Se Chaves Fosse Um Shonen
3 Capítulo 3 - Mestre Linguiça
— O quê que cê tá fazendo, sua tonta!?
— Vo-você ma-machucou o m-meu papaizinho! — e uma nova onda sonora lançou o garoto do oito junto a detritos a outro quarteirão de distância do hospital, as mãos agarrando concreto, enterrando-se nele e marcando-o com uma trilha antes do rosto do rapaz ser acertado por um carro(um corola) que o fez perder o agarro.
Chaves aterrissou no parque do Ibirapuera. A boca o fazia o papel do nariz na absorção de oxigênio, os ouvidos doíam e a musculatura pairava tensa. As pessoas ao redor fitaram, algumas correram, teve quem puxasse os celulares e outros cochichassem teorias. Chaves ajeitou o chapéu na cabeça, ergueu o pé esquerdo e… parou, corvos o rodearam. As besta grasnavam enquanto moviam-se tão rápidos que as íris castanhas do moleque mal viam além de vultos negros. Agarrou um, mas a coisa se desfez em fumaça com cheiro de enxofre.
— O que você está fazendo, Chaves? Não acha que foi o bastante ter espancado o pobre do senhor Madruga e agora… o quê? Matá-lo?
— Mestre Lingu… — mordeu a língua e balançou o pulso. — Digo, professor Girafales, eu só vim dizer pro Don Ramon pagar o que ele deve pro seu Barriga porque aí ele vai me dizer onde tão as bolas do lagarto e zas e zas e…
Os corvos desmancharam e recuaram numa espiral até o charuto entre os lábios do seu antigo tutor. Chiquinha estava do lado dele, lágrimas a descendo pelas bochechas. ´´Deixa que eu cuido disso. Agora volte pro hospital, sim?`` o profissional da educação para a menina. Ela foi fungando pelo caminho marcado por arrancar de concreto e detritos. O rapaz do oito não pôde manter o olhar erguido. Fizera a amiga chorar. Sequer pensara em como suas ações a afetariam agora que, como ele, não tinha um provedor… mesmo que no caso da garota fosse apenas pelo tempo de se recuperar.
A mão do pedagogo pesou no ombro de Chaves, a enorme figura englobando-lhe em sua sombra naquele início de tarde.
— Qual causa, motivo, razão ou circunstância o levou a esta
atitude? — o tom solene.
Ao termino de explicar a questão do Cente as primeiras viaturas chegaram acompanhadas de uma ambulância. O chapéu de aba circular desceu ao ponto de cobrir os olhos do mangueira de bombeiro. A mão do adulto foi ao bolso e de lá tirou algumas notas de dinheiro.
— Eu não acredito que tenha existido esse tal de Cente, Chaves, mas isto deve ajudar com a dívida do seu Madruga e no percorrer de sua jornada atrás desse sujeito. Deixe que eu explico a situação às autoridades.
O rapaz do oito recebeu as notas e partiu.
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