Se O Passado Voltasse Repentinamente
1 Capítulo Único
Por mais que ficar olhando para traz seja bobeira, ainda sim não deixo de imaginar se repentinamente o passado voltasse, e de novo eu encontrasse os meus sorrisos, lágrimas, sentimentos, pensamentos, sonhos e ilusões, o que iria fazer. Na certa viria aquela dúvida, “caso eu mude alguma coisa, mudarei aquele meu eu do futuro?”, eu ficaria horas e horas a pensar e no final, eu não suportaria passar pelas mesmas coisas e acabaria mudando muitas, muitas coisas.
Não perderia os meus preciosos tempos passados brigando por coisas fúteis e insignificantes. Não emburraria pelo dia nublado, não me envergonharia de expor minhas idéias e opiniões, que sempre ficaram ocultas.
Talvez eu não sofreria tanto por pessoas fúteis, não choraria tanto por nada e sim sorriria muito por nada, deixaria que a chuva estragasse a minha chapinha, deixaria o meu cachorro lamber-me a mão, nada de rosto! Eu me sujaria mais nas saídas com os amigos, diria o quanto algumas pessoas são importantes para mim e a cada novo dia, sorriria como uma boba, mas uma boba alegre.
Não iria ligar para os comentários maldosos, para as pessoas falsas e os meus infinitos complexos, apostaria sem medo de errar e chutaria com a certeza de que iria acertar.
Se o passado voltasse repentinamente, eu diria que o amo sem medo da rejeição, ouviria com mais atenção as antigas, emocionantes e muitas vezes engraçadas histórias da vovó, do vovô ou até mesmo dos meus pais.
Eu me desabafaria mais com os meus amigos e com os meus animais de estimação, comeria mais chocolate sem medo de espinhas no meu rosto surgir, não idealizaria tanto o meu príncipe encantado e sim me empanturraria com uma enorme taça de sorvete.
Não sentiria vergonha de mandar indiretas para aquela pessoa que tanto gosto, e mesmo se ele nem ao menos notasse, eu riria de mim, por a tal nível chegar. O abraçaria mais, brigaria, implicaria, cutucaria. . . Tudo sem medo dos comentários alheios.
Eu não buscaria tanto o final feliz, e sim o deixaria para ser vivido no final do final da minha história.
Não esconderia um sorriso, uma lágrima, um momento de birra ou um desgosto. Não perderia tanto tempo vendo o tempo passar, eu atiraria o relógio pela janela e soltaria um suspiro de alivio.
Se o passado voltasse repentinamente, não discutiria procurando sempre ter a razão, aproveitaria mais as tardes quentes e as noites frias, e não me impediria de berrar e chorar quando no final de um filme, o cachorrinho morresse.
Eu não me privaria de tirar mil fotos ao lado dos meus amigos, alegando não ser fotogênica, apenas daria de ombros e murmuraria. “E daí? Quem liga se eu sou feia ou bonita? Eu vou é guardar essas fotos e futuramente dizer que eu fui feia, mas fui feliz!”
Não me impediria de ao menos uma vez (ou mais) matar a aula em uma lan house, uma sorveteria, parque, shopping, cinema ou até mesmo em uma igreja, e quem sabe assim eu não rezaria para que a diretoria da escola não ligasse em casa denunciando a minha falta.
Se o passado voltasse repentinamente eu não ignoraria tanto o amor, dizendo que ele só traz dor e sofrimento e sim amaria tudo o que tivesse que amar, e se algum dia a dor chegasse eu jogaria na cara dela que nunca teria vivido um terço de emoções caso não tivesse aceitado conhecer o amor.
Eu ligaria às três horas da manhã só para ser a primeira a dar um “feliz aniversário” para aquelas pessoas tão queridas, e no inicio da ligação ainda seria irônica perguntando se o aniversariante estava dormindo.
Não ficaria com raiva de mim nos dias em que estivesse de TPM, e sim a usaria para discutir com as pessoas o porquê de eu achar que os humanos nasceram misteriosamente da bolsa de um canguru alienígena e não são parentes dos macacos ou o que quer que seja.
Se o passado voltasse repentinamente, por mais que o pé do meu parceiro doesse, eu dançaria mais, por mais que o ouvido das pessoas estivesse preste a explodir eu cantaria mais e por mais que as pessoas estivessem cansadas de tantas palavras doces, aos seus ouvidos eu continuaria a dizer: “Doce de leite, goiabada, doce de abóbora, marmelada e maria-mole.
Não reclamaria dos dias chuvosos ou do tédio, e sim brincaria mais de verdade ou desafio, por mais que no final a maioria dos meus preciosos segredos fossem revelados e os meus micos pagos fizessem com que, toda vez que a pessoa ali presente me encontrasse risse de mim só por lembrar-se dos meus segredos bobos e dos meus vergonhosos micos.
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Quantas coisas eu poderia refazer se o passado voltasse repentinamente. . . Bom, já que o passado não volta mesmo, eu vou refazer o meu passado no meu presente, e daqui a alguns anos certamente olharei para traz e direi: “Céus, que reviravolta. . . Quantas coisas eu vivi!”
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