Scars Of Love
36 Capítulo 35
Notas iniciais
(Isabella)
Tinha passado um mês desde que Petrus tinha regressado a casa. Depois de falar várias vezes com a minha mãe, esta mostrou-se bastante preocupada com ele, apesar de tudo o que se tinha passado. Depois de um dia de trabalho e um treino exaustivo ao final da tarde, fui para o meu quarto. Precisava de silêncio. As coisas em casa andavam agitadas. Um casal queria organizar o copo de água no terreno que se encontrava nas traseiras da e não tivemos como recusar, aliás, era sempre um dinheiro a mais para as despesas. Tomei um longo banho. Precisava de tirar umas férias quando aquilo tudo acabasse. Coloquei a minha Playlist de músicas calmas dos U2 a tocar no leitor de CD’s e sentei-me na grande cadeira azul-marinho que se encontrava perto da janela. Estava quase a adormecer quando “Sometimes you can’t make it on your own” começa a tocar e desperta-me completamente. Aquela música trazia-me demasiadas recordações…
— Valéria mexe-te, vamos chegar atrasadas!” – chamei.
— Estou a ir, estou a ir. – disse, depois de dar um último beijo ao seu namorado.
— Posso saber o porquê de chegarem atrasadas? – bem, a professora não estava para brincadeiras.
— Desculpe professora, mas estivemos a tratar de uns assuntos na secretaria. – disse, antes que Valéria fizesse borrada.
— Sentem-se rapidamente e abram o vosso livro na página 66. A história fala-nos de duas melhores amigas que gostam do mesmo rapaz. Primeiro, quero que leiam em silêncio e de seguida, vou escolher alguns de vocês para encarnar as personagens.
Aquela professora de Teatro era sempre tão exigente. Nem de propósito, a professora escolheu-nos a mim e a Valéria para representar as melhores amigas. Eu representei aquela que tinha ficado sozinha, a sofrer, para que a sua amiga ficasse feliz com o rapaz que, infelizmente, ambas amavam. Eu interpretava aquilo como um mero capricho da sua amiga, querendo sempre ter o que era da outra. Aliás, sempre foi isso que eu pensei de Valéria, mesmo nunca lhe tendo dito.
— Isabella parecia mesmo que estavas zangada comigo e não com a personagem que eu estava a interpretar…
Não lhe respondi.
— Tu ainda não te esqueces-te do que se passou há quatro anos atrás, pois não? – silêncio. – Eu não tinha a maturidade que tenho agora, eu nunca devia ter namorado com o Petrus… – não tinha maturidade?! Eu com a idade dela já compreendia muitos assuntos de adultos. Não disse nada. Despedi-me e fui embora. – Isabella! Isabella! Espera! Então?
— Que queres?!
— Porque é que me estás a falar assim?
Explodi!
— Porque estou farta de fazer o papel de amiga mansa, que diz que “sim” a tudo o que tu dizes e pedes, que sofre para te ver feliz, cansei!
A sua expressão facial mostrava surpresa.
— Ai é? Pois fica sabendo que eu só te tenho aturado estes anos todos porque me ajudas sempre nos estudos e és tu quem me safa sempre das coisas em que me meto! Não tens estilo algum, aliás, até tenho vergonha de andar contigo. Mais uma coisa: eu namorei com o Petrus só para te ver sofrer…” – disse estas palavras com um tom malicioso na sua voz.
Eu tinha um monstro como melhor amiga. O que eu lhe tinha dito não tinha sido simpático, mas não era nada que não se resolvesse com uma conversa. Esta foi a nossa última conversa, o nosso último encontro. As nossas vidas voltaram a cruzar-se quando a minha mudou. Podem pensar que foi uma simples discussão de adolescentes, mas a ligação tão forte que eu pensei que tínhamos afinal era uma fantasia, uma simples farsa… Estava tão distraída a relembrar aquelas cenas que nem ouvi Petrus a entrar no meu quarto.
— Isabella está tudo bem? – perguntou, intrigado
— Hum… Sim…
— Não me pareces bem, mas também não te vou fazer falar sobre o que te magoa.
— Como é que sabes que me magoa?
— Os anos há que eu te conheço já não se contam pelos dedos sabes?
Sorri.
— É verdade e já se passou tanta coisa entre nós… Petrus posso pedir-te para sair? Queria ficar mais um tempo sozinha. Eu depois desço.
— Claro. – deu-me um pequeno beijo na testa e saiu.
É verdade, relembrar aquilo magoava e muito. Mas quando me confrontava com Valéria ela nunca me parecia feliz com a sua vingança, parecia estar a ser forçada. Talvez estivesse a interpreta-la mal, mas e se eu pudesse trazê-la para o meu lado? Será que eu podia torna-la numa Blue Voice? No meu próximo encontro com a minha Rainha precisava esclarecer este assunto. Acabei por não descer, adormeci. Esperava que esta paz armada durasse por um pouco mais de tempo, embora não estivesse muito confiante…
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