Scp-201
3 Quicquam
Algo me diz que já se passaram mais de três dias, estou faminto, a água que eu tomo tem um gosto estranho, salgado, de metal enferrujado. Eu andei por um bom tempo e não encontrei nada útil, essa sensação de solidão é mais forte do que eu imaginei.
De repente, eu vejo algo na neblina, alguém correndo. Pelos seus cabelos a primeira coisa que pensei foi: "Uma garota!". Eu saí em disparada, correndo, perseguindo ela, que cada vez mais sumia em meio a névoa até perdê-la totalmente de vista. Cheguei na porta de um prédio, parecia ser um banco devido aos caixas eletrônicos ao fundo no térreo.
Comecei a subir as escadas depressa, esperando poder encontrá-la. Procurei por todos os andares, eram trinta e dois, eu gritava para que aparecesse, mas não havia resposta. Finalmente cheguei à última porta da escadaria, era escuro a sala por detrás dela, mas quando eu abri outra porta que lá estava escondida, tudo iluminou-se com o brilho branco da névoa.
Havia uma sombra em meio à tudo, era ela. Me aproximei para vê-la melhor, ela estava de pé, parada e de costas para mim na beira do prédio, havia pulado a pequena cerca que separava a parte segura da borda. Eu estava inseguro, com medo, preocupado... Um milhão de sentimentos e ao mesmo tempo, não sentia nada.
– O que você... Irá fazer? — Perguntei, gaguejando, ela apenas me ignorou.
Após um longo período de silêncio, com apenas o som do vento balançando o cabelo comprido da mulher, eu ouvi sua voz.
– Esse lugar existe para um propósito... É aqui que você vê o quanto somos insignificantes. Somos nada mais que apenas o nada.
Sem que eu pudesse reagir, a garota caiu. Seu corpo rapidamente desapareceu em meio à névoa. Aquela névoa... Tão terrível e tão suave ao mesmo tempo: com ela, eu não pude ver aquilo como sendo muito triste, porque ela apenas sumiu, e não vi seu corpo sendo destruído no impacto.
De volta à rua, eu não podia esperar mais, eu não aguentaria mais, minha mente estava confusa, a fome apenas me fazia ficar mais sem noção alguma do que estava acontecendo, coisas divertidas. Há... Um coração... Logo em frente? Não há nada o que eu possa fazer, pequena menininha. E como vai o seu cachorrinho?
Carros, eles estão passando, as pessoas... Aquela garota é bonita, não acha? Espere... Há alguém... Em meio à multidão, Ele... É apenas uma sombra e... Está parada me encarando. Estou correndo, corre, por favor, corre, não precisamos dele, não precisamos... Menininha, você ainda está... Viva?
Eu estou... Sangrando?
Aquela pequena ilusão de outrora desapareceu, e eu agora apenas via meu abdômen encharcado em um líquido vermelho. E aquela sombra... Continua olhando para mim... O que é... Que ela esconde?
NÃO OLHE! — Disse alguém em minha mente. — Não olharei! Não olhais! Não olhe para ela!
Ela... Apenas quer os seus olhos.
– Without your love, you're tearing me apart.
– Olhe para... Ela está... Nua...
Seus rostos borrados, sua pele suja e úmida por causa da névoa, eles vivem aqui, eles moram aqui... Mas quem são vocês? Seus corpos deformados, estes ferros perfurando seus corpos, por que gritam tanto? Sentem dor? Há... Há muitos corpos... Muito sangue... Estou sangrando também... Iris... Me salve.
Ele está vindo, Iris... A sombra... Está vindo... Surgindo da névoa e tremendo. Se aproximando rápido enquanto flutua... Eu... Não consigo me mexer! Eu não quero ir com ela, eu quero sair daqui. Tudo começa a apodrecer enquanto aquela sombra se aproxima, tudo o que eu sempre vivi... Desaparecendo para ninguém nunca notar.
O grito ecoa pela rua.
A cidade continua silenciosa, nada muda, a existência do homem que perdia sua consciência é apagada.
Não há vida após a morte.
Nada muda. Nada mudará. A única coisa que existe é o Nada.
E ela está dentro de cada criatura, de cada animal e de cada um de nós. O Nada está presente ao nosso redor, envolvendo toda a nossa existência que valorizamos tanto.
O Nada é apenas a realidade em sua mais pura forma. Tão bela e drástica.
Todas as nossas regras, crenças, valores... Tudo comandado pela nossa mente... Sabe-se que toda criatura existente nos universos teme o desconhecido, sabe-se também que a mente é uma poderosa máquina para criar mundos e outros universos. Mas não há outro temor maior do que o que todos nós compartilhamos de uma forma ou de outra, algo que inconscientemente temos em comum:
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