Scorose - Quase sem querer
3 Como lhe quero tanto
Meus olhos estavam cerrados, queria me esconder do sol, mas ele parecia querer me acordar de qualquer maneira. Suspirei alto, sentindo a grama sobre o meu corpo. Aqueles dias tinham sido longos e exaustivos. Estava me antecipando para passar nos NIEMS, então estava passando a maior parte dos meus dias na biblioteca. Eu sonhava em trabalhar com medibruxa, no St. Mungus, então precisava me esforçar muito. É lógico, eu sabia que iria conseguir, mas inconscientemente eu estava me sabotando. Estava com medo do que poderia acontecer. E se meus esforços não tivessem resultado? Temia muito decepcionar minha mãe. Sempre fomos comparadas por nosso nível de inteligência e sempre quis ser como ela. Fui tirada dos meus devaneios por passos próximos a minha cabeça. Abri meus olhos com dificuldade, para encarar um olhar azul claríssimo. Senti arrepios percorrerem todo meu corpo. Realmente, o que estava acontecendo comigo? Eu só podia estar com febre.
— Não sabia que você gostava de dormir ao relento — disse Scorpius, com um sorrisinho presunçoso.
— Não estou dormindo, apenas descansando — respondi ele, com raiva. Sentei-me, apoiando as costas na árvore — Veio aqui só para tirar minha paz?
— Não exatamente. Tenho mais o que fazer — respondeu ele, zombando. Ele sentou ao meu lado, colocando a mochila no chão — Na verdade estava passando perto do lago quando vi você. Lembrei que temos que organizar o baile de Halloween. E não conversamos nada sobre isso.
— Droga, eu havia me esquecido — disse, dando um tapa na testa, o que gerou risos da parte dele — Estou tão atolada de trabalhos e preciso estudar o dobro esse ano.
Scorpius me encarou com curiosidade. Seus olhos penetrantes refletiam uma compreensão que nunca tinha visto antes. Parecia compreender meu desespero.
— Está se esforçando para conseguir trabalhar no St. Mungus? — perguntou ele, desviando o olhar para o lago. Ele parecia desconfortável, como se falar sobre esse assunto o machucasse.
— Exatamente. Não posso falhar, não quero decepcionar minha mãe.
— Entendo muito sobre decepcionar os pais — comentou ele, amargo — Mas não se esforço tanto assim, vai acabar doente.
Deixei um sorriso escapar diante do que ele disse. Ele percebeu e ficou corado.
— Não é que eu me preocupe com sua vida, mas se você ficar doente, eu terei trabalho em dobro — justificou ele, rapidamente. Não pude deixar de gargalhar. Eu sabia que ele estava mentindo.
— Sei, mas me diga um coisa, o que você quis dizer com decepionar seus pais? — perguntei, curiosa.
Scorpius enrijeceu a coluna, apertando os punhos com força.
— Não quero falar sobre isso — cortou ele.
O silêncio que nos cercou depois era sufocante. Fiquei tentada a perguntar o que havia acontecido, mas não parecia uma boa ideia. Ele parecia magoado e irritado com alguma coisa. Com certeza seu pai era a causa da magoa. Os dois nunca se deram bem.
— Scorpius, eu...- tentei dizer mas fui interrompida Lilian Weasley, minha prima mais nova.
— Até que enfim encontrei você — disse ela, ofegante — Willow está procurando você por todo o castelo.
— Willow? — indaguei, espantada. O que ele queria comigo? Nós mal nos falávamos. Apenas na monitoria, quando necessário. Nessas ocasiões ele tentava ser o mais charmoso possível. Como se isso fosse me afetar. Revirei os olhos, pensando nisso.
— Sim, ele disse que tem algo importante para falar com você — disse ela, dando uma piscadela — Vamos?
Fitei Scorpius, que parecia estar em outro mundo. Dei de ombros e me levantei.
— Eu já vou, então, Scorpius. Nos vemos mais tarde?
Ele apenas acenou, sem me dirigir o olhar. Que garoto estranho.
***
Percorremos os corredores, na pressa exagerada de Lily. Ela parecia correr uma maratona, sem me dar tempo para respirar. Como ela era capaz de ter tanta energia? Chegamos na biblioteca e lá estava ele. Leon Willow estava sentado, lendo um livro, com os pés erguidos sobre a mesa.
— Queria falar comigo? — indaguei, sentando a sua frente. Larguei minha mochila no chão, produzindo um baque surdo. Eu precisava parar de carregar tantos livros.
— Sim Weasley — respondeu ele, baixando o livro. Seus olhos verdes me fitavam com intensidade, como se tentasse de alguma maneira entrar em minha mente. Queria rir da sua postura, ele tentava passar um ar de mistério e charme, mas isso não iria funcionar comigo. Apesar de ele ser realmente muito bonito — Preciso muito da sua ajuda. Estou com problemas com poções e não estou conseguindo conciliar o estudo com o quadribol.
— Ahn, claro — disse, sem entender — Mas o que isso tem haver comigo, exatamente?
Ele sorriu, largando o livro sobre a mesa e juntando as mãos, apoiando o queixo.
— É ai que você entra — explicou ele — Quero aulas particulares de poções. Podemos fazer isso nos sábados. Eu pago, se for necessário.
Respirei fundo, tentando organizar as minhas ideias. Como iria arranjar tempo para ensinar ele e também como iria estudar? Fiquei desconfortável ao pensar que teria que passar um bom tempo ao lado dele. Apesar de não ter nada contra ele e suas conversas serem inteligentes, ele parecia tentar me envolver, de alguma maneira. Só não sabia dizer ainda quais eram suas intenções.
— Bem, acho que podemos tentar — disse por fim, tentando disfaçar o desconforto.
Ele sorriu, tomando minha mão nas suas.
— Serei eternamente grato, ruivinha — disse ele, com um olhar intenso — Se quiser podemos estudar juntos as suas outras matérias. Sei que está se esforçando por causa do NIEMS. Posso ajudar você no que precisar.
— É claro — assenti, tentando retirar minha mão das dele. Seu aperto era terno, mas firme, o que não possibilitou a minha mão se mover.
— Então é isso, nos vemos nos sábado às duas horas? — perguntou ele. Graças a Merlin, ele havia soltado minha mão.
— Hum... Sim, nos vemos aqui — dizendo isso, me levantei o mais rápido que podia, acenando para ele, sem olhar para trás.
Respirei várias vezes, tentando conter a aceleração do meu coração. Cada batida ecoava nos meus ouvidos e meu sangue parecia esquentar nas minhas veias. O que aquele garoto causava em mim? Não conseguia compreender. Eu nunca tive qualquer experiência com nenhum garoto e não sabia o que era estar apaixonada. Não sabia se aquilo que sentia era uma atração, timidez ou desconforto. Eu não me permitia ser tocada, apenas recebia abraços da família e dos mais próximos. O contato físico era algo que realmente me causava certo terror. Eu tinha dificuldades para demonstrar meus sentimentos, o que causava certa tristeza em meus pais. Eu os amava muito, de verdade, mas não conseguia externalizar isso.
— Rose, cuidado — disse uma voz aveludada, quanto esbarrei em algo sólido. Minha bolsa caiu e eu me desequilibrei, caindo sentada no chão.
— Me desculpe, eu estava distraida — disse, puxando minha bolsa e ficando em pé. Encarei Scorpius, seus olhos pareciam rir de mim, o que esquentou minhas bochechas. Aquele dia estava sendo um martírio.
— Rose, no que estava pensando, para não me ver passando? — indagou ele, com um sorriso presunçoso — Não vai dizer que estava pensando em mim?
— Deixa de ser idiota, Malfoy — retruquei, revirando os olhos. Comecei a caminhar, tentando me afastar. Ele parecia seguir a mesma direção, pois senti seus passos próximos a mim.
— Não tente desviar de assunto, eu vi que você ficou vermelha ao me ver — provocou.
Queria dar uma resposta afiada, mas ela não veio. Eu não queria dizer que estava pensando no quanto eu detestava contato físico e quanto Willow havia mexido com a minha cabeça. Até mesmo Scorpius estava mudando algo dentro de mim, sempre que tocava minhas mãos, se perceber. Era como se uma descarga elétrica percorresse meu corpo e me deixasse anestesiada. Diferente de Willow, que gerando um certo desconforto.
— O gato comeu sua língua? — brincou ele.
Continuei sem dizer nada, nem morta que iria dizer o quanto ele mexia com meus sentidos. Estávamos indo no corredor do 2° andar até ouvi uma comoção a frente. Dois estudantes quartanistas estavam duelando no corredor. Em volta deles, havia um cerco de pessoas. Pude ver que eram dois garotos e um tinha cabeça muito ruiva. Hugo, aquela peste. Ele iria para detenção, faria questão que isso acontecesse.
O outro garoto era Wiliam Fitzgerald, um aluno da Lufa Lufa. Ele parecia em desvantagem, parecia cansado de tentar se proteger.
— Hugo Weasley, o que pensa que está fazendo? — gritei, indo a sua direção. Ele não parecia ter notado minha presença.
— Expelliarmus! — Scorpius lançou o feitiço, ao meu lado.
As varinhas de Hugo e Fitzgerald voaram longe.
— Accio varinha – lancei o feitiço, tomando as varinhas do dois na mão.
Fitei os dois, na minha melhor versão mandona, com a mão na cintura.
— Vocês dois tem ideia do que fizeram? — indaguei, controlando minha raiva — Poderiam ter se machucado seriamente. Os dois estão de detenção — olhei ao redor, e os outros estudantes continuavam a assistir o espetáculo — Todos você, já para suas salas comunais. Se não saíram, vou tirar pontos de cada um.
A multidão se dispersou rapidamente.
— Não pode me colocar em detenção — reclamou Hugo, com insolência — Fitzgerald começou isso. Me apelidou de cabeça de cenoura, na frente de toda classe.
— E isso são modos de resolver as coisas? — encarei ele, com seriedade. Virei-me para Fitzgerald — Senhor Fitzgerald, quero que peça desculpas ao senhor Weasley. Não é assim que devemos tratar nos colegas. O senhor não gostaria de ser chamado de sardento, não é mesmo?
Ele estava branco, como papel. Apenas balbuciou desculpas a Hugo e saiu correndo.
— Não esqueça que o senhor tem uma detenção para cumprir está noite — disse em voz alta. Virei-me para Hugo, olhando-o com repreensão — E você, senhor Hugo, não deve explodir sempre que alguém o apelidar ou falar algo que não goste. Deve reportar isso aos monitores ou professores. Estou muito desgostosa com você.
— Olha quem fala — ele revirou os olhos — A cada insulte que você e o Malfoy trocavam você azarava ele.
Fiquei corada de vergonha, mas tentei manter a postura. Scorpius, que permanecia quieto ao meu lado, deixou escapar uma risada.
— Infelizmente, eu agi de forma imprudente — justifiquei, causando um acesso de tosse em Scorpius — Hoje não estou agindo desta forma com ele. E não tente negar, Scorpius.
— Eu não disse nada — falou ele, com voz estrangulada. Ele estava vermelho, tentando segurar o riso.
— Ok, Rose. Vou pensar no que você disse, mas nem pense que pode mandar em mim — disse ele, com irritação. Saiu batendo os pés, para enfatizar o quanto estava irritado comigo.
Scorpius explodiu em gargalhas, segurando o estomago. Sua risada reverberou pelo corredor. Era o som mais bonito que tinha escutado. Espere, eu pensei isso? Não era o som mais horrível. Isso, horrível.
— Pode parar Scorpius — disse para ele, revirando os olhos — Não há graça nenhuma nisso.
— Como não? — perguntei ele, tentando não rir. Ele me encarou, com os olhos cheios de lágrimas — Você tentando dar o exemplo para Hugo foi hilário. Você é como um barril de polvora prestes a explodir. Não vamos nos esquecer de quando ficou com raiva de mim por ter chamado você de cenoura e você ter usado um estupefaça com tal força que cause quebrei o crânio na parede. Você é um perigo.
Bufei e sai andando, tentando ignorar suas risadas. Eu não fazia mais aquilo. Não era mais aquela garota temperamental que a cada provocação revidava com mais ódio. Não, eu era exemplar, calma e racional. É claro que eu era.
***
— Pronto, acabou, podem ir – disse para Hugo e Fitzgerald. Os dois saíram correndo, com tal desespero, que não pude deixar de rir.
— Eles terminaram de limpar os troféus dessas prateleiras? – indagou Rose, no fundo da sala. Ela estava estudando Aritmancia e uma mesa ao lado da janela.
Estava tão focada que não percebeu que os meninos estavam usando magia para limpar tudo. É claro que eu não iria repor isso. Queria terminar com aquilo logo, pois precisávamos terminar nossa roda e dormir. Durante semanas, dormir era algo que eu não sabia mais fazer direito. Minhas preocupações eram tentar ignorar as cartas do meu pai. Minha mãe tentava conversar comigo, nas ocasiões que usava a lareira da sala comunal da Sonserina, mas eu me empenhava em disfarçar. Dizia estar muito ocupado com os estudos. É claro que ela sabia que eu estava mentindo.
— Podemos ir agora, ruivinha? – indaguei, tentando manter o bom humor.
Ela suspirou, fechando os livros e guardando na bolsa.
— Sim – respondeu ela, me acompanhando nos corredores – Eu só não consigo entender como prever o futuro com os números.
— Não é tão difícil como você pensa – comentei, observando os corredores. Os ocupantes dos quadros estavam adormecidos, por isso desacelerei os passos, tentando manter uma conversa mais baixa possível – Eu posso ensinar você, quando precisar. Meu NOMS e Aritmancia foi Ótimo.
— Sério? Os meus foram Excede Expectativas— comentou ela. Senti certo descontentamento na sua voz – Mas gostaria sim da sua ajuda. Preciso conseguir Ótimo em todas as disciplinas.
Fitei a de canto. Ela parecia tensa, apertando os punhos com força. Fiquei tocado por sua situação. Parecia uma questão de honra ser a melhor da turma e ela parecia sentir a necessidade de mostrar isso para todos a sua volta.
— Sabe que não precisa se esforçar tanto? – disse, tentando ajuda-la. Ela pareceu se irritar, e tentei contornar – Veja, você é melhor da turma e tem ótimas notas. Não precisa se desgastar tanto para se provar.
— Você não entende – disse ela, exasperada – Isso é minha vida. Preciso me esforçar para poder conseguir o cargo de medibruxa. Não quero decepcionar minha mãe tirando notas medianas...
— Isso tudo é pela sua mãe? – interrompi, irritado. Todos os pais eram iguais, pensei. Como os pais podiam pressionar os filhos tanto? Eles não percebiam que isso causaria mais problemas? – Não precisa se provar para ela, você já é incrível, Rose. A garota mais inteligente e talentosa. Manda bem até no quadribol.
Ela corou violentamente.
— Obrigada, Scorpius – disse ela, com voz embargada – Eu realmente não sei o quão sou boa. Às vezes sinto que não estou dando meu melhor ou que preciso fazer mais. Mamãe nunca pediu para que eu fizesse isso. Mas ela sempre foi a melhor, sabe?
— Eu sei disso. Conheço a Sra. Weasley – respondi – Mas isso não é motivo para você ser igual a ela. Você precisa ser apenas você. E ser a Rose já é motivo de muito orgulho.
Ela riu e me encarou agradecida.
— Nunca imaginei que você diria isso, Scorpius. Preciso gravar para que você nunca mais esqueça.
— Pode gravar, eu apenas disse a verdade.
Permanecemos em um silêncio confortável por alguns minutos. Terminamos a ronda e pegamos o relatório com os outros monitores. Willow estava entre eles, encarando Rose, muito mais do que devia. Teria que conversar com ele e saber quais eram suas intenções com ela. Não que isso fosse assunto meu, mas Willow não era um cara com boas intenções. Ele sempre estava tentando conquistar as garotas e partir seu coração em seguida.
— Rose, o que acha de encerrarmos essa noite na Torre de Astronomia? – propus depois que os monitores foram para suas casas.
— Como nos velhos tempos? – perguntou ela, sorrindo.
— Isso. Só faltou o Alvo – respondi.
Andamos calmamente até a torre e sentamos no chão, para ver as estrelas. Era algo que sempre fazíamos juntos, em trio. Alvo era o mais entusiasta, falando das constelações, explicando a história de cada uma. Rose sempre o corrigia em alguns relatos e eu apenas ficava observando os dois, rindo de vez em quando. O meu interesse era apenas esquecer por um momento de mim mesmo e ver a imensidão daquele seu escuro pontilhado de estrelas.
— O que você esta pensando? – perguntou ela, me encarando.
Senti o estômago revirar ao perceber seu olhar. Ela estava muito bonita aquela noite. Vestia uma calça jeans e por cima a camisa social do uniforme, com a gravata vermelha e amarela amarrota. Por cima usava um casaco preto e para combinar um all star vermelho. Ela não tinha a menor noção da sua beleza e o que causava. Fazia muito tempo que eu havia notado isso, mas hoje parecia mais especial. Não saberia dizer se era por seus cabelos estarem soltos, caindo em vastos cachos ruivos em suas costas. Ou seu olhar azul brilhante que parecia meigo, sem o ar de irritação de sempre.
— Nada – respondi, por fim, desviando o olhar para o céu.
— Não pode ser nada – devolveu ela – Aposto que está pensando o quanto queria estar na sua cama, essas horas.
Soltei uma risada fraca. Ah, se ela soubesse o que eu pensava, sairia correndo na primeira oportunidade.
— Não tente adivinhar, Rose. Meus pensamentos são os segredos da alma. Não devemos tentar desvendar o mundo interior dos outros, pois isso seria violar a própria privacidade.
Ela gargalhou.
— Ai Scorpius, por que sempre que conversamos você fala com tamanha erudição? – ela se virou para mim, com os olhos brilhantes – Já que você não quer me contar nada do que está pensando, vamos contar estrelas.
Não consegui desviar o olhar dela, para contar as estrelas. Ela parecia muito concentrada, como se pudesse realmente saber quantas tinham no céu. Senti paz ao poder contempla-la. Ela parecia tão calma. Seu rosto está suavizado, seus lábios se entreabriam a cada contagem. Queria tocar seu rosto com tamanha intensidade que não percebi que tocava seus dedos. Ela parou de contar e me olhou, desconcertada.
— Não está contando? – perguntou ela, em um sussurro.
— Não – respondi, com voz baixa, tomando sua mão entre as minhas.
Fiz carinho entre suas juntas, sentindo seus dedos finos e longos. Sua pele era macia e delicada. Estavam quentes, esquentando minhas mãos geladas. Sentir um ardor percorrer meu peito, como se tocar sua mão não bastasse. Aproximei-me dela, quase colando nossos corpos. Nossos narizes quase se tocavam e podiam sentir sua respiração quente tocar meu rosto. Era cheiro de menta, misturado com um perfume adocicado. Senti meu sangue esquentar ao ver que ela se aproximava. Finalmente, quando nossos lábios estavam próximos o suficiente, um barulho interrompeu o transe.
— Que droga! – murmurei, afastando-me meio metro dela.
Nossas respirações estavam aceleradas. Sentia a tensão no ar e senti que aquilo não foi errado. Eu sabia que ela sentiu o mesmo quando me aproximei, sentiu a atração inevitável entre nós. Eu não havia forçado aquilo, aconteceu espontaneamente. Porém, não conseguia convencer meu lado racional. O medo estava falando mais alto, gritando na minha cabeça, dizendo que aquilo não poderia se repetir, ou eu estava fadado a me machucar.
— Eu não sei... – começou ela, mas sem terminar.
— Sabia que encontraria vocês aqui – disse Alvo, subindo as escadas.
Respirei, aliviado. Eu não queria ter aquela conversa com ela, não agora, quando me sentia exposto demais.
— Então você resolveu vir – disse para ele, tentando desviar a minha atenção de Rose. Ela estava cabisbaixa, mexendo no cadarço do tênis.
— Mas é claro, é nossa tradição – disse ele, animado – Trouxe algumas coisas da cozinha.
Ele mostrou uma cesta de madeira, com pães, queijo, geleia, pasta de amendoim, maças e uma jarra de suco de abobora.
— Que tal as estrelas? – perguntou ele, sorrindo para Rose.
— Ahn, maravilhoso – balbuciou ela, corando.
Sorri por dentro. Apesar de eu não querer conversar sobre nossos sentimentos, estava satisfeito ao constatar que ela sentia o mesmo por mim.
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