Scars Of Love
37 Capítulo 36
Notas iniciais
(Isabella)
Eu e Petrus estivemos a conversar até tarde e ele acabou por adormecer na cadeira que estava junto à janela. Quando acordei ele ainda dormia.
“Como ele está diferente…” – pensei.
Sentei-me na beira da cama a observa-lo. Em criança e mesmo naquela época, ele sempre fora mais alto que eu. A sua voz tinha ficado mais grave, muito mais do que eu esperava. A cor da sua pele sempre foi de um moreno um pouco invulgar. Os seus pequenos lábios carnudos e vermelhos pouco tinham mudado. Embora o rosto se tivesse alongado e ficado com traços faciais de um homem feito, para mim, ele continuava na mesma. O que mais mudou nele foi a sua personalidade.
E o meu momento de observação tinha acabado. Ele começou a acordar. Apanhou-me a olhar para ele…
— Que se passa Isabella? – perguntou, ainda meio a dormir.
Corei.
— Hum… Nada, nada… – disse meio envergonhada. – Deves estar todo partido, ficaste aí a dormir.
— Por acaso acho que não dormia tão bem há algum tempo. – disse com um sorriso estampado no rosto. Fiquei confusa. Para além de ele ser bastante alto e o comprimento de uma cama ser tanto quanto a sua altura, não devia ser fácil para ele dormir todo encolhido. – Não estás a perceber, pois não? – sacudi a cabeça negativamente. – Mesmo não estando a dormir ao teu lado, tenho-te perto de mim e só por isso, acho que durmo melhor. – continuava a sorrir.
Fiquei surpresa. Não estava à espera que ele disse algo daquele género… Há bastante tempo que Valéria não aparecia e talvez ele estivesse a tentar dar-me mais algumas boas recordações caso algo acontecesse.
— Tu não mudaste nada… – sussurrei e sorri.
— Disseste alguma coisa?
Levantei-me num ápice da cama para disfarçar.
— Não, não disse nada.
Fui vestir-me e desci para ajudar. O dia foi calmo, houve pouca agitação. À noite para descontrairmos, decidimos ir para o jardim jogar cartas. Subi para procurar os baralhos de cartas que tinha guardados. Petrus estava a procurar juntamente comigo quando ouvimos alguma barafunda no jardim, mas pensamos que seriam os restantes a brincar. Ao chegarmos à entrada do jardim, os nossos amigos estavam parados, tipo estátuas, até pensei que eles estavam a jogar algum tipo de ludo ou algo parecido. Eu e Petrus ficamos ambos estupefactos a olhar um para o outro. Corri para junto deles, mas uma barreira repeliu-me. Petrus correu para junto de mim.
— Será a Valéria? – perguntou ele.
— Penso que não. Ela não tem poder para tal.
— Tens razão, Anciã. – à nossa frente apareceu uma bela mulher com umas vestes brancas. As suas vestes flutuavam acompanhando a brisa fresca da noite. Os seus longos cabelos castanhos avelã cavalgavam ao bom sabor da brisa. A sua expressão facial mostrava ambição de atacar. Os seus pequenos olhos azuis semicerrados fixavam um alvo. Os nossos olhos. Lembrei-me de repente de Medusa. Será que ela tinha um poder parecido com o dela? – Vejo que estás intrigada, Anciã. Bem, da vossa parte não preciso de apresentações, mas eu sou Agnes, uma das Consortes de Luther.
Consorte?! Desde quando um anjo poderia ter consortes? E se aquela era só uma delas isso queria dizer que ele ainda tinha mais? Credo…
— Não era preciso apresentar-se. Eu não preciso de conhecer intimamente os meus inimigos.
— E porque me consideras uma inimiga?
— E porque não serias, já que deixaste os meus amigos naquele estado…? – disse, apontando para eles.
— Ah, isso é só distração… – disse com um sorriso malévolo na sua face.
“Mais uma para eu aturar? Já não me chega a Valéria ainda tenho que aturar mais esta…” – pensei.
— Ninguém usa os meus amigos como distração! – estava a zangar-me seriamente.
Só por sorte, não tinha deixado o Punhal no quarto, cada vez mais me capacitava que tinha que andar sempre com ele, as coisas podiam acontecer a qualquer momento, aliás, o que estávamos a viver era prova disso.
— Oh que fofa… – sarcasmo como eu te odeio. – Bem, passemos à ação, não é verdade?
Pensei melhor e retirei a minha expressão enfurecida, mostrando uma completamente calma, mudando a minha expressão facial e a posição do meu corpo. “Elementos,” – chamei em pensamento. – “façam uma barreira por favor.”
A barreira, embora invisível, formou-se à volta de Petrus e de mim. Agnes não deu por nada. Se ela tinha o poder que eu pensava que tinha não podia passar pela barreira ou pelo menos era o que eu pensava. Agnes deu um passo e fixou o seu olhar no de Petrus. Sussurrou algo. Só o ouvi a sufocar e a parar, ficando tal como os outros ao redor da mesa. Tinha de arranjar uma forma de fortalecer a minha barreira, mas agora tinha de me preocupar em despachar aquela besta. Num dos nossos treinos, Kiba disse-me:
“— Nem sempre podes encarar o teu inimigo.”
Aquelas palavras agora faziam o máximo sentido. Ele explicou-me que existem outras partes corporais que podem ser feridas gravemente e aí, deixar o inimigo bastante ferido, senão, morto. Parece que a sua sabedoria juntamente com os exaustivos treinos iam começar a dar frutos. As coisas pareciam fáceis sendo assim ditas, mas fazê-las… Provavelmente seria muito mais fácil manejar a espada, bem, eu ainda não sabia a sua forma, o seu tamanho, o seu peso, teria de treinar com ela consoante isso. Naquele dia tinha vestido uma saia, o que tinha dado muito jeito. Retirei o Punhal do coldre preso à minha coxa direita. Podia dividi-lo, ferindo-a em várias partes, mas primeiro queria ver a sua reação. Reparei que o Punhal também criou uma segunda barreira em torno de mim. Senti algo a repelir parte da minha barreira que protegia Petrus. Agnes fixava o meu olhar. Os seus olhos ficaram completamente negros. Sussurrou outra vez, mas ainda não tinha conseguido perceber o que era, tinha de haver algo que combatesse o que ela dizia. Algo negro embateu na minha barreira. Agora que sabia que a minha defesa era suficientemente forte, poderia mata-la, olhando-a nos olhos, só para ela saber em que mãos morreu…
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