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Notas iniciais
Elisabeta leu mais uma vez as palavras contidas naquela carta. Eram lindas. Poéticas, até. As palavras de um homem apaixonado, que seria capaz de dedicar o mundo à sua amada. E, justamente por isso, eram também completamente piegas e absurdas. Ninguém deveria dedicar tanto amor à outro ser humano. Principalmente quando tal ser humano respondia pelo nome de Briana e era uma das piores pessoas que Elisabeta conhecia.
— E então, o que acha? – Darcy Williamson, seu melhor amigo, perguntou, ansioso.
— Horrível! – Elisabeta resmungou. – Você não vai enviar esta carta. – disse, enfática.
— O que? – Darcy levantou-se. – Por que?
— Em primeiro lugar, você viu esta mulher apenas uma vez, Darcy. Em segundo lugar, a única vez em que a viu ela o tratou mal. Em terceiro lugar, é tudo mentira.
— Não é exatamente mentira. – ele sentou-se. – Talvez um pouco exagerado, mas não é mentira.
— Mal posso esperar para encontrá-la novamente. Penso em nosso compromisso todos os dias. — Elisabeta imitou a voz de Darcy, de uma forma completamente caricata, fazendo-o rir. – Desde quando você pensa em Briana todos os dias?
— Eu tenho um compromisso com ela, Elisa. Nossos pais já acertaram todos os detalhes do nosso casamento e...
— E isso é um completo absurdo. Você é um homem adulto, Darcy. E vai se casar com uma mulher que não ama. – Elisabeta elevou o tom, apenas para baixá-lo novamente. – É insano.
Darcy a fitou com curiosidade. Elisabeta agia de uma forma estranha sempre que conversavam sobre aquele assunto. Era como se a perspectiva de Darcy se casar por um acordo fosse contra tudo o que ela acreditava. E houvera o tempo em que Darcy acreditara que havia algo a mais naquele destempero. Mas era sempre uma reação fugaz, e logo ela estava controlada novamente.
— Eu só queria deixar claro à Briana que nosso compromisso está de pé. – ele deu de ombros.
— Você deveria fazer isso sem mentir para a moça. – Elisabeta revirou os olhos. – Eu vou ficar com isso, para não correr o risco de você enviar.
— Elisabeta, você é intolerável. – Darcy resmungou, levantando-se. – Eu vou continuar trabalhando.
— Ótimo. É melhor mesmo que você se dedique à algo mais produtivo. – ela franziu a testa.
Darcy caminhou até sua sala de editor chefe no jornal, e Elisabeta observou de canto de olho ele bufar ao sentar-se em sua cadeira. Olhou novamente para o papel que tinha em mãos. Quase sem perceber, passou o polegar pelas letras que finalizavam a carta. “Seu, Darcy Williamson.” Sacudiu a cabeça, espantando aquela linha de pensamento que sempre levava ao impossível.
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Darcy Williamson e Elisabeta Benedito eram um casal perfeito. Trabalhavam juntos, passavam quase todo o tempo juntos, conversavam sobre a vida, seus sonhos, o mundo que Elisabeta sonhava em conhecer. Todas as pessoas que os conheciam, incluindo seus familiares, tinham a certeza de que eram almas gêmeas. Desde que se conheceram, dois anos antes, suas vidas simplesmente não faziam mais sentido quando estavam separados.
Exceto que, a barreira que separava aquela grande amizade de um relacionamento fora cruzada apenas uma vez, na saída do Bar do Seu Manoel, em uma madrugada gelada, quando Darcy insistira em ser um cavalheiro. Mas o cavalheirismo durou apenas até todos os amigos entrarem no cortiço e ele precisar se despedir de Elisabeta. Os quase três meses de tensão desde o primeiro encontro no jornal explodiram naquela noite, em um beijo apaixonadamente alcoolico.
E, a despeito do calor que tomou conta dos dois, das mãos viajantes que quase foram longe demais, e da óbvia vontade de transformarem tudo aquilo em algo a mais, os dois se separaram. E quando disseram ao mesmo tempo que aquilo não deveria ter acontecido, acabaram mutuamente com a esperança de algo a mais. Porém, valorizavam aquela amizade, e por causa disso, nenhum deles tocou mais no assunto.
Desde então, ousaram ser amigos. Melhores amigos. Compartilhando tudo o que o outro não queria saber – como encontros, e a formalização do noivado de Darcy. Entenderam como unilateral todo o sentimento, e nas muitas vezes em que estiveram próximos demais, com a boca seca e o coração acelerado, acreditaram que o desejo no olhar do outro era algo imaginário.
Por isso não deveria doer ler aquelas palavras. Elisabeta sabia que Darcy iria se casar com Briana. Mesmo que aquela carta fosse falsa agora, seria verdadeira um dia. E Briana e Darcy a leriam para seus filhos, lindas crianças europeias, engomadinhas como o pai. Elisabeta, que se considerava uma boa pessoa, já odiava aquelas crianças imaginárias. Assim como odiava Briana, e odiava aquela carta.
E odiava ainda mais aquelas letras perfeitamente desenhadas, que deixavam claro que Darcy não era dela. Que nunca seria dela.
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Aquela carta deu início a uma série de mudanças na relação de Darcy e Elisabeta. Tornou ainda mais real o compromisso que Darcy tinha com Briana, e por causa disso, Elisabeta se afastou sutilmente. Ao menos acreditava estar sendo sutil, pois Darcy logo percebeu que havia algo de errado, a julgar pelas negativas de Elisabeta para qualquer passeio longe do jornal.
Depois da segunda semana, ele não apenas sentia falta dela. Causava uma dor física manter aquela relação profissional, em contraste com as horas de conversa que costumavam ter. Sentia falta daqueles olhos claros, do jeito com que ela sorria ao falar sobre o que amava, seus ideais, pensamentos, vontades. Não tolerava a formalidade ou as desculpas para não sair com ele.
Embora chovesse – e chovia muito, e o relógio já marcasse um horário pouco aceitável para visitar uma moça solteira em um sábado a noite, Darcy saiu de casa em um impulso. Não pensou muito sobre a logística da situação, e mal notou as roupas completamente molhadas quando bateu com mais força do que o necessário na porta do quarto de Elisabeta, naquele cortiço que costumava achar tão inseguro.
Elisabeta não se importou em colocar um roupão, obviamente esperando Jane, mas também não notou o fato quando abriu a porta para um Darcy encharcado. E ainda levaram alguns segundos para reagir, até Darcy entrar sem permissão, e Elisabeta fechar a porta, como se a situação não fosse completamente estranha para os dois.
— O que aconteceu? – perguntou, de repente caindo em si.
— Precisamos conversar. – ele disse, de costas para ela.
— O que aconteceu? – Elisabeta repetiu, sem entender. – Foi seu pai? Charlotte, o que...
— Eu e você precisamos conversar. – Darcy virou-se para ela, e perdeu um pouco a respiração ao vê-la.
— Darcy, você está me assustando.
— Você está me evitando. – ele acusou, sem alterar o tom de voz.
— Eu não estou...
— Você não quer mais sair comigo, não conversa comigo, mal passamos tempo juntos. – reclamou. – E Elisa, se é pra perder você...
— Eu só estou ocupada. – ela mentiu, olhando para as próprias mãos.
— Tecnicamente eu sou o seu chefe. Você não teve mais trabalho nas últimas semanas do que nos últimos dois anos e...
— Eu não acho que seja adequado passarmos tanto tempo juntos. Você vai se casar. – ela finalmente soltou a respiração, olhando-o nos olhos.
Os dois ficaram em silêncio, de repente. E ficou um pouco mais difícil de respirar, o quarto do cortiço parecendo pequeno demais naquele momento. Então Darcy respirou fundo, deu um passo à frente, de forma quase mecânica.
— Elisa, só existe um motivo para que eu tenha mantido esse compromisso com Briana. Um motivo para que eu olhe para você todos os dias e aceite ser seu amigo. Um motivo para eu fingir que aquele beijo nunca existiu. E esse motivo é não perder você.
Elisabeta estava zonza.
— Então se você vai se afastar de mim, eu não tenho mais nenhum motivo para esconder. Eu sou completamente apaixonado por você, Elisabeta Benedito. Por cada parte da sua personalidade. E não há um dia em que eu não durma sonhando com você nos meus braços. Eu amo você.
Darcy ficou em silêncio, aguardando qualquer reação de Elisabeta. E ela levou alguns segundos para voltar a si. Aproximou-se dele, cheirando o ar de forma exagerada.
— O que é que você está fazendo? – ele perguntou confuso.
— Eu estou garantindo que você não está bêbado. – Elisabeta respondeu, como se fosse óbvio.
— É claro que eu não estou bêbado. – Darcy bufou.
— É bom que não esteja. – ela o encarou. – Porque você não tem o direito de retirar essas palavras, Darcy.
— Por que eu retiraria essas palavras? – ele cruzou os braços.
— Nenhum de nós dois vai fingir que essa noite não aconteceu. – Elisabeta descruzou os braços de Darcy, colocando as mãos dele em sua cintura. – Eu te amo, Darcy. Desde que nos conhecemos, em cada passeio no parque, em cada conversa sobre as estrelas. E eu espero que depois dessa noite, eu seja a única a receber cartas suas.
Darcy abriu um grande sorriso, segundo antes de tomar os lábios de Elisabeta nos seus. E foi como tocar o paraíso, como matar a saudade que não sabiam que sentiam. Antes que pudessem notar, Darcy estava sentado com Elisabeta em seu colo, os lábios grudados.
— Você é meu, Darcy Williamson. – Elisabeta sorriu, se afastando um pouco dele.
— Todo seu. – ele disse, colando a testa na dela, e depois voltando a beijá-la.
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