Se o Mundo Ruir
11 Capítulo 11 - Nova Realidade
Notas iniciais
Sua consciência voltava lentamente e, com ela, uma agonia insuportável que caiu sobre si repentina e arrasadora. Parecia que, de repente, um raio havia caído sobre sua cabeça e a partido ao meio.
O garoto gemeu alto e instintivamente ergueu as mãos à cabeça; mas ao invés de alívio, o gesto apenas redobrou a dor. Uma dor diferente, aguda, no pulso direito e outra no tórax, na altura das costelas. O garoto gritou e deixou as mãos tombarem de volta à cama. Ficaria o mais quieto possível esperando aquilo passar. Que raios havia acontecido com ele???
Em poucos segundos, lembrou-se de tudo. Arregalou os olhos em pânico, e começou a respirar descompassado. A sombra na sua sala, que ele havia pensado ser o irmão. O estranho com a fantasia de latão. Os absurdos que ele dizia, sem eira nem beira. A sensação de perigo iminente, de uma catástrofe que ele sentia não ter como impedir. A perseguição. Fuga. Medo. As acusações que ele não entendia. A luta pela própria vida. Finalmente, o ataque. Os golpes que choveram impiedosos e impossivelmente dolorosos e rápidos sobre si. Sua total inabilidade para defender-se. A certeza pavorosa de que iria morrer nas mãos daquele louco. E por fim a escuridão, que o abençoara e o livrara de toda a agonia.
Depois, nada.
Nem sempre as coisas terminavam assim tranquilas. Uma vez, lembrou-se, ainda sem ousar mover-se de onde estava deitado, Ikki havia estado muito doente. Havia caído de uma escadaria, estava todo machucado e com febre alta. Shun havia cuidado dele, não arredou pé da cama do irmão até que se recuperou. Mesmo desacordado, Ikki havia se debatido e obviamente sofria. Shun tinha tido sorte de não sentir nada enquanto estava fora de si.
Exceto por uns momentos, lembrou-se. Quando havia sonhado. Sim! Havia sido um sonho lindo, onde um anjo loiro belíssimo o protegia e lhe transmitia paz. Shun sorriu com a memória. Por alguma razão, seu corpo doera inteiro durante esse sonho, mas valeu tanto a pena.
Depois, a inconsciência novamente... até acordar aqui.
Mas aqui aonde? Que lugar era este? Como viera parar aqui?
Sentia um colchão macio abaixo de si, então obviamente estava numa cama. Não reconhecia o teto cinza de tinta um pouco descascada. Devagar, com medo da dor lancinante voltar, virou um pouco a cabeça para olhar ao seu redor. Estava em um quarto simples que tampouco reconheceu, uma cadeira e uma mesinha simples sendo os únicos móveis além da cama. Como fonte de luz, apenas uma lâmpada fraca pendurada do teto – não havia janela. Haviam duas portas, ambas fechadas. O ar estava um pouco abafado, com um cheiro de pó e mofo; cheiro de um lugar que não havia sido usado há tempos. Mas o lugar não parecia sujo, e o lençol abaixo de si era branquinho. De qualquer forma, estava longe de ser um quarto convidativo e aconchegante.
Se seu irmão houvesse o encontrado, não o teria trazido a um lugar desses. E de enfermaria, aqui não tinha cara nenhuma. Será que algum vizinho o encontrara e trouxera a seu apartamento? Ou será que...
Não.
Será que ainda estaria à mercê daquele louco???
A probabilidade de esse ser o caso o encheu de horror. Sua respiração descompassou ainda mais, o medo fazendo-o arfar ruidosamente. Os olhos verdes estavam arregalados, e seu corpo ferido passou a tremer de ansiedade. Tentou agarrar o lençol abaixo de si como suporte.
“Aaaaahhh!”, seu pulso direito o fez gritar. Largou o lençol imediatamente. Estaria quebrado?
Não demorou muito até ter uma resposta sobre quem o tinha em mãos. Em poucos segundos, a porta se escancarou e um estranho entrou, batendo-a atrás de si e vindo em sua direção apressadamente. Shun entrou em pânico, temendo um novi ataque. Ignorando a dor que isso causava, sentou-se de um pulo, e moveu-se se para trás e em direção à parede o máximo que pôde, mantendo a maior distância possível entre si e o estranho. Ergueu as duas mãos espalmadas à sua frente, em um pedido mudo para que parasse – e também como uma barreira para esconder-se atrás. Um soluço involuntário escapou de seus lábios.
O estranho estancou no lugar – já perto da cama – e ergueu as mãos como que mostrando que estava desarmado. Um gesto cujo sentido literal não fazia mais sentido nessa época moderna, mas cujo significado permanecia o mesmo: ‘não pretendo te machucar’.
Shun percebeu que o rapaz era alguns anos mais velho do que si, alto, de traços orientais – chinês, quem sabe – atraente, de cabelos bastante longos, lisos e compridos.
“Ouvi um grito,” o moreno falou depois de alguns momentos. “Você sente alguma dor?” Sua voz era calma, quase zen, e desarmava tanto quanto seu gesto anterior.
A postura e jeito do desconhecido não pareciam ameaçadores. O menino hesitou por um momento, mas acabou relaxando um pouco. “Meu pulso,” disse timidamente, em um fio de voz.
“Posso ver?” o moreno pediu, ainda sem se mover.
Shun fez que sim com a cabeça, de leve.
O desconhecido se aproximou, devagar desta vez. Sentou-se na cama, e com um gesto pediu pelo braço do menino. Shun chegou mais perto, mordendo o lábio inferior para não gemer de dor com o movimento – mas como seu lábio estava partido, isso só piorou as coisas. Lidando com a dor da melhor forma que pôde, e também com o seu medo e desconfiança, timidamente ofereceu o braço para o outro inspecionar.
O rapaz oriental tomou-o nas mãos, e passou a tocá-lo em várias partes, com dedos leves e gentis, obviamente tentando não machucá-lo. De repente estavam mesmo em uma enfermaria, Shun pensou, pois o rapaz não se comportava como um louco ou como um bandido.
“AI!” o menino gritou, quando uma parte particularmente sensível foi tocada.
O chinês largou-o imediatamente. Levantou-se e encaminhou-se até a mesinha. Pegou um estojo branco que estava depositado ali. Shun olhava-os de olhos bem abertos, atento a cada movimento. Deveria confiar no rapaz? Sua intenção seria ajudá-lo ou fazer mal a ele? Ele era alto, e parecia ser bastante forte, apesar de ter um corpo esguio; seus músculos eram compactos mas bem definidos. Além disso, havia uma aura de poder, de força naquele desconhecido. Se quisesse feri-lo, Shun não conseguiria defender-se, isso era evidente. Mas, confiando ou não, que escolha ele tinha?
O desconhecido sentou-se novamente na cama e abriu o estojo. Shun espiou seus conteúdos, e gelou ao ver vários itens médicos, entre eles seringas, uma tesoura e um bisturi.
“O que ele pretende fazer comigo???”, o menino pensou, congelado, já imaginando aqueles itens afiados cortando a sua pele e fazendo correr o sangue.
Percebendo o seu susto, o moreno ficou calado por um momento, como se estivesse ponderando o que dizer. Selecionou uma pomada, espremeu um pouco do conteúdo no próprio dedo e enfim comentou, “Isso vai ajudar com a dor. Seu pulso não parece estar quebrado, mas deve haver alguma pequena fratura ou área comprometida, então é melhor imobilizar e deixar quieto por uns dias.”
Enquanto falava, pegou o pulso machucado do garoto e aplicou a pomada, em uma massagem deliberadamente leve. Feito isso, voltou ao estojo e selecionou um rolo de gaze, que enrolou da metade do antebraço do garoto até parte da mão, ao redor do dedo polegar.
Shun estudava seu rosto de traços bem feitos, muito atento, tentando formar uma opinião sobre o seu enfermeiro improvisado. Tinha muitas perguntas a fazer, mas hesitava, temeroso. Até agora o rapaz havia sido bastante gentil com ele, mas até que soubesse o que estava acontecendo, não queria abusar de sua sorte.
“Pronto,” o moreno comentou, após selar sua bandagem com uma fita adesiva branca. Pegou um pano fino branco do estojo e confeccionou uma tipóia de improviso, colocando-a em volta da nuca do menino e poiando ali seu braço, depois fazendo um nó. “Você não precisa usar isso o tempo todo, mas assim fica mais confortável. Por sinal, como estão suas costelas?”
“Ãh?” o menino indagou, surpreso. Como ele sabia que?... Olhou para si mesmo e colocou a mão boa por baixo da blusa do pijama, notando algo mais áspero do que a sua pele. Não havia notado isso antes. Ergueu um pouco a blusa e viu que parte de seu tórax estava enrolado em uma faixa.
Isso o incomodou. Não gostava da idéia de ter sido tocado enquanto esteve desacordado e indefeso. Por outro lado, o moreno só o havia ajudado até agora. Considerou mntir, mas acabou optando pela verdade.
“Dói aqui, quando eu me movo” disse com voz tímida, apontando para o local exato, na altura das costelas. “Por acaso algo está quebrado?”
“Não creio. É difícil dizer com certeza sem um raio-x, mas se uma costela estivesse quebrada a dor seria bem mais intensa. Parece ser o mesmo caso do seu pulso; apenas uma pequena lesão que vai curar sozinha dentro de poucos dias. O local estava bastante arroxeado e feio, então foi fácil de perceber.”
O moreno calou-se, com uma expressão estranha. Havia dito poucas palavras até o momento, depois desandara a falar. Devia ter decidido que o melhor era calar-se, pois assim o fez. Pôs-se em pé e coletou o estojo de primeiros socorros. Pareceu lembrar-se de algo; pegou uma cartela, tirou três tabletes e os estendeu ao garoto. “Para sua cabeça,” disse. Digiriu-se até à porta sem mais uma palavra.
“Espere!” pediu o menino. O moreno parou, segurando a porta semi-aberta, de costas para ele. “Quem é você? Me diga onde eu estou, por favor.”
O moreno hesitou. Ainda de costas, virou apenas o rosto, mirando o menino de lado. “Meu nome é Shiryu Suiyama. Descanse, garoto. Você está precisando.” E sem mais, saiu do quarto, fechando a porta. Houve um barulho de chaves, e em seguida de uma fechadura trancando do lado de fora.
Pelo menos, isso respondia a uma de suas perguntas. Shun não tirava os olhos da porta, meio que em choque. Então caiu em si, entendendo sua nova realidade. Suas esmeraldas marearam.
“Me fizeram prisioneiro,” murmurou, ao mesmo tempo em que duas lágrimas pesadas rolavam pela face.
Continua...
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