Ava Winter olhou pela janela do avião fretado, observando a paisagem desoladora abaixo enquanto o piloto inclinava em direção uma pequena área plana. A Ilha de Rebum, no Japão, era ainda mais remota do que ela havia imaginado, com a pequena pista de pouso cercada por penhascos cobertos de neve em três lados e, à frente, as águas frias do Canal de Rebum Chanel.

Mas ela não tinha expectativas de que fosse fácil. Sabia onde estava se enfiando quando aceitou o convite de Takeda para o treinamento.

O avião aterrissou aos solavancos no solo congelado até finalmente parar. Um minuto depois, a porta se abriu e Ava saiu, a mão coberta com luvas segurava a pequena mochila de lona.

– Bem-vinda ao Japão — disse o piloto, pisando no chão ao lado dela.

– Obrigada. — Ela voltou a atenção para a paisagem ao redor, o vento chicoteava os longos cabelos escuros contra seu rosto. Não havia aeroporto, não havia ponto de táxi , não havia pessoas. Ela olhou para o piloto, que já voltava para o avião. — Espere! Daqui eu vou para onde?

Ele olhou para trás, indicando com a cabeça alguma coisa atrás dela.

Ela se virou-se e procurou com os olhos até que avistou, muito distante, uma construção no topo das falésias recortadas, cuja pedras do sopé eram violentamente açoitadas pelo mar.

– Mas... como vou chegar lá? — perguntou Ava.

– Se quer realmente chegar lá — disse o piloto já subindo no avião e puxando a porta — você vai encontrar o caminho.

Ava ainda estava em choque quando as hélices começaram a se mover. Por alguns minutos, tudo o que ela pôde fazer foi observar o avião decolar ao céu pungente. O barulho do motor tinha diminuído para o fraco zumbido quando um vento gelado soprou do Canal de Rebum, fazendo um arrepio de frio percorrer seu corpo. Ela estremeceu, puxando para cima o capuz do moletom, e começou a andar.

O chão estava gelado, e sua respiração quente virava fumaça ao encontrar o ar frio. A geada cobria as falésias à sua frente, mas ela mantinha os olhos fixos no chão, não querendo tropeçar e cair. Tinha vindo para a ilha com um objetivo específico. Uma lesão era a última coisa de que precisava nesse início de jogo.

Depois de duas horas lutando para ficar de pé sobre o solo congelado, ela finalmente chegou à base do penhasco. Parando um pouco para recuperar o fôlego, Ava inclinou a cabeça para trás e deixou seu olhar repousar no velho tera japonês 12 metros acima dela. Ava esquadrinhou a face do penhasco, esperando encontrar algum tipo de escada oculta ou, pelo menos, algo parecido com pontos de apoio.

Mas não havia nada. Apenas uma parede de rocha íngreme.

Respirando fundo, ela atirou a mochila por cima do ombro e sobre o peito, ajustando a alça de modo que se encaixasse firmemente contra seu corpo. E então começou a subir. A princípio, mal podia ver as pequenas fendas que poderiam ser usadas como pontos de apoio, uma rocha saliente que pudesse ser usada para puxar para cima. Depois de um tempo, porém, seus olhos e acostumaram a examinar o penhasco e encontrar o próximo recuo, a próxima coisa em que se agarrar. Enquanto a escuridão começava a tomar conta do céu, ela sentia os braços doloridos e se obrigou a mover-se mais rápido. Não podia dar-se ao luxo de se pendurar apenas pelos dedos, então procurava o lugar perfeito para colocar os pés.

O passado havia endurecido sua força de vontade, mas ela tinha força física limitada na parte superior do corpo.

Já estava perto do topo quando seu pé escorregou e um punhado de pedras caiu no abismo, enquanto ela se agarrava firmemente ao penhasco, a respiração rápida e pesada, com o coração quase pulsando para fora do peito. Permitiu-se apenas um minuto para recupera a coragem antes de recomeçar a subir.

Seus braços e suas pernas tremiam quando finalmente lançou-se sobre o topo do penhasco. Ficou lá deitada por alguns minutos, transpirando, apesar da temperatura fria. Quando conseguiu respirar sem ofegar, levantou-se e dirigiu para o tera.

Era menor do que parecia a partir do solo, e menos imponente, com cinco pilares repousados em cima de um teto suavemente curvo. Ava tinha lido em algum lugar que era uma característica desse tipo de arquitetura, os pilares que representam os elementos centrais do universo budista: céu, vento, fogo, água e terra. O telhado era de um vermelho profundo, um sinal de pontuação contra o terreno coberto de neve.

Mas estava muito frio para ficar parada, então ela se agarrou a um pilar de bambu, um dos muitos que ladeavam a passagem para a entrada do tera, e caminhou em direção a duas grandes portas na frente do edifício. Estava quase lá, arrastando-se com passos lentos, quando a exaustão tomou conta dela. Caiu de joelhos, fechando os olhos e tentando encontrar forças para resistir.

– Você é Ava Winters — disse uma voz atrás dela.

Ava voltou-se surpresa e se deparou com uma ruiva da sua idade. Ava tentou sorrir apesar da dor que sentia nos braços e nas pernas, pensando que a mulher viera para cumprimentá-la, mas ela apenas lançou-lhe um olhar frio como aço antes de caminhar e passar por ela sem nada dizer.

Muito cansada para se importar, Ava ficou em pé. Caminhava lentamente e com muita dificuldade quando as portas do tera se abriram. Um homem estoico e autoritário, com um rosto desgastado e a constituição robusta, estava parado na porta. Ele disse alguma coisa em japonês enquanto o vento uivava em torno deles. Ela não tinha a mínima ideia do que as palavras queriam dizer, mas isso não importava.

Aquele era Satoshi Takeda.

Uma aura de força e controle emanava dele, interrompendo-a temporariamente de continuar a caminhar. Um momento depois, ela lembrou-se por que viera.

Ela encontrou seu olhar.

– Takeda.

O silêncio pairou entre eles. Até mesmo o vento parecia ter se acalmado diante de sua presença.

Por fim, ele balançou a cabeça em um cumprimento.

Ava fez uma reverência.

– Estou pronta para começar minha formação.