Notas iniciais
Mais um capítulo. Espero que gostem!!

“I've seen it all

I've seen it all now

I swear to God I've seen it all

Nothing shocks me anymore after tonight”

– I've seen it all – Jake Bugg

Charlie's POV

Naquela tarde, cheguei em casa desanimado, me sentindo como o Patrick sempre se sentia, com vontade de beber o tempo todo. Eu estava a ponto de talvez compreender o motivo dele estar sempre com uma garrafa na mão, até os cigarros ele esquecera.

Haviam mensagens atrás de mensagens na minha secretária eletrônica. Três delas eram de Jennifer, perguntando como eu estava me sentindo, uma era da minha mãe. Apenas as escutei, mas estava desanimado demais para retornar.

A última mensagem fez-me despertar.

“Charlie, sou eu, Sam...não sei se estou fazendo certo em deixar um recado na sua secretária, mas assim que puder, me retorne, por favor.”

Aquilo me paralisou imediatamente, fazendo-me pegar o telefone e a retornar.

– Alô! – falei, com a voz trêmula, e ouvi uma respiração pesada do outro lado da linha.

– Charlie...– a voz de Sam parecia triste e cansada, ela suspirou – Me desculpe por mais cedo, eu...eu não queria que fosse assim.

Suspirei desanimado. Naquele momento nem mesmo as desculpas de Sam me animariam, não se ela estivesse decidida a terminar mesmo comigo.

– Tudo bem. – respondi, simplesmente – Eu estou bem.

– Que bom, Charlie. – ela respondeu-me, suspirando de forma pesarosa – Pelo menos um de nós precisamos ficar bem.

Um de nós precisamos ficar bem... suspirei ao ouvir essa frase. Acontece que nenhum de nós estávamos bem naquele momento. Mas eu precisava ao menos tentar ficar bem, ou finjir, já que fazia isso muito bem feito desde sempre.

– Então é isso. – ela continuou, vendo que por ora eu não a respondi – Desculpe, eu só não queria te magoar...gostaria que soubesse que me preocupo com você.

– Está tudo bem, Sam. – engoli seco, tentando manter uma voz neutra, coisa que poderia vir a fracassar logo, então suspirei – Bem, eu...a gente se fala depois. E obrigado por se preocupar.

– Tudo bem, você precisa descansar afinal. – ela respondeu-me – Então até mais.

– Até...

Desliguei o telefone. Não tive a intenção de cortar o assunto, ou de fugir de Sam, apenas era difícil para mim falar naquele momento. Não só com ela mas com qualquer pessoa. Acho que não conseguiria falar sem deixar evidente que não estava nada bem, que minha garganta ardia enlouquecidamente, como se segurasse um mundo inteiro ali dentro, e que não sabia por onde começar a agir com todas essas coisas.

Tomei um banho e deitei-me na cama. Não sabia se aquilo seria o certo a fazer, já que as coisas estavam tensas naquele momento, porém eu não estava bem para resolver nada, apenas queria me deitar e não ver ninguém, nem a mim mesmo diante de um espelho.

[…]

Dormi a tarde inteira, até ser acordado ao som de Losing My Religion. Era meu celular tocando. Estava ao lado do meu travesseiro e me sentei rapidamente o pegando nas mãos. Era o número de Jennifer. Atendi.

– Charlie, onde esteve? Te liguei a tarde inteira. – a voz de Jennifer aflita soou de forma rápida assim que atendi. Despertei com o susto.

– Ligou? – perguntei, confuso – Olha, Jennifer, me desculpe mas cheguei em casa com muito sono e dormi até agora. Só acordei por causa do celular.

– Isso depois de oito ligações que fiz pra ele. – ela murmurou – Só liguei porque fiquei preocupada, você não estava nada bem essa manhã, quer dizer, nós não estávamos.

Suspirei.

– É, mas estou bem agora, só precisava dormir um pouco. – respondi, me sentando na beirada da cama – Mas...como está?

– Eu contei para meus pais, Charlie. – a voz dela continuava tensa como ontem – Eles...eles ficaram tensos, mas estão aliviados por você ser o pai. Eles gostam muito de você, confiam no seu respeito por mim. Eu...não quero me casar, e eles aceitaram minha decisão, disseram que não sou obrigada a nada, pois ainda somos muito jovens. Eles estão dispostos a nos ajudar no que puderem.

Ao ouvir aquilo, parte de mim se sentiu aliviado, porém isso não deminuía o que eu estava sentindo. Não era só saber que eu ía ter um filho, era saber que não poderia mais ficar com Sam, parecia que tudo estava conspirando contra o nosso querer. A família de Jennifer gostava tanto de mim quanto a minha família gostava de Jennifer e isso já me fazia desanimar decididamente de Sam.

[…]

Aquele domingo foi no mínimo cansativo. Jennifer foi para meu apartamento e conversamos durante horas. Decidimos encarar tudo de forma técnica, e por enquanto não iríamos tomar nenhuma atitude que não fosse cuidar do bebê. Pela primeira e única vez eu finalmente pude concordar com a forma como Jennifer encarou as coisas, ela sentia tanta insegurança quanto eu, estava tão assustada quanto eu, e nesse momento acreditei que ela merecia meu respeito. Não que ela não merecesse antes, porém me espantei com nossa sua maneira de encarar as coisas nesse momento. Eu não esperava me parecer tanto com ela.

[…]

Sam's POV

Segunda-feira de manhã acordei com uma imensa dor de cabeça. Me senti tão pequena diante de todas aquelas responsabilidades a serem feitas... Eu tinha que fazer um ensaio fotográfico em um estúdio perto do apartamento de Patrick, isso me animou, já que poderia dar uma passada lá.

Ao chegar no estúdio, fui orientada e me vesti com as roupas de uma grife, era um ensaio caro e eu estava feliz por ter fechado aquele contrato.

Fiquei por aproximadamente quatro horas naquele local, foi muito cansativo.

Lá era frio demais e barulhento, as luzes eram fortes...mas tudo bem.

Quando terminei de cessar o ensaio, um homem, cuja presença era desde o início do ensaio, se aproximou, de forma sorridente.

– Meu nome é Josh. – ele ergueu uma mão, esperando ser cumprimentado, e correspondi apertando sua mão e sorrindo. Tudo bem mas...quem era ele mesmo?

– Ahn, oi, Josh! – respondi, confusa – Eu sou Sam.

Ele sorriu me observando.

– Trabalho com divulgações, mas hoje vim fazer um ensaio também – ele devolveu – então te vi posar para essas fotos e precisei parar pra ver. Cheguei muito cedo.

Ri gentilmente.

– Ah sim...que bom, Josh! – respondi, parada no meio do estúdio enquanto todos andavam de um lado para o outro, senti-me estranha e suspirei – Olha, Josh, vou sair daqui, é que estou atrapalhando o trabalho dos outros.

– Claro, como sou idiota! – ele ri e acompanhei a risada – É melhor eu não te atrapalhar.

– Obrigada, com licença! – respondi, saindo dali um pouco apressada. Ainda tinha planos de ir ao apartamento de Patrick.

Troquei de roupa e fui para a cantina. Sim, lá tinha uma cantina muito atrativa, o cheiro de café era tão forte que apenas a porta do estúdio o impedia de exalar ainda mais.

Pedi um café expresso com um cookie e sentei-me um pouco isolada dos outros. Não estava muito sociável naquele dia. Ainda me lembrava do episódio em que Charlie me dizia que ía ser pai, e sentia um gosto metálico na boca, um bolo na garganta …

Me afastei de Charlie por seis anos para não machucá-lo e no final quem acabou se machucando fui eu. Ele já estava com Jennifer á um tempo, só iria continuar com ela … não estou dizendo que ele não estivesse mal com tudo isso, só estou dizendo que ele apenas estava vivendo o que de certa maneira viveria se não tivesse me reencontrado.

Suspirei, sentindo aquele gole de café forte descer com mais dificuldade que qualquer outra coisa. Lembrar de como eu amava o Charlie me fazia quase ceder ali mesmo, chorar, gritar, mas eu não podia, não queria.

Senti uma mão tocar meu ombro e virei em reflexo. Era o rapaz que falou comigo a mais ou menos duas horas atrás. Ele sorriu e devolvi o sorriso gentilmente.

– Coincidência te encontrar novamente! – ele comemorou e se sentou de frente para mim – Se importa?

Sorri timidamente.

– Não, fique a vontade. – respondi, mas na verdade, me importava sim.

– Desculpe, estou parecendo um perseguidor, não? – ele riu – É que...devo admitir que te achei incrivelmente linda e talentosa. Você é modelo assim como eu...

Ri um pouco sem jeito.

– Obrigada, Josh. – respondi moldando um sorriso – Eu não sou modelo como está falando, apenas faço alguns ensaios, nada demais. Queria mesmo é ser atriz.

Ele tinha um porte muito definido e era bem alto, com cabelos levemente loiros até os ombros e pele bronzeada, lembrando-me um surfista.

– E será! – ele respondeu-me com convicção – Já notei que tem uma personalidade forte e parece lutar pelo que realmente quer.

Suspirei lembrando-me de Charlie. Acho que não, ele estava enganado.

– Obrigada. – respondi, sorrindo.

– Quer me agradecer melhor aceitando meu convite para um café amanhã? – ele devolveu, animado e ancioso – Digo, um café melhor que esse. Conheço uma cafeteria perfeita.

Suspirei de forma hesitada. Estava desanimada demais para pensar em sair com alguém, porém isso poderia ser bom para eu aceitar que a vida continuava com ou sem Charlie.

– Está bem. – respondi, com um sorriso moldado – Vai ser divertido.

– Obrigado por aceitar. – ele respondeu com sorriso largo no rosto, parecia ter se animado mesmo.

Depois de conversar um pouco com o tal Josh, notei que ele era um cara legal. Sei que era burrice sair com um homem que mal conhecia, mas também não seria burra de sair para outro lugar que não fosse uma cafeteria pública e movimentada.

Depois da conversa, fui para o apartamento de Patrick. Esqueci-me de ligar para avisar que estava a caminho de seu apartamento, sempre me esquecia, pois tinha a chave de lá e isso me fazia relaxar. Depois de apertar campainha inúmeras vezes, vi que não tinha ninguém e usei a chave que eu tinha para entrar. Eu e Patrick tinhamos um acordo: eu tinha a chave de seu apartamento e ele tinha a chave de meu apartamento, assim nos dávamos bem, sem segredos.

Ao entrar, me assustei com o cheiro de bebida que vinha da sala. Tinha uma garrafa de Tequila aberta encima da mesinha de centro e duas garrafas vazias no canto da cortina cor de vinho. Como ele conseguia beber tanto? Suspirei.

Enquanto Patrick não chegava, dei uma limpeza em seu apartamento, recolhi as diversas garrafas vazias por cada cômodo da casa e joguei no lixo. Meu irmão estava deprimido, e ás vezes eu me esquecera disso. Estava sendo muito egoísta ultimamente, devia me aproximar de Patrick com mais intensidade.

Patrick's POV

Já estava me incomodando com o silêncio absoluto naquele consultório. Jane me observava aguardando eu dizer algo enquanto eu fazia birra para não abrir o bico desde quando cheguei lá.

– Tá legal, Patrick, isso não tem graça. – ela murmurou impaciente, cruzando os braços – Será que dá pra parar de me ignorar? Ninguém se desloca da Quinta Avenida em um apartamento luxuoso apenas para olhar pra minha cara por quarenta e cinco minutos. – ela olhou para o relógio no pulso e me encarou – Aliás, já se passaram vinte e cinco minutos deles.

Ergui uma sombrancelha.

– É, tem razão, então vou fechar os olhos, assim não te olho. – cruzei os braços e fechei os olhos.

A ouvi suspirar pesarosa.

– Também está me incomodando. – ela falou de repente, e abri os olhos de imediato – Se não quer falar porque está sendo embaraçoso pra você, então eu começo. Tá legal?

Engoli seco. Ela estava falando mesmo sobre aquilo? Se ela soubesse da metade, talvez me entenderia. Apenas suspirei como forma de assentir.

– Sim, nos beijamos. E daí? – ela começou, rolando os olhos – Isso nunca aconteceu entre algum paciente e eu, e...– ela suspirou, como se tomasse fôlego – Ok, não é algo normal, mas quem disse que precisa? Nem somos normais, Patrick.

Aquele assunto estava me incomodando, caramba! Desde quando se discute a relação com uma terapeuta? Era embaraçoso, porém estava curioso para saber o que ela pensava sobre aquilo.

– O que você sentiu? – deixei escapar. Era pra ser apenas um maldito pensamento mas minha boca não me obedeceu. Aliás, nenhuma parte do meu corpo têm me obedecido ultimamente. Já que comecei, suspirei e continuei – Digo, quando nos beijamos...

Ela suspirou ficando levemente corada. Achei estranho.

– Eu preciso mesmo responder essa pergunta? – ela desviou o olhar para a janela – Eu...eu não sei.

Aquilo me deixou estranhamente intrigado. Como assim ela não sabia? Por que ela ficou corada, por que desviou o olhar para a janela? Mas que diabos!

Revirei os olhos.

– Precisa. – perguntei, ficando impaciente – Como assim não sabe?

Ela suspirou me encarando também impaciente.

– Eu não sei, tá legal? – a voz dela soou mais brava dessa vez – Não é só porque sou uma maldita terapeuta que preciso ter certeza de tudo. Eu não sei!

– Ótimo! – respondi, levantando-me do sofá, bravo e impaciente – Se nem minha terapeuta sabe se compreender, imagina atender o próprio paciente. Vou nessa!

Ela se levantou imediatamente. Mas que merda era aquela?!

– Patrick, espera! – ela se aproximou tão rápido de mim que me assustei. Ela suspirou e olhou alguns segundos nos meus olhos, sua voz quase sussurrou dessa vez – Não dificulta as coisas.

Estávamos em pé, um de frente para o outro.

– Droga, Jane! Foi só uma pergunta...uma maldita pergunta. – retruquei impaciente.

Ela suspirou de forma hesitada.

– Você diz isso como se fosse tão simples quanto perguntar a cor da minha calçinha. – ela respondeu de forma pesarosa, porém tive que achar aquilo engraçado.

– Pra você é mais fácil falar a cor da calçinha? –perguntei, levando uma mão no peito com o susto.

Ela olhou por dentro da calça e me encarou.

– É vermelha. – respondeu-me prontamente e comecei a rir histéricamente, ela também riu.

– Céus, como você é pervertida! – respondi, com o ar surpreso e rindo – Um lado seu que eu não conhecia.

Rimos juntos até perdermos o fôlego.

Suspirei.

– O que sentiu? – insisti e ela rolou os olhos.

– Droga, Patrick! – ela reclamou batendo os pés – Achei que a cor da minha calçinha fosse te fazer esquecer isso.

– Sou gay. Esqueceu, lindinha? – revirei os olhos – Agora me diz, o que sentiu?

Quer dizer, eu era? Nem sabia de mais nada.

Ela suspirou e me encarou seriamente.

– Eu... me senti estranha. – ela começou e meu coração palpitou com violência – Eu não deveria te falar isso, vai se assustar e sumir do meu consultório, Patrick.

Espera...O que?

– Oi? Como assim? – sacudi a cabeça e perguntei, minha mente parecia um carretel de linhas cheio de nós – Será que dá pra ser mais clara, por favor?

– Não. – ela respondeu-me, simplesmente. Me irritei.

– Jane, por favor! – insisti, tentando não ficar bravo.

– Não, e não! – ela me encarou tão sinicamente, como se fosse me intimidar.

– Mas que porra! – minha voz quase gritou enquanto eu sustentava nosso olhar bravo e teimoso.

– Não sou obrigada, Patrick! – ela gritou mais alto que minha voz. Meu ouvido doeu, estávamos muito próximos mas ignorei o susto daquela voz grave e infantil.

– Sua mocreia, abre essa boca! – berrei a encarando.

Mas que frase era aquela?!

– Me obrigue! – ela rebateu e eu bufei, partindo para cima dela e a impresando contra a parede de forma violenta.

Ela engoliu seco, me encarando. Dessa vez nossos rostos estavam tão próximos que pude sentir sua respiração ofegante bater no meu rosto. Nossos corpos se colidiram e então suspirei de forma falhada, estava impaciente.

– O que — você — sentiu? – sussurrei entre os dentes pausadamente, de forma impaciente. Nossas respirações estavam tão rápidas que pareciam se fundir naquele momento.

– Eu... – ela respondeu, me olhando nos olhos. Sua voz sussurrava – gostei.

Desculpe. O que? Sim, eu me assustei. Ok? Minha terapeuta e eu estávamos numa convivência estranha. Eu não estava entendendo mais porra nenhuma. Mas o que me deixou mais espantado não foi apenas resposta dela e sim minha reação interna também. Me senti feliz em ouvir aquilo. Meu ego se inflamou e simplesmente deixei de me sentir um idiota por também ter gostado do beijo.

Não contive o ímpeto de empurrá-la ainda mais contra a perede, fazendo nossos corpos se esmagarem de forma violenta e choquei nossos lábios desesperadamente, ela suspirando entre o beijo e levando uma mão em minha nuca, seus dedos passeando suavemente por ela, deixando-me arrepiado imediatamente.

Mordi seu lábio inferior enquanto puxava sua coxa contra meu corpo, com força e sentia seu suspiro violento com o susto. Aquilo era tão excitante.

Minha língua invadiu sua boca procurando sua língua e a encontrando. A mão de Jane puxava minha nuca com violência para enconstar mais nossas faces. Meu cabelo caído no rosto interferia nossas faces de se sentirem e a mão de Jane levou meu cabelo para trás com delicadeza enquanto nos beijávamos.

Droga, droga e droga! Por que aquilo era tão bom?! A minha vontade era rasgar toda aquela roupa que ela usava, descobrir cada parte de seu corpo, descobrir porque quando seu corpo tocava o meu, a sensação era tão insana, tão boa. Queria saber qual era a mágica por trás daquela calça jeans surrada e aquela blusa de manga.

Minha mão entrou dentro de sua blusa e passeou sem dificulades, a blusa que ela usava era larga e desajeitada. Senti sua cintura, aquela pele delicada e lisa, aquela cintura perfeitamente magra. Ela suspirou entre o beijo.

Tinha algo novo em tocar aquela pele que eu ainda não estava acostumado, não que eu estivesse reclamando, na verdade era algo novo e muito bom. Sua pele era suave. E aquele seu cheiro doce me lembrava um perfume de bebê, fazendo-me ficar extasiado. Era tudo tão bom nela que tive medo de continuar e descobrir mais e mais coisas, não havia nada que fosse ruim, e isso me deixara incomodado.

Minha mão subiu até seus seios, tocando-os por cima do sutiã, ela suspirou alto e pendeu a cabeça para trás, interrompendo nosso beijo, fazendo-me assim levar meus lábios até seu pescoço e assim pude sentir com mais intensidade aquele perfume.

Suas mãos puxaram minha jaqueta para fora do meu corpo e continuei chupando e beijando seu pescoço como se fosse a coisa excitante que existisse — e talvez fosse realmente.

A mão de Jane invadiu o interior de minha camisa e passeou por minhas costas, fazendo-me arrepiar de imediato. Senti vontade de tirar nossas roupas ali mesmo, já estava impaciente.

Droga!

Fomos súbitamente interrompidos por algumas batidas na porta, batidas impacientes e sequentes. Bufei, dando um leve murro na parede e me distanciando de Jane, que se ajeitou enquanto eu desviava e vestia minha jaqueta.

Ela se aproximou e abriu a porta, encarando uma surpresa não muito boa. O homem de quase dois metros entrara no consultório sem pedir licença, era Edward, o ex de Jane.

– Sério mesmo, Edward? – ela devolveu, com uma voz azeda – Por que adora interromper minhas consultas? Quer mesmo que eu fique sem pacientes?

Ele me lançou um olhar desdenhoso e rolou os olhos.

– Esse cara de novo? – disse, com ar de desdém – Qual o problema dele?

– Ou melhor, qual o seu problema comigo? – encarei, já não estava de bom humor mesmo...

Ele encarou-me sem respostas, porém quase rangendo os dentes.

– Edward! – Jane se aproximou – Sai daqui, agora!

– Não. – ele devolveu, impaciente – Manda esse mariquinha ir embora pra conversarmos.

– Eu não quero conversar com você, não temos nada para tratar, vai embora daqui. – a voz dela estava alterada e ela apontava para a porta como da outra vez em que os vi discutirem – Além do mais, estou no meio de uma consulta, está me atrapalhando.

– Pensei que cada consulta durasse em torno de quarenta e cinco minutos. – ele ergueu as duas sombrancelhas e continuou a encarar Jane. Ela se assustou – Sendo assim, a consulta dele já está acabando e podemos conversar melhor.

– Espera aí. – ela perguntou, balançando a cabeça confusa e surpesa– Como você sabe que a consulta do Patrick está acabando?

Ele sorriu sinicamente em resposta.

– Ele estava rondando seu consultório desde cedo, Jane. – respondi o olhando sério e ele sorriu de lado para mim, como se aprovasse minha descoberta com rapidez – Ele me viu entrar, marcou o horário e veio agora porque sabe que estamos quase acabando.

– Você é esperto, garoto. – ele respondeu-me com uma falsa admiração – Agora já pode ir, tenho que conversar com sua terapeuta.

– Não a ouviu, amigão? – sorri sarcásticamente e de forma forçada e impaciente – Ela não quer conversar com você, caramba.

Ele veio em minha direção com um olhar meio furioso, meu estômago embrulhou. O que eu ía fazer, gritar feito uma gazela indefesa? Por mais alto que eu fosse, ele conseguira me superar.

– Edward, não! – Jane repreendeu, com a voz mais alta – Se afasta dele e some daqui, agora!

– E se eu não quiser? – ele respondeu sem desviar de mim – O que vai fazer, Jane?

Jane suspirou impaciente.

– Acha que assim vou ceder? – ela devolveu, sua voz estava mais baixa – Me diz qual o sentido de me obrigar a ficar com você nessas condições, Edward? Sendo agressivo, me perseguindo, atrapalhando minhas consultas, destratando meus pacientes, me obrigando a fazer o que não quero?

– E se eu fosse gentil e fofo, você voltaria? – ele desviou o olhar para Jane e rolou os olhos com um ar de piada – Jane, faça-me o favor. Tentei ser assim durante tempos e a única coisa que recebia de você era o desprezo. Vocês mulheres gostam mesmo de violência, de sofrimento. Homens brutos e violentos devem estar na lista de fetiches de vocês.

– Não é bem assim... – Jane tentou se explicar.

– Eu te amava, te dava tudo, era um namorado perfeito e vejam só! – ele a interrompeu com a voz mais alterada, quase gritando – De que adiantou tanto romance? Você me abandonou, e nem mesmo todas as trufas de chocolate do Jacques Torres a fizeram voltar pra mim. Por que eu deveria levar em consideração esse seu maldito pedido?

– Seus ciúmes, suas cobranças estéticas, seu egoísmo, sua prepotência, sua mania de agredir todos os meus amigos... – ela gritou impaciente – Sua mania de me perseguir, de achar que me dando coisas caras iria me agradar, seu jeito superficial, seu mundinho fútil de academia e carros possantes, de querer que eu fosse sua modelinho em lugares irritantes...e aquele cheiro de perfumes franceses caros e repetitivos? E aqueles saltos que me obrigava a usar? Você se lembra quando me deu dinheiro no dia do meu aniversario e disse que era pra eu implantar silicones porque era muito reta? Eu tenho nojo de tudo isso, Edward. Eu NUNCA voltaria a passar por tudo isso.

Eu tinha praticamente sido esquecido pelo casal ali, eles estavam lavando a roupa suja e eu estava assistindo tudo feito um idiota que não precisava estar ali, ou que deveria interromper aquilo.

– Eu fiz tudo isso porque te amo, sei o que é bom pra você – ele gritou em resposta – não quero que seja feita de piada pelos outros. Olha como se veste? Você tem um corpo lindo, você é linda e estonteante, sexy, e esconde tudo por baixo dessas camisas de bandas idiotas e calças horrorosas, não se maqueia nem usa um vestido justo, se veste feito uma adolescente drogada e fica parecendo uma louca. Acha que está linda desse jeito? Pois saiba que não está, está ridícula e nada atraente. Está parecendo um moleque delinquente!

Jane pareceu chocada ao ouvir aquilo. Sua face expressava tristeza, choque e confusão.

– Como quer ser uma terapeuta de respeito se nem sabe se vestir como tal? – ele continuou, com aquela voz gritante e irritante – Ouve essas bandas melequentas dos anos oitenta, usa esses tênis surrados e fedidos, age feito uma lunática drogada... nunca se encaixaria em uma sociedade onde as pessoas não tem tempo de analisar alguém internamente por isso analisa estéticamente. Acorda!

Puxei ar agressivamente dos pulmões e pus para fora. Ouvir aquilo era tão...nojento.

Jane não respondeu, estava muito afetada pelas palavras do Edward barra gostosão barra valentão.

– Malditas sejam as pessoas que analisam uma mulher pela bunda e pelo silicone, amigão! – eu suspirei e rebati com a voz alterada e Edward me encarou imediatamente, com um olhar de “você ainda está aqui?”, eu rolei os olhos – Sim, eu ainda estou aqui. Aliás, mas que amor ridículo é esse que não gosta da namorada do jeito que ela é e nem respeita os gostos musicais dela? Qual é o seu problema, cara? Isso prova o quão você é fútil e se deixa ser levado pela estética. Se bem que olhando pra você e todo esse músculo, não é surpresa chegar a essa conclusão, não é mesmo? A verdade é que você nunca amou a Jane, apenas a “ama” quando ela usa salto, maquiagem e um vestido sexy, mas nunca parou para conhecer a garota incrível que ela é e sequer parou pra conhecer as bandas que ela gosta, que por acaso são muito boas. E com ou sem maquiagem ela é linda, do jeito dela, aliás ela tem um rosto muito angelical se você parar pra olhar melhor, mas creio que esteja muito ocupado notando os próprios músculos e se admirando. E que diabos você tem na cabeça pra dar dinheiro no aniversario dela e pedir pra ela por silicone? Tudo isso pra mostrar para os seus amigos valentões que você tem uma namorada gostosa? Minha nossa, quanta petulância da sua parte, jovem cidadão! – suspirei, procurando fôlego – E pensando melhor, isso só mostra o quanto você não merece a Jane, ela merece um sujeito melhor, que a ame de verdade, e não cobre dela um vestido justo e uma maldita maquiagem, que ela use quando der na telha e se sinta especial.

Por fim, suspirei me dando conta da palestra perigosa que eu tinha feito, e notei que o olhar de Edward beirava a fúria, meu estômago estava embrulhando de nervoso.

Edward se aproximou parecendo realmente bravo e me deu um empurrão, fazendo-me quase cair no chão.

– Quem é você mesmo? Aposto que só mais uma bixa drogada e deprimida. – ele gritou, suas narinas se contraíam com violência conforme ele se aproximava de mim e engoli seco, porém me levantei sustentando nosso olhar.

– Edward! – ouvi a voz de Jane gritar.

O punho fechado dele veio de encontro ao meu rosto com tanta rapidez que não me deu chances de desviar a tempo. Os músculos dele tinha uma proporção jus a sua força, o soco foi tão forte que caí no chão (mais uma vez). Aquele punho duro se chocou contra o meu rosto com realmente muita força, poderia jurar que o punho dele também iria doer, mas...adivinha? Ele nem sacudiu a mão, Mas que...?!

Jane correu em minha direção, aflita.

– Some daqui, seu doente! – a ouvir gritar para o ex enquanto eu estava muito ocupado sentindo dor no chão do consultório – E não apareça na minha frente nunca mais!

Ele nos encarou cerrando os dentes, ainda furioso e saiu do consultório, batendo a porta com tanta violência que acreditei que a mesma cairia no chão logo a seguir.

Ela supirou pesarosa e se abaixou me dando assistência.

– Patrick, levanta devagar, a cantina deve ter gelo. – ela disse com a voz trêmula, enquanto me ajudava a levantar do chão, com cuidado – Olha, eu não sei o que dizer... essa briga não é sua, é minha. Você não merecia esse soco, me desculpe, eu...

Nos sentamos no sofá e suspirei.

– Qual é, Jane! – revirei os olhos impaciente, e bem, eles doeram – Dá pra parar de me pedir desculpas? Fui eu que instiguei o grandalhão e me senti corajoso com isso, não estraga o momento.

Ela suspirou como se ouvisse algo absurdo.

– Patrick, você acabou de levar um soco de um homem de quase dois metros. – ela respondeu, ainda tensa – Não posso fingir que está tudo numa boa porque não está, ele é meu ex e você fez isso por minha causa.

Suspirei.

– Ok, então porque em vez de se desculpar feito uma dramática você não me agradece? – respondi, com a mão no rosto – Au, isso realmente doeu.

Ela me olhou nos olhos com um sorriso meio ofuscado.

– Obrigada, Patrick. – respondeu, sem conseguir conter o ar ainda tenso.

– Beleza! – respondi, sorrindo – Agora traz aquele gelinho que você disse, pode me ser útil.

Ela riu.

– Ai ai, Patrick... – respondeu entre suspiro – Fica aí que vou lá pegar.

[…]

Sam's POV

Arrumei todo o apartamento de Patrick. Ele era organizado, não poderia negar, porém as garrafas vazias de bebidas continuavam a serem espalhadas sem verem a lata de lixo e isso estava me dando nos nervos.

Bufei e me joguei no sofá para recuperar o fôlego. Logo a porta da sala se abriu e me virei para ver, o que obviamente seria Patrick entrando.

– Irmãzinha! – ele comemorou ao me ver e fechou a porta entrando. Eu ri em resposta.

Ele se aproximou dando-me um abraço esmagador e eu ri. Cessamos o abraço e o olhei, estava com uma roxidão em um dos olhos.

– Patrick, o que é isso no seu olho? – perguntei, ficando séria e o seguindo até o sofá.

– Apanhei de um bombado grandalhão. – ele devolveu, dando nos ombros.

– Como assim apanhou de um grandalhão, Patrick? – perguntei ficando aflita – Detalhes, por favor!

Ele rolou os olhos.

– O ex da minha terapeuta foi lá fazer escândalo e eu me irritei – Patrick disse – ele era maior do que eu, me ferrei e fim da história.

– Minha nossa! – fiquei assustada e olhei para o olho machucado com mais atenção – Mas...nossa, por que se meteu na briga?

– Você tinha que ver as coisas que ele falou dela. Argh! – ele fez uma careta e sacudiu a cabeça de forma inojada – É o cara mais fútil que já conheci. Aquilo me deixou realmente revoltado.

Fiquei olhando de forma admirada enquanto ele falava.

– Ele falava da Jane como se ela fosse obrigada a andar feito uma vadia só pra agradá-lo e como se ela não tivesse outras qualidades, apenas beleza e mais nada. – ele continuou, sério – Esse cara é ridículo, e deixou ela mal falando aquelas coisas.

Ele suspirou e ficamos calados por alguns segundos. Eu o observei, parecia indignado em seus devaneios e antes que eu pudesse dizer algo, ele continuou desparando.

– A Jane é especial, esses caras são muito cafagestes pra merecerem ela – ele bufou – e esse cara então...era uma mistura de Vin Diesel com Johnny Bravo, só que com os miolos batizados. Um verdadeiro acéfalo, Sam, você tinha que ver.

Ele bufou e se calou, dessa vez cruzando os braços e amarrando a cara, feito uma criança.

Eu não acreditei no que estava vendo...então suspirei e devolvi.

– Patrick, meu irmãozinho – comecei, tentando conter riso enrustido em minha face e batendo em seu ombro – por acaso você está gostando da sua terapeuta?

[...]

Notas finais
E então, o que acharam? Espero que tenham curtido!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.