Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim
14 Ninguém seguiu em frente
Notas iniciais
Um ano e dois meses para o casamento.
Era mais uma jornada. Mais um dia vazio e sem expectativas. Ash viajava por Sinnoh com Dawn e Brock, e tentava sorrir. Ria das brincadeiras dos amigos, desafiava qualquer treinador que encontrava, mas Pikachu deixava transparecer seu real estado de espírito.
Ash estava morto por dentro.
Ou algo tão próximo disso que não fazia diferença realmente.
Continuava seguindo em frente, mas sua mente estava sempre no passado. Quando conversara com May, tanto tempo atrás, realmente pensara que estava fazendo o melhor ao ir embora. “Ela vai seguir adiante com o casamento, Ash. Acho que é hora de você seguir em frente também”, May dissera. E estava certa, provavelmente. Ela normalmente estava certa.
Entretanto, para ele, estava tudo errado. Quando a deixara, Misty estava suficientemente apavorada para sequer falar com ele, e Ash ainda não sabia o motivo disso. Brock estava igualmente insatisfeito, ele percebia. Qualquer um perceberia, é claro. Bastava apenas olhar para os olhos normalmente cerrados dele; olhar para o semblante preocupado que tomava o rosto moreno sempre que o mais velho não estava fingindo estar bem.
A verdade era indubitável: Ash e Brock estavam igualmente preocupados, e aquela viagem era sem sentido para ambos.
Encaminhavam-se para o Centro Pokémon de uma cidade sem importância. Caminhavam devagar, com Dawn tagarelando sem parar sobre um assunto tão importante quanto a cidade em que estavam. May estava chegando, junto de Drew e Max. Ash surpreendia-se realmente com o tempo em que May e Drew estavam juntos. Eles provavelmente eram um daqueles casais que simplesmente nasceram com o destino traçado. Pertenciam um ao outro de um jeito tão profundo, que a inveja mais obscura crescia no peito de Ash. Ele desejava ter o mesmo tipo de relacionamento com Misty, mas ela estava presa em Cerulean. Como uma princesa presa na torre, à espera de um príncipe encantado.
Ou, ao menos, era como Ash via a situação.
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May chegou adiantada, e mantinha o sorriso mais falso possível. Drew estava com ela, e parecia igualmente incomodado. Max era o que trazia a expressão mais culpada, e Brock imediatamente soube que havia algo de errado.
— Hey, gente – Ash cumprimentou.
Mas o garoto estava absorto demais em seus pensamentos para realmente perceber as expressões culpadas dos amigos. Encarava o nada, pensando em Misty. Pensando nos poucos beijos trocados, e nos ainda mais raros momentos de felicidade naquele curto namoro. Mas também pensando em Misty como uma amiga. A melhor amiga, que o seguira por causa de uma bicicleta idiota, e que conquistara seu coração com a vaidade nem tão reprimida e os sorrisos sinceros.
Antes que pudesse perceber, uma lágrima escorreu por seu rosto.
— E então, onde estavam antes? – Dawn perguntava, com um sorriso.
Entretanto May não gostava dela. Com todo o seu coração, detestava Dawn. Depois de conversar com Misty – e elas haviam conversado –, não conseguia sequer olhar naqueles manipuladores olhos azuis sem sentir raiva. Algo tão profundo que fazia com que sua mão tremesse.
— Em um lugar.
Ash não prestava atenção. Olhava para a janela, com Pikachu em seu colo. Mais uma lágrima seguia a anterior, mas ele parecia alheio a elas.
— EU NÃO CONSIGO VER ISSO! – Max começou a gritar e então correu até Ash, que acordou do transe com o barulho.
May levantou-se irritada.
— MAX!
— Pirralho, volte… – mas Drew foi interrompido.
— A gente tava em Cerulean, Ash! E a gente falou com a Misty, e ela tava muito triste, e tava chorando, que nem você. Mas daí a May levou ela pro quarto dela, e elas conversaram por, tipo, muito tempo mesmo, enquanto eu e o babaca de cabelo verde tava na sala. E tinha um cara muito irritante que ficava andando sem camisa, o Rudy. E depois a Misty veio e ela me deu um beijo na bochecha e fez a gente prometer que não ia te contar que tava lá, porque ia ser ruim. Mas eu não consigo não te contar, porque você é meu amigo, e eu acho que você precisa saber, porque é importante e… – Max parou um segundo para recuperar o fôlego, mas Ash não estava mais olhando para ele.
O moreno levantou em um pulo, com Pikachu igualmente animado em seu ombro.
— May, é verdade? Você falou com ela?
A expressão de Dawn fechou-se, e a garota parecia ter comido algo muito azedo. May teria rido se percebesse, mas toda a sua atenção estava focada em Ash.
— Sim, mas Misty não me disse nada demais, ok?
— May, pelo amor de tudo o que é sagrado, a Misty ainda me ama?
Ele precisava de um sim. Apenas uma confirmação, e largava tudo para ir atrás de Misty. Largaria absolutamente tudo para ir atrás de sua ruivinha. Apenas uma confirmação.
— Ash, eu não…
— Por favor, May.
Ele caminhou até ela e agarrou as mãos da garota. Estava ansioso; tremia de ansiedade. Misty ainda o amava? De verdade?
— Eu não sei…
Ele apertou as mãos dela, e May percebeu as lágrimas presas. Ela tentou desviar o olhar, mas Ash estava perto demais; ansioso e necessitado demais. Ela sentiu seus próprios olhos marejarem.
— Por favor, May… a Misty ainda me ama?
May tentou, com todas as suas forças, negar. Mas apenas uma palavra saiu de seus lábios.
— Sim.
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Ele estava com Brock e Dawn ao seu lado. May ficara porque precisava participar da tal competição, e porque não conseguiria encarar Misty sabendo que acabara de trair a confiança que a amiga depositara em si.
Ash sorria; depois de alguns dias de viagem chegaram à Cerulean. Com Pikachu no ombro, saiu correndo até o ginásio. Brock ficara com sua mochila e ia com Dawn ao Centro Pokémon, mas o mais novo não se importava realmente. Tudo o que ele queria era Misty.
Quando chegou à janela dela já era noite, mas Ash não jogou pedrinhas. Não correria o risco de ser rejeitado novamente. Pegou uma pokebola, e Chikorita saiu. A Pokémon não pareceu muito feliz ao ver onde estavam, e Ash apenas sorriu para ela.
— Por favor, me leva lá pra cima… eu preciso falar com ela.
Por um momento, Ash achou que ela não o faria. Entretanto, resignada, a pequena planta aceitou e o levantou com seus chicotes.
Talvez fosse o dia de sorte de Ash, porque a janela estava aberta. Silenciosamente, ele colocou-a novamente na Pokebola e pediu para Pikachu sair. O Pokémon começou a procurar discretamente por Togepi, querendo tirá-lo daquele quarto o mais breve possível. Era hora de Ash e Misty ficarem sozinhos.
Ash entrou no quarto. Misty estava na penteadeira, ajeitando os cabelos com raiva. O garoto riu um pouco, vendo como ela continuava linda. Aproximou-se devagar, parando quando conseguiu ver seu reflexo no espelho.
Aquele dia fora completamente horrível para Misty. Rudy mostrava-se tão incrivelmente insuportável que ela estava tentada a jogar uma bomba na cara dele. Suspirou, voltando a ajeitar seus cabelos. Gostava mais deles curtinhos, mas Rudy queria-os longos para o casamento, e agora ela teria que cuidar para que crescessem. Suspirou, tentando afastar aquele imbecil de sua mente.
Como sempre, Ash voltou aos seus pensamentos assim que expulsou os problemas do dia-a-dia. Suspirou, encarando as próprias mãos. Sabia que May estava indo ao encontro dele, e mal podia esperar pela volta da amiga. Precisava saber se ele estava bem e, quase principalmente, se estava envolvido com Dawn. Apesar de tudo, continuava com ciúmes daquela garota.
Cansada, Misty levantou o olhar para o espelho, e os olhos amendoados que sempre invadiam seus pensamentos a encaravam risonhos.
Ela pulou, virando-se assustada para trás.
— Ash?! – ela sussurrava.
Ele sorriu. Seu nome ficava tão belo quando dito por aquela voz melodiosa.
— Oi.
Misty sentiu o coração parar. Ele estava ali. Realmente ali. As lágrimas vieram, mas ela tentou não chorar. Todo seu corpo tremia para ir até ele; abraçá-lo como se nada mais importasse, mas sabia que não podia. Havia muito em jogo.
A garota recuou um passo, enquanto Ash avançou dois.
— Vá embora – ela pediu.
Mas o pedido não foi feito com o entusiasmo necessário. Ela continuava recuando, e Ash não parava de se aproximar. A garota esbarrou na penteadeira e desviou para o lado, continuando o trajeto até se ver presa contra a parede.
— Não posso ir, Myst.
Ela não respondeu. Ele estava muito perto agora. As respirações mesclavam-se, os olhos iam, aos poucos, se fechando. Ash apoiou uma das mãos na parede e a outra correu até a cintura delgada, querendo tocá-la. Precisava ter certeza de que ela realmente estava ali, tão entregue a ele que chegava a ser engraçado. Se soubesse que seria tão fácil voltar à vida dela, teria invadido aquele quarto há muito tempo.
Acabando com a distância, Ash beijou os lábios que há tanto tempo clamavam pelos seus. As mãos de Misty foram para a nuca dele, e o moreno apertou a cintura que tinha entre os dedos, sentindo todo seu corpo tremer em expectativa. Os lábios de Misty eram macios e saborosos. Ela mordeu de leve o lábio inferior dele, fazendo Ash sorrir e interromper o beijo. Respiravam pertinho, com as testas coladas uma na outra.
— Eu te amo tanto… – ele sussurrou.
Misty sorriu, sentindo uma lágrima de felicidade escapar pelo canto de seus olhos.
— Eu te amo mais.
Ash sorriu, desconfiando daquela frase, e a pegou no colo, voltando a beijá-la. Misty envolveu a cintura dele com suas pernas, e Ash a carregou até a cama.
Naquela noite, Ash não voltou ao Centro Pokémon. Ele ficou no ginásio, bailando com o corpo de Misty como se não existisse casamento algum. Como se não existissem irmãs más ou compromissos.
Naquela noite eram apenas Ash e Misty, movendo seus corpos um de encontro ao outro, explorando todas as sensações que o amor deles podia lhes causar.
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