Schadenfreude

1 Capítulo Único - Schadenfreude


Notas iniciais
Um Obrigado especial à Nath, Kisa, Siegrfried e May. Vocês são extremamente especiais. Muito obrigado por me apoiar a minha escolha de escrever sobre esse tema tão sensível. Muito obrigado mesmo. E a você que está lendo este conto agora. Uma ótima leitura. ~~~Arth

Você já sentiu o gosto do cano de uma arma, enquanto suas mãos trêmulas tentavam apertar inutilmente o gatilho? O suor escorrido em suas têmporas, a hiperventilação pulmonar fazendo sua mente ficar cada vez mais esclarecida, fazendo-o ter medo de terminar o que começou?

Já tomou banho na banheira quente, entorpecido de analgésicos. Sua mente uma mesclagem de cores, sons e pensamentos egoístas. Vozes numa platéia invisível, pedindo para você usar aquela lâmina de barbear, e cortar, o mais fundo possível seu braço. Cortar até o sangue arterial jorrar, até o mundo apagar e somente sobrar o frio e a rigidez do rigor mortis?

Já alguma vez se queimou com uma bituca de cigarro no braço, sentindo a carne assando na brasa, ouvindo o chiado de sua pele chamuscando. Uma, duas, três vezes. Somente para contar quantos maços de cigarro de filtro vermelho você fumou hoje. Desejando o mais rápido que você desenvolva um câncer maligno?

Alguma vez já saiu sozinho para beber, somente beber. E em cada drinque, em cada gole de uísque, em cada pinga, em cada tequila. O gosto amargo da derrota desce envolvendo seu estômago em repulsa. Você corre para o banheiro e vomita no caminho, o cheiro forte do álcool lembrando o quão fraco você é. E você vomita, e bebe e volta a vomitar em um ciclo eterno. Até desmaiar agarrado na privada, pedindo para Deus acabar com toda essa desgraça de vida?

Você espera o metrô chegar, e seu interior fica gritando para você pular?

Ou quando atravessa uma ponte? Ou vai em uma sacada que não possui rede de proteção? Você deseja pular, a cada segundo, um salto, um tormento a se dissipar. Apenas aquele pensamento atormentando sua existência, pule, apenas pule?

Ou até mesmo quando você se pega deitado diante o espelho de casa, olhando para aquela faca de cozinha. Girando sua ponta no eixo, fazendo-a rodar no chão acarpetado. E tudo que você consegue pensar é se vai doer muito? Você não quer que doa, você quer algo indolor, mas quer ao mesmo tempo sofrer como um porco, enquanto suas tripas espalham pelo chão, quentes e inchadas?

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Ele terminara de ler sua postagem no website. Havia uma certa angústia que jamais saía de sua existência. Desde o dia que sua mulher e filho morreram no acidente de carro, naquela tarde de Carnaval. Era como se um pedaço dele tivesse desaparecido, dissolvido no meio de tanto desespero e fraqueza. Uma lâmina que ceifava sua alma, flagelava sua existência. Viver a partir daquele momento havia tornado-se motivo de desdém e ódio. Olhava a tela de seu notebook com uma certa aflição, a cada segundo a saliva tornava-se, mais e mais pesada e densa. Fechou a tela quando os comentários chegavam a mais de 200.

"Você pode me mostrar o caminho?" Dizia um dos posts. Em uma mensagem privativa em um número de telefone da região. Ele sentiu-se animado, mas por pouco tempo. Era assim, seu corpo já quase não produzia serotonina, tampouco adrenalina. Era como viver imerso em um limbo, que tivesse uma fogueira, cujas centelhas eram acesas em momentos antes de morrer de hipotermia. Levantou-se devagar e pegou o celular na mesa, discou com receio para o número de telefone que um anônimo em um fórum de suicídio havia lhe passado.

O telefone tocou duas vezes antes de uma voz feminina atender a chamada:

Alô? Quem é? Um pequeno silêncio desconcertante pairou na ligação, apenas as respirações pesadas dele e dela na linha. Era mais do que suficiente. É você, é mesmo você... O homem sentiu uma pontada de emoção na voz da mulher. Você me ligou. Você realmente me ligou.

Sim Ele começou Queria ouvir sua voz. Ver se você...

É você mesmo. a Mulher completou dando uma pequena risada do outro lado da linha. O telefone ficou mudo por alguns segundos.

É. Isso mesmo. Ele respondeu. Sua voz átona, sem emoção. Se uma estátua pudesse falar, falaria daquela forma. Rígida. Ausente de vida. Precisava ter certeza.

Eu entendo. Afinal o “Das Seil” é aberto ao público em geral. A polícia deve cair matando sobre vocês, não é? — a mulher perguntou com uma certa inocência. Afinal, o site é uma espécie de Liveleak de suicidas em potencial.

Liveleak. Nunca pensei dessa forma. Ele ponderou sobre o comentário da mulher. O Das Seil era um website estranho, permeando entre conteúdos indexados por sites da surface. Era fácil encontrar o site por meio de sites de busca, seu conteúdo era sempre avisado como conteúdo chocante. É não era por menos, auto-mutilação extrema, tortura em atos de sadismo extremo e suicídios eram postados a cada dia pelos seus integrantes.

E havia o Fórum.

Era no Fórum que as coisas mais perversas e bizarras aconteciam. Sobre a proteção da terceira irmã, aquela que cortava a Corda da vida, o que acontecia naquele pedaço de conexão estava além do bem e do mal. E Ele era um artista, um artista da angústia e da insanidade. Suas palavras despertavam o desespero e as pessoas disseminavam sua palavra como se ele fosse algum tipo de Santo nunca canonizado.

Você poderia dizer seu nome? perguntou Ele. Sua voz uma pedra fria na alma.

Clarice. Eu me chamo Clarice.

Clarice, você está certa. O site é como o Liveleak, mas é tão explícito e criativo que até mesmo a polícia pensa que é arte gráfica. Ninguém seria tão insano de postar coisas do gênero tão abertamente.

Então, você não pode me ajudar? perguntou Clarice com uma voz trêmula ao fone.

Posso. Mas é isso o que você quer?

Sim. É. Clarice respondeu sem pestanejar.

Ele pensou bem nas alternativas. Não era a primeira pessoa a quem lhe passavam-lhe o telefone. Era bastante recorrente, mas Ele tinha o que chamava de sexto sentido, todos os suicidas pareciam ter. Ninguém jamais havia tido problemas com a polícia.

Clarice, me ouça atentamente. Você irá fazer o seguinte.

E ela o ouviu.

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Ele a observava de perto. Era uma mulher engraçada, não deveria ter mais que seus 30 anos. Não era bonita, mas também não era feia. Tinha longos cabelos loiros encaracolados, uma boca larga, olhos estreitos, parecia estar uma dúzia de quilos acima do peso. Clarice esperava por Ele, lógico que ele não iria aparecer de imediato. Ia observar, vigiar, estudar essa estranha. Era o primeiro preceito, sentar e assistir.

Clarice mexia-se pouco, seus olhos vasculham lentamente o ambiente, desinteressados, carregavam consigo um ar de melancolia. Suas piscadelas eram vagarosas e demonstravam a ausência de pressa. Uma ausência de interesse. Ela o aguardaria a noite toda, e mesmo assim, não demonstraria nenhuma emoção. Um casco vazio, era isso que ele interpretava nela. E foi isso que despertou-lhe a vontade de chama-la. Levantou-se com cautela e aproximou da mulher vagarosamente, não tinha pressa alguma, muito menos adrenalina.

Puxou a cadeira a frente da mesa da mulher e sentou-se, olhando fixamente para aquele par de olhos frios. O semblante da mulher mudou, sua expressão era de espanto com uma pontada de decepção. Suas sobrancelhas arquearam em uma franzida de cenho. Certamente estava surpresa com tamanha má aparência do homem.

Seu rosto era magro, seu nariz pontudo e levemente torto em um arco em sua ponta, seus lábios cheios eram desproporcionais ao restante do rosto. A testa era deformada em duas calosidades que dividiam a testa na metade hemisférica como dois chifres na testa magra. O cabelo era longo, oleoso e ondulado nas pontas, assim como sua pele pálida e engordurada, cheia de pequenas pústulas e cravos escuros. Os olhos eram gibosos, orbitando em pálpebras inchadas de cansaço e olheiras profundas e escuras. A barba mal feita, encravada na acne do queixo minúsculo.

Não é como imaginava, não é? Clarice balançou a cabeça devagar, em um não lento. — O pessoal pensa que sou um Deus, as coisas que posto, a poesia. As palavras são lindas. O hospedeiro nem sempre corresponde a beleza da arte. O ato de imaginar é algo assombroso, muitas vezes o ideal não passa de uma utopia. O Real é sempre mais impactante. Ele sorriu, dentes grandes e amarelados de refrigerantes e cigarros em uma arcada dentária perfeita. Diga-me Clarice, porque está aqui?

Eu. Queria te conhecer.

E conheceu, embora não seja o que suas expectativas almejavam, certo? — Ele sorriu, e levou um cigarro até a boca. Se importa se eu fumar?

Não. Nem um pouco. Seus olhos analisavam com um escrutínio frio. O homem a sua frente. Uma certa forma de repulsa formava-se em seu estômago. Aquele homem era algo realmente fora do comum, sua presença era inquietante, num aquém sobre-humano.

Diga-me Clarice, o que te puxa ao inferno? O que realmente lhe arrasta pelos cascalhos doentios da vida, cega-te com areia cáustica e enegra seu coração? O que lhe crucifica? Faz-lhe sentir aquele aperto na alma? Ele dá uma puxada forte em seu cigarro, sentindo o amargo gosto do tabaco passando como um remédio tarja preta pelo filtro vermelho. Seus olhos fecham conforme sente o carbono queimar seus alvéolos, transformando-os lentamente em pequenas flores de lótus, violentadas em suas formas fractais enegrecidas.

As pessoas. Cada uma delas. Cada uma das máscaras que exibem, da fraqueza do pensamento, da ausência de singularidade. Da forma com que a sociedade reprime, corrompe. Destrói. Você adia tudo. Clarice olhou para o lado, para um casal que se abraçava ao atravessar à rua e continuou. Para perceber que não deveria ter guardado expectativas. Pessoas machucam, quando você machuca. Instintivamente você age como um hipócrita, contestando a ação de quem sofreu. Você torna-se a vítima. É sofre com a mesma ferocidade. No entanto, no âmago de sua existência punitiva, recusando aceitar que um dia causou dano a alguém, você se torna frio. Uma forma vazia...

Um Homúnculo desalmado. Ele continuou. Pigarreou e deu uma tosse pesada, enquanto soltava a fumaça acinzentada para cima. Foi um dos meus primeiros posts no Fórum. Ele sorriu. Então. Quem foi?

Meu ex-noivo. Clarice encarou o homem a sua frente com os olhos avermelhados, lágrimas surgiam nas laterais, borrando a maquiagem escura. Íamos nos casar, estava na faculdade. É fui uma tola. Brigavamos muito, e eu o traí com um colega de estudos. Estava de Tpm, fragilizada e ele sempre fora uma pessoa que me respeitava. Tínhamos brigado feio aquela noite. E eu liguei para meu amigo e ele veio até em casa. Fomos para a cama aquela noite, meu ex-noivo nos viu. Ele não disse nada. Apenas ficou olhando, enquanto meu amigo me fodia. Percebemos somente quando ele entrou no quarto, abriu um de suas gavetas. Pegou duas camisetas e saiu do quarto. Corri atrás dele, gritando seu nome. Ele sequer me ouviu. Deixou a porta aberta e saiu de casa. Clarice tremeu, seus olhos estavam cobertos de lágrimas.

Ele se matou, certo? Ele perguntou. Sua voz fria e racional, como se soubesse o desfecho de sua história.

Encontraram ele semanas depois. Havia se jogado na linha do trem. Ele estava irreconhecível, durante a visita ao IML, eu só reconheci a tatuagem de um pássaro com meu nome em seu ombro. Clarice chorou. Seus olhos avermelhados olhavam o homem a sua frente com amargura e arrependimento. Estava tão...

Venha comigo para casa. disse Ele levantando da cadeira. Me conte mais sobre o que aconteceu no caminho. — Seus olhos eram duas esferas gigantescas que a fitavam em uma intensidade perigosa. Suas íris endurecidas e profundas, que pareciam arrasta-la para a escuridão de sua alma. Um reflexo do próprio abismo humano refletido pelos olhos de alguém que também perderá tudo. Ele ergueu a mão em sua direção. Me conte tudo.

Ela acenou com a cabeça e segurou sua mão.

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Você já caminhou devagar pela praia, entrando no mar salgado, sentindo suas ondas batendo sobre o corpo. Conforme os passos, cada vez mais difíceis de se darem, você luta com a vontade de se afogar. Com medo do ato da água entrando em seu pulmão, desejando ser rápido a perda da consciência para não sofrer tanto?

Já fechou os olhos, deitado no banco de seu carro. As janelas fechadas, o motor acelerando, a mangueira conectada de seu escapamento para dentro de seu carro. Os membros ficando dormentes, a mente anuviada, o pulmão queimando de dor, clamando por ar puro. Enquanto você apenas mantém seu transe ouvindo a rádio que toca Phil Collins de madrugada, desejando que a noite acabe ‘cos you can’t wait forever?

Ou senão já encarou a bulimia e a anorexia como uma forma de lei, indo dormir noites sem comer, vomitando aquele prato de comida deliciosa e cara, pois você não merece tal alimento? Se privando de tomar água até sua urina ficar avermelhada e você ter cólicas renais fortíssimas de não ter urinado, a ponto de forçar a urina voltar aos seus rins e causar uma infecção generalizada?

Já tentou mutilar sua carne aos poucos, arrebentando os músculos, a pouca gordura em seus braços e coxas cadavéricas, até expor seus ossos esbranquiçados. Enquanto torce para aquele corte deixar uma enorme cicatriz para lembrar-lhe de seu sofrimento, ou acertar uma artéria que queime como as chamas do inferno e lhe arraste para lá o quanto antes?

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Ela olhava para Ele com medo. Já fazia alguns dias que estava naquele porão, presa por uma gargantilha acorrentada. Ele vinha constantemente conversar com ela, as vezes dar-lhe comida, outras trazia água, se estivesse com bom humor, as vezes trazia salgadinhos e refrigerantes. Era gentil em grande parte do tempo, isso quando não descia para tortura-la. Ele era uma pessoa que sentava em sua frente e ouvia. Seus gritos, enquanto a eletrocutava com cabos de aço ligadas a seus mamilos. Ou quando a cortava fundo com uma faca de cozinha cega. Seus lamentos, seus clamores, Ele ouvia todos eles e por debaixo da máscara de um homem insano, deixava escapar lágrimas junto ao sofrimento inenarrável de Clarice.

Ele torturava, com a mesma diligência que cuidava dos ferimentos que causava na mulher. Para queimaduras, trazia pomadas. Para cortes, anti-séptico, agulha e linha. Para contusões que causava em espancamentos, trazia gelo e fazia massagens para diminuir o edema da região. Clarice gritava com ele, xingava-o, furiosa com seus atos. Porém Ele pegava seu banco, sentava em sua frente e olhando fixo para a mulher, apenas ouvia. E lembrava-se de tudo.

Todos os dias do calendário, Ele visitava-a. Clarice aquele momento já havia perdido uma medida do tempo que perdera naquele porão. Ele apareceu novamente trazendo uma caixa de papelão e colocou-a em cima de seu banquinho. Sem dizer nada, começou a tirar folhas que pareciam impressões fotográficas e retirando um martelo e uma caixa de pregos, começou a pregar as imagens em um pedaço de madeira compensada que estava escorada na parede.

A vida é nosso bem mais valioso. E mesmo assim, desperdiçamo-na como um bem não renovável. Vivemos todos os malditos dias atrás de uma só coisa. Sobreviver mais um dia. Seja na miséria, na riqueza, na saúde ou na doença. Vivemos eternamente em uma luta para continuar vivos. Ele virou o rosto para Clarice, seus olhos brilhavam sob a iluminação amarela de forma doentia. Mas pessoas como nós nos questionamos. Isso realmente faz sentido? Ele levantou o martelo até a têmpora e fez um gesto de tiro na cabeça. Sabemos que não. É sofremos com isso. Sofremos com o fato de saber. De saber que a única coisa certa é que iremos morrer um dia. Então, porquê não encurtar esse sofrimento e acabar com isso?

Clarice ficou quieta, enquanto Ele puxava as correntes presas a sua gargantilha por duas correias, forçando suas pernas fracas e mutiladas a segurarem o peso do corpo desnutrida e surrado. Ela gritou, um som rouco e desafinado conforme os pontos de suas coxas começavam a abrir, supurando um sangue escuro misturando ao que já estava coagulado ao longo da perna.

Ouça o som. Esse som é o som da angústia. Nascemos com ela, a nutrimos todo o santo dia. E agora você sente seu caráter severo eclodindo de sua pupa. Sente seus tendões esticando, seus músculos queimarem, a chaga se perpetuando em sua mente. Você clamava por perdão, clamava por vingança, punição. Agora é somente escuridão. Um casco vazio assim que a angústia tomou conta de ti. Ele aproximou-se da mulher e deu um beijo em sua bochecha. Está vendo aquela parede? Consegue enxergar as fotos?

Fotos que dividiam um mural, de um homem de meia idade sorridente, tomando uma cerveja rodeado de pessoas. Um homem na praia, abraçado a uma mulher loira. Ambos na flor da idade, no auge de seus corpos. Desfrutando do que seria um amor correspondido. Nas outras fotos. O mesmo homem sufocado com uma gravata amarrada no pescoço, amarrado no box do banheiro.

Outra fotos, todas elas seguindo o mesmo padrão, casais felizes e fotos dos homens suicidas. Afogamento na banheira após tomar relaxantes musculares. Eletrocussão após invadir a rede de abastecimento de energia e abraçar um de seus pilares de alimentação. Auto-imolação com querosene. Tiros na cabeça. Cortes profundos em artérias. Afogamentos. E uma última mostrava um homem feliz abraçado à Clarice. O mesmo homem que estava destroçado na trilha de um trem. O mesmo homem que Clarice se culpava por ter morrido.

Martírio era a palavra. Uma função auto-punitiva de sua própria existência. Uma existência flagelada pela morte de seu amado. Suicídio era uma forma crua de amor.

Vê algo em comum? Encontra um padrão? Ele segurou o queixo de Clarice, forçando seu beiço fazer um biquinho. Fitou diretamente seus olhos, aqueles gibosos e brilhantes olhos profundos, que pareciam sugá-la para um abismo frio e bizarro. Todos esses homens sofreram do mesmo mal. Foram traídos de suas próprias convicções, seus paradigmas quebrados com o escapar da outra pessoa. O homem é uma coisa primitiva, vive em função de suas bolas e tendem a entrar em conflitos perpétuos entre si mesmo. Ver algo, é cobiçá-lo. Conquistá-lo. Deturpá-lo. O Homem pegou a mão de Clarice e acariciou-a, como um dono acaricia seu animal de estimação e dando, sua feição transformou-se em algo mais repulsivo que a própria aparência e atravessou um prego no dorso da mão de Clarice, que tremeu e rangeu os dentes segurando a urgência da dor e a necessidade de gritar.

Um homem acredita na existência da propriedade, pois são seres simples. E ao ver seus valores destroçados, logo seus alicerces caem. E assim ele se vê desolado. Homens possuem um abismo que lidam cada dia. Só basta um incentivo para que eles saltem em direção à perdição. E o incentivo de Douglas foi você, Clarice. Você foi a sugestão ao salto. Ele largou a mulher e afrouxou a sua gargantilha pela primeira vez. Foi até o outro lado do porão e puxou uma cadeira, pegou a pequena televisão que estava escorada na parede, logo abaixo do que um dia fora uma pia. E ligou-a na tomada.

Espero que ache interessante o que irei te mostrar. Ele tirou uma fita VHS e colocou na ranhura que havia abaixo da tela da Mitsubishi 94'. Uma imagem tremeluziu, mostrando o que deveria ser a silhueta de um homem entre sinal e ruído e cores RGB distorcidas. Uma voz tristonha e familiar soou das caixas de som estéreo.

Clarie... Eu te odeio... você me destruiu...

Era Douglas, amarrado a cordas como um boneco vodu, embora a imagem fosse horrível, podia ver claramente a silhueta e o rosto deteriorado de seu ex-noivo. No mesmo lugar que ela estava. Clarice gritou, rouca, forçando a garganta ao máximo que podia, sentindo as cordas vocais fraquejando. Um grito profundo e angustiante. Finalmente havia chegado ao fundo do poço, suas pernas cederam, caiu de joelhos e seu queixo encostou no peito ossudo. Derrota.

Pessoas machucadas, tendem a encontrar outras. A serem guiadas por outras que sofreram abusos. É um ciclo, que abre e se fecha trazendo mais danos e mais danos. Nunca achou estranho que minhas palavras a te alcançassem tão facilmente? É assim que eu escolho as pessoas, na verdade elas que me escolhem. Somos todos machucados, fisicamente, psicologicamente, espiritualmente. Não existe uma parte de nós que não foi abusada nessa vida. Que não foi violentada pela próxima existência. Este é o caminho do Suicídio, Clarice. Ele se aproximou e deu um soco em seu rosto. O corpo da mulher despencou e seu rosto bateu contra o chão sujo em um baque surdo. Você finalmente cede ao existencialismo flagelante, deixa-se sugar, ser engolido pelo mais profundo desprezo a vida. Sua existência resume-se ao fator nulo. Você finalmente entende que a vida não possui sentido, pois você está danificada. Além de qualquer terapia, qualquer felicidade. Você somente deseja a morte. Isso é a arte do Suicídio, este é o caminho. Você é o Alfa e eu o caminho ao Ômega. Ele agachou-se ao lado de Clarice e deixou um revólver ao seu lado. Você sabe o que fazer. Não será necessário explicar.

Clarice não se mexeu, seus olhos sem brilho fitavam o nada, sua mente um turbilhão negro de comandos e perjúrios. Ele levantou-se e lentamente caminhou em direção a seu banquinho, tirou um celular antigo do bolso e começou a filmar. Ele era um voyeur e não conseguiria deixar esse desespero passar sem fazer o upload no Das Seil.

A mulher levantou o dorso do chão frio e sujo e fitou a arma em sua frente, pegou-a com a mão boa, sentindo o peso real do revólver, trêmula encostou o cano em sua têmpora. Ele somente observava, com um sorriso no rosto. "Faça logo", seus olhos profundos diziam. "Faça!"

Clarice fechou os olhos e soltou um grunhido inumano, uma mistura de angústia, dor e desespero. E puxou o gatilho.

Bang!

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Ela subia as escadas com dificuldade, não pela dor, pois Ela não sentia mais, mas pela exaustão de seu corpo. Agarrava-se no corrimão com o restante de força que restava em seu corpo.

Seu desejo era ficar ali mesmo, deitada, até a morte chegar. Mas algo a impelia para frente, fazia seu corpo vazio mover. Abriu a porta que levava a sala de jantar, o cheiro de lavanda e produtos de limpeza baratos veio ao seu nariz. Se fosse há um tempo atrás teria espirrado e torcido o nariz. Mas agora pouco se importava, Ela era vazia agora.

Arrastou os pés pelo chão de tacos de madeira até a cozinha, passando pelo corredor de estantes onde eram expostas porcelanas chinesas. Em um toque especialmente feminino. Fotos de um casal se espalhavam por mesinhas e quadros suspensos nas paredes.

Danificados, machucados. Ela entendia muito bem este ponto agora. Ela pegou uma das molduras e retirou a foto preto e branco de lá, e rasgou-a lentamente. O som do papel ecoou pelo corredor silencioso, mas Ela não sentiu nada. Nietzsche um dia disse que ao se encarar o abismo pro muito tempo. O abismo olharia para você.

Do nada ao nada. Do carbono ao carbono. Ela era uma casca vazia. Ela era um ser sem nome, sem propósito, sem destino. Era como o Ele havia lhe dito, o desespero, o ódio, a tortura tudo isso iria fazer a pupa amadurecer e tornar-se uma coisa maior. Transcender os limites da carne. Metamorfosear-se em um monstro além-Kafikiano.

Ela entendia seu pensamento, entendia o que passava em sua cabeça. E não era uma síndrome de Estocolmo. Era a profunda compreensão do homem que a destruíra e abrira os olhos para o mal e o lixo da sociedade.

Suicídio era uma forma de amor próprio. Um amor divino. Uma forma máxima do êxtase. Schadenfreude.

Caminhou pela cozinha e viu o notebook aberto. Sem proteção, seus dados todos ali. Ela sorriu, pegou o computador e arremessou-o no chão. A tela despedaçou e teclas saltaram para o alto como pipocas estourando. Era o fim do poeta. Fim dos danos. Era fim de uma lenda e o legado de outra. Abriu a porta da cozinha que levava ao quintal e sentiu a chuva cair sobre o corpo torturado. E desatou a chorar. Caiu de joelhos no chão e deixou escapar um choro profundo, angustiante.

E deixou a água da chuva e suas lágrimas lavarem o corpo imundo.

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Dor e escuridão. Uma dor cegante e incessante, ficou pensando se o outro mundo seria assim. Um tormento eterno na escuridão, e por um breve momento acho que não seria uma má idéia. Jensen abriu os olhos e respirou fundo, engolindo o máximo de ar possível em seus pulmões. Seus olhos esbugalharam e uma saliva espumosa escorreu no canto esquerdo da boca. Um suor frio escorria em sua testa e seu corpo estava coberto de sangue.

A vadia havia atirado nele.

Ele havia planejado tudo, desde o começo até o final, ele queria dar um final trágico ao tema. Duas balas em um revolver, ela iria se matar e ele depois terminaria sua opus com seu próprio suicídio. Uma paródia macabra de Romeu e Julieta. Uma visão de Schopenhauer para o aqueles que se deleitam do sofrimento alheio.

Era para tudo ter dado certo, exceto que ele não imaginava que a vadia teria realmente a coragem de dar os tiros nele. Jensen, tentou levantar o dorso, que queimava com o impacto da bala no colete que vestia abaixo da camisa. O seu braço esquerdo estava ensopado de sangue, o segundo tiro havia entrado em seu antebraço e podia sentir o osso quebrado mexendo entre os músculos.

Ele respirou fundo sentindo o braço latejando e tentou colocar-se de pé, as pernas bambeavam e seus joelhos flexionavam sem forças. Escorado na parede pôs a rir, ria alto e descontrolado. Não fazia idéia de quanto tempo estava ali, mas estava vivo. Vivo. Ele havia atravessado o vale da morte e agora estava em pé. E todos o assistiam in-Stream na internet. Arrastou os pés, num caminhar desengonçado até o outro lado do porão. A bala havia machucado seu abdome de maneira que suas fezes agora escorriam pelas calças e enchiam sua cueca.

Jensen renascia das cinzas coberto de sangue e merda. Apertou o interruptor e olhou fixo para o olho elétrico e rígido da câmera e sorriu.

Eu caminhei pelos vales temerosos, morri e ressuscitei. Fiz da minha arte um caminho a ser trilhado. Começou a rir como um louco, sua risada ecoando no porão como mil pessoas. Presenciem vocês o renascimento de um Deus. Daquele que transcendeu a morte, a angústia e o suicídio.

Das Seil, seu Messias renasceu…

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“Você tenta de todas as formas de se matar, mas algo lhe prende a esse mundo.

Alguma força de vontade, algum estímulo, alguma raison de vivre.

Você percebe que algo a mais nesse plano terreno lhe dá forças pra continuar.

Sua arma emperra. O gás de sua casa acaba. A faca machuca demais.

Você desiste, mas lá no fundo a vontade de morrer ainda persiste.

Respire fundo. Sorria. Trepe. Viva.

Viva o máximo que puder, cada instante, cada segundo.

Eu estarei do seu lado. Eu te guiarei.

E quando for sua hora.

Eu cortarei sua corda.”—-------------- Jensen, Der Saite Schneider.



—------------- Arth --- 05/2015



Você chegou ao fim do livro. Parabéns!