Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim
13 A melhor amiga do mundo
Notas iniciais
A morena caminhava apressada. Há muito tempo não caminhava sozinha, porém a conversa que tivera com Brock deixara claro que Max não seria uma boa companhia naquele momento. O irmão sabia ser bem inconveniente quando queria – e quando não queria também.
Levara mais tempo do que desejava para chegar a Cerulean, porém antes estava em outro continente, viajando com Drew, e abandonara tudo quando soubera dos detalhes. Drew não podia abandonar a jornada, e May prometera não demorar mais do que alguns dias em Kanto.
Sorriu ao perceber que já conseguia ver o ginásio, e apressou-se ainda mais. Meio ofegante pela corrida, a morena tocou a campainha.
Teve que esperar por quase quinze minutos até ser atendida, e começava a ficar realmente irritada. Não foi Misty quem a atendeu. Um homem estupidamente bonito o fez. Cabelos castanhos e bagunçados enfeitavam um rosto angelical. A boca fina abriu um sorriso malicioso ao observá-la de cima a baixo. Provavelmente um dos homens mais lindos que May já vira e, para melhorar a situação, estava sem camisa. Pela aparência, a garota tinha certeza de que interrompera um momento íntimo.
Esperava que a parceira dele não fosse Misty.
— Você seria…?
— May. Quero falar com Misty. – a voz dela estava firme, entretanto estremeceu com a gargalhada que saiu do moreno.
Rudy riu com gosto ao observar mais um dos amigos inúteis da garota. Não bastasse Ash, agora também tinha mais uma?
— MISTY! – gritou ele. – TEM VISITA PRA VOCÊ.
A ruiva apareceu correndo, temendo que Rudy estivesse novamente implicando com Ash. A surpresa a tomou ao reconhecer a figura esguia de May, e sorriu verdadeiramente ao vê-la. Uma amiga de verdade em meio a todo o inferno que vivia era realmente uma visão gratificante.
Antes que Rudy pudesse insinuar qualquer coisa, Misty agarrou a mão de May e arrastou-a escadaria acima, jogando a garota para dentro de seu quarto e trancando a porta em seguida. A ruiva respirou irregularmente por vários segundos, antes de finalmente desabar e correr até May, chorando contra o colo da amiga.
A morena assustou-se com o ataque repentino, porém acariciou os cabelos alaranjados com carinho. Deixou que Misty chorasse por quase uma hora antes que a ruiva se sentisse suficientemente tranquila para parar com o pranto.
— Ok… agora pode me falar o que foi tudo isso?
Misty assentiu com a cabeça, um pouquinho mais calma. May ainda acariciava os cabelos arrepiados, e Misty estava agarrada às pernas da amiga como se sua vida dependesse daquilo.
— Ok. Eu posso sim. Acho que preciso começar pela parte mais importante: eu e Ash namoramos por alguns dias.
A morena parou com a carícia e afastou a ruiva, com os olhos arregalados.
— E por que você está tão triste?! Isso é maravilhoso!
Misty desviou o olhar. Quando voltou a olhar para May, seus olhos estavam marejados novamente.
— Não exatamente. Eu tenho um noivo, May. O Rudy.
— Como assim um noivo, Misty?! Como eu nunca fiquei sabendo disso?
— É complicado. Eu nunca pensei que essa história fosse realmente séria, entende? Mas é. O noivo é o moreno que atendeu a porta.
— O pedaço de mau caminho?
Misty riu.
— Ele é o próprio diabo, acredite.
May riu também, pensando que Misty brincava. Mas a ruiva não via graça alguma nas palavras que proferira.
— Se o odeia tanto, então por que aceitou?
— Eu não tive escolha.
Misty levantou e começou a caminhar pelo quarto. Agitado, Togepi voou para a cama, ficando perto de May – de alguma forma, a morena tinha um efeito calmante sobre ele (e sobre Misty também).
May apenas esperou até a amiga sentir-se bem o suficiente para começar a falar.
— A verdade é que estamos falidas. Não aparecemos na mídia há muito tempo, e os shows não fazem mais o sucesso que costumavam fazer. Precisamos de dinheiro, e minhas irmãs querem fama. Rudy apareceu como uma ótima opção, entende? Ele é rico, bonito e está começando a ficar famoso.
— Ok, mas por que você?
— Porque eu sou a irmã renegada, por assim dizer. Elas venderam minha imagem como a irmã aventureira. A atriz que gosta de viajar e que arrasa corações por onde passa. O Rudy é um dos líderes de ginásio que eu encontrei enquanto viajava sozinha, porque, é claro, elas escondem a existência de Ash com todas as suas forças, e nós nos apaixonamos. Eu seria vista como a romântica que encontrou o amor em uma aventura. Dirão que Rudy abandonou tudo para seguir viagem comigo.
— Mas você estava com Ash nesse período… por que esconder a existência dele?
— Elas não acham que Ash vá conseguir ser alguém. Acham que ele é um inútil, e desprezam o meu sentimento por ele. Elas não querem que ninguém saiba sobre Ash, porque não querem ligar o nome das Waterflower ao nome dele, assim ninguém irá perguntar sobre essa história para ele. Um escândalo na mídia é tudo o que querem evitar.
— Então por que o Ash não vai pra imprensa, dizendo que é tudo mentira?
— Porque elas vão dizer que ele é um fã ciumento, e todos pensarão que ele é apenas mais um idiota tentando causar escândalo. Eu terei que confirmar a versão delas, portanto as palavras dele serão inúteis.
May piscou, confusa.
— Por que você concordaria com essas besteiras?
— Eu aceitei tudo isso, né? Aceitei terminar o namoro com Ash e me manter afastada de todos… acha que eu não tenho um bom motivo?
— Que é…?
Misty franziu os lábios; a vontade que tinha de contar tudo à amiga era clara. Mas ela apenas desviou o olhar, caindo novamente sobre a cama macia.
— Não posso contar.
— Misty…
— Não posso – repetiu a ruiva. – Por favor, May, não fica me pressionando.
A morena suspirou, mas assentiu com a cabeça. Misty então começou a narrar tudo, desde o dia em que Brock, Ash e Dawn bateram em sua porta. May ouviu com atenção, rindo de algumas observações feitas pela ruiva sobre a garota que acompanhava os amigos.
— Dawn foi gentil comigo quando eu a conheci.
— Isso porque você não gostava do Ash, né? Ela é um demônio, May! Essa menina me irrita! Eu podia matar essa vadia, sério!
— MISTY! – repreendeu May, rindo.
— Sério.
E elas continuaram a conversar por horas. A noite caiu, e o momento de May ir embora chegou.
— Eu volto amanhã, ok? – prometeu a morena.
— Não, May. Uma vez que você vá, eu não posso mais te receber aqui. Ninguém quer que você traga mensagens de Ash, sabe?
— Até quando vai viver nessa prisão?
— Eu não sei… eu não sei mesmo.
— Eu não vou parar de te ver. – decidiu-se May.
— May… por favor, não torne isso mais complicado. Só por enquanto, ok?
— Só por enquanto.
Misty sorriu e abraçou a amiga, sentindo-se aliviada por alguns segundos.
— Preciso te pedir um favor, May.
— Peça.
— Convença o Ash a desistir? Leva ele pra bem longe disso tudo…
May afastou a ruiva abruptamente, sentindo-se novamente irritada.
— Eu não vou fazer isso enquanto você obviamente o ama!
— É exatamente por isso que você fará! Eu o amo, May. Amo muito. E o Ash precisa estar bem longe daqui, ok? Ele precisa estar bem longe daqui, por favor.
— Mas Misty…
— O que eu te contei é um pedaço. Você não sabe do que elas são capazes, ok? Minhas irmãs são loucas. Por enquanto o desespero do Ash é divertido pra elas, mas em breve não vai mais ser. E eu nem quero imaginar o que elas podem fazer.
— Misty, calma, ok? Como elas poderiam atingir o Ash?
— Poderiam dizer que ele está usando os Pokémons que tem pra machucá-las, poderiam dizer mil loucuras. Em breve seremos uma das famílias mais conhecidas, ok? Elas planejam vazar o casamento pra imprensa logo, e eu terei que sair com o Rudy. Elas podem acabar com o sonho do Ash de ser um Mestre Pokémon, e eu não quero ver ele sofrendo.
May mordeu o lábio inferior, sentindo-se impotente. Detestava aquela sensação.
— Mas Misty, vocês se amam…
— Sim, May. Mas o Ash só vai sofrer. Quer que ele veja eu e o Rudy tirando fotos pro casamento? Assim que a organização começar, Ash vai se tornar um estorvo e eles vão querer tirá-lo do caminho. Por favor, May, não deixa o Ash destruir a vida dele por mim…
May suspirou, mas assentiu com a cabeça.
— Eu vou convencê-lo.
— Obrigada, May. Você é a melhor amiga do mundo.
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Ash estava deitado no sofá de recepção do Centro Pokémon. Esperava por May. Brock dissera-lhe que a morena conversava com Misty, e ele apenas esperava por ela. Precisava saber o que acontecia com sua ruivinha.
May entrou pela porta principal do Centro Pokémon e sentiu os olhos marejarem ao ver a figura que pulou sobre si, exigindo respostas. Ash estava mais magro e tinha olheiras profundas. Não parecia em nada com o menino feliz que ela conhecia. Até mesmo Pikachu parecia abatido, e o Pokémon era sempre tão feliz…
— Calma, Ash. Ela só me contou sobre o que aconteceu desde que vocês chegaram.
Dawn e Brock apareceram também, e May finalmente entendeu o que Misty dissera a respeito da garota. Apesar do estado no qual Ash encontrava-se, ela parecia radiante. A morena sentiu raiva ao perceber que faria exatamente o que Dawn desejava – passar a tarde com Misty fizera com que ela própria criasse certa aversão a Dawn.
— May, que bom que está aqui. – Brock cumprimentou, abraçando a amiga em seguida.
— Como ela está? E o Rudy? O que eles tão fazendo com ela? Fala, May! – exigia Ash.
May suspirou e acariciou os cabelos arrepiados do amigo.
— Ela não me falou muita coisa, Ash. Na verdade, Misty me parecia muito bem – mentiu.
— Bem…?
— Não exatamente feliz, mas, você sabe, ela tinha aceitado o noivado.
Ash caiu no sofá. Imaginava sua ruiva presa na cama, impedida de atender aos seus berros. Mas nunca… nunca a imaginara bem.
May sentou-se ao lado dele, e ambos entraram em uma longa conversa por mais de uma hora. De alguma forma, May conseguiu cumprir a promessa que fizera a Misty.
Na manhã seguinte, o grupo seguia de volta a Pallet, de onde Ash partiria para uma nova jornada.
Continua…
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