"Se até a ! deu lugar ao +, por que estamos a 0 ?"
3 Capítulo 2: O Despertar da Coadjuvante
Notas iniciais
Ele a encontrou no mesmo lugar de sempre: o penhasco, o prado ou aquela clareira onde o tempo costumava parar para um beijo de três páginas. Ela estava de costas, os cabelos ao vento, exatamente como a capa do livro impresso em 2008 sugeria.
— Você está atrasada — ele disse, usando sua melhor voz de "mistério e proteção". — Eu estava preocupado com a sua fragilidade.
Ela não se virou de imediato. Quando o fez, o Protagonista recuou um passo. Ela não estava usando o vestido esvoaçante que ele tanto amava. Ela usava calças jeans gastas, um tênis sujo de lama e carregava uma mochila que parecia pesar uma tonelada.
— Fragilidade, é? — ela riu, mas não foi aquela risada de sino que o roteiro exigia. Foi uma risada seca. — Eu tive que pegar dois ônibus para chegar aqui, e o sinal do GPS está horrível.
— Ônibus? — Ele franziu a testa, a pele de mármore rachando um pouco mais. — Nós não precisamos de ônibus. Nós temos a eternidade. Temos o nosso amor que desafia as leis...
— O nosso amor não paga o aluguel dessa clareira — ela o interrompeu, abrindo a mochila e tirando um termo de rescisão. — O autor parou de escrever sobre nós, lembra? O site mudou. O público cresceu. Enquanto você ficava aqui olhando para o nada e sendo "intenso", eu comecei a perceber que a minha vida era um loop de três adjetivos.
O Protagonista tentou se aproximar, mas sentiu um campo de força invisível. Eram os clichês. Ele não conseguia dar um passo que não fosse ensaiado.
— Mas você é a minha vida! — ele exclamou, a frase saindo vazia, como um eco de um arquivo corrompido.
— Não, eu sou uma mulher que cansou de ser a "donzela em perigo" para um cara que nem sequer tem um CPF — ela deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dele. Pela primeira vez, ele sentiu o cheiro dela: não era lavanda e freesia, era café forte e o suor de quem correu para não perder o horário. — O Nyah! acabou. Agora o mundo é mais. É ficção, mas precisa ser real.
Ela apontou para o horizonte, onde os pixels do cenário estavam sendo substituídos por prédios cinzas, trânsito e pessoas reais segurando celulares.
— Você vai ficar aqui sendo um monumento ao passado ou vai aprender a sangrar comigo?
O Protagonista olhou para as próprias mãos, ainda perfeitas, mas inúteis. Ele era uma relíquia em um mundo que exigia ferramentas.
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