Notas iniciais
Olá! Feliz ano novo para todos! Capítulo betado pela Holly! :3 Não tenho muito para falar aqui, mas leiam as notas finais. Boa leitura! Narração: Beyond.

Capítulo 18 – Mártir.

“Do que adiantaria reclamar? Tudo bem, talvez a culpa tivesse sido minha. As pontas dos meus dedos latejavam de dor. A quantidade de sangue que respingava no chão me deixou nauseado. Todo o ferro que envolvia meu corpo... Aquele cheiro de ferrugem e aquelas correntes geladas estavam me deixando com tontura, as gotas de suor que se formavam nas minhas costas escorriam e me deixavam com uma imensa vontade de secá-las. Minha garganta implorava por alguma coisa que pudesse tirar o gosto seco de nada. Nem mesmo as mordidas que eu dava nos meus próprios lábios ajudavam a amenizar as outras dores que eu sentia. Se eu tivesse ficado quieto... Se eu não tivesse reagido daquela maneira. Imprudência nunca foi meu sobrenome, mas quando se é vítima de um sequestro, sua sanidade começa a desaparecer, e você passa a se perguntar se pode acabar mais louco que o seu próprio sequestrador. Se bem que eu prefiro morrer do que me tornar um ser tão nojento quanto Ele...”

Eu pensei que poderíamos entrar em um acordo pela primeira vez. Ele parecia tão calmo e obediente. Qual a necessidade de privar-se de sensações novas? Como relutar uma coisa absurdamente deliciosa? Posso concordar que uma das torturas mais alucinantes que existe é tentar resistir ao prazer, mas o modo como ele foge de mim me deixa ainda mais louco. Um fascínio, uma curiosidade, uma raiva, uma ansiedade, o desejo que eu tenho de rasgar sua pele entre os meus dentes todas as vezes que ele tenta bloquear minhas carícias... Eu não posso deixá-lo. Não poderia suportar ter de acabar com ele antes do meu tempo. Não... De novo não!

— Por que justo agora? Por que você parou de gritar, sua vadia desgraçada?! Vamos! Grite! Grite para mim! ¹

Assim que chegamos ao galpão, a manhã já havia dado as caras. Os tímidos raios solares não disfarçavam a temperatura álgida que eu tanto estimava. Destravei a porta com um pouco de dificuldade, pois Near se apoiava em um dos meus braços. Sua expressão, aliás, inexpressão me fez abrir um leve sorriso de satisfação. A claridade do Sol não passava da entrada do recinto e percebi que o ar parado deixou o ambiente um pouco mais quente. Depois de me certificar que rodei a chave duas vezes me dirigi até uma cadeira de madeira clara que estava um pouco mais a frente dos armários e ao lado da maca de aço, jogando Near ali.

– Você... – passei a língua pela sua bochecha.

Nem mesmo uma simples careta de repulsa.

Fui até o armário no canto da sala, tirando apenas uma corda. Em partes, tirar aquela única corda me deixou saciado. Não poderia negar que a melhor coisa nele era sua timidez e relutância, mas aqueles comportamentos já estavam começando a me irritar. Fazê-lo de boneco por algumas horas seria bom, para variar um pouquinho.

O empurrei pelos ombros até o encosto da cadeira. Passei a corda envolta de sua cintura algumas vezes até, por fim, fazer um nó bem apertado.

E obtive como resposta apenas alguns ruídos saídos da garganta dele. Nada mais. Nem um simples movimento de protesto.

Coloquei minhas mãos em seus ombros, acariciando até chegar aos botões na frente da camisa polo. Arranquei-a de seu corpo, ouvindo o barulho da costura rasgando, e segui com os olhos um dos botões que se desprendeu rolar até o pé da maca que se encontrava a alguns metros de nós.

“Isso mesmo. Fique quietinho.”

De repente eu não sabia mais quem estava sentado naquela cadeira, pois a cena me pareceu muito familiar. Era como se duas pessoas diferentes estivessem trocando de papel a cada segundo. E eu não sabia quantas mais estavam naquele ambiente, porque outras vozes tentavam falar ao mesmo tempo. Minha visão escureceu, assim como os olhos que me fitavam à frente e devido àqueles mesmos olhos eu pude me lembrar do porquê de estar ali. ²

Balancei a cabeça, focando minha atenção somente em uma única coisa. Caminhei até a parte de trás da cadeira e passei minha unha pela sua nuca até mergulhar todos os meus dedos em seu cabelo. Senti seus músculos ficarem tensos e sua temperatura cair.

— Parece que estamos começando a nos entender... – disse, depositando um beijo em seu pescoço – Se eu soubesse que você ficaria assim ao receber a notícia de que sua avó está morta, teria contado um pouco antes.

Aprofundei os beijos naquela região enquanto minhas mãos passeavam pela frente do corpo dele. Respirei fundo, inalando aquele cheiro que eu já havia gravado muito bem. Percebi que sua pele estava perdendo a maciez e mais que depressa fiz uma nota mentalmente para comprar um frasco de hidratante corporal para ele. Com uma das mãos procurei o fecho da minha calça para aliviar a pressão sobre o meu membro, mas antes que eu pudesse puxar o zíper para baixo, a voz rouca saiu ríspida.

— Não... Ouse... Falar dela de novo.

Cessei qualquer tipo de carícia, mantendo-me ainda próximo à sua nuca, respirando forte. Soltei uma risada mínima pelo nariz. Não consegui distinguir se o que eu senti foi uma pontada de ânimo ou uma enorme montanha de frustração.

Caminhei até a frente de Near, fazendo alguns estalos com a língua e balançando negativamente a cabeça. Apoiei as mãos nos braços da cadeira e dobrei as costas para frente, ficando próximo ao rosto pálido que continha uma expressão carrancuda.

— Logo agora que eu tinha uma pitada de... Esperança? Por que não deixa seu corpo reagir aos meus toques? – aproximei meus lábios dos dele com necessidade.

— Saia daqui! Você é um monstro! – berrou, levando sua mão até o meu rosto e fincando quatro unhas com vontade.

Não reagi. Olhei surpreso para ele.

Você é um monstro!

Não era só o grito dele que ecoou no recinto.

Você é um monstro!

Não foram palavras originais proferidas a mim.

Você é um monstro!

Só consegui detectar o mesmo tom, o mesmo rancor, a mesma pressa exaustiva que foi dirigida à frase.

Não existe escapatória.

Minha bochecha ardia e eu podia sentir um pouco de sangue escorrendo. A leve dor foi a responsável por me livrar de todas aquelas lembranças miseráveis, pelo menos por alguns momentos. Near mantinha-se com uma expressão quase tão surpresa quanto a minha, como se não acreditasse no que foi capaz de fazer, mas logo uma súbita onda de medo se tornou visível em seu olhar.

— Eu... Sinto... Sinto muito! – implorou – Não queria...

Como punição, acertei um tapa em seu rosto, ouvindo seu pescoço estralar depois que ele ajeitou o pescoço. Passei a ponta dos dedos no meu próprio rosto, sentindo um leve inchaço se formar em torno dos arranhões. Nem eu mesmo imaginava o tamanho do meu ódio naquele momento, mas parecia que Near sabia do perigo que corria, pois ele se encolheu na cadeira.

— Esse foi o seu segundo erro. – disse em tom baixo e áspero.

Comecei a caminhar até o armário no canto do cômodo a passos largos e pesados, mas os cessei assim que ouvi alguns sons vindos do Near.

— E... Qual foi o primeiro? – perguntou, hesitante. Sua voz saiu como um sussurro.

Olhei por cima do ombro e soltei uma risada irônica, sem demorar a assumir minha expressão enraivecida.

— A primeira? – girei meu corpo para encará-lo melhor – Foi ter confiado em mim.

Dei um sorriso antes de seguir até o armário. Revirei as prateleiras sem sucesso na minha busca, até me lembrar do lugar onde eu havia deixado o que tanto procurava.

— Beyond, seu idiota! – sussurrei, batendo a palma da minha mão na testa.

Corri até o armário do banheiro. Abri-o com brutalidade, deixando alguns frascos de comprimidos caírem e se espatifarem na pia. Não me importei, apenas peguei dois dos comprimidos e engoli a seco, tossindo um pouco em seguida. Mas como o esperado, lá estava o que eu procurava.

Voltei com o objeto em mãos e deparei com a cena mais ridícula de toda a minha vida imunda: A cadeira estava caída junto com o corpo amarrado a ela. Near se debatia e tentava se soltar do nó que eu havia feito. Por pouco ele quase conseguiu.

— Que cena mais patética! – batia palmas enquanto andava em sua direção.

Peguei quatro tiras de couro que estavam dependuradas em um gancho na parede e em seguida levantei a cadeira, ajeitando Near no assento. Prendi seus pulsos e seus tornozelos, apertando também o nó da cintura como garantia. Cortei uma segunda corda ao meio e depois abri as duas mãos dele em cima do braço da cadeira, colocando a mostra seus dedos. Passei a corda em volta de cada mão com a palma virada para baixo, prendendo bem firme.

— O que você vai fazer? – seus lábios tremulavam a cada palavra.

— Você vai ver... – tirei do bolso um aparador de unhas – E o principal – fiquei de joelhos na sua frente, sorrindo – Você vai sentir.

Seus olhos se arregalaram em um misto de terror e pânico. Ele estava vermelho, com a respiração acelerada e os olhos cheios de lágrimas. Near tentava se soltar, mas era inútil naquelas circunstâncias.

— Por favor... Não faça! Eu imploro! Não faça! – berrava e sacudia a cabeça. Seu corpo todo tremia.

Suspirei um ar pesado.

— Garotos malvados devem ser punidos... – respondi com veemência. Estava ansioso para começar.

E assim prossegui. Aproximei o aparador de unhas do seu dedo mindinho da mão esquerda, posicionei a unha entre as lâminas, pressionado o objeto na parte inferior até descolar um pouco da carne. Um choro desesperado entrava pelos meus ouvidos, fazendo com que um arrepio gostoso percorresse minha espinha.

Por favor... Não faça!

Já era tarde.

Não! Não chegou a hora! Você mesmo me disse.

A minha hora realmente não havia chegado.

Quantos sotaques depois desse começaram a surgir?

Não! Não! Não!

Apertei os olhos, voltando para a realidade ao sentir o sangue quente escorrer até os meus próprios dedos. Olhei para o aparador de unhas sujo com a cor carmesim, fitando os olhos amedrontados e me concentrando nos gritos revigorantes de pânico proferidos pelo garoto.

Nate River...

Seu pseudônimo fez tanto sentido de repente.

Sem perceber que meus dedos apertaram o aparador, abaixei o olhar para ter certeza. O pedaço cortado da unha ainda estava dependurado, então puxei com meu próprio dedo. A camada que ficara sem proteção estava inchada. Imaginei o quanto aquilo queimava, mas não poderia me contentar com apenas um.

— Não existe escapatória para você também... – disse calmo.

Senti meus batimentos cardíacos acelerarem com os gritos. O quanto aquilo doía? Não que eu já não tivesse arrancado uma unha... Já tinha sim, e não só uma vez. A sensação era estranha. Latejava de tal maneira que parecia que seus dedos iriam explodir, mas não me lembro de ter gritado tanto. Ninguém poderia ouvi-lo, então qual o intuito de tanto escândalo? O jeito como expressa seu medo... Não é nem um pouco parecido com o garoto tímido e sem sentimentos aparentes que conheci naquela lanchonete e confesso que descobrir esse lado dele foi uma das melhores partes da brincadeira.

Lamentável e ao mesmo tempo fascinante.

Sem muita cerimônia prossegui para o segundo dedo, realizando o mesmo processo. Não ficaria satisfeito até ver um pedaço da carne exposta e inchada debaixo de cada unha. A voz de Near já mostrava falhas ao gritar. Ele tossia e seus cabelos, que já haviam crescido um pouco, grudavam em seus olhos.

Ao cortar a quarta unha da mão esquerda, o chão já se encontrava com alguns respingos de sangue. As mangas da minha camiseta comprida começaram a manchar. Não vestia uma camiseta de cor escura como de costume, ela era branca... Branquinha mas só a vesti, pois queria que fosse uma ofensa para L, que preserva tanto a justiça. Mesmo que ele não pudesse me ver agora.

— Vá se foder! – gritei.

Estava com um desejo ávido ao ver que chegara ao quinto dedo para encerrar. Não que minha intenção inicial fosse parar ali, mas o ato começara a me deixar entediado.

— Calminha... – levei um dos meus dedos cobertos pelo sangue dele até seu rosto, enxugando o molhado e trilhando um rastro de sangue até os seus lábios rachados – Esse aqui é o último.

Coloquei um pouco mais de força para cortar a unha do polegar. Até achei que esta havia ficado ainda mais curta se comparada às demais.

Joguei o aparador de unhas por cima do ombro. Near começou a soluçar e eu percebi que tentava conter a respiração. Seu corpo tremia, mas os olhos já não tinham mais aquela expressão de pavor. Se ele estava sentindo dor? Com certeza, mas até mesmo seus músculos, apesar da tremedeira, começaram a relaxar. Alívio. Dei uma breve risada nasalada. Ele pareceu entender que não havia acabado ainda.

— Parece que você percebeu... – murmurei. Nem sei se ele foi capaz de ouvir.

Fui até o banheiro para pegar um rolo de gaze e um frasco de soro fisiológico. Quando me dirigi até a cozinha tropecei em alguma caixa de papelão. Em todo o galpão, mal havia janelas e a única que ficava na cozinha estava tampada por uma geladeira marrom. A cozinha sem dúvidas era o segundo cômodo mais escuro de todo o lugar, perdendo apenas, é claro, para o meu... Quarto.

Abri o armário debaixo da pia. Teias de aranha, um martelo, suporte para panela, duas latas de óleo vencidas e o que eu mais queria: sal.

Fechei as portas de qualquer jeito e ao virar as costas ouvi o barulho de uma delas caindo. Revirei os olhos sem nem mesmo dar uma espiada na situação. Existiam prioridades naquele momento, então não demorei para retomar os passos até a sala principal do galpão.

— Sentiu minha falta? – perguntei ao adentrar o cômodo com os objetos envolvidos pelos meus braços.

Ele encarava os dedos, incomodado com a visão do estado em que ficaram, mas sem querer desviar o olhar. Quando percebeu minha presença, enrijeceu na cadeira e então as palavras saíram ríspidas.

— Nem um pouco! Não sentiria nem se você morresse, o que não seria má ideia — respondeu.

Suspendi meus passos, olhando diretamente para ele. Near fungou. Seu rosto estava vermelho e todo molhado. Os olhos de orbes negras borrados por uma camada de lágrimas que ele lutava para não deixar cair. Esse garoto me atrai. Aquela visão me fez sentir um arrepio. Suspirei.

— Quantas vezes eu já te falei... – voltei a andar em sua direção com uma expressão de decepção – Garotos maus precisam ser punidos! Eu até pensei em te poupar, mas sua atitude não merece perdão.

O saco de sal estava pela metade, tampado por um prendedor. Despejei um punhado em minha mão coberta por sangue. Parte dele já estava secando. Joguei por cima das unhas machucadas, esfregando com a palma da minha mão. Ele arqueou as costas.

— Os mais velhos dizem que dói muito... – disse em meio aos gritos dele, ainda esfregando o sal – E eu sei como dói... Não é excitante?

Um som irritante atravessou meus ouvidos, tirando minha atenção da sinfonia de gritos de dor. Meu celular. Revirei os olhos e fui até a mesa, nem precisei olhar o número, pois sabia quem era.

— Já com saudades? – perguntei em tom de ironia.

— Vejo que acordou o... – por alguns instantes ele parou para pensar em outra boa palavra para terminar a sentença.

— “O” o quê, Hayato?

— Esqueça.

— Responda!

Ouvi um suspiro relutante. Aposto que ele revirou os olhos junto a esse suspiro.

–—Mártir.

Ele não disse...

Mártir.

Eu odeio essa palavra. E ele sabe... Ele com certeza sabe.

— Por que você me ligou... Aidan? – perguntei ríspido, mas dando uma grande ênfase no nome.

Hayato não iria protestar. Estamos quites! Sua sorte é que estamos conversando por telefone. Não acho que ele ousaria pronunciar aquele nome novamente. Nem mesmo para se referir ao Near.

— Parece que Yonosuke ganhou mais um membro na máfia – respondeu.

— Um novo... Membro? Assim, de uma hora para outra? – endireitei as costas, me afastando do Near para ouvir melhor.

— Isso não é o mais incrível, Beyond. O novo membro é uma mulher.

Impossível.

— Estou a caminho. Heinz pediu para adiantar o encontro de vocês. Provavelmente ele dará explicações melhores. Chego aí em alguns minutos. – disse, por fim, antes de desligar.

Voltei para a sala com uma expressão confusa. Larguei o celular na mesa e peguei o frasco de soro. Despejei o conteúdo todo em cima dos dedos de Near.

Quem seria essa mulher? De repente? Algo está errado.

Agachei para enrolar a gaze em volta dos dedos machucados. Raspei o sangue estancado que estava em sua mão com um cuidado maior. Dava para ouvir os chiados vindos da garganta seca enquanto ele respirava depressa. Depois que terminei, busquei um copo de água para ele, mas sem libertar seu corpo da cadeira.

— Quero que me prometa uma coisa. – falei, enquanto segurava o copo em sua boca.

Ele franziu o cenho, sem interromper a ação. Seu desespero por água me fez sorrir.

— Ah, qual é! É algo bem simples. – insisti.

Near apenas levantou o olhar, indicando que eu prosseguisse.

— Se o Hayato se referir uma única vez a você como Mártir... – parei para colocar o copo vazio sobre a mesa – Prometa me contar.

Não precisei de uma resposta completa. Um meio aceno confuso de cabeça foi o suficiente. Eu teria insistido em mais, se as três batidas na porta não me interrompessem. As três batidas que, segundo Hayato, eram sua forma de blasfêmia contra Deus. ³

Aproximei minha língua da orelha de Near, dando uma lambida promíscua.

— Quando eu voltar a gente... Brinca. – sorri.

Heinz achou que seria arriscado nos encontrarmos em seu próprio quarto. O mais novo membro estava dando uma visita pelos cômodos daquele maldito esconderijo.

— Então é mesmo uma mulher – concluí para mim mesmo, vendo uma ficha completa de perfil jogada na mesa do bar – Eu não entendo. Como?

Ela era muito bonita. Cabelos negros assim como os meus, escorridos até um pouco abaixo dos ombros com uma franja caída sobre o rosto. Estatura mediana. Expressões sérias. Mas não um tipo comum de seriedade, uma bem conhecida que não me agrada nem um pouco. Sakai Mieko era o seu nome, mas não ficaria impressionado se fosse um nome falso.

— Diz que perdeu sua família. O pai era um viciado em apostas. Acabou se metendo com gente que não devia e foi assassinado junto com a esposa e o filho mais novo. Ela agora busca vingança pelo assassino – ele percebeu que eu ainda estava confuso, então prosseguiu – B, você sabe! Não foi uma atitude irresponsável...

— Não, foi estupidamente irresponsável! – cortei.

— Ela passou por testes. Sua vida foi investigada. Os pactos preparatórios foram feitos. Mieko é inteligente.

A máfia que Yonosuke dirigia podia até ser grande, mas acreditem, já foi muito maior. Assim como a maioria, ela surgiu na Itália e já foi bem tradicional. Daqueles tipos que você encontra em filmes. Como em toda máfia, existem famílias, todas elas pequenas gangues individuais dentro dessa coisa toda. Nem sempre os integrantes da gangue possuem parentesco de sangue. São raras as exceções, porém acho que foi aí que os russos entraram. Eu não sei dizer o que ouve nessa bagunça, até porque nenhum dos dois me contou. Digamos que estão sob a lei da Omerta ⁴. Apesar de não ser mais aquela coisa de antes algumas gírias são preservadas. Eu, por exemplo, na língua deles, sou o Espertalhão ⁵. Parece que os ritos de inicialização permaneceram também. Até então eu não sabia, mas agora tenho certeza já que Heinz mencionou sobre o pacto.

― Acho que é a primeira vez na história que algo assim acontece. ⁶ – falei derrotado.

― Talvez – respondeu indiferente, bebericando a segunda dose de uísque – Hey, o que houve com seu rosto? – perguntou curioso.

Droga! Tinha me esquecido desse detalhe.

― Gato. – falei seco, sem dar muita importância aos detalhes.

― Mas você não tem gatos, tem? – insistiu com uma careta confusa.

― E em algum momento eu disse que o gato era meu? – respondi. ― Mas me diga – retomei a fala antes que ele pudesse fazer outra pergunta ― Quem será o Padrinho⁷ ?

― Eu – disse, parecendo orgulhoso.

Heinz... Esse se contenta com pouco!

― É o seguinte – tirei a bebida de suas mãos, obrigando-o a prestar atenção nas minhas palavras – Eu não confio nela. Simplesmente não confio. E acho melhor você ficar atento também. Não quero ser mencionado na frente dela. Faz de conta que eu não existo. Você vai falar para Yonosuke que eu mesmo te procurei e estabeleci essa condição: Não ser mencionado na frente dessa mulher. Você entendeu? – perguntei, minhas mãos estavam pousadas em seus ombros.

― Entendi, mas e o nosso acordo? Ainda quer ser informado sobre tudo o que acontece?

― Quero, com toda certeza – pensei antes de continuar, um pouco hesitante – Mas, se meu palpite estiver correto, seu irmão vai se ferrar sozinho. – sorri vendo uma expressão de dúvida se formar em seu rosto.

“Estou em um novo caso... Mafiosos.” ⁸

A súbita lembrança só aumentou o meu sorriso.

83% de certeza.

― Tenho que ir. – disse, descendo do pequeno assento perto do bar.

― Espere! – segurou meu pulso – Yonosuke fará você ir atrás do Hajime. Meu irmão está desesperado. Você não faz ideia do quanto ele investiu na esperança de ser recompensado com aquela quantia em dinheiro – riu. ― Você quer os dados dos gastos referentes ao assunto? Não sei o que você pretende fazer, mas talvez possa te ajudar a ser... – lançou um olhar diferente para mim, levando o copo a boca – Criativo.

Estendi o braço para pegar a pasta.

Não estava a fim de me despedir de novo. Queria chegar em casa o mais rápido possível para dar uma olhada naqueles papéis. Estava me virando quando a voz de Heinz soou.

― Hey, B. – agitou o gelo do copo antes de continuar – Não se preocupe com Mieko. Vi uma notícia, um pequeno artigo na verdade, em um site na internet. Sua família foi brutalmente assassinada. Não sei dizer como Yonosuke a encontrou, ou se foi o contrário, mas quando a vi pela primeira vez, seus olhos eram cheios de sofrimento e tormenta. Até apelidei-a como Mártir.

Não respondi. Apenas retomei os passos sem tirar os olhos dos papéis enquanto ele falava. Apenas um leve olhar quando a última palavra foi recitada.

Cheguei ao carro e tirei do porta-malas um netbook que levava para situações de emergência e logo joguei na aba de pesquisas: Sakai Mieko.

Claro, apareceram algumas de nomes parecidos em contas de redes sociais, mas absolutamente nada sobre um acidente ou assassinato. Nem mesmo um mísero artigo. Páginas podem ser criadas. Tecnologia para internet não é do meu agrado, mas já tive algumas aulas. O fato me arrancou um sorriso.

Tenho 90% de certeza...

Eu gostaria muito de vê-la pessoalmente. Existem pessoas que atuam muito bem. Quem sabe ela poderia até me convencer com os tais olhos sofridos...

Mártir. ⁹

Notas finais
1 - Citação do prólogo, alguém lembrou? Acharam que ele não teria vez na história? háhá. Será explicado depois. 2 - Gente, eu não sou louca, o.k? Essas vozes não são de fato aparições sombrias. É só a culpa que o B sente no fundo da alma e também o passado dele com o pai e tudo que ele já passou. 3 - Alguém aí já assistiu Invocação do Mal? Tirei a ideia daí mesmo. Não que o Hayato seja anticristo, mas eu também quero falar um pouco mais da vida dele daqui para frente. Claro que não vou focar muito nisso, mas já que ele fez mais aparições nos capítulos do que eu planejava, acho que seria justo eu falar mais dele para vocês. 4 - Lei da Omerta nada mais é que a lei do silêncio. 5 - Espertalhão, na gíria mafiosa, é aquela pessoa que se envolve com a máfia. Acredito que o apelido não faça jus ao B, porque no meu enredo ele só se envolveu de início para ser uma espécie de assassino aluguel. Para um prazer e não para fins de benefício financeiro, por exemplo. 6 - Eu também acho, porque não achei nada sobre mulheres integradas a esse tipo de coisa. Se eu estiver errada, me perdoem. Aceitem como uma simples suposição sem pesquisa profunda. 7 - Ter um padrinho na máfia significa que uma pessoa irá te guiar durante a vida mafiosa e essa pessoa será seu padrinho. 8 - Citação do capítulo 5. Vocês se lembram do telefonema do L? (: 9 - Mártir, que dá o nome ao capítulo, significa, de acordo com o dicionário virtual Priberam - Pessoa que sofre tormentos ou a morte por uma crença, uma ideia ou uma causa. Ou no sentido figurado, que é o objetivo que eu quero chegar: Pessoa que sofre maus tratos. Isso também será explicado. Pessoal, tenho coisas sérias para falar: Primeiro: Já estou programando os últimos capítulos para a fanfic. Tudo precisa de um fim, certo? Provavelmente os dois próximos capítulos serão POVs de outros personagens. E é claro, já estou vendo para encaixar um lemon. Acho que vocês estão sentindo falta disso, e quem estiver saibam que eu já postei a oneshot. Para quem se interessar: http://fanfiction.com.br/historia/452731/Agony/ Esse capítulo foi bem complicadinho. Falar sobre a máfia não foi fácil. Tentei explicar o básico das pesquisas que eu fiz sem deixar o final do capítulo um completo tédio. Espero que não tenha sido tedioso para vocês. Se quiserem mais informações sobre esse assunto eu não me importaria de passar o link do site que eu usei para escrever. A ideia foi mesmo bem louca. Russos em máfia italiana? Ainda bem que eu descobri que não precisa ter parentescos sanguíneos entre todos os integrantes para entrar. Isso facilitou meu lado. Perdoem se eu cometi algum erro. Sabem, o que eu tenho para falar agora é mais um desabafo... Acreditam que meu enredo foi parcialmente copiado no SocialSpirit? Pois é. Eu fiquei com muita raiva e se eu não tivesse leitoras tão fofas por lá eu nem postaria mais. Já estou resolvendo o problema e estou recebendo ajuda também. Torçam por mim! Espero que tenham gostado. Esse foi o último capítulo do ano. Em breve postarei o próximo. Um bom 2014 para todos! Beijos!