Se Chaves Fosse Um Shonen
2 Capítulo 2 — Bolas do lagarto
Notas iniciais
— Chiquinha disse que o Seu Madruga disse que o professor linguiça disse…
O punho do homem acertou sonoramente o apoio para braço da cadeira.
— Fale logo de uma vez, Chaves!
— Eu preciso das bolas do lagarto para encontrar meu amigo Cente!
As pálpebras do senhor Barriga subiram ao limite por um momento. Então o homem levou dois dedos a têmpora e a massageou.
— Oh, Chavinho… — fitou as íris negras do garoto e ergueu a palma na direção dele. — Nunca houve alguém chamado Cente na vila!
Os lábios do órfão tencionaram, o centro pendeu acima.
— É mentira sua! — bateu o pé no chão, o lugar tremeu. — Tá dizendo isso só para me chamarem de louco, mas eu não sou louco! Eu não sou louco! Isso tudo é culpa da bruxa do setenta e um!
Silêncio.
Estavam no cômodo pós entrada da mansão do pai do Nhonho, um vasto salão branco com bordas e mobília douradas que se estendia da porta por trinta e três metros até a escadaria. Atravessando os degraus chegaria a uma plataforma retangular, de cujas extremidades laterais outras duas subidas se manifestavam rumo ao andar acima, e nela, sentado no trono lá posicionado, o homem mais rico das terras intermediárias.
— Vá para casa, Chaves — apontou o dedo gordo para a saída. — Agora.
´´Tudo eu, tudo eu, tudo eu…!`` O garoto soltou enquanto lançava pontapés no ar e girava rumo a entrada do edifício. Agora teria que viajar sem nenhuma pista através do multiverso para encontrar seu amigo, pior! Talvez precisasse enfrentar a casa de número setenta e um, um lugar amaldiçoado por diferentes entidades para conter o maior pedaço do anjo que se rebelou contra deus, a prisão governada pela bruxa sem nome, conhecida apenas pelo apelido de Clotilde e seu título. Não sabia se sobreviveria a uma segunda ida lá…
— Ei, Chaves, espera — Seu Barriga. O órfão tinha um punho na maçaneta da porta de ouro, metade dela girada, a tranca quase removida. — Essas são as luvas do Seu Madruga?
O orfão acenou afirmativamente, as tinha calçadas, fora assim que atravessara da vila até aquela residência há quilometros luz de lá num instante.
— Olha, que tal um trato? Não posso te dar as bolas do lagarto, mas se conseguir fazer com que o Seu Madruga pague pelo menos um mês de aluguel… — um arrepio atravessou o corpo do rapaz, ele engoliu em seco e encarou o rosto dotado de um sorriso do homem que detinha os direitos comerciais de seu lar. O gordo possuía o punho fechado, exceto que o polegar pendia ereto e apontando para o centro do peitoral dele. — Irei te contar onde achar uma versão parecida delas no multiverso.
´´E então eu, zas e zas e então`` começou a entoar, as bordas da boca pendendo acima e as pernas dando pontapés sem sair do lugar enquanto uma mão garantia que o boné ficasse sobre a cabeça.
— Sim, sim. Mas agora vá de uma vez!
´´Isso, isso, isso!`` verbalizou com o dedo indicador subindo e descendo no ritmo da fala. Então socou um buraco de minhoca que o levaria ao quarto de hospital onde deixara Don Ramon. O cheiro de ozônio e eletricidade o colocou o nariz a tencionar, do outro lado do rasgo estava seu alvo e…
O atravessou, braços erguidos às laterais e um sorriso tomando os lábios.
— Chiquinha!
A face da garota virou de lado e o olho esbugalhou.
— VOCÊ! — ela.
No instante seguinte uma onda sonora lançava Chaves para fora do hospital, as costas dele destruindo as paredes que encontrava.
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