Se cuida, Luís

6 Capitulo 6 - Aquele dia


2014, último dia de aula

Conversava com meus amigos e não vi quando Patrick encerrou sua conversa com a cozinheira. Eu o tinha perdido de vista.

— Gente, vamo lá no canto da suruba — nome carinhosamente dado ao lugar afastado dentro da escola em que costumávamos ficar — Lorena se levantou do banco de concreto.

— Mas e se o diretor iniciar a palestra agora? — Eu perguntei.

— Luís, dá pra ouvir de lá — Me respondeu.

— Ah, tem razão.

— Mas que baixo astral! O que foi, heim? — Ela me cutucou. — É o último dia. Vamo se animar.

— Vamo lá mesmo, aqui tá muito lotado — Rayssa disse.

Fomos e sentamos na pedra, próxima ao motor de água da escola, este que já quebramos umas duas vezes, com nossas brincadeiras bobas. Aquele lugar costumava ser radiante nas tardes anteriores. Rayssa ria das piadas que eu fazia com Lorena e Gonçalo e soltava as piadas dela. Falávamos sobre sexo, como se tivéssemos algum conhecimento disso. O único ali que não era virgem era a Lorena. Eu e Matheus brincávamos de luta. Lorena, explosiva o tempo todo, falava sobre as coisas que a deixavam brava — e nós riamos das suas confusões nos seus relatos. Como era a mais velha, sempre tinha coisas para contar. Gonçalo, com um violão, vez ou outra tocava música boa que nos fazia cantar em coro. Mas naquele dia foi diferente. Estava cada um no seu próprio mundo. Talvez fosse a despedida.

Gonçalo tinha saído. Só estava eu, Matheus, Rayssa e Lorena.

— O que tá ouvindo no fone, Matheus? — Lorena perguntou-o.

— Uma música nova que baixei ontem. Muito viciante.

— Hum, legal. Mas ficar no fone de ouvido no nosso último dia juntos não é legal. Vamos conversar, gente. Aff, se animem, Luís e Matheus! Rayssa, o que você vendo nesse celular?

— Tô respondendo uma mensagem — Rayssa disse, sem tirar os olhos do celular.

— Uma? Se é só uma mensagem, por quê continua teclando? — Lorena perguntou, intimidando.

— Porque vem chegando de uma em uma — Rayssa respondeu.

— Dá um tempo. É o último dia de aula. Quantas vezes eu preciso falar isso?

Lorena ia e vinha dando voltas. Nunca tinha a visto tão agitada. Eu e Matheus começamos a conversar sobre a música nova que ele disse ter ouvido. Não era nova, era de 2009, mas eu não o disse nada.

Rayssa teclava no celular mais rápido ainda, com sua testa enrugada e sobrancelhas franzidas. Acho que era a sua namorada. A terceira namorada do semestre

— Cadê o Gonçalo, gente? Mas que... Aff — Lorena resmungou.

Ao terminar a frase, via-se Gonçalo vindo. Trazia um violão.

— Ai, não — Lorena pôs a mão na testa.

Gonçalo sentou, tirou os sapatos e se escorou na parede:

— E ai, galera.
E foi logo na direção das cordas do instrumento, começando a dedilhar alguns sons.

— Gonçalo, hoje não — Lorena disse soletrando.

— Por quê? — Ele parou com o som.

— Porque você passou três anos tocando músicas do Renato Russo e ninguém aqui aguenta mais. Nem eu que amo MPB aguento mais.

— Eu gostava — eu disse, mas fui ignorado.

— Você ama MPB desde quando? — Ele a perguntou.

— Desde que conheci Anitta.

— Mas Anitta não... — e foi interrompido por ela: — E Marcelo Camelo.

— Ok, então, mas o que eu toco? — Gonçalo perguntou de novo.

— Toca funk, você sabe tocar funk? Hoje tô afim de ouvir um funk.

— Não dá para fazer funk com o violão, Lorena. Se dá, eu não sei.

— Então pronto, Gonçalo, não toca nada. Guarda esse violão e senta aqui.
Gonçalo soltou um "argh" e cruzou os braços.

— Fabrício! — Lorena gritou para um garoto com quem ela costumava falar, que passava ali próximo. — Você trouxe a sua caixinha de som? Aquela que você tinha comprado na feira. Hoje eu quero dançar.
Ele fez que sim com a cabeça.
— Alguém aqui quer ir comigo? Não? Ok! Pois pra mim já deu desse enterro aqui — e saiu com passos rápidos, praguejando contra nós.

Me aproximei do Matheus. Ele desenhava no seu caderno uma mulher nua, deitada em uma cama, com os cabelos cobrindo seus seios. No lugar de seus pés, havia uma cauda de sereia.

— Por que ela tem uma cauda? — Perguntei.

— Sei lá. É arte. Me lembrou aquele quadro da Vênus.

Eu o elogiei e ele agradeceu. De longe, ouvimos um “1, 2, 3, testando”, de uma voz feminina, sendo dito num microfone.

— Vamos voltar, gente — eu disse e eles vieram comigo.

...

A diretora, no altar, falando algumas palavras arranhadas, já estava bem velha. Dona Ivone dizia que aquele era o seu último ano como gestora de escolas, mas só que repetia a mesma coisa todos os anos. Ninguém a levava mais a sério. Tossiu, leu um texto e passou uns slides com mensagens encorajadoras, cheio de flores, gatinhos e corações — o mesmo slide que ela passa todo final de ano, desde que chegou naquela escola. Eu via garotas chorando, aquelas que passavam as aulas falando sobre seus cachorros, namorados e tutoriais de maquiagem. Elas choravam de forma estranha: arregalavam bem os olhos, abriam um pouco a boca, e passavam as pontas dos seus dedos tremidos abaixo dos olhos. Era como se elas limpassem a lágrima antes mesmo dela sair. Os garotos bagunceiros faziam barulhos e soltavam gargalhadas altas, advindas de suas conversas animalescas.

“Malditos, não respeitam ninguém”, ouvi atrás de mim. Era o velho zelador que me enche de medo. Ele é corcunda e vivia resmungando umas palavras inaudíveis. Pelo menos aquela eu entendi. Foi engraçado. Dei um sorriso de canto de boca para Rayssa que estava ao meu lado.

— Você ouviu isso? Deu para entender o que ele disse dessa vez — cochichei para ela.

— Acho que finalmente comprou uma dentadura — ela mandou de volta.

Dona Ivone continuou lá no palco. Contava suas histórias, relatos de uma adolescência sofrida dos anos 60. Eu só ouvia algumas palavras-chaves como “batalha”, “sucesso”, “abdicação”, “esforço”, porque estava buscando, discretamente com visão panorâmica, o Patrick. Não o achei. Gonçalo estava escorado na coluna, olhando a despedida com cara de sono. Rayssa, com a visão fixa na Dona Ivone, não desviava o olhar por nada. Não parecia que ela estava focada na palestra. Era como se só seu corpo estivesse lá e ela estava com a cabeça em outro lugar. Estava em o celular em suas mãos. E Matheus estava lá atrás sentado, ainda desenhando.

Dona Ivone estava prestes a concluir sua despedida e pediu para que todos rezassem com ela. Por mais bagunceiros aqueles garotos fossem e por mais fingidas que aquelas garotas fossem, todos fecharam os olhos e começaram a repetir as frases que Dona Ivone dizia.

“Mas que vontade de vê-lo de novo”, pensei, sendo o único de olhos abertos, contando com a Rayssa que agora olhava para o chão — Gonçalo estava com os olhos fechados, mas eu poderia dizer que estava tirando um cochilo, se apoiando ainda na coluna. Pensei no Patrick o tempo todo. Entre aqueles vários homens que estavam no pátio, só haviam alguns com barba rala, e a maioria deles eram professores. E ninguém com camisa que não fosse a farda. Patrick não estava lá.

— Rayssa — cutuquei-a —, vou ao banheiro, volto já — eu disse e fui me saindo.

Foi quando a oração acabou, e eu seguia para o lado, segundos depois de avisar Rayssa. “Amém”, todos disseram em conjunto. Eu mirava no banheiro. Rayssa me puxou pelo braço.

— O que foi? — Eu disse, retrocedendo.

— Se liga naquilo, no palanque — ela apontou para frente.

Olhei e vi Dona Ivone cumprimentando um garoto. Ele era alto, magro e com uma camisa regata vermelha que deixava os seus braços visíveis.

— Um aluno da nossa escola gostaria de passar uma mensagem — ela disse, puxando para si o microfone, antes de entrega-lo de vez.

As primeiras palavras do menino foram: “boa tarde pra todo mundo, eu me chamo Patrick”.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.