Notas iniciais
Agradeço os comentários, eles são a minha motivação para continuar escrevendo! Espero que curtem o segundo capítulo, bjss

O modo como conheci e me apaixonei por Marco pode lhe parecer inusitado, porque na verdade, foi inusitado. Por acaso já viu alguém que se apaixonou por uma pessoa que estava de costas? Se ainda não: prazer, Eleonora. Antes que tire conclusões precipitadas sobre a minha sanidade, deixe-me explicar o ocorrido.

Era começo de Março, e eu ainda era uma desorientada caloura que sofria com a falta de um sino que determinasse o início e o fim dos intervalos entre as aulas. Mimos do colégio. Ah, e saudade das tias. Estava eu na praça de alimentação da faculdade e o meu grande dilema momentâneo era se deveria escolher a opção light do cardápio da cantina ou cair de cara no filé mignon à parmegiana, cujo cheiro tentador estava inundando a minha sala através da janela. Como eu havia ganhado nota 9 no trabalho sobre a Teoria do Estado Democrático, me presenteei com a segunda opção. Entrei na fila que dava voltas pelo apertado pátio descoberto, onde o sol do fim de verão não dava tréguas sobre o topo das nossas cabeças. Caso não fôssemos rapidamente atendidos, os cozinheiros já poderiam anotar no quadro branco a terceira opção do dia: cucas fritas. Enquanto meus olhos castanhos escuros, porém extremamente sensíveis ao sol (se eram para ser sensíveis, que ao menos fossem azuis) percorriam o perímetro da praça, fui chamada atenção pelo tom dourado irradiado por uma das cucas, feito uma auréola angelical. Tratava-se de cabelos claros, que não chegavam a ser loiros, mas sim uma cor que divergia entre o castanho tom de mel e o amarelo escuro. Era a cuca mais alta daquela fila. Ombros largos. Coluna ereta. A pele do pescoço bronzeada. Os braços desnudos pela blusa de manga tinham o mesmo contorno de uma coxa de galinha. O que estou querendo dizer é que eram musculosos.

Um mês de aulas já haviam se transcorrido e eu nunca me deparara com aquele cara. Quer dizer, o campus era pequeno porque só abrigava o curso de Direito, e seria extremamente fácil enxergar aquela cuca dourada, como estava sendo naquele instante. A fila começou a andar e o curral de bois também, e assim perdi a visão daquela beldade. Eu não precisava vê-lo de frente para saber que ele era bonito: suas costas já me diziam muito.

Após de me esticar discretamente para os lados, fingindo estar me espreguiçando, o vi se dirigindo para uma das mesas com a bandeja em mãos. Sentou-se sozinho. Com certeza era um calouro. Veteranos metidos a bonitões jamais se sentavam sozinhos, sempre andavam em bandos como os golfinhos. Apanhei minha bandeja com um prato de filé mignon a parmegiana, que estava mais para filé mignon a parmegiana com um prato e fui lutar a minha guerra diária. Entende-se por guerra diária arranjar uma mesa vazia no horário de almoço. Rodeei a praça de alimentação e obtive fracasso: todas estavam ocupadas. Esperei que alguma alma solidária se levantasse para me ceder lugar, mas a maioria se entretinha nos seus celulares e suas conversas jogadas fora. Bufei, bati o pé e evidenciei a minha impaciência. Nada. Era como se as pessoas não conseguissem me enxergar.

Dei uma última volta pela praça de alimentação e estava prestes a comer em pé ali mesmo, quando encontrei a mesa onde o cara da cuca dourada estava sentado. Sozinho ainda, ele comia silenciosamente enquanto fitava um ponto perdido no espaço, com as mãos entrelaçadas na altura do queixo. Meu Deus. Suas costas não haviam me dito que seus olhos eram tão lindos. Tinha íris verde. Verde-oliva. Tão límpidos quanto a água do mar de Fernando de Noronha. Seu rosto era uma transição entre a juventude e a maturidade, como se fosse feito numa forma de adulto e traçado com as linhas de uma criança. Barba bem feita. Os cabelos lisos lhe caíam sobre a testa, mas eram perfeitamente rentes na altura das orelhas.

Um quadro. Assinado por Michelangelo.

Enquanto eu o admirava numa inquebrável hipnose, os olhos cor de oliva se afugentaram da breve distração e caíram diretamente sobre mim, petrificando-me da cabeça aos pés feito o poder de uma medusa. Ridiculamente forjei um espirro, porque eu sempre faço isso quando sou pega desprevenida em qualquer situação.

_ Saúde – Foi o que ele disse. Voz firme e ao mesmo tempo mansa. Quase derretera meus ouvidos.

_ Obrigada, obrigada – Rapidamente agradeci, voltando meu olhar para o chão e dando meia-volta.

_ Este lugar está vazio – Ele avisou, sem menor pretensão no seu timbre. Apenas formalidade. E um pouco de preocupação.

_ Ah, que ótimo! Maravilha! Está cada vez mais difícil almoçar neste lugar. Deveríamos reclamar na reitoria. Quer dizer, quanto custa uma cadeira? Sessenta, setenta reais? Comparando à nossa mensalidade é quase nada, não é mesmo? – Objetei, atropelando as palavras.

Calma, calma. Ele não é um leão e não vai te morder. É uma pessoa normal. Você consegue ser uma pessoa normal. Será que eu consigo ser uma pessoa normal?!

_ Sinceramente não sei quanto custa uma cadeira, eu não sou daqui – Ele respondeu, voltando a atenção para o seu prato.

Um buraco, por favor. Um buraco bem grande para enterrar a minha cabeça. Talvez o corpo todo.

Sentei-me envergonhadamente na cadeira em frente a ele, e dei a primeira garfada no filé à parmegiana. Descobri que havia perdido a fome. E que eu estava suado assustadoramente. Se minhas papilas gustativas suassem, elas estariam suando. Preocupei-me em comer com os braços bem colados ao corpo, para esconder as prováveis marcas de pizza nas axilas.

_Você é de onde? – Perguntei, não gaguejando por um triz.

_ Nasci em Milão e fui criado em São Paulo. Agora estou morando no Rio. Mas ainda estou aprendendo a falar brother invés de meu velho – Ele brincou e sorriu, mostrando a fileira de dentes perfeitamente brancos e alinhados.

Eu ri com tanta vontade que soltei praticamente um grito.

_ Com o tempo você pega fácil essas coisas – Eu disse, ainda rindo abobalhadamente. – É que nem herpes, quando vê, já foi…

_ Oi?

_ Nada. Nada. Brincadeira.

Ele ergueu as sobrancelhas e abocanhou uma folha de alface. Havia escolhido a opção light. Claro, um corpo daquele não se mantinha a base de queijo derretido com molho de tomate. Seus olhos voltaram para o ponto fixo perdido em algum lugar daquele pátio, e um silêncio constrangedor reinou sobre a mesa. Tirei o celular da bolsa e comecei a checar o feed de notícias do Facebook, mas o meu 3G estava com sinal péssimo e então tive que ficar revendo as mesmas postagens do dia anterior. De vez em quando, eu erguia o olhar para encará-lo, ainda distraído, terminando seu almoço aos poucos assim como a oportunidade de conhecê-lo melhor. Eu deveria falar alguma coisa. Qual a minha chance de vê-lo novamente? Eu sabia que ele não sairia da minha cabeça tão fácil. Mais tarde eu me arrependeria profundamente por desperdiçar aqueles minutos quieta.

_ Você estuda Direito? – Indaguei e na mesma fração de segundo me arrependi de ter feito aquela pergunta idiota. – Óbvio né, é o único curso daqui…

Ele afirmou calmamente com a cabeça, formulando um sorriso pela minha confusão aparente.

_ E você? Faz Direito ou Errado? – Ele devolveu, e levei alguns segundos para entender aquela piada já tão batida.

_ Essa é boa, essa é boa! – Elogiei, soltando outra risada escandalosa. – Você está em qual período?

_ Primeiro. Mas só cheguei agora porque estava em Milão. Fui visitar a nonna e o nonno.

Nonna e quem? O Nhonho? Do Chaves?

_ É mesmo? Que bacana! Também estou no primeiro período. Talvez sejamos da mesma sala!

_ Então parece que os boatos são verdadeiros – Ele comentou, com uma expressão marota estampada na face.

_ Que boatos? – Devolvi, em tom temeroso.

_ Que o curso de Direito está cheio de mulheres bonitas – Ele respondeu, e eu pude sentir que o meu corpo quase escorregou daquela cadeira barata.

_ É… é… que isso, imagina, é muita gentileza da sua parte – Balbuciei, transformando a expressão “sou toda ouvidos” em “sou toda sorrisos”.

_ Prazer, meu nome é Marco – Ele segurou a minha mão e deu um rápido beijo, cuja sensação ficou marcada na minha pele por muito tempo.

Antes que eu pudesse dizer meu nome, Marco olhou em seu relógio de pulso e demonstrou espanto, levantando-se da mesa num salto.

_ Desculpe-me, mas eu tenho que passar na coordenação antes da aula. A gente se vê por aí – Ele falou, lançando uma piscadela e andando a passos largos em direção ao centro do campus.

_ Cê parece um anjo, só que não tem asas iaiá – Cantarolei baixo, ainda sentindo o carimbo de seus lábios sobre as costas da mão.

E a partir dali o meu maior problema estava formado. Apaixonei-me sim, à primeira vista. E ainda de costas. Algo de especial haveria de acontecer entre nós, porque aquele cara saiu da Itália para morar em São Paulo, e agora estava no Rio e havia almoçado comigo.