Scintilla

1 Capítulo 1 - O raio que cruza os céus.


Notas iniciais
iniciando, não tenho ideia de constância acerca dos capítulos, a faculdade está exigindo muito de mim. Ademais, espero que gostem, qualquer crítica será bem-vinda.

Naquela noite havia algo anormal, era possível sentir, não sabia se eram os pássaros inquietos, o vento forte na copa das árvores que criava um som alto de farfalhar das folhas ou mesmo os animais ao longe que sempre passavam correndo. Não costumava se demorar perto daquela parte da trilha, portanto, caminhava de maneira apressada, ela já havia terminado de trabalhar na vila vizinha. As nuvens carregadas no céu indicavam que em breve uma tempestade cairia, aliás, poderia cair a qualquer momento. Mas de tudo que assombrava o imaginário de Sakura naquela noite, sem dúvidas o principal fator eram as linhas de luz que rasgavam aquele céu negro. Eram tão brilhantes em contraste com o fundo cósmico e sempre predecessoras de um estrondo enorme.

E tinha um bom motivo para aqueles raios lhe darem medo, sempre ouvira as lendas da vila acerca do santuário abandonado que ficava naquela trilha, por isso não gostava de passar tempo ali e sempre seguia viagem da forma mais rápida possível. De acordo com o que entendeu, os antigos que vieram buscar conhecimento no santuário descobriram, pela língua antiga cravada nas paredes, que pertencia ao Aspecto da Tempestade. Seu nome verdadeiro era impronunciável para os mortais, como o de todos os outros Aspectos.

Mas na língua humana, a pronúncia se parecia com "Sasuke".

Enquanto caminhava percebeu que começou a neblinar, uma chuva tão fraca que se não molhasse suas mãos ela não perceberia que estava acontecendo. Pôs o capuz para proteger seus exóticos fios rosados, cabelos que sempre lhe rendera comentários de espanto pelos que passavam pela vila, nem seu pai ou sua finada mãe lembravam de alguém com essa tonalidade de cabelo na família.

Sua mãe morreu quando ela ainda era muito jovem, vítima de uma doença considerada incurável e apesar de ainda possuir o pai, Sakura fora criada pela avó, já que o velho Haruno era um protetor de aluguel em qualquer lugar onde houvesse serviço, então saia da vila no começo da semana e só voltava ao final dela. Por ser o último dia de esforço de cinco, seu pai a acompanharia na volta, deveria a estar esperando no local de sempre, uma velha árvore que transformava a estrada velha de terra batida em uma bifurcação. O primeiro caminho passava em Kroma, cidade rica de onde Sakura estava vindo; o segundo caminho seguiria até o mar, a chamada Michi era uma estrada larga que levaria além do deserto de Passos, apesar de não haver nada de interesse a alguém entre o deserto e o mar; o terceiro caminho a guiaria de volta a seu lugar de origem, a esquecida Essia.

Essia já tinha tido sua importância no passado, evidenciada pela forma rochosa não natural em seu centro, lá um espigão de pedra duro como o aço se levantava do chão e apontava aos céus, que costumava atrair viajantes curiosos e religiosos.

Os mais velhos contavam a lenda de uma antiga batalha que supostamente havia ocorrido ali, contavam sobre os Aspectos e seus feitos. Era uma conversa antiga para entreter crianças, não que Sakura não acreditasse nas antigas encarnações da natureza, mas já fazia muitos anos desde o massacre de Ondastya, onde o último deles foi visto. Provavelmente todos já estavam mortos ou simplesmente abandonaram esta terra castigada pela guerra.

Divagando sobre esse assunto, Sakura nem percebeu quando os galhos mais altos da velha árvore entraram em seu campo de visão, e logo após a visão de seu velho pai a fez voltar a realidade. Como de costume ela correu até ele e lhe deu um abraço apertado, sempre ficava aliviada de ver o pai em bom estado, mesmo após dias cansativos na profissão perigosa.

— Minha filha, como foi a semana? Sua avó não exigiu muito de você? – seu pai sempre agia preocupado quando a via.

—Eu estou bem pai – disse dando um pequeno beijo em sua bochecha – sobre a minha semana o senhor já sabe, os estoques de erva-lileeira estão acabando nas proximidades de Kroma, eu e os boticários temos que procurar cada vez mais longe.

— Bom, já fazem séculos que a flora da região é explorada, uma hora ia começar a ficar escasso.

— Eu sei, mas são tempos violentos pai, não quero me afastar muito da botica nem da cidade, infelizmente os feridos não param de chegar.

— Sim, eu sei. – ele suspirou cansado – Os ataques aos acampamentos estão cada vez mais violentos, admito que quando entrei não imaginava que ficaria tão perigoso.

O velho Haruno trabalhou muito tempo como caçador de recompensas, mas com o tempo e a perda natural de seus reflexos afiados ele percebeu que não teria vantagem alguma contra seus alvos. Infelizmente, ele tinha ciência que só sabia fazer uma coisa; lutar. Então entrou numa companhia de proteção, fazia a escolta de nobres e defendia os acampamentos ao longo da Michi.

— Já pedi para o senhor largar isso pai, você sabe que a vida seria bem mais tranquila se você fosse trabalhar nos campos.

— Não sei filha, mas é que eu nun-

A conversa foi interrompida por um clarão que cegou brevemente ambos e foi seguido de um estrondo que fez parecer que o céu havia se estilhaçado, instintivamente Sakura se agarrou em seu pai.

A claridade passou rapidamente, mas, de maneira não natural, o raio que se seguiu não simplesmente cruzou o céu carregado e desapareceu, ele seguiu despencando e foi de encontro ao solo. Não foi possível ver onde ele caiu exatamente, pois as árvores bloqueavam a visão, mas foi possível perceber que não fora muito distante de onde estavam.

— Pai? – Sakura tremia e falava num miado – O que foi isso?

— Não sei minha querida, mas eu vou descobrir.

Ele puxou sua arma da bainha enquanto falava.

— Não pai, nós precisamos voltar para casa! – a garota puxava desesperadamente o pai para longe do local.

— Sakura, por favor, fique aqui, eu preciso dar uma olhada.

Ela observou aflita quando seu pai se soltou de seu agarre e adentrou a floresta. A ideia de estar ali sozinha a aterrorizava mais que chegar perto do estranho fenômeno. Então, sem escolha, seguiu o pai da maneira mais cautelosa que pôde.

O homem ia na frente, sua lâmina servia como um facão, removendo pedaços desajustados das árvores. Um pouco mais a frente foi possível perceber um leve rastro de plantas queimadas que ia se tornando mais forte à medida que chegavam perto de uma enorme edificação de pedra. Ali, perto do velho templo desgastado pelo tempo o chão estava completamente chamuscado e as árvores se curvaram diante do que quer que tivesse caído naquele lugar.

Sakura notou com pavor ser o lugar que os mais velhos diziam pertencer aos adoradores do Aspecto da Tempestade. Nunca gostara daquele lugar e devido aos acontecimentos sobrenaturais daquela noite com certeza não estava inclinada a mudar de opinião.

— Por favor pai, precisamos ir emb-

O mais velho em resposta apenas tapou a boca dela com a mão livre e olhou fundo em seus olhos. Agora iluminado pela luz da Lua, Sakura notou os olhos arregalados. Kizashi já não tinha certeza de nada, os instintos estavam aflorados e sentia sobre si a pressão de algo que não conhecia. Apontou para sua filha o caminho de volta, indicando que havia mudado de ideia e precisavam voltar, o que quer que houvesse acontecido ali não era de origem humana.

Mas ao primeiro sinal de movimento, Sakura sentiu ser puxada de maneira violenta e em seguida ouviu um estrondo forte. Rapidamente olhou para o caminho que o pai havia indicado e observou a fumaça se dissipar, revelando um lugar chamuscado. Notou o velho Haruno olhando para algo próximo ao templo e ao direcionar os olhos para o lugar, não sabia se um dia se sentiria preparada para o que viu.

Um homem claro e alto estava parado próximo ao arco de entrada feito de blocos de pedregulho. Mas, ao olhar com atenção, percebeu que aquilo não era um homem, tinha forma de homem, mas possuía traços que fugiam das pessoas comuns. A começar pelas suntuosas vestes que trajava, elas traziam em suas partes internas um brilho etéreo, como se diversos conjuntos de estrelas habitassem ali. Subindo a visão percebeu sua katana, que projetava a luz do céu, se não estivesse atenta o suficiente poderia confundir aquela arma com um pedaço da paisagem. E por último notou o rosto do ser, era pontudo e afilado, uma mistura perfeita entre delicado e masculino, tinha madeixas negras e revoltas que seguiam além de seu queixo. E os olhos, olhos que mesmo a uma distância média e baixa luminosidade, conseguiu ver perfeitamente. Aqueles olhos transmitiam a fúria de mil tempestades e uma escuridão que não havia visto nem mesmo no pior dos temporais.

O homem ampliou o ângulo de sua lâmina, a deixando rente ao chão e então Sakura notou um ferimento aberto em seu abdômen. Sem saber o que fazer e sentindo um desespero crescente, ela tentou iniciar uma conversa com a criatura.

— E-eu posso tentar te ajudar com isso – apontou para a barriga.

O homem nada respondeu, apenas empertigou-se e observava ambos com olhos furiosos.

Apesar de não saber se ele a entendia, ela levou aquilo como um claro ‘não’.

— Se não quer ajuda, então nos deixe ir embora – pediu de maneira sôfrega.

Novamente nenhuma interação por parte do ser. Sem ter certeza do que fazer, ela tentou voltar por onde seu pai havia indicado, somente para ser impedida novamente pelo braço de Kizashi, que desde a descoberta não havia tirado os olhos do homem armado.

— Não tente sozinha – o velho Haruno começou — Ele pode acabar atacando você, não consigo defender nós dois se estivermos separados.

— Como sairemos daqui então? – a garota já não aguentava mais a tensão — e o que é essa coisa?

— Estamos diante de algo que foge da nossa compreensão, então não faça nada impensado – ele definitivamente estava assombrado com os acontecimentos recentes — voltaremos juntos, você me guia e eu o olho para prevenir qualquer tipo de ataque direto, entendeu?

Sakura anuiu e deu um passo ínfimo em direção a trilha carbonizada, notou que nuvens voltavam a encobrir a Lua, era o anúncio de uma nova tempestade. Voltando a se mover em pequenos passos, iam se afastando do templo, e consequentemente, do ‘homem’.

Quando uma flecha voou próxima a sua cabeça.

Ao se virar para seguir a trajetória do projétil viu que aquela coisa havia desviado por centímetros do projétil que teria atingido sua cabeça. Desta vez não houve aviso, o céu começou a descarregar a energia que havia sido acumulada, iluminando o descampado.

Ao recobrar os sentidos, Sakura viu seu pai desacordado ao seu lado, e temerosamente pôs a mão em seu pescoço, sentindo pulsação. Suspirou aliviada e tentou acordá-lo, mas sem sucesso. Ao longe pôde notar que alguns vultos se aproximavam do templo de pedregulhos, trajavam roupas negras com detalhes vermelhos. Tomou a lâmina do pai e a escondeu perto de seu corpo esguio tentando ao máximo fingir que também estava desacordada.

A primeira figura a se aproximar analisou cautelosamente as duas pessoas caídas no chão. Percebendo, porém, que não era quem procurava, ele fez um sinal para que os cinco que o seguiam fossem atrás do Aspecto. Ao terminar se voltou novamente a garota delicada que estava desfalecida e o homem robusto, porém velho, que estava também ali.

— Uma pena que não tenhamos nos conhecidos em outras circunstâncias, coisa fofa, tenho certeza de que você ia me amar – a figura falou com escárnio.

Ele esticou o braço para tocar na moça, mas antes que alcançasse um clarão fez com que todos ali ficassem cegos por milésimos de segundo.

Quando as quatro figuras a sua frente abriram seus olhos novamente, viram o que deveria ser um venator experiente, mas uma parte faltava; sua cabeça fora brutalmente removida do corpo. Próximo ao corpo degolado estava o alvo.

O Aspecto da Tempestade.

A figura maior tentou atacar o Ser celestial com sua foice, que foi ripostada e empurrada para que ganhasse um pouco de espaço, apesar de possuir uma destreza considerável, o Ser já estava cansado, vinha sendo caçado por várias noites, na última até conseguiram lhe abrir um ferimento feio no abdômen.

Na sequência, dois venatores atacaram juntos, tudo que o Aspecto pôde fazer foi defender uma das lâminas, a outra acabou talhando uma parte de sua veste e abrindo um corte em sua perna esquerda, o membro cedeu e ele caiu em um joelho já não aguentando mais a fadiga.

O último de seus perseguidores se aproximou rapidamente com uma katana que tinha como alvo seu pescoço. Já sem forças para se defender desse golpe, tudo que o ser fez foi observar.

Vários pensamentos rodeavam sua cabeça, sua mente trabalhava em tudo que viu e viveu, dos primórdios de sua criação; de ter adquirido a consciência do que era e para que vivia; a invenção dessa raça inferior que ia acabar lhe matando; a Guerra no Paraíso, que era seu pesadelo eterno sempre que dormia; as lembranças de seus semelhantes que pereceram em batalha por propósitos maiores.

Tudo isso, porém, foi deixado de lado quando ouviu um brado agudo e percebeu que a pequena criatura que havia lhe encontrado primeiro tinha se levantado e, com uma espada que parecia grande demais para seu corpo pequeno, havia defendido o golpe da quarta figura. Aquilo causou uma grande surpresa no homem ajoelhado, uma humana fraca como aquela defendendo um ser celestial era algo que lhe fez refletir por meio segundo.

— Que mer-

Ouvir a voz do perseguidor o acordou de seu transe e, sem esperar por mais chances, o Aspecto juntou o remanescente de suas forças e olhou para ele, um clarão atingiu o venator com energia o suficiente para matar um animal de grande porte.

A figura maior que havia rechaçado primeiramente voltou a atacar, dessa vez descontrolado. Desviou do primeiro golpe se abaixando, a foice pesada passou acima de sua cabeça e ele percebeu que os dois venatores da retaguarda que trabalhavam em conjunto estavam avançando novamente.

Pensando rapidamente, ele montou uma manobra que necessitaria de um pouco de sorte, mas se estava vivo até agora ele poderia ter esta liberdade. No balanço de volta da foice, ele pulou alto e apoiou os pés na lâmina da arma, se lançando de costas contra os dois oponentes que estavam vindo, ele torceu mentalmente para que estivesse certo.

O movimento de impulso fez os dois se assustarem um pouco e um deles preparou sua katana para defender qualquer provável golpe do Ser. Era justamente o que o Aspecto esperava que ele fizesse, deixando o metal brilhante de Kusanagi deslizar pela extensão da katana de seu adversário ele conseguiu a distância que queria e chegou nas costas do venator, fincando a lâmina na garganta do inimigo.

A dupla do falecido caçador realizou um golpe vertical que obrigou o Ser a se separar de sua fiel Kusanagi, mas ele rapidamente chutou a arma do oponente para longe. Sentindo os efeitos do corte que havia recebido mais cedo na perna, não conseguiu juntar força suficiente para sustentar o corpo após o golpe, o fazendo ficar novamente com um joelho no chão. A figura maior se aproximou na sua frente e levantou a foice, mas foi surpreendido por um golpe direto na parte inferior à sua axila direita.

A pequena moça que havia o salvado mais cedo novamente surpreendera seus perseguidores. Com o braço direito debilitado, o grande homem, inconscientemente, desfez a postura do golpe e foi o necessário para que o Aspecto juntasse fagulhas de eletricidade na mão direita e atravessasse o peito dele.

Enquanto tentava, sem sucesso, remover a mão do peito do venator, o último oponente havia recuperado sua lâmina.

— Tudo teria corrido como planejamos se você só morresse quieta– ele apontou a katana para a mulher de cabelos rosados – mas você tinha que se meter com o que não entende.

Percebendo que o caçador se aproximava cada vez mais da moça, o Ser ficou aflito e tentava mais energicamente se desvencilhar do corpo de seu agressor, mas o ferimento aberto em seu abdômen e o corte em sua perna começavam a drenar demais sua força.

— Bom, aquele ali não vai mais conseguir levantar – o venator se pôs em posição de ataque – então eu vou me divertir com você, sua vadia.

O caçador avançou, mas foi interceptado por um murro direto do velho homem que a pouco estava desacordado.

— É da minha filha que você está falando, seu imundo.

Ele rapidamente socou de novo o oponente e, depois de pegar sua arma, o finalizou.

O Aspecto, que observava tudo, sentiu que seus olhos estavam pesados demais, sua perna não o deixava se levantar e sua barriga estava doendo demais e não conseguia se soltar do venator maior. Em seus últimos momentos de lucidez viu a moça que havia bravamente entrado em combate argumentando com o homem velho enquanto apontava para si.

Depois o escuro lhe cercou.

Notas finais
E ai? Espero que a leitura tenha sido fluida, não sei como narrar os próximos capítulos, tenho dificuldade em alternar entre narração e POV. Enfim, até o próximo cap.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.