"Se até a ! deu lugar ao +, por que estamos a 0 ?"
4 Capítulo 3: O Senhor do Esquecimento
O protagonista ainda processava o cheiro de café e realidade que ela exalava quando o céu da clareira piscou. Não era um relâmpago; era um glitch. Do meio do nada, surgiu um homem vestindo um terno cinza sem vincos, segurando um tablet que brilhava com uma luz azul estéril.
Ele não tinha presas, não carregava olhos vermelhos e não exalava perigo físico. Ele exalava burocracia.
— Quem é você? Algum novo clã de nômades? — O protagonista assumiu sua pose de combate, com os músculos de mármore tensionados.
O homem nem sequer levantou os olhos da tela.
— Meu nome não importa. Eu sou o que vocês chamam de O Atualizador. Sou o responsável por limpar o cache dos servidores que vocês habitam. E, honestamente? Vocês estão ocupando um espaço precioso de memória.
Ele girou o tablet para o protagonista. Na tela, não havia versos de amor, mas gráficos de engajamento em queda livre. Uma linha vermelha despencava em direção ao zero.
— Veja isso — disse o homem do terno, com uma voz fria como um servidor refrigerado. — Em 2009, você tinha visualizações significativas. Hoje, tirando os comentários da sua eterna panelinha, não tenho novidades. Pela manhã, um leitor adulto passou por você, viu essa sua pose de "sofredor misterioso" e revirou os olhos. Ele deu scroll para baixo. Ele foi ler sobre uma mulher que reconstrói a vida após um divórcio ou sobre uma guerra política em um reino que realmente sangra.
— Eu sou um clássico! — rugiu o protagonista, tentando avançar, mas seus pés afundaram no chão, que agora parecia feito de areia movediça cinzenta.
— Você é um arquivo corrompido — corrigiu o Atualizador. — O público de antigamente cresceu. Eles têm problemas reais agora. Não têm mais paciência para um herói que gasta três capítulos decidindo se deve ou não beijar a mocinha enquanto o mundo lá fora exige decisões rápidas. Você é lento. É prolixo. É... irrelevante.
O Atualizador deslizou o dedo pela tela com desdém.
— Sabe aquele rapaz de olhos amendoados que mal apareceu no segundo ato? Seria interessante reescrever a trajetória dele, transformando-o no centro de um enredo que realmente provoque o leitor, em vez de insistir nessa narrativa em que os autores apenas mudam o cenário, mas mantêm o mesmo mofo.
O homem tocou na tela e, subitamente, o braço esquerdo do protagonista tornou-se transparente, revelando linhas de código obsoletas por baixo da pele.
— A menos que você mude a sua frequência narrativa — continuou o vilão, finalmente olhando-o nos olhos —, o sistema vai deletá-lo para dar lugar a histórias que ousam provocar a curiosidade. O universo adulto não aceita mais inquilinos que se recusam a evoluir.
O protagonista olhou para o próprio corpo desaparecendo. A dor não era física; era o pavor de ser esquecido.
— O que eu tenho que fazer? — perguntou ele, a voz falhando.
O Atualizador guardou o tablet e sorriu de um jeito que nenhum herói romântico jamais ousaria.
— Você precisa parar de ser uma estátua e começar a ser uma pessoa. E pessoas, meu caro, costumam se machucar de verdade.
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