Se ela tivesse vencido o câncer

1 Capítulo Único: 29 de Janeiro


Após cerca de 1 mês em coma, Wanda acordou. Abriu os olhos desnorteada, ofuscada pela luz refletindo nas paredes brancas do quarto hospitalar. Ela passara todo aquele tempo dormindo, entretanto, acordada de alguma forma, pois conseguira ouvir e sentir tudo o que acontecia ao redor. Conseguira ouvir a conversa entre os médicos, conseguira sentir os enfermeiros a banhando no leito e compreender, até mesmo, Suely e Arlindo, os irmãos, falarem consigo. Principalmente Suely, que fez da luta de Wanda a própria, não a desamparando em nenhum momento, sempre estando pronta para cuidar de tudo. Esta que, anos atrás, se revoltava com as atitudes libertinas de Wanda. Esta que Wanda tanto amaldiçoou no calor das brigas, dos xingamentos e dos conflitos internos. Esta que, mesmo cansada, exausta por passar noites a fio sem pregar os olhos, jamais desistiu da responsabilidade que assumira.

Suely, nos dias que passava ao lado de Wanda no leito, conversava com a irmã mais velha. Pedia perdão e perdoava os atritos do passado. Contava a ela sobre o cotidiano em casa, na expectativa de dar algum conforto em meio a tanto sofrimento. Então, uma fagulha de esperança reacendeu no coração de Wanda, e ela teve vontade de viver. Teve vontade de recuperar os anos perdidos pela ausência em casa. Teve vontade de sorrir mais com a sobrinha, os irmãos e a mãe. Teve vontade de participar do futuro que ainda estava por vir, aproveitando ao máximo o curto tempo que passava como um sopro. Do coma, uma nova pessoa despertou. Uma pessoa que se deu conta que aquela era a última chance de trilhar um novo caminho. Um caminho bom e feliz.

O tumor, que da noite pro dia cresceu imensamente, por um milagre, secou. Os médicos que já não sabiam mais o que fazer, ficaram extasiados diante à recuperação repentina de Wanda. Até quem não acreditava em Deus, não tinha palavras para explicar o ocorrido. Wanda, mais tarde no dia que acordou, voltou para casa. Foi recebida pela mãe, dona Raimunda, que entrou em prantos ao vê-la sem o tumor e com aparência saudável. Ela abraçou a filha como se fosse a coisa mais preciosa do mundo, como se estivesse prestes a perdê-la. A irmã mais nova, Selma, que também acompanhara de perto, não se conteve em chorar. Nem Cecília, filha dessa, sobrinha de Wanda, que somente sorria quando estava perto da avó, conseguiu segurar as lágrimas ao ver a tia sair do carro de Suely.

A gratidão era eterna. Deus curou Wanda, pois assim tinha que ser. Finalmente, a paz, como calmaria pós-tempestade.

Bom... isso teria acontecido se Wanda tivesse vencido o câncer.

Se ela tivesse vencido o câncer, dona Raimunda não teria que passar novamente pela dor de perder uma filha. Se ela tivesse vencido o câncer, conseguiria viver normalmente, bem e feliz ao lado da família que a prezava tanto. Se ela tivesse vencido o câncer, poderia dar um jeito na própria vida, sem mais fazer escolhas erradas, trilhando um novo caminho. Ela poderia ter voltado a falar, voltado a andar, a comer, a beber, a sorrir, a gargalhar, a sonhar... teria sentido o gosto de churrasco, o frescor de um suco gelado, teria passado mais um aniversário, comido bolo, salgadinho e tomado refrigerante. Ela teria visto a sobrinha crescer, se casar e ter filhos, e apesar de não gostar muito de crianças, ela teria os pegado no colo, assim como fez com Cecília na festa de 1 ano. Ela teria ouvido o barulho do milho estourando na panela e mastigado a pipoca, enquanto assistia a um filme com a mãe idosa.

Se ela tivesse vencido o câncer... o enorme sofrimento não pareceria ter sido em vão e buraco que se formou nos corações da família, jamais existiria.

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