Se eu voltar

15 Eu e mais ninguém


Retiraram-me da minha ala as pressas e eu os acompanhei. A dra. Angel e sua equipe já estavam entrando no elevador, quando Sub zero e Jade estavam conversando perto dali. O cryomancer puxou Jade pelo braço e correu em minha direção, pararam frente ao elevador, ele disse:

— É a Kitana!

Apenas olhei para os dois e acenei:

— Até mais, Kuai.

E a porta do elevador se fechou.

(...)

Eu estava procurando minha mãe em todas as partes do palácio e não encontrava em lugar algum. Subi as escadas e vi uma sombra no meu quarto, adentrei e minha mãe estava sentada em minha cama chorando. Corri em direção a ela e sentei ao seu lado. Comecei a acariciar seus cabelos, mas ela não parava de chorar, ela estava com uma foto dela me segurando quando eu era bebê. Perguntei:

— Mãe, por que você está chorando?

Ela se virou para mim, seus olhos já estavam inchados e um pouco avermelhados, não pude conter minhas lágrimas. Ela disse:

— Terei que fazer um sacrifício por você e por todo o Plano Terreno.

— Do que está falando?

— Quando você tiver maior, você entenderá.

Levantou-se, colocou o quadro de volta na parede e foi caminhando em direção à porta, ela percebeu que eu a acompanhava, ela parou e disse:

— Preciso te entregar algo.

Fez com que eu a acompanhasse, ela entrou em seu quarto pegou uma chave que estava dentro de um baú dourado, me entregou a chave em minhas mãos, logo reconheci que era a chave que abria o cravo. Perguntei:

— Mas aquele cravo é seu, você jamais deixou tocá-lo.

— Não precisarei mais dele, ele agora é seu.

— Mãe, o que você vai fazer?

— É para seu bem, você irá me agradecer. Mas antes de eu ir quero vê-la tocar.

Em seguida fomos em direção ao grande porão, onde minha mãe me dava às lições de música. Abriu a porta, chegou próxima ao cravo, destrancou o teclado, abriu e disse:

— Pode tocar.

— Mãe, por favor, deixe-me abraça-la.

Sindel abriu os braços e eu a abracei com muita força. Eu sentia as lágrimas dela caírem em meus ombros, ela dizia acariciando os meus cabelos:

— Minha princesinha...

Afastou-se de mim, pegou uma cadeira próxima, se sentou e disse:

— Comece a tocar.

— O que você quer ouvir?

— O que você quiser meu anjo.

Sentei-me no banco frente ao cravo e comecei a tocar Prelude in E Flat Major BWV 998 de Bach, era a que eu mais gostava e já havia decorado. Eu fiquei mergulhada naquela melodia e não percebia mais nada que acontecia a minha volta. Eu olhava para as teclas daquele cravo e me lembrava das vezes que minha mãe me chamava para vê-la tocar. Ao terminar a peça olhei para trás e eu estava sozinha naquele porão. Tranquei o cravo em seguida a sala que estávamos. Comecei a procura-la por todo aquele andar e nada. Subi dois andares e fui em direção ao estábulo, todos os cavalos já estavam lá fora, foi quando vi a luz de um candeeiro, corri em direção à luz e chegando lá vi o que mais temia... Ela estava pendurada com uma corda no pescoço, como o corpo ainda balançava, ela tinha acabado de morrer.

(...)

Passei quase a noite inteira na sala de cirurgia, meus órgãos estavam cada vez mais debilitados.

Sindel agora tinha ido embora para sempre, ela não ia mais se apaixonar, tocar cravo ou me ver tocar, sentir a brisa da manhã e a chuva da tarde, não sentiria o perfume das rosas, não beijaria mais o meu rosto e eu não sentiria mais o seu abraço. Do que valeria eu voltar? Agora sim, estaria só no mundo.

Já havia amanhecido e eu comecei a perambular pelos corredores do hospital, sem rumo e olhando para o chão. De longe pude ouvir um dedilhar de um violão, fui me aproximando e percebi que vinha da minha ala da UTI. Apertei o passo e vi que eu estava de volta dependente dos aparelhos para respirar. Ao meu redor Cassie dedilhando as cordas de um violão preto e Jade cantava a música que eu mais gostava. Ela cantava todas as vezes que eu chorava em meu quarto.

Jade sempre teve uma voz muito doce, sempre gostei de ouvi-la cantar. Cassie disse após terminar de tocar:

— Eu não sabia que você cantava tão bem.

— Canto desde criança e agradeço o elogio.

— Admiro muito vocês duas... A vida de vocês parece um filme.

As duas riram e não pude deixar de rir também. Cassie continuou:

— Torço muito para que Kitana volte. Desde criança meu pai fala de vocês... Como verdadeiras heroínas.

Jade deu um sorriso e limpou as lágrimas que insistiam em cair. Cassie pegou o violão e despediu-se:

— Tenho que ir agora, mas qualquer coisa me chame.

— Tudo bem e obrigado por tocar.

— Por nada.

Em seguida Cassie saiu da minha ala e agora estávamos eu e Jade sozinhas. A médica entrou para medir minha pressão, Jade olhou para a doutora e perguntou:

— Como foi o procedimento?

Angel a olhou com pesar e disse:

— Honestamente, acho que só um milagre para salvá-la. Tentamos de tudo mesmo...

A médica segurou o choro e com voz embargada disse:

— Diga a Sonya que pode chamar todos os visitantes... Para uma possível despedida.

Jade pôs a mão na boca e encheu os olhos de água, ela olhou para o meu corpo e disse:

— Kitana! Por favor, não vai embora... Eu preciso de você aqui comigo... Tem um monte gente que está esperando a sua volta... Fica por favor.

Ela pousou a cabeça em meu colo e chorou como uma criança. Sub zero estava do lado de fora e ouviu toda a conversa, entrou e perguntou a doutora:

— Kitana não vai voltar?

— Apenas um milagre pode salvá-la

Sub zero respirou fundo e tentou segurar o choro, deixou as lágrimas escorrerem e com a voz embargada falou:

— Eu sou um perdedor.

Dizendo isso saiu pelos corredores. Jade olhou e foi em direção a ele, mas já havia sumido.

(...)

Liu Kang desde aquele dia do resgate não falava mais comigo. Procurei-o e o encontrei sentado próximo a um lago de lavas.

— Você está sentindo ciúmes de mim? — perguntei a ele

— O que você acha?

— Nunca tive nada com o Sub zero, ele só estava... Fazendo o dever dele, estava tentando me resgatar.

— E por que ele estava ajoelhado aos seus pés?

— Pergunte a ele oras.

Ele se levantou e se afastou de mim, fui atrás dele, perguntei:

— Você não confia mais em mim?

— Acho que você deveria ter ido com ele.

— Ah Liu! Você está sendo ridículo.

Ele se virou para mim e falou:

— Nós não passamos de fantasmas, não sentimos nada um pelo outro, certo? Então é melhor ficarmos assim.

Em seguida se afastou de mim. Fui para o palácio e entrei no meu quarto, me olhei no espelho e disse a mim mesmo:

— No que me tornei.

Que falta a Jade me fazia naquele momento, mas ela havia realizado o sonho dela... Fui em direção à janela e pude ver algumas explosões. Saí do quarto e fui em direção à entrada do palácio. Sindel já estava vindo em minha direção, sozinha. Fui ao encontro dela e perguntei:

— Onde estão os outros?

— Se foram.

— E Liu também.

— Sim, querida. Sobramos nós apenas.

Fui abandonada por Liu Kang pela primeira vez.

(...)

Segui Jade que estava à procura de Sub zero, chegamos ao terraço e ele estava encostado na parede com um fone no ouvido e celular nas mãos. Aproximamo-nos e Jade foi olhar a música que ele estava ouvindo. Ela disse:

— You’re beautiful de James Blunt... Bem sugestiva para este momento.

Sub zero pausou a música e tirou os fones, limpou as lágrimas que queriam cair e disse:

— Acho que não tenho o direito de amar ninguém.

— Não, Kuai! Não fale uma coisa dessas.

— Há mais de vinte anos eu a espero... Não posso crer que ela vai embora assim, minha espera não pode ter sido em vão.

— Você não se apaixonou por mais ninguém desde o seu retorno aos vivos?

— Eu tentei... Mas Kitana é o amor de minha vida, por mais que eu tente esquecê-la... Não consigo.

Senti um aperto no peito... O sentimento que ele tinha por mim atravessou tudo e todos. Por mais que eu amasse outro ele nunca me esqueceu, esperou com paciência. Mas não me sentia merecedora de tal amor.

Jade disse:

— Lembro que quando ela era imperatriz do submundo. Organizou uma invasão ao Plano Terreno. Raiden me ligou pedindo que eu o ajudasse, mas eu estava ensaiando para uma peça de violino barroco, que eu faria naquele dia. Quando comecei a tocar vi dois luzeiros amarelados apontando em minha direção, mesmo tocando fiz um esforço pra saber de onde vinham aquelas luzes e... Era Kitana que não parava de me olhar. Continuei a tocar, um pouco nervosa, mas terminei. Procurei-a na plateia e não a encontrei mais. Pedi para que tomassem conta do meu instrumento e fui para fora para ver se eu a encontrava, logo a encontrei próxima de alguns arbustos, daí eu disse: “Kitana, me deixe ajuda-la, você precisa sair disso.” Ela me respondeu: “Eu poderia te matar e traze-la de volta ao meu convívio, mas sei que a sua felicidade está aqui. Afaste-se antes que eu mude de ideia.” Me afastei dela, com dor no coração e ela desapareceu.

Sub zero ficou calado por alguns instantes e disse:

— Não quero perde-la.

Jade apoiou a mão no ombro de Sub zero que estava desolado. Ouvimos alguns passos e Kung Lao apareceu, disse:

— A maioria do pessoal já chegou... Para a despedida.

Fui correndo para a minha ala, ao chegar lá não tinha ninguém. Não demorou muito Sonya chegou junto com a filha e o esposo, ela sentou-se ao meu lado e disse:

— Kitana, eu fiz o impossível para que você se recuperasse... Ainda não creio que você queira deixar-nos, mas... Se você quer assim, pode ir... Não vou ficar brava com você.

Olhei para Sonya e disse:

— Obrigada!

Em seguida ela beijou minha testa, depois veio Cassie e deixou para mim uma rosa branca, Johnny veio e disse:

— Eu acredito em milagres, Kitana. Você ainda está em tempo de mudar de ideia.

Deu uma risada e beijou minha mão direita. Eles se foram. Veio Jin e Lao juntos, depois Jax, a filha e a esposa Vera. Em seguida Smoke, Kabal, Nightwolf e Stryker com a esposa e a filha que já beirava os quinze anos. Takeda e Kenshi vieram cada qual trazendo um lírio branco, era a flor que eu mais gostava. Depois veio Raiden que conseguiu trazer Li Mei, ela beijou minha testa e sussurrou em meu ouvido:

— Não desista, princesa, confio em você.

Em seguida, foi embora.

Já era por volta das 15hs, de meia em meia hora os médicos vinham para me examinar os batimentos cardíacos, a pressão arterial e a minha respiração. Saí da minha ala e comecei andar pelo corredor da UTI, passei pela sala de espera muitos amigos meus ainda estavam lá, talvez esperando uma notícia minha. Não queria desapontá-los, mas já fiz a minha escolha. De relance procurava Liu entre eles, mas fora em vão, provavelmente não queria me ver morrer, aquilo provou que o amor que ele tinha por mim tinha ido embora para sempre. Continuei meu caminho e no fim do corredor havia uma porta de vidro que dava para uma varanda, dali eu conseguia ver toda a cidade. Consegui abri a porta e fui para fora, olhei para o céu, ele estava azul, minha cor predileta. Eu disse:

— Como o céu é belo.

Minha contemplação fora interrompida por uma melodia maravilhosa, era o Prelúdio para violino solo em G minor de Henry Purcell, essa era a peça que Jade sempre tocava para aquecimento antes dos nossos ensaios as escondidas. Procurei de onde vinha aquela melodia e não encontrava, era tão nítida, parecia que eu estava bem próxima de uma caixa de som. Voltei a passos lentos pelo corredor e entrei na minha ala, Sub zero havia colocado os fones de ouvido em mim, quando a melodia terminou tirou os fones do meu ouvido e disse:

— Jade pediu para que você ouvisse essa peça... Antes de você ir.

Respirei fundo e me aproximei dele. Sub zero disse:

— Kitana... A tanto tempo de espero... Por favor, fique!

— Eu não posso – respondi logo.

— Precisamos de você aqui... Não apenas para lutarmos juntos a favor do Plano Terreno, mas... Eu quero você ao meu lado.

Ele tirou do bolso um papel dobrado, abriu e disse:

— Esse poema de Shakespeare traduz tudo o que sinto por você.

Em seguida começou a ler:

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.

Enquanto ele lia comecei a sentir algo diferente, como se eu estivesse entrando em um lugar muito apertado, ouvi ossos parece que estavam se quebrando. Não sentia dor naquele momento, pois aquela voz suave que eu escutava me acalmava a alma.

Abri meus olhos bem devagar, vi o teto branco da UTI. Sub zero fitou-me nos olhos e me chamou:

— Kitana.

Notas finais
Olá leitor (a), Fico muito feliz que tenha acompanhado essa história até o final. Ficou com um gostinho de continuação, não é mesmo? Então, a continuação já está sendo postada! Você pode acompanhá-la no link que deixarei abaixo. Não deixe de acompanhar as atualizações. Um abraço e boa leitura! Link: https://fanfiction.com.br/historia/797039/O_Caminho_Escolhido/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!