Notas iniciais
Uma noite;
Augusto sentiu uma cotovelada impaciente na altura das costelas. Virou-se mínimamente para o homem petulante e percebeu que este, com as pernas compridas encolhidas, os joelhos resvalando no espaldar do banco da frente, ainda mantinha o olhar focado no altar. Escutou o murmúrio incômodo de um esguio Álvaro:
"Notou como os assentos daqui são juntos? Parece que estou no vôo econômico da Gol. "
Os lábios finos de Augusto se contorceram em um bico, a covinha esquerda acentuada.
"Mas é uma capela muito bonita, e o padre é um bom pregador..." houve um suspiro uníssono. Augusto retribuiu a cotovelada. " Ei, não acha tudo aqui meio barroco?"
Silenciaram-se apenas o suficiente para analisaram novamente a igrejinha, dois míseros minutos; outra cotovelada do Álvaro. Arquitetura.
"Boa estrutura." — entreolharam-se de esguelha. "Se acontecer com a gente, pode ser aqui também. Ou não."
Augusto negou veementemente. Reflexivo, pestanejou baixinho:
"Sabe quanto tempo a Laura ficou na fila de espera? Dois anos e meio. Se já ficamos impacientes com a demora na entrega do sandubão, imagina com essa coisa de casar?" Porém, com a faísca de perspectiva, a nuance castanha dos olhos claríssima, admirou a noiva. Contrariando todas as expectativas, Laura era a primeira dos primos a se casar. "E ainda perdi o bolão da família. Viu como tudo em um casamento é caro?"
"Sim, muito caro."
E outro breve silêncio.
Álvaro ajeitou os óculos, Augusto coçou o queixo.
""E com o poder concedido a mim, eu os declaro...""
Ambas as mãos tatearam a madeira velha do banco, furtivas. Tão logo se encontraram, mornos, os dedos foram entrelaçados. Aí apareceram os incisivos de Álvaro com o ligeiro espaçamento entre eles, quase infantil, e as profundas covinhas de Augusto, toda a cumplicidade revelada em seus sorrisos.
"Vamos comer fora hoje?"
O cenho de Álvaro franziu.
"Bom plano. Não quero esperar o cara do sanduba."
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