Se o Amor é uma Ilusão, Deixe-me Ser Iludida
28 Capítulo 27
Notas iniciais
A mesa se estende de uma ponta a outra na sala de jantar, deixando um ar de vazio ao ter apenas cinco cadeiras ocupadas. O pranto principal é salmão grelhado ao molho de maracujá, o qual posso desconfiar que é o preferido de Marco (ele não sabe disfarçar uma cara de prazer). Felizmente posso me dar ao luxo de esquecer o roteiro de conversa planejada, pois Nathalie se revelou uma maritaca sem papas na língua.
_ Então vocês todos estudam na mesma sala – Ela comenta, dando uma garfada no peixe entre bebericadas no vinho tinto.
_ Eu não – Replica Allais, cortando meticulosamente a posta em pequenos cubos rosados. – Faço Moda na Pontifícia Católica. Minha mãe é estilista numa agência de Milão, e pretendo seguir seus passos me mudando para lá assim que terminar o curso. – Ela explica, evidenciando um quê de superioridade.
_ Interessante. E seu namorado, o que acha disso tudo? – Nathalie pergunta a Tomas, erguendo as sobrancelhas.
O inglês pigarreia, procurando uma resposta rápida.
_ Eu a apoio. – Ele apenas diz, voltando para o seu prato.
_ Sério? Então pretendem continuar o relacionamento à distância? A não ser que também planeje morar em Milão.
Antes que Tomas possa arquitetar outro argumento, Allais se manifesta antes com ar incisivo.
_ Nós ainda não planejamos um futuro juntos. Preferimos manter as coisas como estão.
_ Hmm... como já disse o poeta, que seja eterno até que acabe. – Insinua Nathalie, fazendo com que Marco arregale os olhos para ela do outro lado da mesa.
_ Acredito que o verso correto é que seja eterno enquanto dure. – Corrige Allais, mantendo um sorriso sem dentes dissimulado.
_ Eu sei, querida. – Devolve Nathalie.
Acho que estou começando a gostar da irmã de Marco.
_ E você, Nora? Já faz muitos planos com Marco? – Incita Allais, olhando-me diretamente com frieza.
_ Aaah... a gente... – Troco olhares desesperados com Marco, que também mantém a boca aberta de maneira inexpressiva. – A gente está planejando visitar sua família na Itália, não é amor?
_ Sim, sim. Nas férias de final do ano. – Logo concorda Marco, aliviado.
_ Nossa, de fato o relacionamento de vocês está alcançando um patamar mais longínquo que a faculdade previu. – Desdenha Allais, simulando um semblante surpreso.
_ Como assim? – Interrogo, impulsivamente.
_ Quer dizer, eu não sei de muita coisa, mas Tomas me mantém informada a respeito de todos os boatos da Maria de Mattias. E vocês estão na posição número 1 do ranking de melhores fofocas. – Ela continua, deixando o rosto de Tomas incandescer em questão de segundos.
_ Estamos, Tomas? – Lanço para ele, espantada.
_ Aaah... é natural, meu maninho sempre foi muito popular em todas as escolas, não é mesmo, Lorenzito? – Intercede Nathalie, jogando a bola para o irmão.
_ Claro, claro. E não existe fama sem paparazzis, logo sou alvo de muitas notícias falsas – Brinca Marco, com um riso que rapidamente murcha.
_ Tudo o que eu ouvi dizer a respeito de vocês foram coisas boas. Votos para que o namoro dê certo, concertezamente é isso – Esclarece Tom, aparentemente desconfortável com o assunto.
_ Essa palavra não existe. – Observa Allais revirando os olhos, com rispidez.
_ Desculpe – Ele diz, baixinho.
_ E você está omitindo algumas verdades. Como amigo de Marco e Nora, seu dever é alertá-los sobre o que falam pelas costas deles. – A francesa persiste, fingindo uma indiferença.
_ Se possui tanta preocupação assim, por que você mesma não os alerta? – Propõe Nathalie, inclinando-se sobre a mesa em busca de acalorar a discussão.
Allais encara o namorado, que mantém uma face frígida e contrariada. Ela dá de ombros e se ajeita no assento, acariciando a toalha da mesa enquanto fala.
_ Já que esta função coube a mim, assim o farei então. Digo de passagem que tudo o que revelarei veio de uma única fonte, que se chama Tomas Parker – Ela assegura, soltando um riso ensaiado. – Na verdade, há várias teorias de conspiração que seguem diferentes vertentes. Alguns dizem que o namoro entre vocês é uma farsa, que é apenas um meio para apaziguar a reputação da Nora depois daquela... noite. Outros alegam que a Nora está com Marco somente pelo dinheiro, porque... como posso dizer isto sem ofendê-la? – Ela pensa por uns instantes, procurando palavras polidas. – Porque você pertence a uma classe inferior à nossa. Um pequeno grupo, constituído de mulheres principalmente, afirma que Marco é gay depois de algumas experiências... novamente Nora, perdoe-me... sexuais. – Ela faz uma pausa, deixando que um silêncio sepulcral reine sobre a mesa de jantar. – Mas é evidente que são apenas boatos. Imagina Marco, você gay? – Ela solta uma gargalhada deleitosa que ninguém acompanha. – Se bem não os culpo muito por pensarem assim. Quer dizer, dificilmente vocês demonstram afeto em público. Exceto em Búzios, claro... naquela vez vocês se supe...
_ Chega – Interrompe Tomas, encarando-a seriamente. – Será que sua diversão se concentra em apenas humilhar os outros?
_ Como disse? – Ela devolve, aturdida.
_ Você se diverte humilhando as outras pessoas. Isto é extremamente egoísta da sua parte. – Ele continua, pressionando o garfo na mão com tanta força que suas veias estão saltando pela pele alva.
_ E para sua informação, eu não me sinto ofendida em ser chamada de pobre. O que me ofende é a sua hipocrisia em querer envenenar a nossa amizade com Tomas – Retruco, com o ódio pulsando nas têmporas.
_ Amizade? Acha mesmo que ainda existe amizade entre vocês dois? – Ela desdenha, deixando Tomas mais aborrecido ainda.
Marco e Nathalie apenas trocam olhares pasmados, beliscando o salmão que está começando a esfriar nos nossos pratos.
_ Existe mais amizade entre nós do que amor entre vocês – Replico, e não sei de onde estou arranjando coragem para dizer tais coisas.
_ Poupe-me – Allais sussurra para si mesma. – Não vim de tão longe para escutar lições de uma vagabunda que está afim do meu namorado.
No mesmo instante em que ela profana a última palavra me ergo da cadeira num impulso, com as mãos fechadas em punho. Nathalie faz o mesmo e se mantém ao meu lado, enquanto Marco nos observa e se levanta por último, não sabendo muito bem o que deve fazer.
_ Nenhum anfitrião desta casa permitirá que qualquer um de seus convidados seja insultado desta forma – Determina a irmã, com revolta na voz.
_ Você está passando dos limites, Allais – Avisa Marco, receoso.
_ Já passou há muito tempo – Finaliza Tomas, com a cólera o predominando de uma maneira que nunca vi antes.
_ Quer saber, você é um descarado, Tomas. Assim que eu sair daqui, confesse aos seus amiguinhos qual a sua opinião sobre o namoro deles. Diga os seus mais puros e sinceros votos de felicidade: que ambos são dois vadios que se merecem. Agora me dê as chaves do carro.
Tomas se levanta ao seu lado, o rosto vermelho feito um pimentão.
_ Você só entrou na minha vida para destruí-la de uma vez por todas. Pegue as chaves e desapareça daqui – Ele retira do bolso o chaveiro do Grand Livina branco e joga sobre a superfície de madeira da mesa, fazendo um baque estridente do metal se chocando.
Com os olhos marejados e os lábios comprimidos, Allais apanha as chaves e deixa o recinto, ecoando o som de seus saltos sobre o piso de parquet encerado. Todos estão de pé, uns de frente ao outro, e Nathalie é a primeira candidata a quebrar a quietude:
_ Mas que jantar fodástico!
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