Se É Amor
1 O Recomeço
Meu expediente já tinha acabado, as portas da padaria estavam sendo fechadas, os outros funcionários já tinham caminhado para suas casas, sim, caminhado, aqui não tem trem, não tem metrô, ônibus tem, mas moramos muito perto.
— Até amanhã, Helena, cuidado na rua.— Até. Virei a esquina e desatei a andar sobre a beira da praia, eu morava a apenas algumas ruas dali e era maravilhosos olhar o por do Sol no caminho de casa, isso a noite porque durante o dia eu só sentia meu cérebro fritando. Nossa praia seria uma das mais visitadas do Rio se o derramamento de óleo de uma empresa famosa não tivesse estragado-a, excluindo o fato do mar ser impróprio para banho, a vista continuava linda. Eu poderia contar todos os momentos que eu me lembro de ter passado com minha família ali. Meus pais eram separados, então quando eu digo família, digo minha mãe. Uma mulher incrível que sempre lutou pelo que queria na vida, e sempre acreditou em mim, mesmo com todos dizendo o contrário. O que há de pior numa filha de mãe solteira, não é mesmo? Eu poderia contar de quando eu era criança e ela me ajudava a balançar em um desses balanços improvisados de pneu. Poderia contar em como ela me ajudou na minha fase de adolescente rebelde sem causa, aliás essa era a frase que ela mais usou durante a minha adolescência. Mas a única coisa que eu queria agora era seguir minha vida, sair desse lugar, recomeçar, estudar e poder ajuda-la um dia. Após cumprimentar umas duas pessoas diferentes na rua parei em frente a casa de mamãe, nós tínhamos acabado de conseguir compra-la através de um programa social do Governo, não era nova, mas era nossa e eu amava aquele jardim. Mamãe cortava alguns legumes na cozinha, ia completar quarenta anos na semana seguinte e estava desesperada com os novos cabelos brancos, tinha tingido os cabelos lisos de loiro e estava começando uma rotina de caminhadas todas as manhãs.— Chegou cedo.— Não passei na Rosa hoje, de novo.Mamãe fez uma careta.— E por que não? Tem tempo que não vejo vocês juntas.— Ah, mãe... Acho que ela tinha comentado que ia sair hoje. Vou tomar um banho e já volto! — Era óbvio que eu queria fugir do assunto, assunto no qual ela sempre voltava. Logo depois de descobrir minha lesbianidade, mamãe não podia me ver com amiga alguma que jurava ser minha namorada, eu nunca namorei com amiga, nunca senti desejo em nenhuma delas, Rosa era uma exceção, embora ela já tivesse uma companhia. Tomei meu banho de dois minutos e estava voltando para cozinha quando resolvi abrir meu email. Procurei meu notebook pelo quarto, que estava do jeito que eu gosto mas minha mãe e Rosa chamaria de bagunçado, elas inclusive diziam que eu não tinha mais idade pra ter postêrs na parede, onde já se viu, precisa de idade pra amar Harry Potter? Ou Game of Thrones? Achei embaixo da cama junto com Puf, meu gato. Ultimamente eu estava procurando empregos pelo centro da cidade, não que eu tenha tido muitos resultados, algumas entrevistas e nenhuma ligação. Chequei o email com apenas uma proposta interessante, uma proposta em semanas já é alguma coisa. Procurei o bloco de notas do celular e anotei. SIQUEIRA CAMPOS, COPACABANA, N453 DIA 20/10 ÁS 16:00 Era uma entrevista de emprego como cuidadora de crianças, ou, babá. Eu tinha experiência com crianças, cuidei de todos os meus primos e trabalhei para uma amiga de mamãe antes de conseguir uma vaga na padaria. Meu curso de inglês intermediário poderia vir a ajudar.— Filha, você não sabe quem chegou!!!! — Escutei mamãe gritando de forma estridente e feliz da cozinha.— Ooooooooooi! — Disse a visita. Era Rosa, impossível não reconhecer essa voz. Nós tínhamos completado o ensino médio juntas havia dois anos e ela continuava a mesma. Os olhos claros eram a coisa mais linda que eu já havia visto e só perdiam para seu sorriso, deslumbrante, eu precisava olhar para o lado caso ela sorrisse muito, não é fácil tentar não desmantelar perto dela. Senti seu abraço forte e o cheiro de seu perfume importado incrivelmente doce.— Nossa, Rosa, você quer me matar sufocada? É um plano? Nada de vestígios, sem marcas, te entendo.— Você não me vê tem semanas e se preocupa em reclamar do cheiro do meu perfume? Que tipo de amiga é você?— Do tipo sincera!Mamãe apareceu no corredor.— Imagino que com a quantidade de conversa vocês vão preferir jantar no quarto, não é? Pelo menos assim Helena me deixa assistir minha novela em paz! — Disse, fazendo careta. Saímos rindo do corredor e nos servimos. Deixei ela andar na frente porque eu gostava de ver seu cabelo balançando molhado, seu corpo sincronizando com o movimento. E realmente fazia tempo desde sua última visita, nós ficamos afastadas logo depois do meu surto de sinceridade e agora ela voltou como se nada tivesse acontecido, o mínimo que eu sentia era curiosidade.— E aí, como está a Beatrice? Como você está? A que devo a honra? — Disse, na tentativa de não parecer nervosa.
— Você é realmente direta, não é, Helena? Quer falar sobre ela agora mesmo? — Eu poderia contar as vezes em que Rosa se sentiu irritada comigo e essa era uma delas.— Não, tudo bem...Ela me interrompeu.— Nós terminamos. E não, não foi pela sua crise de sinceridade. E não, eu não quero falar sobre isso. E sim, tem uns dias. Você pode ser você? Senti sua falta. Engoli a seco, deixei meu prato de lado e a puxei para perto. Eu não me sentiria bem ficando feliz pela tristeza da minha melhor amiga, a verdade é que o relacionamento delas duas não ia muito bem, Bea não era a melhor pessoa do mundo, mas eu via como a Rosa cuidava dela.— Consegui uma entrevista e parece ser boa!— Sério? Quer que eu vá com você? Eu sentia as lágrimas dela escorrendo pela minha blusa. Apertei seu corpo em meus braços.— Se você quiser, tudo bem.— Posso dormir aqui hoje?— É claro. Nós comemos nossa comida já meio fria, em silêncio. Ela foi para o banho e eu para a cozinha. A pior coisa que ter seu coração partido e ver quem você ama ter. Quando você realmente ama uma pessoa, você só quer a felicidade dela, mesmo que para isso acontecer, não seja com você. Amar é isso, o resto é balela. Peguei um leite condensado no armário e comecei a fazer brigadeiro, estava quase pronto quando queimei minha mão e deixei a panela cair acidentalmente.— Ai! — Pensei N palavrões mas eu estava treinando não utiliza-los.— Quem será que está destruindo minha cozinha essa hora da noite? — Disse mamãe que apareceu de pijama.— Olá Dona Jasmin, a senhora gostaria de ajudar uma pobre jovem-adulta que não consegue nem fazer um brigadeiro? — A verdade é que eu era uma ótima faz-tudo, menos em relação a cozinha, esse não era o meu forte, mesmo que eu tentasse. Mamãe me ajudou com o brigadeiro e me deu um beijo de boa noite. Voltei para o quarto antes dela, joguei algumas roupas no buraco negro que é o meu guarda roupa, arrumei a cama dela e a minha no tapete. Normalmente nós dormíamos na mesma cama sem problema algum, mas acho que as coisas mudaram agora.— Que brigadeiro é esse na sua mão?? Se não está queimado não foi você que fez!— Confesso que mamãe me deu uma ajuda! Mas foi só no final, eu juro! Era tão bom ver o sorriso dela. Seu cabelo estava preso em um coque firme e ela usava um blusão desses super vilões que todos adoram. Nós sentamos na cama e ligamos a TV em algum canal que eu não me lembro de ter prestado atenção.— Como estão as coisas em casa?— Dona Silvia ainda fala sobre como Deus vai me curar e sempre tenta me empurrar algum rapaz da Igreja, já se passaram anos e nada muda, eu não tenho muito o que falar, você tem sorte pela sua mãe.— É, eu sei. — Digo enquanto passo um pouco de brigadeiro na ponta do nariz dela. Ela ri e passa uma quantidade generosa na minha bochecha, nós começamos uma guerra de brigadeiro, rindo e passando os dedos uma no rosto da outra. Eu a puxo para mais perto e ela cai em cima de mim, em uma cena nada romântica nossos narizes se batem.— PORRA, HELENA! Eu começo a me desculpar, enquanto seguro a risada. Arrumo alguns fios que soltaram do coque atras da orelha dela. Ela começa a me empurrar, também sorrindo e eu sinto meu coração pulsar cada vez mais rápido, meu estômago embrulha e eu me pergunto quantos anos eu tenho? Já sai com algumas garotas e nunca me senti assim, nós estamos flertando e eu me sinto nervosa? Não sei o que eu sinto, me sinto dormente, feliz. Dessa vez ela que me puxa para mais perto.— Tá vendo, é assim que se faz. — Diz e me abraça ao mesmo tempo, eu posso sentir seu coração tão rápido quanto o meu.— É engraçado e clichê quando nós vivemos a procura pela pessoa certa e descobrimos que ela sempre esteve ao nosso lado, não?— Nós temos a estranha mania de complicar as coisas, talvez, esteja na hora de parar. — Ela diz isso de forma pausada, segurando meu rosto e me puxando cada vez para mais perto. Nessa altura a dormência toma conta de mim. Eu a encosto na cama e chego meu rosto cada vez mais perto, sinto sua respiração perto da minha e sorrio, encosto seus lábios nos meus, nós começamos em um beijo leve e eu sinto sua língua quente percorrer minha boca, aperto sua cintura contra a minha e acaricio sua nuca com a mão livre. Nós estamos começando a ficar quentes demais, é tudo bom demais, o beijo, o corpo, o abraço. Ela passa suas mãos pelo meu corpo e tenta chegar ao meu sutiã, seu beijo fica mais rápido, eu sinto meus pelos arrepiarem e afasto um pouco.— Você sabe que eu esperei muito por isso, mas eu não acho que essa seja a hora. Ela me olha pensativa e afirma com a cabeça, sinto sua respiração ofegante, sinto o choque invisível e gostoso entre nossos corpos. Eu a puxo para deitar em meu peito e trocamos mais alguns beijos. — Eu gosto de você, eu só tinha medo, mas eu sempre gostei. Eu pensei muito durante a semana e eu não me importo com o que os vizinhos, ou o pastor, ou meus familiares vão falar. — Ela diz e logo depois adormece em meus braços. Nós nos conhecemos desde nossa infância, sempre fomos amigas e durante a adolescência eu descobri um sentimento a mais, Rosa é linda, inteligente, determinada e sempre chamou atenção por onde passou. Eu sempre fui a esquisita, nerd, sapatão. É assim que as pessoas me denominam e não importa o quão gente fina eu sou, esse é o meu rótulo, embora eu goste muito da palavra, eles tentam usar como ofensa. As pessoas são maldosas, embora eu não me importe com elas. Eu tenho minha família, Rosa, e quem sabe, um novo emprego. Dormi pensando no meu recomeço.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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