Notas iniciais
Olá, queridos leitores! Passando novamente para agradecer pelos novos leitores que estão acompanhando a história. A Fic está superando as minhas expectativas. Obrigada!!

Hoje a minha mãe chegou estressada do trabalho, e provavelmente isto se deve aos seus queridos alunos. Como resultado, ela está meditando há duas horas e não aguento mais ouvi-la repetindo a mesma frase “eu sinto muito, me perdoa, obrigada e eu te amo”, e fechar a porta do quarto não está adiantando muito. Liguei para Clarice, minha recente amiga que conheci na faculdade, para irmos ao cinema. Vesti uma blusa de alça preta e coloquei um jeans rasgado (o qual minha mãe detesta, pois na época dela roupas rasgadas eram roupas de mendigo) e coloquei pela primeira vez naquela tarde o meu pé para fora do quarto. Deparo-me com a seguinte cena: minha mãe sentada com pernas de chinês no pequenino espaço entre o sofá e a televisão, os braços levantados para o alto com as mãos juntas em forma de reza e os olhos comprimidos enquanto sua boca se move na intensidade de uma prece. Ela escuta a porta bater e abre um dos olhos, que me cruzam com um ar fatal.

_ Sabe que não gosto dessa calça. Na minha época, se você saísse desse jeito as pessoas te confundiriam com um mendigo – Ela retruca, ainda mantendo um dos olhos fechados feito um pirata caolho.

_ Mãe, na sua época as pessoas nem saíam. Elas ficavam em casa, ouvindo o LP do Roberto Carlos – Brinco, arrancando um sorriso amplo da pirata meditadora.

_ Eu gostava mais de Dominó – Ela devolve. – Divirta-se, querida.

Pego o ônibus e sento na primeira cadeira, aquela solitária que fica atrás do motorista. Já que eu não posso usufruir do conforto de um carro próprio, que ao menos eu vá de camarote na Mercedes-Benz coletiva. Coloco meus fones de ouvido, que insistentemente caem das orelhas enquanto o grande monstro de ferro empenado sofre solavancos ao passar pelas crateras das pistas de Jacarepaguá. Marco tem um Veloster prata da Hyundai, o carro esportivo que só possui dois lugares. Há o lado bom e ruim nisso: o primeiro lado é que ele fica tremendamente sexy num carro esportivo, eu sei disso porque ele também costuma chegar atrasado para as aulas e eu sempre o vejo estacionando em frente à faculdade. Considero o auge do meu dia semanal: vê-lo abaixar o vidro automático e colocar a cabeça para fora, usando óculos escuros estilo Aviador, para olhar no retrovisor enquanto dá a ré para entrar na vaga. É quando eu desacelero meu passo e levo mais alguns minutos para entrar no prédio, apenas para esperá-lo e podermos pegar o elevador juntos. Aí ele diz:

_ E aí, beleza?

E eu respondo, quase aos suspiros:

_ Sim, tudo ótimo. E você?

_ Melhor impossível.

Marco abre seu sorriso magnético e eu fico esperando que ele me diga algo a mais, mas ele nunca diz. Já pensei várias vezes em puxar assunto, contudo estudamos no segundo andar e não ficamos mais que trinta segundos dentro do elevador. O lado ruim de um carro esportivo é que para mim um carro é igual a um cachorro: ambos são semelhantes ao dono. Um carro esportivo tem a famosa reputação do cara bon vivant: um lugar é para ele, e o outro para a mulher que não passa da primeira noite. O grande porta-malas socado imediatamente atrás diz tudo: eu quero experiências, e não filhos. Tanto o lado bom como o lado ruim são lados da mesma moeda: Marco Vittorelli é um safado de etiqueta maior.

Chego ao New York City Center (estou me referindo ao shopping, e não à cidade), e aguardo aos pés da cópia da grande Estátua da Liberdade, conforme havia combinado com Clarice. Ergo meu olhar para o alto e penso: por que recriar uma Estátua da Liberdade no Rio de Janeiro? Aliás, por que nomear um shopping brasileiro de New York City Center? Fica cada vez mais óbvia a aversão do nativo às suas origens. É uma realidade que está sendo concretizada em vários aspectos: no mundo musical, o mais evidente. Também os brasileiros não têm culpa, após a morte de Renato Russo o melhor que tivemos foi Restart e NXZero. No âmbito da literatura, a preferência pelos livros estrangeiros é avassaladora. Afinal de contas, sempre nos foram ensinados que o melhor escritor que nós temos é Machado de Assis, e se ele é realmente o melhor, ou o brasileiro é analfabeto ou ele é cego, porque nunca vi ninguém lendo Machado de Assis por pura e espontânea vontade. E por último, no contexto cinematográfico: só eu achei estranhamente bizarro os filmes NACIONAIS com personagens falando em INGLÊS? Quer dizer, a vantagem de se ver um filme nacional é que você não precisa ler legenda, mas parece que agora tem.

Clarice chega para interromper as minhas análises críticas, e nós assistimos a um filme da Disney. Por que, sabe, nós sempre teremos uma desculpa para ver os filmes da Disney: primeiramente porque somos crianças, depois porque queremos relembrar de quando éramos crianças, e depois porque nós fazemos companhia para as nossas crianças. Agora estamos no California Coffee, bebendo um Mocha. Observo Clarice fazendo o irritante barulho de sucção com o canudo, enquanto posta uma foto no Instagram. A vontade de contá-la sobre minha paixão irrefreável por Marco é bem grande, e as palavras estão presas na minha garganta somente esperando a primeira oportunidade para saírem pela boca. Completa-se um mês e meio desde que ele e eu almoçamos naquele dia, e ainda não contei a ninguém sobre o que estou sentindo. Não conto porque eu sei o que as pessoas irão me dizer (ao menos as pessoas que o conhecem) e elas me persuadirão a esquecê-lo. E eu não quero esquecê-lo. Na verdade, acho que não consigo. Existe um limiar entre a paixão passageira e a paixão permanente: o primeiro, você ainda consegue se livrar como um resfriado e o segundo, o consome feito um câncer. E eu provavelmente já extrapolei todos os limiares que existe. Clarice é uma garota naturalmente bonita, embora não dê muita mínima para vaidade. Para ser sincera, ela não dá a mínima para quase nada. Está quase reprovando Direito Constitucional e Ética Civil, e parece que isso não está afetando sua vida nem um pouco. Talvez ela também não ligue para a minha paixão platônica, talvez apenas sirva de ouvidos para as minhas lamúrias. É exatamente o que estou precisando: de ouvidos, e somente ouvidos. Um canal para liberar todo o lago represado dentro de mim. Tomando coragens feito um pombo que cata suas migalhas de pão, finalmente abro e boca e anuncio, com uma felicidade ingênua na face:

_ Preciso te contar algo.

Clarice deixa de lado o celular e abandona o canudo mordiscado, franzindo a testa para mim.

_ O quê? – Ela pergunta, e como sempre sua voz carrega uma curiosidade dissimulada. Clarice deixa bem claro às pessoas que a vida delas não interfere na sua, mesmo que ela não saiba disso.

_ Eu estou gostando de alguém. Do Marco Vittorelli. – Confesso, mordendo o lábio inferior. Sinto a minha represa interior sendo destruída, e a correnteza da água voltar a fluir em seu estado natural.

_ Você e toda a faculdade, né? – Ela fala, revirando os olhos.

_ Não, Cla. Eu estou gostando mesmo dele. O lance é sério.

Clarice bufa e sua franja voa para o alto. Leva alguns instantes para refletir sobre a bomba que foi jogada em suas mãos, e responde, aproximando-se mais à mesa:

_ Marco não presta. É uma cilada, Bino. Todo o mundo sabe o que ele apronta, e é uma total perda de tempo querer algo sério com ele. – Eu me enganei. Clarice está reagindo igual a qualquer outra pessoa.

_ O que ele apronta? O que ele faz de tão ruim? – Replico, soando mais rude do que pretendi ser.

_ Vai me dizer que não sabe?

_ Não – Murmuro, recolhendo-me no assento.

_ A última que eu ouvi dele foi no churrasco que o Bernardo deu em casa. Sabe o Matheus? O loirinho metido a surfista? Poisé. Ele foi atrás de um banheiro e acabou se perdendo, porque dizem que a casa do Bernardo é uma mansão de três andares. Mamado de cerveja do jeito que devia estar, o Matheus acabou entrando em um dos quartos e encontrou Marco, Renata e Isabella trepando na cama elegantemente no que os franceses chamam de ménage à trois.

Fico alguns segundos paralisada, com aquelas palavras soltas no ar. Meu rosto deve ter tomando uma cor vermelha, de raiva e vergonha, e depois passou para um verde, de enjoo. Este é o meu príncipe libertino? Este é o cara que eu deposito meus desejos?

_ Ah, pare com toda essa inocência Nora. Deixe os contos de fadas para os filmes da Disney – Ela diz, voltando a se entreter no seu celular.

Renata e Isabella. Faz total sentido. As duas não desgrudam de Marco, sempre cheias de mão boba que desliza pelo seu peito e acaricia seus cabelos. Eu não as suporto, pois são duas piranhas nojentas de voz irritante, com tanto silicone nos peitos que este deve ter subido para o cérebro. Porém, mesmo que aos meus olhos elas sejam as piores pessoas do mundo, é inegável que são lindas, super artificiais, mas lindas. Ah, talvez Clarice esteja correta. Eu devo guardar a minha inocência para os filmes da Disney.