Se o Mundo Ruir
5 Capítulo 5 - Descoberto
O Irmãozinho do Inimigo
Capítulo 5 – Descoberto
Seiya se sentia mais e mais frustrado. Ele havia passado a manhã toda nesta sala idiota de arquivos que cheirava a mofo e poeira, revirando dúzias de caixas com documentos, mas até agora não havia encontrado nada.
Este era o orfanato onde Ikki Amamiya fora criado, antes de ser enviado a treinamento. Não era o mesmo orfanato onde ele e seus amigos haviam crescido, então não haviam conhecido Ikki quando crianças. Se ele realmente tivesse um irmão, a dedução lógica era que também tivesse vivido aqui.
Mas até agora, Seiya não havia achado qualquer vestígio do tal irmão, ou do próprio Ikki. Essa gente mantinha uma pasta bem organizada para cada órfão que já morou nesse lugar, mas mesmo cobrindo um período de vinte anos, Seiya não encontrou um traço sequer dos malditos Amamiyas. Isso significava que Fênix tinha, a certa altura, se livrado de sua própria pasta de documentos, e se tivesse um irmão, da dele.
A diretora do orfanato, uma senhora japonesa miúda por volta dos quarenta anos, havia sido firme em preservar a confidencialidade dos ex-residentes, se recusando a responder perguntas ou permitir Seiya acesso aos arquivos. Mas quando ele a entregou um cheque com uma grande quantia, 'por parte da Fundação Kido para ajudar a tomar conta desses pobres órfãos,' a mulher havia mudado de idéia, dizendo que não haveria mal algum em ajudar ao 'rapazinho tão simpático'. Dali em diante, ele tinha acesso total aos registros e aos empregados do local.
Nenhum dos funcionários, infelizmente, lembrava-se do franguinho queimado, pois todos eram relativamente novos ali; nenhum dos mais antigos trabalhava mais no local. Seiya teria que pressionar a diretora para obter o endereço de um deles, se algum ainda estivesse vivo. Era só uma questão de tempo até que encontrasse alguém que conhecera Fênix quando criança, e que saberia se o vilão desprezível tinha ou não um irmão.
Ele e os outros já estavam nessa há dias, procurando por quaisquer registros públicos a ver com o inimigo, mas a criatura arisca havia conseguido eliminar todo e qualquer vestígio seu, como se ele não existisse. Era de enfurecer! Seiya desejou ser possível ir atrás de todos os indivíduos de mesmo sobrenome, mas Amamiya não era tão incomum assim; seria praticamente impossível tomar esse rumo.
Enquanto Seiya fechava uma caixa de arquivos que havia acabado de revirar, e estava a colocando de volta na prateleira, com um suspiro, pronto para pegar outra, a porta se abriu e Shiryu entrou. Ele não esperava ver seu amigo antes de hoje à noite na mansão, e estranhou.
“Shiryu? O que está fazendo aqui?”
O chinês o avistou e sorriu, um brilho vitorioso em seus olhos. Shiryu segurou o braço do amigo com familiaridade, o sacudindo de leve com entusiasmo. “Nós o encontramos, Seiya! Encontramos o irmão do Ikki!”
“O quê??? Mesmo?” Os olhos de Seiya se arregalaram, tentando assimilar a informação, mas logo ficaram menores e cheios de malícia, acompanhados de um sorriso. “Quem o encontrou, e como?”
“Ainda não sei de detalhes. Saori me pediu que viesse atrás de você. Ela vai nos contar tudo na reunião.”
Os dois amigos deixaram o quartinho empoeirado às presas, se dirigindo à Mansão Kido o mais rápido possível.
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Seiya não conseguia parar de se mexer e de se mover pela sala. Ele sabia que estava agindo como um daqueles molequinhos de dois anos de idade em sua cadeira alta de bebê, pulando e mexendo as pernas e quase virando a cadeira, ansioso para ser posto no chão e poder ir brincar. Mas era difícil ser paciente quando estavam para ouvir notícias tão importantes! Saori se recusava a dizer uma palavra até que o último deles estivesse presente.
“Cheguei!” Hyoga correu pela porta. Finalmente. “Perdi alguma coisa?”
“Não, estávamos esperando por você,” Shiryu disse.
“Ok, rapazes, vamos começar,” Saori disse. “Por favor, sentem-se.” Eles rapidamente encontraram um lugar no sofá, olhando para a sua deusa cheios de expectativa. A garota, estando de pé na frente deles como se fosse uma professora prestes a iniciar uma aula, continuou: “Como vocês três já ouviram falar, a Fundação Kido foi capaz de verificar que Ikki Amamiya tem, realmente, um irmão. Enquanto vocês procuravam-no nas ruas, também fazíamos uma busca interna, usando nossos computadores e nossos muitos recursos.”
“Quem é o cara?” Seiya perguntou.
Saori o lançou um olhar reprovador pela interrupção, e continuou, ignorando a pergunta: “Mas mesmo com toda a nossa tecnologia, recursos financeiros e humanos, simplesmente não conseguíamos encontrar registro público nenhum sobre Ikki. Não havia nada a ser encontrado; esse homem de alguma forma apagou todos os traços de seu passado e de sua existência.”
“Como se fosse um fantasma,” Shiryu disse.
“Sem dúvida, Ikki fez um grande esforço pra se proteger,” a deusa continuou, “para permanecer irrastreável, e para se assegurar de que seus adversários não tivessem acesso a informações que poderiam ser usadas contra ele. Contudo,” ela pegou uma folha de papel que estava sobre a mesa de canto, e a entregou a eles, “hoje nossos computadores encontraram isto.”
Seiya, que estava sentado no meio dos dois, agarrou a folha e a segurou para que seus companheiros também pudessem vê-la. Passou os olhos sobre ela, uma cópia colorida de um formulário com o logotipo da companhia telefônica no topo, preenchida com uma caneta verde em uma escrita manual, meio feminina e infantil. Estava no nome de Shun Amamiya.
“Este é um novo registro com a empresa telefônica, processado ontem,” Saori explicou. “No momento em que tornou-se ativo, nossos computadores o traçaram e o baixaram. Foi muita sorte termos programado nosso sistema para constantemente procurar informações sobre Ikki, já que essa conta foi fechada poucas horas depois de tornar-se ativa. Agora mesmo, esse documento nem existe mais; de alguma forma foi apagado do sistema da empresa telefônica.”
Seiya leu o documento. Incluía o endereço residencial, número de identidade, data de nascimento, ocupação, e informações de pagamento. A conta era para ser enviada a Ikki Amamiya, no mesmo endereço, e a linha de relacionamento dizia “irmão”.
“Realmente o pegamos,” Shiryu disse mais a si mesmo, como se não pudesse acreditar.
“O idiotinha não tem muita inteligência, deixando uma evidência como essa pra trás,” disse Seiya.
“O que podemos obter deste papel é que seu nome é Shun Amamiya,” Hyoga disse, “tem dezesseis anos, o que o faz sete anos mais novo do que Ikki—”
“—e dois anos mais novo do que nós,” disse Seiya.
“Ele ainda é um estudante,” Hyoga continuou, “e não vive longe daqui, talvez uns vinte minutos de distância. Ele não mora com o Ikki, ou então o nome do irmão estaria aqui ao invés do dele. Mora sozinho, ou divide o lugar com alguém, mas considerando os problemas de confiança que Ikki tem, aposto que mora só. Porque a conta foi cancelada e apagada em tão pouco tempo depois de ser aberta, está claro que o telefone foi ideia do Shun, que deixou de consultar o irmão primeiro. Também, como a informação de pagamento aponta, e pelo fato de o mais novo ainda ser um estudante, é seguro dizer que Ikki é responsável financeiramente pelo irmão.
“E você tirou isso tudo desse pedaço de papel???” Seiya não deveria estar surpreso; Hyoga sempre foi bom em deduzir muita coisa através de pouca informação.
“Além disso, agora temos prova que Ikki protege seu irmão caçula ferozmente,” Hyoga disse, pensativo. “Não é algo casual; essa proteção é bem planejada e cuidadosamente executada. Deve ser bastante trabalhoso para Fênix manter escondida qualquer associação com o irmão. E a pergunta a se fazer agora é: por quê?”
“Com certeza esse Shun também é um cavaleiro, que pode se defender muito bem em caso de um ataque. Ou será que há alguma chance de ele não ser um cavaleiro?” disse Shiryu.
“Fala sério?” Seiya exclamou. “Sem chance! Isso é um Ikki em miniatura de que estamos falando. Ele pode não ser um cavaleiro famoso, já que nunca ouvimos falar dele, mas é com certeza um guerreiro. Mesmo se não houvesse passado por um treinamento oficial para cavaleiro, o que duvido muito, Fênix o teria treinado ele mesmo.”
“Seiya está certo,” Saori disse. “Não podemos subestimá-lo só porque sua fama de guerreiro ainda não chegou a nossos ouvidos, ou porque ele é dois anos mais novo do que vocês. Não esqueçam que ele é irmão de Ikki e, muito provavelmente, uma versão mais jovem dele, tão perigoso e malicioso quanto. Apenas presumam que todo conhecimento que Ikki possui, todas as suas conexões com figuras maléficas, todas suas técnicas e habilidades de luta, foram passadas a Shun.”
“Ah, merda!” Seiya disse, revirando os olhos para cima. “Um Amamiya já era demais para fazer de nossas vidas um inferno. E agora temos dois!”
Shiryu riu com vontade quebrando a tensão no ar, enquanto Saori fez um esforço para conter uma risadinha.
“Desculpe-me, Saori,” Hyoga interveio, “mas não estamos nos precipitando um pouco aqui? Não temos nenhuma evidência de que esse tal Shun seja um guerreiro. Sim, provavelmente ele é, mas até que saibamos mais, não podemos descartar a possibilidade de que ele seja apenas uma pessoa normal, um civil, e que não tenha nada a ver com as atividades criminosas de Fênix.”
Shiryu gargalhou novamente, dessa vez acompanhado de Seiya. Quando se acalmou, disse: “Hyoga está para nos contar que ele também acredita em Papai Noel e no coelhinho da páscoa. Esperem só!”
“E provavelmente na Fada Azul, e na terra de Oz, com mágico, estrada de tijolos amarelos e tudo!” Seiya adicionou, ainda rindo.
“Isso não é possível, Hyoga,” disse Saori, sua expressão séria, mas incapaz de esconder um certo divertimento dos olhos, “então não se preocupe.”
Hyoga não parecia convencido, mas se controlou para não dizer mais nada.
“Eu ainda estou curioso sobre o porquê de Ikki ter escondido seu irmão durante todo esse tempo,” Shiryu disse. “Será que esse Shun luta rotineiramente, talvez usando um nome diferente? Ou talvez ele batalhe num lugar longe daqui, e é por isso que nunca ouvimos falar dele?”
“Estou certa de que, apesar de sua identidade e sua conexão com Ikki terem sido mantidas em segredo, ele próprio não têm se escondido,” Saori disse. “Nenhum guerreiro fica longe de batalhas, Shun deve ser ativo, muito provavelmente trabalhando diretamente com o irmão. De fato, quando vocês o virem, talvez o reconheçam de lutas passadas.”
“E sua conexão com o Ikki tem sido mantida em segredo por quê?...” Hyoga indagou. “Poderia ser preocupação fraterna?
Seiya fez um ruído de desprezo. “Como se aquele frango queimado tivesse uma pena sequer em seu corpo capaz de preocupação com outro ser humano. Hyoga, você é romântico demais!”
“Provavelmente, isso foi um esforço da parte de Ikki em preservar sua melhor aliança," Saori disse. "Não se esqueça, Fênix não trabalha sozinho, ele precisa de aliados para atingir seus objetivos. E não pode confiar na maioria deles, estou certa, já que ele só se associa com tipos criminosos que estão atrás de dinheiro, poder, e pela vontade de causar estrago. Esse tipo de gente não tem valores morais, e não hesita em trair um aliado quando lhe é conveniente. Ikki provavelmente vê o irmão como a única pessoa a quem pode confiar totalmente, e para ele isso não tem preço, valendo a pena se fazer de tudo para preservar. Shun certamente pode se defender sozinho, mas se for visto como o irmão de Ikki, vai virar alvo de muita gente.”
“Isso faz sentido,” Shiryu disse.
“E agora, o que faremos?” Seiya perguntou.
“Agora, rapazes, vocês têm uma missão a cumprir.”
Todos os olhos estavam sobre ela. A pele de Seiya chegou a se arrepiar com entusiasmo ao ouvir a palavra missão.
“O plano é o seguinte: vocês irão até o endereço que está no formulário. Irão usar o elemento surpresa no ataque. A idéia não é travarem uma longa batalha e derrotar o guerreiro, como de costume, mas dominá-lo o mais depressa possível e trazê-lo com vocês.”
“Nós vamos sequestrar o cara?” Hyoga perguntou. Ele não parecia confortável com a ideia.
“Você pode usar esse termo, sim,” ela confirmou.“Tentem não feri-lo demais no processo, pois nos será mais vantajoso usar esses métodos mais tarde, para forçar o Ikki a fazer nossa vontade.”
“Você está falando de tortura???” O russo estava escandalizado.
Seiya também estava surpreso. Não que ele não sentiria o maior prazer em torturar o irmão de merda do Fênix – isso, ele iria! Mas normalmente, os Cavaleiros de Bronze lutavam contra seus inimigos honradamente, e depois cada qual seguia seu caminho, pelo menos quando ambos os lados sobreviviam. Mas esse negócio de sequestro, seguido de tortura e chantagem, isso era algo novo para ele. Será que a Saori realmente disse isso?...
“Embora isso soe desagradável e condenável,” a garota disse, tendo a gentileza de ter um ar culpado, “eu sinto que, neste momento, os fins justificam os meios. Ikki está fora de controle, e subjugá-lo tornou-se nossa prioridade máxima. Shun é nosso único trunfo, nossa única maneira de atingi-lo, a menos que vocês tenham uma sugestão melhor.”
Ninguém respondeu.
“Não preciso nem lembrá-los sobre a arma que Ikki está ajudando o Grupo Hatori a contruir, agora mesmo enquanto conversamos. Ou as consequências para todos os cavaleiros se sucederem. O trabalho todo que ele nos dá, não preciso mencionar. Vocês já se esqueceram sobre a garota que morreu na explosão do laboratório?”
Os rapazes a olharam com arrependimento; Hyoga também, mas ainda não parecia muito convencido.
“Achei que não,” ela continuou. “Quantos inocentes mais morrerão, ou irão se ferir, a não ser que detenham aquele homem? Esse é o único jeito, rapazes.”
“Odeio dizê-lo,” Shiryu falou, “mas a Saori está certa. Normalmente eu recusaria em participar de tal coisa, mas dentro das circunstâncias, agir assim é completamente justificado.”
“E não é como se estivéssemos fazendo mal a uma pessoa de bem,” Seiya disse. “Esse merdinha é com certeza um monstro, igual ao irmão. Não tenho o menor problema em ir atrás dele, e ensiná-lo uma boa lição.”
“Eu ainda acho que vocês estão exagerando,” Hyoga disse. “Não me levem a mal. Racionalmente, tenho que concordar com a lógica da Saori, que faz muito sentido. Mas meu instinto me diz que esse plano é muito errado, e que não pode ser justificado.”
“Ainda bem que isto não é uma democracia,” Shiryu murmurou.
“Hyoga, se seguíssemos seus instintos sentimentais, não faríamos nada a metade do tempo!” Seiya acusou. “Você já deveria ter aprendido que, em uma vida de Cavaleiro, ser mole é uma fraqueza que vai acabar o matando.”
Saori estava zangada. “Hyoga, se quiser ser dispensado desta missão, agora é a hora de se pronunciar. O Shiryu e o Seiya me serão suficientes; o que não posso aceitar é alguém indo contra o plano, arriscando pôr todo nosso esforço água abaixo.”
Hyoga pensou sobre isso. “Não, Saori. Você pode contar comigo. Jurei lhe seguir e obedecer suas ordens, e se você acha mesmo que essa é a melhor forma de agir, confiarei na sua sabedoria e farei o que pede.”
Ela sorriu ao loiro. “Ótimo.”
“A gente deve trazer o cara aqui?” Shiryu perguntou.
“Não, de jeito nenhum!” Saori disse. “A Fundação Kido não pode ser associada com essa missão de jeito nenhum; acho que não preciso lhes dizer do impacto negativo que a empresa sofreria se a imprensa ouvisse uma palavra sobre isso. Por isso, vocês levarão Shun Amamiya a uma de nossas propriedades que está em outro nome – lhes darei o endereço em um momento – e ficarão por lá até que a situação seja resolvida. Vocês não irão me contatar no meio-tempo. Se algo der errado, poderei negar qualquer envolvimento, pelo bem de Atena e da Fundação.”
“Então como saberemos como agir em determinados momentos?” Hyoga perguntou. “Isso certamente não será um assunto fácil, nem será resolvido em um dia. Estaremos incertos de como proceder enquanto a situação se desenrola.”
“Vocês têm a minha permissão para usar de bom senso e decidir qual é a melhor linha de ação a seguir, do começo ao fim,” Saori disse. “E têm minha permissão para ser tão brutais quanto necessário. Sei que essa situação é nova para todos nós, e talvez vocês tenham dúvidas em como proceder em certos momentos. Mas confio em vocês fazerem o melhor possível. Lembrem-se: tudo que estamos tentando fazer é forçar Ikki a desistir de nos enfrentar. Isso não deverá ser tão difícil, desde que joguem esse jogo de forma inteligente, e que não hesitem em usar seu irmão para consegui-lo.”
“Quando faremos isso?” Shiryu perguntou.
Saori sorriu. “Hoje à noite. Vão fazer as suas malas para uma longa estadia, e estejam prontos.”
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Continua...
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