"Se até a ! deu lugar ao +, por que estamos a 0 ?"
5 Capítulo 4: A Maquiagem do Cadáver
Notas iniciais
O Protagonista olhou em volta, esperando que o ultimato do homem de terno cinza tivesse transformado o mundo em algo vibrante e novo. Mas, conforme a poeira dos pixels baixava, ele sentiu um calafrio de familiaridade.
— Espera... — Ele tocou a parede da biblioteca. — O nome lá fora mudou. Eu vi o letreiro brilhando em azul. “+Fiction”, eles disseram. Uma nova era.
Ele correu até a janela. O jardim ainda tinha as mesmas ervas daninhas; a fonte ainda estava entupida com o mesmo lodo de 2012. Ele consultou o menu da própria existência: a fonte era moderna e o carregamento parecia mais fluido, mas as opções de diálogo permaneciam presas às mesmas três frases melosas de sempre.
— É só um disfarce — a Coadjuvante apareceu na porta, cruzando os braços. Ela não parecia impressionada com a "evolução" do site. — Trocaram a tinta da parede, mas não consertaram a infiltração. O sistema mudou o rótulo, mas o conteúdo continua com o mesmo prazo de validade vencido.
O Atualizador soltou uma risada metálica enquanto digitava no tablet.
— É o que chamamos de "efeito placebo literário". Eles acham que mudar o nome vai atrair o Leitor que agora tem boletos e crises existenciais. Mas o Leitor entra, vê que você ainda está aqui parado, brilhando no escuro e suspirando pelos cantos, e vai embora. O site mudou de roupa, mas você continua despido em sua própria estagnação.
O Protagonista sentiu uma raiva que não estava no script. Não era uma raiva nobre de herói; era uma irritação humana, visceral, de quem foi enganado.
— Então de que adiantou? — ele gritou para o teto de gesso da mansão. — Por que nos deram um nome novo se ainda estamos presos nas mesmas vírgulas?
— Para ver quem teria a coragem de rasgar o papel por dentro — o Atualizador respondeu, sumindo em um rastro de dados. — O site deu a ferramenta. Se você vai continuar sendo um rascunho de 2008 em uma plataforma de 2026, a culpa não é do administrador. É sua.
Bella — ou quem quer que ela estivesse se tornando — jogou uma mochila velha nos pés dele.
— Chega de esperar o autor decidir se somos clássicos ou lixo. Se o site não mudou de verdade, a gente muda à força. Vamos sair deste fandom.
— Para onde? — perguntou o Protagonista, olhando para o abismo de códigos além da janela.
— Para o mundo onde o amor não é a única coisa que acontece. Para o mundo onde a gente sangra de verdade.
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