Se me perguntassem
1 Capítulo Único
O DJ não é tão bom mas pelo menos o espaço aqui é grande. No final, quando a festa estiver ficando amuada e todo mundo estiver bêbado e sincero, dá pra gente fingir que tem treze anos, fazer uma roda, e jogar verdade ou consequência. Até lá, eu finjo que sei dançar enquanto encaro você. Aliás, não tinha nada menos comum pra vestir? Com as jeans escuras e a camisa polo, quase dá pra te confundir com todos os outros caras daqui. Só quase mesmo. Pelos meus olhos, você é inconfundível.
É, acho que ainda sou apaixonada por você. Eu não diria isso se me perguntassem mas o fato é que te ver pela primeira vez em quatro anos ainda desperta os mesmo sentimentos dos meus quinze. E ainda tem um adicional de nostalgia. Daria o par dos meus sapatos favoritos pra viver 2012 de novo, com as coisas boas e ruins. E de saudade. Eu sinto falta de falar com você, de todos os amigos que a gente tinha e de rodar o quarteirão da escola depois da aula tocando campainhas e correndo. E de arrependimento. Não deveria ter deixado as discursões profundas madrugada adentro virarem conversa de elevador. E mais arrependimento. Eu fingia muito que não me importava, fingia muito que, pra mim, tanto faz estar ou não com você. E você tá a menos de vinte metros de mim agora. Eu detesto a sensação de deixar ciclos abertos. Talvez a gente devesse conversar, ou pelo menos é isso que aquela latinha de skol beats diz. Ou pelo menos é disso que eu tento me convencer enquanto caminho na sua direção. "E aí?" eu tentei falar mais alto que a música "Caramba. Ariel. Oi. Oi, oi, oi. Quanto tempo" ele parece afobado, provavelmente até um pouco bêbado mas quem não tá? "Tá muito ocupado?" "Não. Mas quase não tô te escutando. Quer conversar lá fora?" "Sim. Vai ser rápido." Enquanto nós fazemos o caminho até a porta de entrada do salão, eu acabo me dando conta de que eu não tenho a mínima ideia do que vou falar. E aí eu torço pra estar bêbada o suficiente pra fazer as coisas que eu vou dizer parecerem graciosamente cômicas e não completamente patéticas. "Como você tá?" — comecei enquanto nós dois sentávamos no meio fio da calçada "Bem. E meio nostálgico em te ver. Caralho, que saudades." "Eu tenho a impressão que você tá bem bêbado e não vai lembrar de nada do que eu vou dizer. Acho que isso é bom." — Qualquer merda que eu falar agora pode ser reversível. Menos mal. "Não entendi." — Olha que bonitinho você fazendo essa cara de lerdo de novo. Eu senti falta disso. "Eu só queria dizer que eu sinto falta da nossa amizade. Todo mundo sabia que eu queria mais que amizade, é fato, mas eu gostava de conversar com você. Eu me arrependo de não ter demonstrado o afeto que eu sentia por você e sinto muito que a gente não tenha mais aquelas conversas loucas sobre carreira, sexo e sonhos. E é isso aí." Se eu não fosse tão sem vergonha (segundo todo mundo que me conhece, incluindo você), eu estaria bem nervosa agora. Mas acho que não tô não. A sensação de que falei coisa que não devia tá aqui mas, na verdade, eu me sinto bem leve. Mesmo com o silêncio constrangedor que acabou ficando por uns bons segundos enquanto você olhava pro nada. "Eu fiquei realmente arrependido depois daquela briga." "Quê?" "No final de 2012, um pouquinho antes de eu ir embora do estado, a gente brigou. Eu não tava disposto a ir em um último encontro que o pessoal da turma ia fazer e você foi me questionar por quê. Não lembro muita coisa, só que a gente foi muito agressivo um com o outro e que eu cheguei a falar que tava pouco me fodendo pra você. Não é verdade, mas lembro que você me bloqueou nas redes sociais por uma semana antes de nós voltarmos a falar normalmente. Desculpa." "Ah", certo, isso foi meio inesperado "É que você comentou sobre arrependimentos relacionados a nós dois e eu achei válido comentar sobre essa briga." "Então a gente tá bem?", eu questionei te olhando "Sim" Depois disso, nós dois ficamos um bom tempo calados. Não faço questão de estipular quantos minutos foram, eu tava meio distraída pela sensação de tranquilidade, pelo cheiro da sua colônia e por um poste na esquina à nossa frente que tava com a luz falhando. "Mudei de ideia, espero que você esteja sóbrio o suficiente pra lembrar dessa conversa amanhã", eu comentei enquanto me levantava. "Eu também".
Notas finais
Tá, não sei que diacho eu escrevi aí
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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