Notas iniciais
Eu queria escrever aqui uma frase de efeito legal, mas gastei toda minha imaginação no capítulo. Sniff.

A mesa se estende de uma ponta a outra na sala de jantar, deixando um ar de vazio ao ter apenas cinco cadeiras ocupadas. O pranto principal é salmão grelhado ao molho de maracujá, o qual posso desconfiar que é o preferido de Marco (ele não sabe disfarçar uma cara de prazer). Felizmente posso me dar ao luxo de esquecer o roteiro de conversa planejada, pois Nathalie se revelou uma maritaca sem papas na língua.

_ Então vocês todos estudam na mesma sala – Ela comenta, dando uma garfada no peixe entre bebericadas no vinho tinto.

_ Eu não – Replica Allais, cortando meticulosamente a posta em pequenos cubos rosados. – Faço Moda na Pontifícia Católica. Minha mãe é estilista numa agência de Milão, e pretendo seguir seus passos me mudando para lá assim que terminar o curso. – Ela explica, evidenciando um quê de superioridade.

_ Interessante. E seu namorado, o que acha disso tudo? – Nathalie pergunta a Tomas, erguendo as sobrancelhas.

O inglês pigarreia, procurando uma resposta rápida.

_ Eu a apoio. – Ele apenas diz, voltando para o seu prato.

_ Sério? Então pretendem continuar o relacionamento à distância? A não ser que também planeje morar em Milão.

Antes que Tomas possa arquitetar outro argumento, Allais se manifesta antes com ar incisivo.

_ Nós ainda não planejamos um futuro juntos. Preferimos manter as coisas como estão.

_ Hmm... como já disse o poeta, que seja eterno até que acabe. – Insinua Nathalie, fazendo com que Marco arregale os olhos para ela do outro lado da mesa.

_ Acredito que o verso correto é que seja eterno enquanto dure. – Corrige Allais, mantendo um sorriso sem dentes dissimulado.

_ Eu sei, querida. – Devolve Nathalie.

Acho que estou começando a gostar da irmã de Marco.

_ E você, Nora? Já faz muitos planos com Marco? – Incita Allais, olhando-me diretamente com frieza.

_ Aaah... a gente... – Troco olhares desesperados com Marco, que também mantém a boca aberta de maneira inexpressiva. – A gente está planejando visitar sua família na Itália, não é amor?

_ Sim, sim. Nas férias de final do ano. – Logo concorda Marco, aliviado.

_ Nossa, de fato o relacionamento de vocês está alcançando um patamar mais longínquo que a faculdade previu. – Desdenha Allais, simulando um semblante surpreso.

_ Como assim? – Interrogo, impulsivamente.

_ Quer dizer, eu não sei de muita coisa, mas Tomas me mantém informada a respeito de todos os boatos da Maria de Mattias. E vocês estão na posição número 1 do ranking de melhores fofocas. – Ela continua, deixando o rosto de Tomas incandescer em questão de segundos.

_ Estamos, Tomas? – Lanço para ele, espantada.

_ Aaah... é natural, meu maninho sempre foi muito popular em todas as escolas, não é mesmo, Lorenzito? – Intercede Nathalie, jogando a bola para o irmão.

_ Claro, claro. E não existe fama sem paparazzis, logo sou alvo de muitas notícias falsas – Brinca Marco, com um riso que rapidamente murcha.

_ Tudo o que eu ouvi dizer a respeito de vocês foram coisas boas. Votos para que o namoro dê certo, concertezamente é isso – Esclarece Tom, aparentemente desconfortável com o assunto.

_ Essa palavra não existe. – Observa Allais revirando os olhos, com rispidez.

_ Desculpe – Ele diz, baixinho.

_ E você está omitindo algumas verdades. Como amigo de Marco e Nora, seu dever é alertá-los sobre o que falam pelas costas deles. – A francesa persiste, fingindo uma indiferença.

_ Se possui tanta preocupação assim, por que você mesma não os alerta? – Propõe Nathalie, inclinando-se sobre a mesa em busca de acalorar a discussão.

Allais encara o namorado, que mantém uma face frígida e contrariada. Ela dá de ombros e se ajeita no assento, acariciando a toalha da mesa enquanto fala.

_ Já que esta função coube a mim, assim o farei então. Digo de passagem que tudo o que revelarei veio de uma única fonte, que se chama Tomas Parker – Ela assegura, soltando um riso ensaiado. – Na verdade, há várias teorias de conspiração que seguem diferentes vertentes. Alguns dizem que o namoro entre vocês é uma farsa, que é apenas um meio para apaziguar a reputação da Nora depois daquela... noite. Outros alegam que a Nora está com Marco somente pelo dinheiro, porque... como posso dizer isto sem ofendê-la? – Ela pensa por uns instantes, procurando palavras polidas. – Porque você pertence a uma classe inferior à nossa. Um pequeno grupo, constituído de mulheres principalmente, afirma que Marco é gay depois de algumas experiências... novamente Nora, perdoe-me... sexuais. – Ela faz uma pausa, deixando que um silêncio sepulcral reine sobre a mesa de jantar. – Mas é evidente que são apenas boatos. Imagina Marco, você gay? – Ela solta uma gargalhada deleitosa que ninguém acompanha. – Se bem não os culpo muito por pensarem assim. Quer dizer, dificilmente vocês demonstram afeto em público. Exceto em Búzios, claro... naquela vez vocês se supe...

_ Chega – Interrompe Tomas, encarando-a seriamente. – Será que sua diversão se concentra em apenas humilhar os outros?

_ Como disse? – Ela devolve, aturdida.

_ Você se diverte humilhando as outras pessoas. Isto é extremamente egoísta da sua parte. – Ele continua, pressionando o garfo na mão com tanta força que suas veias estão saltando pela pele alva.

_ E para sua informação, eu não me sinto ofendida em ser chamada de pobre. O que me ofende é a sua hipocrisia em querer envenenar a nossa amizade com Tomas – Retruco, com o ódio pulsando nas têmporas.

_ Amizade? Acha mesmo que ainda existe amizade entre vocês dois? – Ela desdenha, deixando Tomas mais aborrecido ainda.

Marco e Nathalie apenas trocam olhares pasmados, beliscando o salmão que está começando a esfriar nos nossos pratos.

_ Existe mais amizade entre nós do que amor entre vocês – Replico, e não sei de onde estou arranjando coragem para dizer tais coisas.

_ Poupe-me – Allais sussurra para si mesma. – Não vim de tão longe para escutar lições de uma vagabunda que está afim do meu namorado.

No mesmo instante em que ela profana a última palavra me ergo da cadeira num impulso, com as mãos fechadas em punho. Nathalie faz o mesmo e se mantém ao meu lado, enquanto Marco nos observa e se levanta por último, não sabendo muito bem o que deve fazer.

_ Nenhum anfitrião desta casa permitirá que qualquer um de seus convidados seja insultado desta forma – Determina a irmã, com revolta na voz.

_ Você está passando dos limites, Allais – Avisa Marco, receoso.

_ Já passou há muito tempo – Finaliza Tomas, com a cólera o predominando de uma maneira que nunca vi antes.

_ Quer saber, você é um descarado, Tomas. Assim que eu sair daqui, confesse aos seus amiguinhos qual a sua opinião sobre o namoro deles. Diga os seus mais puros e sinceros votos de felicidade: que ambos são dois vadios que se merecem. Agora me dê as chaves do carro.

Tomas se levanta ao seu lado, o rosto vermelho feito um pimentão.

_ Você só entrou na minha vida para destruí-la de uma vez por todas. Pegue as chaves e desapareça daqui – Ele retira do bolso o chaveiro do Grand Livina branco e joga sobre a superfície de madeira da mesa, fazendo um baque estridente do metal se chocando.

Com os olhos marejados e os lábios comprimidos, Allais apanha as chaves e deixa o recinto, ecoando o som de seus saltos sobre o piso de parquet encerado. Todos estão de pé, uns de frente ao outro, e Nathalie é a primeira candidata a quebrar a quietude:

_ Mas que jantar fodástico!