Se o Mundo Ruir

3 Capítulo 3 - Irmãos



Meia hora depois, Ikki ouviu a porta da frente abrir-se e alguém entrar. Em poucos segundos, o recém-chegado atravessou a porta da sala de estar. Quando viu Ikki ali parado, sobressaltou-se, olhos arregalados mostrando susto e medo. Um momento depois, porém, seus olhos mostraram reconhecimento e seus lábios se abriram em um sorriso enorme.

“Ikkiiiiiiii!!!” ele exclamou, e disparou como um trem-bala até seu visitante, atirando-se em seus braços com força e fazendo o outro quase perder o equilíbrio e cair para trás. “Nii-san, você finalmente veio! Estou tão feliz de te ver!”

Ikki gargalhou. “Também estou feliz de te ver, Shun.” Só mesmo seu irmãozinho caçula para demonstrar afeição e entusiasmo tão espontaneamente, sem se segurar ao mínimo! Ele sempre foi assim, desde garotinho: tão caloroso, tão aberto com seus sentimentos, tão amoroso. Tudo o que Ikki não era. Ele apertou seu irmão um pouco mais forte de encontro ao peito, desfrutando do amor e calor humano que eram tão raros em sua vida.

Pois Shun era a única pessoa neste mundo que se sentia feliz ao vê-lo; o único a quem ocorreria a ideia de abraçá-lo. A presença de Ikki era recebida pelos outros de forma vastamente diferente, normalmente incluindo golpes e ataques provenientes de Cosmos, o uso de armas, provocações e insultos. E medo, claro. Enquanto Shun corria até ele cheio de alegria, qualquer outro correria tão rápido na direção contrária.

O garoto levantou a ele seus grandes, brilhantes olhos verdes cheios de adoração. “Você quase fez meu coração parar – pensei que houvesse um estranho a minha sala!” disse sem recriminação. “Não posso acreditar que esteja aqui. Senti tanto a sua falta!” O mais jovem enterrou o rosto no peito do mais velho.

Enquanto passeava os dedos pelos cabelos verdes do irmão, levemente massageando sua cabeça, Ikki foi assaltado uma sensação que não lhe era familiar. Ele simplesmente não sabia o que era. Algo parecia ter trancado em sua garganta, impedindo a passagem normal de ar, e havia uma dor estranha no seu peito, do lado esquerdo. Ele pensou em suas lutas mais recentes, tentando lembrar de algum golpe em particular que possa ter causado danos no peito ou garganta, mas nada lhe ocorreu.

Será que ele estava… ah, inferno… se sentindo emotivo??? Ikki fez um ruído de desdém em resposta à idéia ridícula. Era só o que faltava; claro que não! Ele era um homem frio e sem emoções, com um coração de pedra; qualquer um que o conhecia concordaria. Só porque ele estava sendo atacado com quantidades massivas de afeição, não significava que ele iria sucumbir e ficar fraco. Ele não era do tipo. Sim, a dor no seu peito (que agora estava um pouco mais pronunciada) deve ter provido de um pontapé ou golpe particularmente bem dado, de que ele tinha se esquecido. Afinal, ele não podia memorizar cada golpezinho que recebia no dia-a-dia, oras! Ele iria simplesmente ignorar a dor até que passasse, que é como lidava com a maioria de seus ferimentos.

Ikki amava a criatura à sua frente, é claro. Como não poderia? Como qualquer um poderia não adorar esse garoto de olhos enormes, com íris que refletiam sua alma claramente; esse menino sensível que dava tanto amor de graça? Alguém tão puro, tão inocente. No mundo de Ikki, todos eram praticamente o oposto: maliciosos, rancorosos, egoístas, impessoais, enganadores. E frequentemente cheios de ódio, vingativos, malignos. Seu irmão era uma pequena estrela em um universo de escuridão total. Sua estrela brilhante.

Como aconteceu de duas pessoas tão diferentes terem nascido do mesmo pai e mãe, Ikki jamais entenderia.

“Não creio que vá me contar o que diabos está fazendo vestido em uma fantasia de carteiro?” Shun disse, diversão em seu rosto.

Ikki lhe mandou um olhar sério, de poucos amigos, por resposta.

“Claro que não!” Shun riu. “Da mesma forma que você não explicou a fantasia de entregador de pizza que vestiu da última vez em que esteve aqui. Ou a roupa de limpador e esgoto, antes disso.”

“Shun, eu já te disse, você não quer sa—”

“—‘Eu não quero saber’. É, você disse isso um milhão de vezes. Mas acho que finalmente descobri seus motivos.”

“Você descobriu?” disse Ikki, elevando suas sobrancelhas. Ele seriamente duvidava disso, mas deu corda ao rapaz mais jovem. “Então qual é a sua teoria?”

O garoto lhe deu um sorriso como quem sabia de um segredo, seu rosto avermelhando de leve. “Acho que você tem uma namorada que tem umas fantasias estranhas que envolvem você vestido como certos personagens.”

“Shun!” Seu irmãozinho caçula realmente acabou de disser isso?

Suas bochechas ficaram um pouco mais cor-de-rosa. “Ainda não descobri se você vai vê-la antes ou depois de me visitar; imagino que ela não more longe. Acho muito engraçado você se prestar a caminhar pelas ruas desse jeito, mas ei, desde que você esteja se divertindo…”

“Shun!” ele exclamou novamente. Por uma vez na vida, Ikki estava sem palavras. Sexo não era algo que ele e o irmão conversavam a respeito, muito menos assim casualmente. Primeiro porque sua vida privada não era da conta de ninguém; e segundo, porque seu irmão ainda era uma criança.

“Está bem, namorado então. Não importa; não é da minha conta. Ei, você quer um café?” Shun disse, intencionalmente mudando de assunto e já dançando até a cozinha.

Ikki estava sem palavras de novo. Ele balançou a cabeça; Shun obviamente estava crescendo.

Está bem, então com dezesseis anos de idade Shun talvez já não fosse mais criança. Ikki, aos dezesseis, tinha visto e experienciado mais desse mundo sórdido do que o típico homem de cinquenta. Agora ele tinha só vinte e três, mas se sentia com duzentos anos de idade. Ele era apenas um garotinho quando foi enviado a treinamento à Ilha da Rainha da Morte, e aquele inferno na terra o mudou para sempre, de tantos modos que ele preferia nem pensar.

Shun, de outra forma, teve muitíssima sorte de não ser incluído no programa. Ele foi descartado pela Fundação Kido como um cavaleiro em potencial por ser sensível demais, delicado demais, alguém que provavelmente morreria no primeiro mês de treinamento. Por isso o deixaram crescer no orfanato mesmo, ao contrario dos outros. Shun não teve exatamente uma vida boa e feliz, mas pelo menos ele sempre esteve seguro, e sua alma continuava intacta. Em comparação com os outros garotos que passaram por treinamento para se tornarem cavaleiros, ou outros órfãos em geral, Shun viveu uma vida segura e protegida, e não sabia nada das maldades desse mundo. Ikki não teria aceitado nada diferente.

Assim que Ikki ganhou sua Armadura de Fênix e terminou seu treino, tirou Shun do orfanato, e vinha tomando conta dele desde então. Bom, pelo menos de certa forma...

Ele foi até à cozinha. O adolescente já tinha tirado duas xícaras grandes do armário, e estava moendo grãos de café e mexendo nos controles da cafeteira ao mesmo tempo. Quando estava de visita, Shun sempre fazia a bebida forte e escura de que Ikki tanto gostava.

Shun não apenas fazia um ótimo café, mas era um cozinheiro excelente, e sabia tomar conta de si em um ambiente doméstico sem o menor problema. Não era de se admirar, pois vivia sozinho há anos. Os irmãos nunca haviam morado juntos, exceto bem no comecinho, depois que Ikki tirou Shun do orfanato. Ficou imediatamente claro que a proximidade geral de Ikki não era um lugar bom para um garoto crescer. Ikki não apenas teria sido um exemplo horrível a seu irmão menor, por causa de sua vida de crime e batalhas, mas pior: seus muitos inimigos representariam uma ameaça constante ao menino. Ikki percebeu muito cedo que Shun apenas estaria seguro longe dele, o mais distante possível, e o mandou a viver sozinho. Naquela altura, Ikki contratava ajuda para manter um olho no irmão mais novo (empregadas que vinham uma vez ao dia, limpavam e cozinhavam, e iam embora), mas Shun já havia passado daquela fase há muito tempo. No momento, Ikki continuava tomando conta do irmão financeiramente, e o protegia de tantas formas que Shun provavelmente nunca saberia. Mas ele não poderia oferecer muito de sua própria presença na vida do irmão.

Shun, por natureza muito sociável, e tão acostumado a viver rodeado de gente no orfanato, não se deu muito bem em sua nova solidão. Ele sempre odiou viver sozinho. Mais do que tudo, ele morria de vontade de viver com o irmão a quem adorava, e não podia entender por que o “trabalho” de Ikki não o permitia. O pobre garoto nunca desistiu de implorar para ir morar com seu irmão mais velho. Partia o coração de Ikki vê-lo tão triste – ‘Não,’ ele corrigiu aquele pensamento, ‘meu coração e’ forte e inquebrável.’ O que ele poderia ter feito?

Como se lesse seus pensamentos, Shun virou do balcão, uma xícara cheia da bebida deliciosamente aromática e fervente em sua mão. Ele estendeu o braco, oferecendo-a a Ikki, então ergueu seus grandes olhos cheios de mágoa a ele. Aquele olhar, por si só, trouxe sentimentos estranhos de culpa em Ikki.

“Tentei contatá-lo mutas vezes, sabe,” Shun murmurou, parecendo não querer soar acusatório, mesmo que suas palavras já o fossem.

Ikki suspirou, colocando a xícara quente na mesa atrás de si. Ele sabia exatamente o rumo que essa conversa estava tomando.

“Eu postei vários bilhetes para aquela caixa postal que você me deu,” Shun continuou, “mas não recebi resposta sua.”

“É porque eu tenho estado realmente ocupado, Shun. Pedi que você só me escrevesse em caso de emergência. Mas me convidar para uma visita social não constitui uma emergência.”

“Mas eu não te via há um tempão!” o garoto reclamou. “Faziam três meses, Ikki! Eu não tinha a menor idéia onde você andava, ou mesmo se estava bem!”

‘Eu estava bem; mas as vinte e poucas pessoas que matei naquele tempo, nem tanto.’ Mas ele não poderia dizer isso. Ao invés, disse: “Eu também gostaria de poder te ver mais seguido, irmão, mas você sabe que eu não posso. Você sabe que viajo o tempo todo, lidando com vários assuntos importantes ao mesmo tempo.”

‘Por exemplo, roubando metais de terra raros de universidades, explodindo laboratórios, ajudando na construção de uma arma que irá virar o mundo de todos os cavaleiros de ponta-cabeça.’ Mas Shun não precisava saber disso. Definitivamente não.

“Mas nesse caso, você poderia me dizer onde está em um certo dia, e eu iria até você!”

‘E então poderíamos fazer juntos coisas de irmãos, como sequestrar e torturar gente para obter informação.’ “Shun, não é como se eu estivesse sentado num quarto de hotel em algum lugar, não fazendo nada. Eu trabalho longas horas, e estou disponível à empresa vinte e quarto horas por dia. Eu simplesmente não tenho muito tempo livre. Você sabe disso.”

‘E quando tenho, uso-o para infernizar a vida dos Cavaleiros de Bronze. Afinal, devemos fazer bom uso de cada minuto.’

Shun suspirou fundo, derrotado. “Está bem, o que seja. Mas me explica novamente por que eu não posso ao menos te ligar. E não me diga que a sua empresa não tem telefone!”

‘Não trabalho em uma empresa, trabalho para mim mesmo, garoto idiota.’ Ikki estava começando a perder a paciência, mas controlou-se para não o demonstrar. “Claro que tem. Mas telefonemas são apenas para negócios, eles não permitem o uso para assuntos pessoais. E já que viajo a maior parte do tempo, eu não estaria no escritório para receber sua ligação, estaria?”

“Alguém poderia anotar um recado,” Shun tentou, incerto.

“Sim, claro. Até parece que fariam isso.”

O garoto de cabelos verdes tomou um golezinho de café. “Muito bem. Então, quem sabe assim: eu compro um telefone para este lugar, e você usa um orelhão para me ligar?”

'E dar aos meus inimigos um jeito fácil de nos conectar e te rastrear? Não, obrigado.' No fundo, a insistência do irmão trazia a Ikki uma pontinha de alegria. Contornar suas perguntas inconvenientes podia ser chato, mas significava que alguém nesse mundo queria estar perto dele, queria ao menos ouvir sua voz. Ikki tomou um gole de café; estava delicioso. “A maioria dos lugares aonde vou são remotos, Shun. Eles não têm orelhões.”

“Mas quando você estiver aqui em Tóquio--”

“Ok, já basta!

Shun fez cara de culpado. “Creio ser tarde demais. Eu sabia que você iria se opôr, então tomei a iniciativa.” Ele moveu a cabeça em direção ao balcão de canto, apontando para algo.

Um telefone.

Os olhos de Ikki se arregalaram.