trabalhando demais, chegando ao ponto de sentir-se mal e ter que ser levado a enfermaria.
Nisso, se passou um mês desde que fora descoberta a gravidez do ruivo.
***
Grell estava sentado folheando uma revista de moda feminina qualquer perdido em seus pensamentos quando foi desperto pelo som de batidas vindas da porta de entrada.
— Pode atender para mim, amor? — questionou William que estava na cozinha preparando o jantar para eles. O ruivo gemeu em resposta levantando-se a contragosto, por causa do sono que sentia, e andou até a porta abrindo-a sem fazer muita cerimônia. Porém a visão que seus olhos tiveram lhe despertou totalmente.
— Alan?! — exclamou ao rever o amigo. O shinigami de cabelos castanhos tinha seus olhos verdes vermelhos, assim como suas bochechas e seu nariz.
— Grell... Posso ficar aqui uns dias? — perguntou o mais novo virando o rosto para baixo enquanto apertava com mais força o puxador da maleta que segurava. O ruivo arregalou os olhos com o pedido e em seguida escancarou sua porta.
— Claro que sim. Venha, o Wiru está preparando o jantar. — disse abrindo os braços para o amigo que o abraçou, entrando no apartamento. O menor o apertou com força deixando sua bagagem cair. — Ei calma querido. O que aconteceu? — perguntou fechando a porta com o outro ainda o abraçando. Alan nada respondeu, apenas fungou baixinho enterrando ainda mais a cabeça no peito do maior.
— ...então Grell quem... — disse William aparecendo na sala de estar com uma camiseta social branca, uma calça de pijama escura e um avental vermelho sangue. Ele vinha com os olhos fechados e os abriu rapidamente ao ouvir os soluços baixos, surpreendendo-se ao ver o shinigami moreno. — Alan Humphries, a que devemos a honra de sua visita? — perguntou com certo sarcasmo na voz. Não era culpa de William, apenas ele não entendia como, de um dia para o outro, aquele que era praticamente o melhor amigo de Grell desaparecer de sua vida sem lhe dizer uma única palavra.
— Wiru! — repreendeu Grell lançando um olhar severo para o namorado. William notou então as lágrimas que escorriam dos olhos do visitante e se calou. — Vem Alan, você vai tomar um banho, depois experimentar a comida deliciosa do Wiru e vai me contar o que aconteceu. — impôs arrastando o mais jovem até o banheiro social que ficava no corredor e trancando-se lá dentro com ele.
William tentava entender o que estava acontecendo, mas decidiu deixar que Grell resolvesse a situação e voltou para a cozinha, onde preparava omeletes como desejado pelo ruivo. “O que pode ter acontecido para deixa-lo assim? Será que brigou com o Eric?” pensava o moreno adicionando orégano à mistura extra que fazia. Não, o moreno não tinha conhecimento do relacionamento entre os colegas, apenas achava que eram amigos muito próximos.
Ele suspirou e desligou o fogão, girando o corpo para trás e procurando nos armários os pratos de louça para que pudesse servir o alimento que havia preparado. “Onde foi que eu deixei aqueles pratos” perguntava-se segurando a panela com o auxilio de um pano de pratos para não se queimar.
— Grell, onde estão os pratos? — questionou com a voz em um tom alto o suficiente para que ele o escutasse.
— na ultima porta da esquerda. — respondeu Grell saindo pela porta do banheiro, andando até a cozinha e pegando os pratos para o moreno.
— Obrigado. — agradeceu servindo os três pratos de porcelana branca com generosas porções da omelete. — A propósito — murmurou depositando a panela na pia, chamando a atenção do menor. — como ele está? — perguntou pegando dois dos pratos e levando-os para a mesa na sala de estar. Grell engasgou com sua própria saliva e pigarreou, pegando o ultimo prato e indo de encontro ao amante.
— Está bastante triste, mas parou de chorar. — disse o ruivo pousando o prato na mesa e olhando para William. — O que você disse não foi nada gentil Wiru. — reclamou cruzando os braços na frente do próprio corpo e lançando um olhar sério para o maior, que se encolheu em seus ombros, corando um pouco.
— Eu sei, pedirei desculpas a ele assim que sair do banheiro. Mas tive meus motivos e você sabe disso. — murmurou se aproximando do menor que ainda tinha a expressão descontente do rosto. — Ei vamos, não fique assim. — pediu tocando-lhe o rosto suavemente. Grell recostou a cabeça na mão de William, aceitando o carinho que lhe era oferecido e, aproximando-se mais dele, tocou seus lábios, beijando-os de leve.
A mão de William desceu até o ventre do ruivo e se manteve ali até ser pressionada pela mão do mesmo, que sorriu olhando para o maior de forma carinhosa. Ambos estavam tão presos a conversa silenciosa de seus olhares que não notaram quando o moreno mais jovem saiu do banheiro e caminhou até onde eles estavam.
— Caham! — pigarreou Alan, fazendo-os olharem para si. O baixinho vestia um pijama folgado que dava a ele um ar infantil e tinha em seu rosto uma expressão desconfortável. Grell afastou-se do amante e sentou-se à mesa, fazendo um sinal para que os outros dois fizessem o mesmo.
— Hum...Humphriers — chamou William que olhava de forma indecisa para o shinigami mais jovem. Alan ergueu os olhos para o superior, demonstrando escutar o que ele dizia — quero pedir perdão pelo que disse antes — murmurou olhando seriamente para o mesmo que engoliu a garfada da omelete que mastigava.
— Tudo bem, Spears-kun. Posso compreender que agiu daquela forma por causa de Grell... — disse o mais novo movendo os olhos para o ruivo que sorriu para ele de forma gentil.
O restante do jantar decorreu silenciosamente, com pequenos comentários vindos da parte de Grell sobre a comida e o clima. Assim que os três terminaram de comer, William tratou de ir lavar a louça enquanto o ruivo conduziu Alan até o quarto de hóspedes.
— Bem, aqui tem mais uma coberta se você precisar e, qualquer coisa, é só gritar que eu venho correndo. — disse Grell cobrindo o menor, que o olhava de forma temerosa. — Vai ficar tudo bem. — argumentou lançando um olhar gentil para o amigo, que se virou para o lado da parede, segurando a borda do cobertor carmesim.
— Boa noite Grell — sussurrou o mais novo, fechando os olhos, enquanto o outro se distanciava.
O ruivo suspirou e encostou suavemente a porta atrás de si, deixando uma pequena fresta que permitia ao ar circular no quarto. “É realmente uma situação complicada...” pensou consigo mesmo caminhando até a cozinha, onde esperava encontrar William terminando de limpá-la.
— Ele dormiu? — questionou o moreno enquanto terminava de secar o ultimo prato que havia lavado, acordando Grell de seus devaneios.
— Acho que sim, em todo caso acho melhor deixá-lo sozinho um pouco — murmurou o shinigami ruivo indo de encontro ao outro, que terminara de guardar as louças. William lhe afagou o topo da cabeça, puxando-o para um rápido “selo”.
— Alan te contou o que aconteceu? — perguntou o moreno, abraçando o menor. Grell se engasgou novamente, porém dessa vez o enjoo veio lhe incomodar e ele levou a mão aos lábios, cobrindo-os. — Enjoada? — perguntou retoricamente, recebendo um cutucão do outro em resposta. — Vem, vamos lá para o banheiro. Não quero ter que limpar vômito novamente. — disse puxando o ruivo, que ainda estava abraçado a si, em direção à suíte.
— Sim... — murmurou Grell, vagamente, enquanto inclinava-se sobre a bancada de mármore. William segurou os cabelos ruivos para impedir que eles fossem sujos caso o outro realmente vomitasse. “Então foi realmente algo serio” pensou a respeito do motivo de Alan estar em sua casa.
Depois de alguns minutos, com Grell já recuperado de seu mal estar, o casal dirigiu-se para a cama com o objetivo de descansar daquele dia que se tornara cansativo após a chegada do visitante.
William deitou-se do lado direito, enquanto o ruivo deslizou por cima do colchão macio até estar ao lado do namorado, que lhe ofereceu o braço como travesseiro.
— Koishiteru — sussurrou Grell recostando-se no moreno, já com os olhos fechados. William sorriu e acarinhou a cabeleira ruiva.
— Também amo vocês. — murmurou ele em resposta, puxando o corpo do outro para mais perto de si, abraçando-o e adormecendo em seguida.
...
A noite decorreu calma, sem nenhum acontecimento relativamente importante, porém, mal clareou o dia e os três shinigamis foram despertos por batidas violentas na porta principal.
William sentou-se na cama rapidamente, despertando em um “salto”, enquanto o ruivo pareceu desorientado e levou alguns minutos até situar-se no momento atual.
No quarto de hóspedes, Alan arregalou os olhos, assustado, e puxou a coberta até acima de sua cabeça, achando que assim ficaria seguro.
— Grell Sutcliff, abra esta porta! Sei que o está escondendo ai dentro! — vociferava Eric sigby pelo outro lado da porta, agredindo-a com ainda mais força. O ruivo imediatamente levantou-se e caminhou até o quarto onde o menor estava.
— Alan... sei que está acordado, olhe para mim — murmurou Grell ficando em pé ao lado da cama de solteiro. — Seu sono é tão leve quanto o meu, pare de fingir que dorme ou eu vou até aquela por e o deixo entrar. — ameaçou, fazendo o mais novo abaixar as cobertas. O rosto de Alan estava amassado e vermelho, mostrando que a forma como adormecera fora chorando.
— E-eu n-não quero vê-lo — disse escondendo o rosto com ambas as mãos, abafando um soluço sentido. O ruivo acarinhou os cabelos castanhos e lhe sorriu de forma gentil.
— Alan, você sabe que vai ter que falar com ele uma hora ou outra, então faça isso logo e livre-se desse fardo que insiste em carregar — argumentou Grell olhando-o de forma carinhosa — digo isso como sua amiga — completou tocando uma das mãos do outro, abaixando-a e a apertando com força.
O menor fungou gemendo um “mas” baixinho, sendo calado por um aceno negativo da parte do outro. Ele então fez uma careta e se levantou, deixando para trás a proteção que o amontoado de cobertores quentes lhe causava.
— Venha, Wiru e eu vamos te proteger caso aquele loiro oxigenado tente fazer algo contra você — disse o ruivo tentando lhe passar segurança enquanto arrumava o chambre no próprio corpo.
Alan tomou coragem com as palavras do amigo e o seguiu até a sala onde William aguardava, de pé, por alguma orientação sobre o que fazer.
— Então? — questionou o moreno mais alto caminhando até onde os dois amigos estavam. Alan engoliu a seco e suspirou fraco antes de responder.
— Vou falar com ele... — disse em um tom baixo — apenas não me deixe sozinho — pediu lançando um olhar suplicante para o casal, que assentiu veementemente.
— Certo — murmurou William em resposta, que saiu andando em direção à porta — Muito bem Slingby. O garoto vai falar com você, mas trate de se acalmar ai fora. — ordenou olhando para frente, como se seu olhar repreensivo pudesse atravessar o objeto de madeira — Francamente... você não vê que assim o está assustando... — praguejou em tom baixo para que os rapazes atrás de si não o escutassem. O moreno obteve um murmúrio baixo em resposta e emitiu um “tsc”.
William deu uma ultima olhada para onde os dois amigos estavam, antes de girar a maçaneta, como se lhes pedisse permissão. Assim que os dois assentiram, o moreno destrancou a porta e a abriu lentamente.
O que ele viu do outro lado, era, chocante. O shinigami loiro tinha seus cabelos empapados de suor e olheiras visíveis abaixo da linha dos olhos, olhos estes que se encontravam avermelhados, indicando que ele havia chorado recentemente. Seu terno e camiseta estavam amassados, como se ele tivesse ficado encolhido durante algum tempo. Para completar o “belo” conjunto, Eric estava descalço. O coração de Alan apertou ao ver o estado que o outro estava e seus olhos marejaram.
— Alan eu... — começou o loiro com a voz chorosa, tentando se aproximar, mas sendo impedido por William. — Olha isso não é da sua conta Spears. — vociferou Eric, rangendo os dentes. O moreno manteve-se no mesmo lugar, impedindo a passagem do outro, que insistia em querer se aproximar.
— Alan é amigo de Grell, amigo dele é meu amigo, não vou deixar você feri-lo — disse o moreno com o tom severo. Grell sentiu-se orgulhoso de William e, fazendo jus as palavras dele, colocou-se na frente do menor.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Eu só quero falar com ele! — exclamou Eric abaixando os braços e o rosto, fitando o chão demoradamente — Desculpe-me Alan... — pediu deixando uma pequena lágrima escorrer de seus olhos. O garoto espiou por cima do ombro do ruivo, derramando algumas lágrimas também.
— Você... não devia ter dito aquilo... — murmurou Alan, pausadamente, enquanto movia-se para o lado, perdendo a proteção de Grell e obtendo contato visual com o loiro. — aquilo foi horrível! E você ainda quer que eu te perdoe? — disse olhando de forma indignada para Eric.
— Eu sei que eu errei, mas estou aqui para te pedir perdão... — gritou o loiro, caindo de joelhos no carpete escuro, com lágrimas pingando de seu queixo. — Foi apenas porque eu fiquei chocado! Não devia ter dito aquilo... por favor... um grande amor não se acaba assim! — disse entre os soluços sofridos. Alan minguou seus lábios, deixando um ruído escapar por entre eles.
— Não posso... você nos magoou muito. — negou o pequeno, pousando sua mão sobre o próprio ventre. William arregalou os olhos, chocado com a revelação, mas logo em seguida ele girou os olhos até Eric, com um brilho assassino.
— Como pôde fazer isso? — questionou o moreno, furioso. O loiro soluçou novamente e William o puxou para cima com força. — que tipo de ser desalmado você é? — esbravejou preparando-se para socar o rosto de Eric.
— Eu mereço, pode bater, bata com toda a sua força... depois do que eu fiz, mereço um castigo pior que a morte. — disse o loiro com os olhos baixos e as grossas lágrimas escorrendo pelo semblante triste. Porém antes que William, levado por sua fúria, agisse como Eric pedira, Alan correu até ele e segurou seu punho.
— Não! — gritou o menor enquanto para o outro. — eu... não... consigo... — murmurou pausadamente jogando-se contra o loiro.
Por causa do impacto e pela falta de apoio que Eric dispunha ambos caíram no chão. Alan, que estava por cima do loiro, lhe beijou os lábios encostando suas testas.
A expressão confusa de William foi rapidamente percebida por Grell, que enlaçou seus dedos aos do maior, fazendo-o olhar para si. O ruivo sorria de forma alegre enquanto observava os amigos reatarem seu compromisso. William, mesmo sem entender direito, deu de ombros e abriu um pequeno sorriso, passando seu braço sobre os ombros do amado.
— hum... cheguei em má hora? — perguntou Ronald batendo na porta do apartamento que se havia sido esquecida aberta, permitindo que qualquer um que passasse pelo corredor pudesse visualizar todos aqueles acontecimentos. Alan corou abruptamente e saiu de cima do loiro, que também estava levemente ruborizado.
Grell riu com aquilo e disse:
— Não, é na verdade uma ótima hora.
***
Quatro meses depois.
William olhava nervosamente para a porta enquanto acarinhava os cabelos ruivos do menor que estava aninhado em seu colo. Grell sentia-se dolorido e cansado, mas também muito feliz, sua barriga já estava bem visível e isso o fazia sorrir amplamente todas as vezes que se olhava no espelho. Por ambos terem decidido que não sairiam naquele dia, o ruivo trajava uma camisola de algodão folgada e cobria-se com um chambre vermelho enquanto William estava com uma roupa mais arrumada, como se esperasse alguém.
— Wiru... você está feliz? — perguntou Grell erguendo o rosto e observando a expressão ansiosa do outro. O moreno se sobressaltou suavemente e depois baixou os olhos até ruivo, sorrindo de forma suave, coisa que agora se tornara já costumeira para os outros shinigamis do departamento e para Grell.
— Se estou feliz? Eu estou exultante meu amor... — disse William, beijando-lhe a testa com carinho e acariciando a barriga do outro. — vocês são a maior alegria da minha existência e contanto que vocês estejam felizes, eu também estarei. — murmurou com um olhar apaixonado. “Awh, Wiru... como você mudou” pensava Grell alegre. — vocês estão felizes? — perguntou quase que retoricamente, mas o ruivo que era somente sorrisos entreabriu os lábios, surpreso.
— Me dê sua mão, rápido. — pediu Grell a procura da mão do maior. William franziu o cenho, confuso, mas “entregou” sua mão para o ruivo.
O menor segurou a mão do outro pelo seu dorso e a levou em direção a seu ventre, posicionando-a em um ponto especifico que não demorou a corresponder ao contado quente da mão alheia. Os olhos de William se iluminaram ao sentir o leve movimento contra seus dedos e ele abraçou o menor de forma carinhosa.
— Ele está feliz... — murmurou o ruivo com uma pequena lágrima de felicidade equilibrada no canto de seus olhos — E eu também estou — disse deixando a lágrima escorrer pela sua face. William também tinha lágrimas nos olhos, mas elas não escorreram como ele desejava, apenas ficaram lá, embaçando sua visão.
— Foi um ótimo presente de aniversário para sua mãe — falou o moreno ainda tocando a barriga do ruivo. Grell arregalou os olhos, surpreso. — Se aqueles idiotas conseguissem chegar no horário uma vez na... — o pensamento dito em voz alto de William foi interrompido por batidinhas na porta.
O ruivo levantou-se, cortando o contato com o corpo de seu amante e deslizou até a porta, abrindo-a e deparando-se com Eric, Alan e Tristan parados do lado de fora.
— Rapazes! Que surpresa! — exclamou Grell, cumprimentando cada um deles com abraços amigáveis.
Eric tinha em suas mãos dois lindos embrulhos, um branco com um laço carmesim e o outro, vermelho com um laço negro. Alan, que também já possuía a vida que crescia dentro de si mostrando-se a todo, vestia um vestido branco estampado com flores ericas* e tinha seus cabelos relativamente mais compridos. Tristan carregava um bolo todo confeitado nas cores vermelho, preto e branco, seus olhos de tom mel pousaram sobre o ruivo, admirando-o. O rapaz meio-humano ainda não se conformava com o fato de aquela formosa dama ser um homem e por isso o tratava com todas as formalidades dirigidas a uma mulher. O apresso que sentia por Grell mostrava que aquele jovem era muito diferente de seu pai, ele não herdara as partes ruins do DNA do akuma e isso satisfazia por demais William, mas o único sentimento que o jovem Tristan sentia pelos rapazes, tanto Grell quanto William, era carinho fraternal.
— Feliz aniversário Grell! — exclamou Alan, abraçando novamente o amigo, com um enorme sorriso no rosto. Eric moveu os olhos até o companheiro e os arregalou levemente.
— Não se esforce muito, lembre-se da sua saúde. — advertiu o loiro com um tom possessivamente preocupado. Alan riu e acenou murmurando um “hai, hai” enquanto adentrava no apartamento, sentando-se no sofá de dois lugares, que já havia se tornado um velho amigo por causa das horas que passara ali conversando com o ruivo.
Os dois rapazes menores começaram a conversar sobre como se sentiam e outros assuntos os quais sempre giravam em torno do futuro de seus filhos.
William ainda estava afoito por algum motivo desconhecido e, tanto Tristan quanto Eric, foram tentar amenizar a situação do amigo.
— Eu sabia que deixar sobre a responsabilidade daquele moleque estragaria tudo... — praguejava com tom sério. Eric deu alguns tapinhas nas costas do moreno e sorriu de canto.
— Relaxa Spears, se continuar dando na vista assim, ela vai desconfiar... — murmurou o loiro referindo-se a Grell. William prendeu a respiração e fechou os olhos, tentando acalmar seu coração. “Quem diria hein? O eu de algum tempo atrás nem cogitaria esta ideia” pensava lembrando-se da época negra de sua vida na qual lutou com unhas e dentes para reprimir o amor que sentia pelo ruivo.
— Calma Taylor, ele já chega... — disse Tristan tentando reconfortar o amigo. “Eu te avisei” era o pensamento do rapaz moreno. Ele realmente havia avisado ao outro que talvez não fosse boa ideia dar aquele nível de responsabilidade ao aloirado avoado, mas de nada adiantara.
Grell ria sobre algum comentário de Alan quando notou o nervosismo estampado na cara de seu amante, coisa que, mesmo com William se tornando mais expressivo devido ao tempo que passavam juntos, era suspeita.
— Wiru... — chamou o ruivo, recebendo uma olhadela em resposta — está tudo bem? — questionou lançando um olhar preocupado. William congelou. Como poderia ele mentir para Grell? Não, ele não poderia, não conseguiria. Sua sorte foi a de que batidas vieram da porta e ele correu para atendê-la.
— Sumimasen! Sumimasen, Spears-senpai! — exclamava o outro curvado para o moreno. William rangeu os dentes e assentiu, demonstrando aceitar as desculpas.
— Você trouxe? — perguntou o moreno com tom ameaçador. O aloirado se inclinou para trás, assustado, mas em seguida voltou ao normal, exibindo uma caixa de chocolates. — Melhor para você, agora me dê aqui e entre, fingindo que nada aconteceu. — murmurou entre dentes.
— H-hai! — assentiu Ronald entrando no apartamento com seu típico sorriso “de orelha a orelha”. — Que a festa comece, porque seu rei chegou! — disse brincando.
O aloirado cumprimentou tanto Eric quanto Tristan com pequenos tapas e soquinhos amigáveis, sendo puxado, pelo dono dos olhos mel, para um abraço um tanto quanto suspeito, porém tudo que o meio-humano lhe disse, em um sussurro, foi: “Taylor estava já pronto para te matar... fico feliz que tenha chegado antes de ele realmente fazê-lo”. Ronald corou com a frase do outro de deu meia volta, girando seu corpo para trás e fitando Grell e Alan, que riam de forma abafada, comprimindo seus lábios com as mãos, olhando para a face ruborizada do aloirado.
— Qual é a piada mamãe? — perguntou Ronald andando até onde o ruivo estava. Grell levantou-se do sofá e abriu os braços, esperando um abraço do mais novo, que logo o envolveu, cuidadosamente. — Feliz aniversário Grell-san — desejou, sorrindo amplamente.
— Obrigada querido. — disse o ruivo, sorrindo de volta para o amigo.
William caminhou até Grell e parou ao lado de onde os dois estavam, lançando um olhar que dizia “Dê-me licença ou eu quebro sua cara” para o aloirado, que prontamente cedeu o espaço ao dono da casa. O moreno segurou as mãos do amante e o encarou de forma doce.
— Vamos comer o bolo? Depois poderá abrir seus presentes... — disse William com um tom charmoso e um olhar convincente. O ruivo assentiu sorrindo um pouco sem jeito. Já faziam muitos anos desde que tivera sua ultima festa de aniversário
Nisso todos os presentes andaram até a mesa, onde o bolo de confeitaria estava, e ficaram na volta do objeto. Eles então cantaram “Parabéns pra você” e por fim o ruivo soprou a vela única que estava presente acima do bolo. Depois de todos já terem se saciado com um pedaço do delicioso bolo de cereja, eles se reuniram nos sofás, cada convidado com seu respectivo presente.
— Primeiro o meu! — exclamou Alan sorrindo com os olhos e os lábios fechados. — quero dizer, nosso... — corrigiu-se, arrancando risos dos outros.
O pequeno estendeu ambas as caixas para Grell, que murmurou “Obrigada” enquanto deixava o embrulho branco no colo de William.
— Vejamos — disse animado enquanto desmanchava o laço na parte superior da caixa grande. Ele tirou a tampa e deparou-se com um belo vestido vermelho, relativamente simples, mas que muito o agradara. — É lindo Alan! Muito obrigada. — agradeceu sorrindo. — Agora o outro, eu suponho que não seja exatamente para mim não é? — deduziu, trocando de caixa com William. A embalagem era relativamente menor e, mesmo com a fita vermelha, delicado. De dentro da caixa, Grell retirou uma roupinha branca do tamanho de um recém-nascido. Os olhos do ruivo se encheram de água, emocionado. “Malditos hormônios” pensou limpando as pequenas lágrimas de felicidade que escorriam pela sua face. — É muito lindo. Obrigada meus amores. — agradeceu novamente.
— Não foi nada, nem precisava agradecer — disse Alan sorrindo ainda mais. Eric permitiu um sorriso de canto se prender em seus lábios e concordou com o companheiro.
— Certo, certo. Minha vez — disse Ronald estendendo uma sacola de tamanho mediano.
Seu presente era uma linda escova de cabelos de metal prateado com cerdas macias. Grell agradeceu e olhou para Tristan que também estendeu uma sacola, sendo esta mais refinada.
O ruivo abriu a sacola e lá de dentro retirou uma pequena caixa de música feita de louça com detalhes em ouro. Os olhos de Grell brilharam ao ver aquele objeto que lhe parecia familiar, pequenos fragmentos de memória vieram em sua mente e ele lembrou-se de ter visto tal item em uma de suas visitas a mansão Phantomhive.
Tristan lançou um olhar de cúmplice para William, que suspirou, com um pequeno sorriso no canto dos lábios.
— Agora vem o meu... — disse William, levantando-se e indo até a cozinha, onde deixara a caixa que Ronald lhe trouxera. O moreno suspirou buscando coragem para encarar Grell.
O ruivo levantou-se e olhou para a porta da cozinha, por onde William vinha caminhando, trêmulo.
— Tudo bem Wiru? — perguntou Grell, preocupado com os tremores do outro. William balançou sua cabeça e assentiu. — Não parece... — murmurou tocando o ombro do outro com a destra.
— Estou bem. Agora que tal provar esses chocolates que comprei para você. — sugeriu levando um dos doces até sua boca, deixando parte dele para fora. Grell compreendeu o que o outro quis dizer e foi até seus lábios, mordendo o chocolate e logo sentindo algo duro em sua mordida. O ruivo decidiu entreabrir os lábios e afastar seu rosto do de William, espantando-se ao ver que um anel dourado estava entre os dentes brancos e alinhados de seu amante.
— I-isso é s-sério? — gaguejou surpreso. William levou seus dedos aos lábios e de lá retirou a aliança, ajoelhando-se na frente do ruivo, que levou a mão aos lábios.
— Claro que sim. — respondeu o moreno — Grell Sutcliff, você que se casar comigo? — perguntou com convicção. Grell estava em êxtase e respondeu com confiança.
— Sim, Wiru bobo, ainda pergunta?
***
Um ano e cinco meses mais tarde:
— Grell, pode ir um pouco mais para direita? — pediu Tristan, segurando a câmera fotográfica.
O ruivo vestia o vestido que ganhara em seu aniversário do ano anterior e se encontrava sentado em um banco de pedra escura em uma praça pública de Londres. Em pé ao seu lado direito estava William, trajando um terno de alta costura, com um pequeno sorriso nos lábios, levemente impaciente com a demora do amigo para tirar a foto. Sentado no colo de Grell estava um menininho de cabelos ruivos, vestido com um terninho escuro, que brincava com uma mecha do cabelo de sua mãe. Seu nome era Garrett, o filho do casal Spears que completava naquele exato dia seu primeiro ano de idade.
Ao lado dos ruivos estava Alan, trajando um vestido violeta escuro, com seus cabelos castanhos, que estavam compridos o suficiente para que fosse facilmente confundido com uma dama, presos em um coque alto. No colo do moreno, uma pequenina garota vestida de branco ressonava tranquilamente. Eric, em pé do lado oposto ao de William, também vestia um terno, mas sem colete, pois disse que “pinicava” demais.
— Alan, acorde Ellen para tirarmos a foto — pediu novamente ao rapaz, que sentia pena de acordar a pequena, que dormia tão calmamente. — Eric, arrume sua postura! — ordenou Tristan, tentando manter a paciência. — Ronald Knox, venha aqui imediatamente! — chamou com ira na voz.
Ronald brincava com a água de uma fonte próxima, cena esta que era verdadeiramente adorável aos olhos do fotógrafo que se apressou em registrar aquele momento.
— Tristan! — Chamou Grell, fazendo o rapaz olhar-lhe. — Venha aqui. — disse balançando a mão para que o outro se aproximasse. O garoto andou até o amigo afeminado e o questionou-o com o olhar. — Se desja alguma coisa... basta pedir — disse dando um largo sorriso enquanto aninhava o filho entre os braços, recebendo um beijo gentil do marido em sua testa, que também sorriu ao pensar que tudo começara por causa daquela frase.
O meio-humano olhou para o aloirado, que ainda estava sentado na fonte brincando com a água, e suspirou antes de caminhar em sua direção.
Tristan se aproximou suavemente e Ronald apenas notou que o outro estava atrás de si quando seu rosto foi refletido na água da fonte, causando-lhe um pequeno sobressalto que o fez cair no chão.
— Tristan! — exclamou surpreso. O dono dos olhos mel sorriu para o outro e o ajudou a levantar-se. — Obrigado — murmurou desviando prendendo os olhos ao chão. Tristan segurou o queixo do aloirado, que corou em resposta, e depois o soltou.
— Ronald, você quer... — disse o moreno com tom sério. O menor tinha os olhos arregalados e seu coração disparado. — pelo amor dos céus, voltar para aquele banco para que eu possa tirar essa maldita foto? — vociferou apontando para o lugar onde estava antes. Ronald soltou o ar que segurava em seus pulmões e fechou os olhos, agradecendo internamente.
O aloirado correu até o lugar indicado e ficou parado atrás dos rapazes que seguravam suas crianças, sorrindo. Tristan suspirou, andando de volta para o lugar onde estava antes e arrumando novamente a câmera.
— Olha o passarinho! — exclamou olhando pelo pequeno visor do objeto, atraindo a atenção dos dois pequenos que olharam para ele com seus olhinhos esmeraldinos brilhando em expectativa.
A foto foi tirada e câmera de impressão automática logo a revelou.
Todos saíram lindos e olhando para a foto, incluindo as pequenas impacientes crianças de colo, que até sorriam, mas o surpreendente foi que Tristan aparecia nela, mesmo sem nem ter se movido de lugar, ao lado de Ronald e sorrindo.
Notas finais
Certo, é bem bobinha, mas eu gostei muito de escrevê-la.
Dedico de coração a MissSutcliffSpears que me incentivou e me motivou (sem ameaças de morte) a escrevê-la.(risos)
Ela deu bastante trabalho para ser escrita, pois nos ultimos dias a luz tem caído direto e ela volta e cai de novo, parece até um bêbado. Dai depois que eu terminei, 'cadê a internet? cadê? Sumiu!
***
Pois é, tenho realmente volta de de dizer milhões de coisa aqui, mas não gosto de deixar biblias nas notas das histórias, portanto vou direto ao clichezão das notas:
Obrigada por ler, espero que tenha gostado e se puder deixar aquele comentariozinho sobre o que acho, deixaria-me muito feliz.
Kissus de cubinhos de açúcar. (muito "de" nessa frase não?)
Mais uma vez, muito obrigada por ler.
Ass.: M. Michaelis
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