Se o Amor é uma Ilusão, Deixe-me Ser Iludida
21 Capítulo 20
Notas iniciais
A semana que se passou não me trouxe grandes sorrisos, tampouco bons sonhos. Apaixonar-se por Marco se tornou uma maldição, uma corrente que atou meus pés à uma âncora imóvel. Eu quero mais que tudo abandonar este sentimento que me toma feito um veneno sem antídoto, porém o único problema se concentra no fato de que ainda necessito beber deste veneno para sobreviver. Exatamente isso, sobreviver.
Viver já está fora do meu alcance.
Entre cobertas e travesseiros, gasto manhãs e tardes deitada na cama encarando o céu que constitui apenas um terço do quadrado da janela de meu quarto. O beijo dele se repete na memória e ainda posso senti-lo como o formigamento de uma leve e doce queimadura. O que mais me dói é saber que esse beijo nunca me pertenceu, nunca foi feito para mim. Marco provavelmente nunca deitou na sua cama e pensou na minha pessoa, e muito menos fantasiou como seria tocar meus lábios. Eu jamais terei a mesma importância que dei a ele, a qual doei sem nenhum mérito.
Ah, mamãe sempre esteve certa. Eles nunca olham para nós. Não da forma como desejamos. E às vezes até imploramos.
E talvez quem me veja dum ângulo distante e superficial, pense que já obtive muito para o tipo de garotinha que sou. É como falar para a tartaruga que ela já esteve tão próxima da lebre e que se deve contentar com isso. Mas a questão é: a minha intenção não é igual a um desejo capitalista, embora tente me enganar.
Talvez eu ame sim um idiota que nunca me procurou. Um idiota que apenas enxergou em mim oportunidades, e nada além. Mas por que o chamo de idiota? Idiota sou eu. Ele, na verdade, é tanto uma vítima que teve seu romance assassinado quanto do meu egoísmo, que somente quer tê-lo não importando suas preferências.
Embora não esteja no ânimo, vou arrastada para o fim de semana em Búzios na casa de praia da Natasha, após muita insistência das mattildinhas. Durante o caminho na estrada, espremo-me no banco traseiro com meus fones de ouvido, escutando uma trilha sonora para lá de depressiva com direito a Radiohead e Coldplay. Natasha e Gabriela estão na parte dianteira, conversando com altas risadas sobre fofocas e dilemas que não me importam mais. Colo a testa no vidro e observo os fios dos postes dançando em ondulações intermináveis, enquanto as rodas do carro correm sobre o asfalto quente. Hoje finalmente seria o tal dia em que Marco e eu consumaríamos o nosso relacionamento inexistente, e apenas agora paro para refletir sobre o que literalmente isso significa. Oh, céus. Sou virgem e guardo a crença de esperar o cara ideal para acontecer, e aqui estou eu (ao menos estava) entregando meu hímen para um estranho que apenas considero gato demais, e ainda por cima possui suspeitas de não gostar da fruta.
Ai Nora, ponha seus eixos no lugar. Eu sei, aqueles olhos verdes mexeram muito com você.
Como o de se esperar, a casa é um sonho de consumo paradisíaco: piscina aquecida, hidromassagem, sauna, quadra de vôlei e vista para o mar são apenas alguns itens. Chegamos cedo para organizar as compras de alimentos básicos e bebida (sim, 90% foi bebida). Aos poucos os convidados foram chegando e despejando suas malas em um dos cinco quartos para hóspedes, enquanto permaneci numa espreguiçadeira de frente para a piscina lendo um livro de Gabriel García Márquez. Sei que minha reputação com os outros colegas de classe já não é grande coisa, e com certeza perderei mais pontos agindo assim tão solitariamente. Porém, algumas vezes estamos tão destruídos por dentro que não há mais lugar para os outros colocarem terra na nossa cova.
Exceto... certas pessoas.
Escuto ao longe um sotaque indiscutivelmente... britânico. Rapidamente ergo o olhar cético das páginas, e meu coração dá um mini-ataque cardíaco. Ajeito o cabelo embaraço para trás das orelhas, e levanto do assento num pulo. Feito uma predadora, aproximo-me cautelosamente para a região anterior da casa, onde a voz que docemente confunde o Português com Inglês se encontra. Atravesso a sala de jantar, e por uma brecha entre a escada e o vão de entrada para o hall, consigo avistar a cabeleira loira e ondulada de Tomas no vão da porta da casa. Engulo em seco e me preparo emocionalmente para o reencontro após de três semanas sem nenhuma palavra trocada. Pelo menos da parte dele.
Devo ou não devo? Devo ou não devo? Devo ou não devo?
Ah, foda-se. Lá vou eu.
Com um sorriso torto e uma máscara de cara lavada, dirijo-me com as mãos enfiadas nos bolsos do short até ele, Natasha e uma garota que não conheço. Eles discutem alegremente sobre as maravilhas que Búzios tem a oferecer, e o rosto de Tomas se converte num misto de espanto e constrangimento ao me ver se aproximando. Esta reação rapidamente acaba com a minha confiança, e penso duas vezes antes de dar o próximo passo.
_ Oi, Tom! Quanto tempo! – Cumprimento nervosamente, acenando com a mão de forma frenética.
_ Oi... Noura.
Ah, já tinha até me esquecido como meu nome se pronunciava por aquela boca.
_ Como vai? Está sumido, hein! – Dou uma cotovelada nele, divertida. Ai, como sou uma cara-de-pau. Só falta as Casas Bahia me anunciar numa liquidação.
_ True. Ah... I... well... quer dizer... estive ocupado, these days. – Seus olhos azuis esquadrinham o hall, em busca de um ponto fixo para fugir dos meus. Desconfortável é um termo fraco para descrever como ele está se sentindo.
_ Hmmm, beeem ocupado, seu danadinho! – Brinca Natasha, trocando olhares entre Tom e a garota desconhecida. Esta, por sua vez, devolve um sorriso sem graça.
_ Imagina! o Tom é bastante caseiro, né mor?
Oi?
Quê?
Mas… que porra de mor foi essa?
De repente, o seu olhar azul toca no meu castanho, tão desesperado e tão arrependido. É como se ele dissesse: eu bem que tentei, Noura. Mas precisei seguir em frente.
Permaneço abismada, e talvez alguns pingos de baba estejam caindo sobre o piso devido a boca despencada até os joelhos. Observo a moça pela primeira vez: uau, ela é estupidamente linda. Desgraçadamente linda. Cabelos loiros que puxam para um acinzentado, naturais. Olhos grandes e tão claros quanto os dele. Face de menina comportada. Magra e vestida como adolescente burguesa, pronta para uma partida de golfe. De fato, uma perfeita parceira para Tomas.
_ Yeah. Allais e eu gostamos mais de... casa. – Tom responde, mordendo o lábio inferior e encarando os próprios pés.
Allais? Parece o nome da minha cadela, se eu tivesse uma.
_ Aaah, mas em casa é mais gostoso – Incentiva Natasha, deixando os dois vermelhos de vergonha. – Não se preocupem, um quarto está reservado só para vocês dois. Atendimento VIP para recém-pombinhos – Ela diz, piscando o olho marotamente.
_ Vejo que você está bem, Tom. Fico feliz – Minto, expressando um sorriso amargo que logo desmanchou.
_ Sim – Ele responde secamente, ainda num estado de choque.
_ Vamos colocar nossas malas no quarto, que tal? – Oferece Allais segurando seu braço, e ele concorda lentamente.
Assim, Natasha os conduz até o andar superior, enquanto ainda me mantenho a assisti-los juntos. Ao chegarem no topo da escada, Allais vira o rosto sutilmente para trás e me encara por uma fração de segundo, com o semblante um tanto ameaçador.
Talvez ela saiba de quem se trata Eleonoura Silva e Santos.
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