Se cuida, Luís
2 Capitulo 2 - "Eu não ligo"
Recife, PE, 2014
Foi o último dia de aula. A estranha sensação de que agora a vida ficaria um pouco mais pesada me abalava, mas não quis demonstrar. Rayssa, Matheus, Lorena, Gonçalo, todos pareciam tranquilos com o ano remanescente. Não pareciam se importar com o que fariam em seguida ou se nós continuaríamos nos vendo. Eu me encontrava desesperado e inquieto, só que interiormente. Soltava algumas piadas, abraçava algumas vezes e corria para o corredor atrás da biblioteca pra respirar um pouco e meditar sobre o "e agora?".
Lá estava ele, escorado no balcão da cantina e conversando com a cozinheira, eu o via de longe, enquanto estava com o meu grupo de amigos estranhos. Seu cabelo ondulado estava bagunçado como sempre. Ele estava com o sorriso largo e claro que costumava abrir por qualquer coisa boba, com sua barba rala (coisa que faz sucesso na escola, uma vez que garotos com barba não são fáceis de achar) e com os braços à mostra. Patrick foi minha maior e exclusiva paixão de todo o ensino médio.
Eu o conheci no primeiro ano. Foi na aula da professora Rejane, de geografia, a tutora mais grosseira e enfadonha que já tive na vida, que trocamos nossa primeira conversa. Ele viu o nome "3oh!3" no meu caderno e me cutucou:
— Ei? — cochichou
— Opa! — cochichei de volta, nunca o tinha notado até então.
— Você gosta de 3oh!3? — me perguntou sorrindo.
— Se eu gosto? Eu amo! Como você os conheceu?
— Ah, eu tava vasculhando o Youtube, quando achei aquela música "Follow me" deles. Fui vendo as outras e me amarrei no estilo dos caras. Tenho os dois últimos CDs baixados.
— Eu os conheci por causa do feat com a Katy Perry. Adoro aquele vídeo e geralmente tudo o que eles fazem. "Touching on my" também gosto pra caramba. E tenho preguiça de baixar CD's, por isso ouço nas plataformas online — dei um sorriso.
Nós conversávamos sobre o que tínhamos em comum e ele revelou que era novato na escola. A professora Rejane nos encarava por cima dos óculos finos e nós não percebíamos. Entre os cochichos, ela nos mandava indiretas com seu olhar intimidador, no entanto, nenhuma recebida. Eu o achei bonito, a principio, mas nada demais. Não era alguém com cara ou jeito de quem seria dono do meu amor por três anos. Se bem que a gente nunca sabe quando vai ser fisgado. Rejane soltou um "ei, você" para o garoto. "Pra fora da sala".
Qualquer aluno que tivesse estudado no nono ano com aquela professora, sabia de coisas básicas para não ser expulso. Se você quisesse pegar um ventinho lá fora, era só fazer alguma piada, rir, conversar, ser um ser humano normal. Pra ficar em sala você tinha que ser uma máquina. Nas palavras dela, era preciso ter disciplina e classe.
Eu conversei com ele porque não era comum que falassem comigo. Aquela sensação de ser notado, mesmo que por pouca coisa, era boa. Pensei que os sussurros não seriam ouvidos. Mas o silêncio predominava na sala, todos faziam atividades, calados, concentrados, com só eu e ele interagindo, ela, sobrevivente da ditadura militar, com seu ouvido treinado, nos ouviria com certeza. O garoto fez uma cara de quem não se importava ao sair da sala. "Leve sua bolsa, as aulas restantes são minhas, o que significa que hoje você não precisa voltar para sala", ela disse. Ele pegou a bolsa, me olhou com o mesmo olhar que tinha enquanto conversávamos, um olhar que dizia "eu não ligo". Ele não ligava em abandonar a sala, em conversar com um desconhecido, em falar suas opiniões sobre o tema que iniciou nosso papo. Ele não ligava com nada e só saiu sem se importar. A sala assistia e, sem entender, meu peito doía. Eu encarava o chão, a cadeira ao meu lado estava vazia agora. Eu não conhecia aquele garoto, nem ao menos sabia o seu nome, mas me sentia culpado pela sua expulsão. Ele não ligava, mas eu sim.
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