Scritto Nelle Stelle
13 Cruzeiro do Sul
Notas iniciais
Mahara Carter POV
A língua dele pediu passagem por entre meus lábios, e eu notei o que estávamos fazendo. Pus minhas mãos em seu peito e gentilmente empurrei-o para trás.
– O que nós estamos fazendo? – Perguntei confusa. Eu havia acabado de beijar meu melhor amigo? Não pode ser.
– E-Eu não sei... Isso não está certo... – Disse ele, tão nervoso e confuso quanto eu. – Você é minha m-melhor amiga. N-Não...
– Vamos fingir que nada aconteceu. – Eu disse, soando até mais firme do que imaginei que poderia soar. Dan assentiu, respirando fundo. – Boa noite, Dan.
– Boa noite, Mahara.
Virei-me para o outro lado, e com frio, puxei a coberta até minha orelha. Senti Dan se mexer e logo suas costas tocaram as minhas. Olhei para a parede da barraca, e fiquei pensando no que havia acabado de acontecer. Eu realmente havia beijado o meu melhor amigo, meu protegido, e isso definitivamente não poderia acontecer de maneira alguma. Parte de mim protestava, com vontade de beijá-lo, e isso me assustava. Não se sente atração pelo o melhor amigo, e disse para mim mesma, para essa parte protestante, que isso não voltaria a se repetir.
Ao mesmo tempo que não podia, não queria, eu queria, eu sabia que podia.
Entrei em um conflito interno contra mim mesma, e de tanto brigar, cansei e adormeci.
Dan Evans POV
Mas o que deu em mim para beijar a Mahara?
Era tudo o que eu conseguia me perguntar. Quando acordei, ela não estava mais na barraca, e a chuva havia parado. Levantei e encontrei-a do lado de fora, fazendo café na fogueira junto com Andie e Luke. Ela sorriu para mim e me cumprimentou como se nada houvesse acontecido – como combinamos na noite passada. Então, era desta forma. Esse beijo deveria ser esquecido.
Depois do café, começamos a jogar futebol (ou algo semelhante a isso) no gramado da clareira, enquanto Eleanor e Perrie ficavam conversando com os pés dentro da água e Sean era nosso “juiz” que entrava no jogo volta e meia, “substituindo” qualquer jogador, independentemente de times. Mahara jogou conosco, no time adversário. E tenho que admitir que ela joga bem. Ela driblou todos nós (eu, John, Andie) até um de nós recuperarmos a bola. Quando estávamos cansados e resolvemos parar de jogar, o time dela (Mahara, Luke, Jack) havia marcado dois gols, e o meu, um.
Enquanto descansávamos, sentei-me ao lado de John e sorri malicioso.
– Então... Como foi passar a noite com a Andie?
– Eu não passei a noite com a Andie, passei ao lado da Andie. – Disse ele, dando ênfase em “com” e “ao lado”.
– Não que esta fosse a sua vontade, claro. – Eu disse. Ele riu.
– Eu não quero ir tão rápido assim. Mas, se isso for satisfazer sua curiosidade, eu a beijei ontem à noite. – Disse John, e eu ri.
– O que há de tão engraçado?
– Eu jurava que isso iria acontecer mesmo. Vocês dois, passando a noite juntos na mesma barraca...
– Falando em passar a noite juntos na mesma barraca... – Começou John, com olhar e sorriso maliciosos e cruzando os braços. – Como foi passar a noite com a Mahara?
Lembrei do beijo, e sorri. Disfarcei com humor.
– Eu não passei a noite com a Mahara, passei ao lado da Mahara. – Eu disse, imitando-o, risonho. John riu e levantou as sobrancelhas incrédulo.
– Nem um beijinho?
– Não John. Ficou louco? Ela é só minha amiga. Apenas isso.
– “Somos só amigos...” E é assim que tudo se começa...
– Assim se começa o que? – Perguntou Mahara sentando-se ao nosso lado.
– Nada! – Respondemos em uníssono. Ela nos olhou desconfiada e mudou de assunto.
Depois, fizemos um almoço baseado em macarrão instantâneo e ficamos meia hora deitados conversando, olhando para o céu. Depois trocamos de roupa e fomos para a cachoeira, novamente, boiando, brincando dentro da água.
– Acho que dá para deixar isso mais emocionante. – Disse Mahara, nadando até as pedras que ficavam mais perto da queda de água. Ficamos todos a olhando, para ver o que ela iria fazer – mas eu tinha uma hipótese muito provável. Ela subiu nas pedras e caminhou até um trecho que parecia uma escada, e subiu lá também. Quando parou, estava a uns três ou quatro metros e meio de altura.
– O QUE VOCÊ VAI FAZER? – Perguntou Luke, gritando.
– Ela vai pular de lá. – Eu disse, preocupado. E se ela se machucasse?
Mahara pulou sorrindo. Seu corpo afundou dentro da água, e graças ao fato dela ser cristalina (como a água não ficou cheia de barro devido a chuva, não sei explicar), conseguimos vê-la por os pés no fundo, tomar impulso e retornar a tona, sorrindo alegre.
– Essa garota é louca. – Comentou John baixinho, ao meu lado.
– E só agora você notou? – Perguntei de volta, sorrindo. Ela nadou até onde eu estava, e parou sorridente.
– O que foi? É legal. Vocês deveriam tentar. Dá uma adrenalina gostosa. – Disse ela. – Fora que ficaria feio para vocês se somente eu fosse a corajosa, vocês ficariam como mariquinhas.
Nós rimos com gosto.
– Ok. Eu vou. – Disse Sean.
– Ei, toma cuidado. – Disse Eleanor. – Aquelas pedras são escorregadias, você pode cair.
– Não se preocupe, Ellie. – Disse ele, beijando-a levemente nos lábios e nadando até lá. Percorreu o mesmo percurso que Mahara e logo em seguida se lançou de lá de cima. Quando retornou a superfície, sorria.
– Mahara tem razão! É legal! – Exclamou ele.
– Eu disse...
Perrie logo tomou coragem e fez a mesma coisa; Luke foi o próximo; John também foi; Eleanor foi com Sean. Logo, só restou eu e Jack. E Jack não pularia de jeito algum devido ao seu medo de águas profundas.
– Vamos lá, Dan. – Disse Mahara. – Quer que eu vá com você?
Ponderei um minuto.
– Tudo bem. Você venceu. – Eu disse, suspirando. Ela sorriu animada. Nadamos até lá, e subimos nas pedras. No momento em que me levantei, se Mahara não tivesse me segurado, eu teria caído de volta na água novamente. Nós rimos juntos, e eu estava nervoso. Subimos a espécie de escadaria natural até o trecho de onde todo mundo pulou, e nos posicionamos. Mahara segurou a minha mão. Olhei-a. Ela sorria.
– No três, tudo bem?
– VAMOS LÁ, CASAL VINTE! – Gritou John, lá de baixo. Mahara corou levemente.
– Não dê ouvidos. Pronto?
Assenti.
– Um... Dois... Três!
Demos dois passos rápidos e pulamos. No meio da queda, minha mão soltou-se da de Mahara, e logo meu corpo chocou-se contra a água, causando um certo impacto. Meus pés tocaram o fundo da piscina natural, e me impulsionei para cima, voltando a superfície e encontrando ar fresco. Tomei ar e comecei a rir. Realmente fora divertido – a queda dá uma adrenalina, e quando você afunda na água, você entra em uma espécie de transe; é difícil explicar.
– Viu? Eu disse que era divertido! – Exclamou Mahara. Nadamos de volta para perto dos outros e continuamos nos divertindo na água até tarde.
Já tarde da noite, o céu estava limpo como se não tivesse caído uma mini tempestade na noite passada. Todos já haviam ido se deitar, e fui até a barraca me trocar, e Mahara ficou sozinha diante do fogo. Quando retornei, ela estava deitada em cima de uma toalha xadrez, olhando para o céu. Fui até ela e deitei-me ao seu lado.
– Por que você olha tanto para as estrelas?
– Gosto de apreciar seu brilho, que não é tão forte na cidade devido à quantidade de luz elétrica que emitimos em direção ao céu. Sabe, dei aquela lista de porquês aquela noite...
– E hoje tem um por quê em especial?
– Tem. Conforto interno.
– Aconteceu alguma coisa? – Perguntei preocupado.
– Não, estou bem. Juro. É só um daqueles momentos em que você fica chateado sem razões, mas logo passa.
– Você sabe que estarei aqui para qualquer coisa, não sabe? Afinal...
– É o que melhores amigos fazem. – Completou ela. Olhei-a, e vi que estava sorrindo. Em seus olhos refletiam-se o brilho das estrelas, e era uma cena bonita de se ver. Seus olhos azuis eram inigualáveis, e unidos ao brilho das estrelas... Sorri diante de seu sorriso. Voltei a olhar para o céu.
– Qual sua constelação favorita?
– Do hemisfério norte, a ursa maior. Mas do hemisfério sul, o cruzeiro do sul.
– Por que o cruzeiro do sul?
– Ele forma uma cruz. Exatamente uma cruz. E para os navegantes, serve de guia, como um norte em uma bússola. Guiou os navegadores durante as Grandes Navegações, o primeiro passo em rumo de um grande “progresso”, da criação das máquinas... Mas, como diria Chaplin: “Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura”. As estrelas nos dão essas impressões de virtudes... E o cruzeiro do sul, em especial, pode servir de guia para uma alma transtornada, por que não?
Fiquei em silêncio pensando nas palavras dela. Mahara tinha umas ideias e pensamentos que poderiam soar loucura, mas de certa forma, ela tinha razão. Nós é que nos tornamos insensíveis demais para notar pequenas – mas grandiosas – coisas como estas. Como o brilho das estrelas.
– Sabe, pessoas me chamam de louca quando digo o que eu penso. Você acha que eu sou assim? Louca?
– Louca! Louquinha! Mas vou te contar um segredo: as melhores pessoas são.
– Alice no País das Maravilhas. – Ela disse em tom risonho.
– É.
Ficamos em silêncio por um momento.
– Eu gosto dos seus pensamentos. Você é inteligente. És diferente. Se expressas de uma forma original, Mahara. Eu gosto disso. Poucas pessoas são como você.
Olhei-a. Ela sorria.
– Quando voltarmos te levarei a um lugar cheio de pessoas como eu. – Disse ela.
– Onde?
– Você verá quando formos. E se impressionará com a inteligência e pureza daquelas pessoas. – Sua voz estava cheia de carinho e ternura. Percebi nesse tom de voz como ela adorava, amava as pessoas das quais ela se referia, mesmo eu não fazendo ideia de quem sejam.
– Tenho certeza que irei adorá-las.
– Irá.
De repente, olhando-a, tão bela e serena, com aquele brilho no olhar, lembrei-me do que havia acontecido na noite passada. Parte de mim pediu para que aquilo se repetisse. A outra parte se horrorizou com o tal desejo. Eu briguei comigo mesmo, em silêncio, tentando aquietar essa parte insana que queria beijar minha melhor amiga. E a realidade é que isso havia me deixado extremamente confuso. Entretanto, não vou exteriorizar meus pensamentos. Mahara poderia entender errado e adeus a nossa amizade.
– Acho melhor irmos dormir, já está tarde. – Disse ela. – Amanhã será nosso último dia aqui e teremos que aproveitar bastante, antes de voltarmos para o turbilhão da nossa realidade. Quer dizer, da sua, já que a minha é bastante normal e tranquila, obrigada.
Ri levemente.
– Você está na minha realidade agora. Nada será normal e tranquilo para você.
– Isso seria uma espécie de aviso ameaçador? – Perguntou ela, sentando-se e me olhando com diversão no olhar.
– Se você quiser entender assim.
– Veremos, Senhor Evans. Veremos. — Disse ela, olhando-me com seu melhor olhar do gênero “vingativo desafiador” e depois riu. Levantamo-nos e fomos para a barraca dormir. E dormimos um de costas para o outro, novamente.
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