Viver numa cidade maravilhosa não é tão simples e paradisíaco quanto as propagandas e os turistas dizem que são. Queria eu morar numa cobertura do Leblon e estar neste momento em uma praia do Flamengo, Ipanema, Copacabana (ainda é permitido nadar por lá?) ou qualquer um desses oásis preenchidos de areia, vento feito de sal e toneladas de água furiosa misturada ao esgoto. Queria eu ser a tal burguesinha da música de Seu Jorge, que vai à academia, ao cabeleireiro e… sei lá, esqueci o resto da música. Não é fácil morar numa cidade maravilhosa e não conseguir aproveitá-la, ainda mais quando há uma forte pressão da mídia nacional que estrangula seu pescoço lhe dizendo que você mora num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, e que sim, para você ser feliz aqui deve vestir número 36 e beber cerveja num bar com os amigos todo santo dia.

Quero deixar bem claro que não sou contra aos praticantes deste estilo de vida, muito pelo contrário, confesso a minha inveja por eles. Afinal de contas, sou uma pobre estudante de Direito (e quando digo pobre não se trata de atrair a sua piedade, mas que de fato estou sem um puto no bolso), que mora na Freguesia de Jacarepaguá, um bairro que está a 15 minutos da praia se você estiver andando de carro às 4 horas da manhã. Moro num apartamento estilo caixa de fósforo: dois quartos (ou espaços para se colocar uma cama seria o termo mais adequado), um banheiro feito para uma pessoa só (pois no dia que duas pessoas entrarem Newton será considerado um impostor) e uma cozinha triangular, e pode anotar aí que no dia que eu topar com o engenheiro desse prédio vou perguntar qual foi a merda que ele fumou para planejar uma cozinha de três quinas.

Ah, desculpe-me se estou soando um pouco rude e impaciente. É certo de que esta não é a melhor forma de me apresentar. Mas entenda: hoje minha mãe começou a implementar uma dieta sem gordura e glúten aqui em casa, e eu não estou com saco para levar uma vida saudável. Não neste momento. Sabe, no dia em que eu for fiscal da Receita Federal, morar numa cobertura no Leblon e levar a vida da burguesinha de Seu Jorge, aí estarei pronta para uma dieta sem gordura e sem glúten. Mas agora, tudo que eu estou precisando é de um Big Mac com fritas. Não me julgue.

Bem, permita-me uma segunda chance para me apresentar, desta vez de maneira mais simpática. Sim, eu sou uma pessoa simpática. Dizem que a primeira impressão é a que fica, mas não neste caso, não nestas linhas. Meu nome é Eleonora Silva e Santos. Isso mesmo, essa desgraça aí. Porque não existe falta de originalidade maior do que ter um sobrenome Silva seguido de Santos. É como já nascer sem ter uma identidade autêntica – meus dois sobrenomes são os mais comuns do país, e isso significa que minhas duas linhagens possuem a mesma origem que mais da metade da população brasileira. Isto para mim não seria um problema se praticamente todos os meus amigos não tivessem um sobrenome estrangeiro e legal para por no nickname do Facebook, porque não importa se um de seus sobrenomes é mais comum que pombo em fio elétrico se o outro pode salvar o seu futuro nome de doutor ou de artista. Enfim, cá estou eu resmungando novamente. Pode me dar uma terceira chance? Eu juro, de verdade verdadeira, que sou uma garota simpática e legal.

Meu dia se inicia às 5 da matina, quando acordo (pelo menos nos meus planos eu acordo às 5) e me arrumo para ir à faculdade de Direito na Santa Maria de Mattias, que fica Gávea. Uma nota: a Gávea é bem longe da Freguesia e levo em média duas horas para chegar, e sim, eu me atraso para a aula todos os dias. O engraçado é que sempre me disseram que quando eu fosse para a faculdade eu poderia entrar e sair da sala de aula quando eu bem entendesse, mas não me falaram que seria julgada pelos olhares de desprezo dos professores – o que na maioria das vezes é bem pior do que levar uma advertência ou voltar para casa. A faculdade é a origem do alfa e o ômega dos meus problemas, pois uma dieta saudável não poderia ser a causa de tanto rebuliço em minha vida. Semana de provas, extinção da minha vida social e extermínio das horas extras de sono são apenas contratempos na rotina de qualquer universitário, e logo também não são os meus maiores problemas.

O meu maior problema tem nome e sobrenome (bonitos e autênticos), dois olhos, um nariz e uma boca (põe bonito nisso), e um charme incorrigível (subentende-se safado). Estou falando de Marco Lorenzo Vittorelli: estudante de Direito, 22 anos, filho de dois italianos naturalizados no Brasil e aprovado com louvor por mais de 80% da sociedade feminina. Se ele é meu namorado? Pago promessa na escada que leva ao Cristo Redentor se um dia for. Digamos que sou uma admiradora secreta, não tão discreta, mas secreta. Eu sei que sou idiota por esperar algo dele, de acreditar que ele é o homem da minha vida e que vamos ter dois filhinhos de olhos verdes chamados Frederico e Francesco, mas esta é a minha situação atual e a única coisa que peço é me deixar curtir minha dor sem ser criticada. Por que só existe uma coisa pior do que paixão não correspondida: paixão calada.

Notas finais
e aí, gostou? Deixe um comentario!! :D