Scars Of Life
1 UM - O verdadeiro sabor do sofrimento
Notas iniciais
Prólogo
Era uma tarde, um sol escaldante tomava conta dos céus de Arizona, Mellanie havia acabado de completar dez invernos, e agora ela corria, até gostaria de parar, tomar uma água para repor um pouco sua energia perdida, ofegava, prestes a se render e atirar-se no chão, mas apesar disso, ainda conseguia manter o sorriso inocente em seu rosto, os olhos brilhavam do prazer que aquilo a fornecia, seus cabelos longos e negros esvoaçavam na leve brisa que a correria lhe proporcionava, mas mesmo com a brisa o calor ainda era insuportável, fazendo gotas de suor escorrerem por seu rosto. Parou um pouco, ofegante, olhou para trás como se estivesse esperando alguém, sem diminuir ou desfazer o sorriso.
"Peguei você!" um garoto gritou, o mesmo saltando para cima de Mellanie, derrubando-a no chão.
Um garoto comum, Nate, embora fosse um pouco mais alto do que ela possuía a mesma idade, o sorriso era infantil, mas também um pouco irônico, os olhos eram azuis como o céu naquele dia, os lábios corados semiabertos, também ofegava, suas mãos seguravam as da menina para trás. Ela riu de leve.
"Droga... você é muito rápido, Nate!" ela exclamou, parecendo estar um pouco ofendida, embora fosse tudo uma simulação divertida como sempre, afinal ela já tinha ciência de que Nate era o mais rápido, cruzou seus braços e seus lábios formaram um beicinho, depois corou um pouco antes de continuar a falar. "Você... você é incrível."
Ele levantou as sobrancelhas, seus lábios formaram uma linha reta e ele forçou seus braços e joelhos para ficar de pé novamente, quando o fez, estendeu as mãos para ela, com a mesma expressão, Mellanie segurou as mãos dele e impulsionou seu corpo para cima, agora os dois estavam de pé, frente a frente, ele não soltou as mãos dela, apertando-as um pouco e abaixando a cabeça, ao sentir que havia algo errado, ela franziu as sobrancelhas com uma expressão de preocupação, então ele começou a falar baixo.
"Eu vou ter que me mudar para aquela cidade esquisita mesmo... ouvi meus pais conversando hoje de manhã" ele manteve o tom baixo e melancólico durante a frase toda, sua cabeça ainda estava abaixada.Ela ficou sem palavras por um momento, retribuiu o aperto de mão forte e engoliu em seco, ele era seu único amigo, o único que não a menosprezava como seus colegas de classe, Mellanie queria chorar desesperadamente e ajoelhar-se, implorando para que ele ficasse, mas já tinha maturidade o bastante para entender que não era uma escolha dele, fechou os olhos com força, reprimindo as lágrimas.
"Não... então eu vou junto com você!" levantou a cabeça, olhando-o, os olhos castanhos refletiam rancor, tristeza, insegurança ao mesmo tempo.
"Eles não nos entendem, Mellanie! Não importa o quanto nós imploramos, gritamos, choramos, nunca vão fazer nossa vontade... eu queria que nós fóssemos adultos... seria tudo diferente" ele suspirou.
"Nate... você é o meu único e melhor amigo... eu não... quero perder você... nunca" ao pronunciar as palavras, ela não aguentou e desabou em lágrimas, abraçando-o.
"Quando eu voltar... nós já vamos ser bem maiores e eu vou mudar tudo isso! Eu prometo, Mell." ele a abraçou forte, o último abraço, ela soluçava de tanto chorar, ele fazia de tudo para evitar as lágrimas pois, segundo ele, garotos não choravam. Essa foi a primeira dor de Mellanie, ela sentia como se uma adaga tivesse atravessado seu peito, como se tivessem arrancado seu coração e dilacerado o mesmo, era como se Nate estivesse morrendo, como se ele estivesse desaparecendo na escuridão e ela não conseguia mover as próprias pernas para salvá-lo, como se tudo o que eles haviam passado juntos, as brincadeiras, os sorrisos, as vitórias dele que irritavam Mellanie ao extremo, tivessem sido enterrados... á sete palmos do chão."Eu... tenho que ir." ele pronunciou as palavras com um pouco de dificuldade, quase deixando para lá aquela bobagem sobre lágrimas e garotos, as lágrimas em seus olhos estavam prestes a transbordar, isso só aumentou a dor de Mellanie, ele se afastou um pouco.
"Não." ela sussurrou tão baixo que se ele estivesse há um passo mais longe não escutaria.
Ele abaixou a cabeça para que ela não notasse as lágrimas em seus olhos e deu dois passos a mais para trás, virando-se em seguida e correndo para longe, em pouco tempo desaparecendo do campo de visão de Mellanie, tudo o que ela sentia agora era o vazio que ele havia deixado em seu coração. Ela se atirou de joelhos no chão, chorando excessivamente, as mãos estavam sobre seu rosto, tentando evitar aquele choro, mas, por mais que ela tentasse pensar em coisas positivas, para esquecer o que havia acontecido ali agora, não adiantava, todos os seus momentos mais felizes haviam sido com Nate, e se ela se lembrasse dele, não adiantaria muito.
"Mellanie? O que houve? Vamos para casa agora!" outra voz apareceu atrás dela, um pouco assustada, virou-se, era sua mãe. As duas se pareciam muito, Mellanie era como uma cópia reduzida de sua mãe, os olhos castanhos escuros intensos que, muitas vezes, eram confundidos com pretos, as madeixas negras, compridas e onduladas, a pele incrivelmente branca. A mulher estendeu a mão para Mellanie, que corou um pouco, como sempre, por ser encontrada daquela maneira mesmo por sua mãe, tentou parar de chorar e caminhar normalmente para casa, porém, ao invés de apenas dar a mão para sua mãe, ela se atirou nela, abraçando-a forte e tentando explicar o que havia ocorrido, entre o choro.
"Ele... o Nate... mamãe... o Nate..." tentava explicar, sem sucesso.Não bastou mais palavras para ela entender o que Mellanie estava tentando dizer, afinal, ela já sabia de tudo, não havia contado antes á sua filha pois, conhecendo como ela era emocional, não queria vê-la chorar, mas agora ela se arrependia, talvez ela deveria ter o feito antes, teria sido um pouco menos doloroso. Ela retribuiu o abraço, afastando-se após um certo tempo e segurando-a pela mão, levando-a para casa. A menina estava um pouco mais aliviada agora com a companhia de sua mãe, ela costumava ter o poder de fazer isso, acalmá-la. Por isso, Nate e sua mãe eram as únicas pessoas que importavam neste mundo para ela. Pelo menos, por enquanto.
UM - Seis anos exatos haviam se passado do ocorrido, neste momento Mellanie estava mais uma vez diante da perda de alguém muito importante. Desta vez era sua mãe. Por trás de uma multidão de amigos e parentes, havia uma única garota solitária, trajava um vestido preto de mangas longas de renda simbolizando o luto por sua mãe, sapatilhas da mesma cor, os cabelos estavam presos para trás com uma fita em um rabo de cavalo frouxo, algumas mechas haviam escapado e esvoaçavam em seu rosto, em suas mãos estava uma rosa vermelha, destinada á sua mãe. Embora a dor que havia sentido há alguns anos atrás tivesse voltado ela não chorava, não conseguia chorar, na verdade eram lágrimas silenciosas, por dentro ela estava gritando. O tempo estava instável, nuvens de chuva dançavam no céu cinzento, chuviscava, tudo indicava que mais tarde teria uma tempestade. Mellanie sentou-se em um túmulo qualquer, encolhendo suas pernas enquanto encarava ironicamente um padre que pronunciava algumas palavras religiosas diante daquele funeral, uma garota jovem de cabelos alaranjados e a pele levemente bronzeada aproximou-se de Mellanie, Liesel, quatorze invernos, sentando-se ao seu lado, olhando-a com os grandes olhos verdes-água, que eram o que mais se destacavam nela.
"Hã... Mellanie... eu lamento muito por..." ela começou a falar delicadamente.
"Cala a sua boca!" Mellanie disparou antes que ela terminasse de falar, fuzilando-a com o olhar.
"Desculpe... eu... eu... só queria te dizer que..." a garota insistiu.
"Suma da minha frente, Liesel. Nada o que você disser vai fazer ela voltar, não é? Portanto, enfie as suas lamentações no..." antes que ela pudesse terminar de falar, notou que as pessoas já estavam se afastando e dois homens atiravam aquela terra avermelhada no caixão de sua mãe, que já estava dentro da cova, encarou Liesel que, a propósito, era sua prima e se levantou.
"Parem!" exclamou, parando em frente á cova, seu vestido e seus cabelos esvoaçavam com o vento que havia aumentado, os homens pararam de imediato.
"Senhorita, desculpe, mas nós temos que..." um dos coveiros começou a falar, Mellanie, com seu espírito estressado, também não o deixou terminar, atirando-se de joelhos no chão.
"Ela é minha mãe." embora estivesse com vontade de chutar aqueles caras dali, fechou os olhos com força, pronunciando as palavras tranquilamente. "Por favor, me deixem dar o último adeus á ela." abriu seus olhos.
Os coveiros se entreolharam, eles não encontraram um problema em deixar aquela "pobre garota" despedir-se de sua mãe por apenas alguns segundos, o que segurava a pá, fincou-a na terra e foi se afastando, o outro o seguiu."Não demore" disse um deles, enquanto se afastavam.
Ela apoiou as mãos no chão, sentindo aquela terra fria, flexionou seus dedos, agarrando-a. A flor ainda estava em sua mão direita, suspirou, os olhos se fecharam automaticamente mais uma vez, aquela imagem terrível veio á sua cabeça, o velório, sua mãe tão jovem que ás vezes era até confundida com sua irmã, deitada em um caixão com os olhos fechados como se estivesse dormindo, dormindo... eternamente, os lábios pálidos e a pele fria, as falsas lágrimas das pessoas em volta, isso era o que mais matava Mellanie por dentro, as falsas lágrimas, sua mãe sempre fora sozinha, ninguém nunca se preocupava com ela, mas tinham que fazer esta cena insuportável. Naquele momento várias coisas passavam-se por sua cabeça, principalmente o que ela faria de sua vida, como viveria, se ao menos tivesse seu pai não estaria tão confusa assim.
Primeira pequena observação: Mellanie não conhecia seu pai, separou-se de sua mãe quando ainda era um bebê, assim desaparecendo, sem mandar notícias.
"Mellanie, apresse-se." disse sua prima Liesel, que estava esperando-a para ir embora, já que a garota orfã dormiria essa noite na casa de sua tia até resolver o que fariam. Sem mais delongas, a garota se levantou, olhando atentamente para o caixão no fundo da cova, a flor deslizou de sua mão, assim caindo sobre ele, então ela fechou os olhos, sentindo a chuva se aumentando e caindo sobre ela, um trovão alto fez Liesel sobressaltar e levantar-se de onde estava sentada, enquanto Mellanie não parecia se importar.
"Fique bem, mamãe... eu sempre vou amar você." ela fechou os olhos ao pronunciar as palavras, depois virou-se, abrindo-os novamente e passando direto por sua prima, franzindo as sobrancelhas, Liesel correu atrás dela de imediato, ficando ao seu lado. As duas caminharam em silêncio, a única coisa que podiam ouvir era o som da chuva, agora excessiva, caindo sobre todo aquele cenário melancolico, segundo Liesel, um pouco assustador, ao contrário de Mellanie, que se sentia á vontade, sentia-se em paz, por incrível que poderia parecer esse era o seu lugar favorito... ela gostava de anormalidade, gostava da noite, havia aprendido a viver na escuridão, afinal, quando Nate se foi, as cores se apagaram. Também escutavam seus passos nas folhas de carvalho secas espalhadas pelo chão. A garota dos olhos verdes mais baixa pigarreou um pouco, cruzando os braços tentando se proteger do frio, abaixou sua cabeça.
"Posso perguntar algo?" falou baixo, lançando seu olhar sério e inseguro para Mellanie, pois saberia que a resposta seria grosseira.
"Já está perguntando." Mellanie bufou, com os braços também cruzados, embora estivesse confortável com a temperatura, manteve o olhar frio e calculista, olhando para a frente.
"Por que você odeia tanto a mim?" Liesel cerrou seus punhos, fazendo um olhar triste, voltando a abaixar sua cabeça, sem parar de caminhar.Mellanie abaixou seu olhar para o chão, dando uma breve e tímida risada, mantendo um meio sorriso um tanto irônico de lado em seus lábios, parou de caminhar, virando-se para Liesel, já estavam praticamente na saída do cemitério, o sorriso dela desapareceu, franzia as sobrancelhas com um olhar preocupado, mas também parecia estar segurando o choro.
"Eu não odeio só você, odeio a sua mãe, eu odeio meu pai por não ter se dado ao trabalho de me procurar, eu odeio... odeio... odeio a v..." ela começou falando calma, mas no decorrer da frase sua expressão e sua voz foram ficando mais agressivas e antes que pudesse terminar a frase, seus olhos se fecharam automaticamente, suas pernas tremeram, ela não conseguia mais sentí-las, perdeu o equilíbrio e desmaiou nos braços de sua tão odiada prima.Enquanto estava em uma espécie de sono profundo, Mellanie conseguiu sonhar.Fazia muito tempo que não tinha esses tipos de sonhos, o cenário era tão perfeito que só poderia mesmo ser um sonho, quer dizer, perfeito para ela e sua mente sombria, estava escuro, haviam estrelas no céu e uma lua cheia, aquela brisa leve e aconchegante que ela podia sentir como se fosse real, ela estava deitada em uma grama verde, com a mesma roupa que usava no funeral de sua mãe, as mãos pousadas sobre seu abdômem, por incrível que pareça neste sonho ela estava sorrindo, mas não sorria ironicamente ou forçadamente, era um sorriso satisfeito, como se gostasse mesmo daquele momento, como se pela primeira vez ela estivesse se sentindo feliz. Virou seu rosto para o lado e seu olhar encontrou um garoto, deitado como ela, aqueles olhos azuis hipnotizantes, aquele sorriso inconfundível, era Nate, mas estava crescido, era um adolescente como ela, a época infantil havia sido passada para trás.
"Eu quero ver você feliz, você sabe disso, Mel." ele sussurrou, acariciando o rosto dela.
"Nunca vou conseguir ser feliz se você não estiver comigo" o sorriso dela se apagou, a expressão preocupada estava estampada em seu rosto agora.
"Mellanie..." ele começava a falar.
"Fale, Nate" ela sorria novamente, só por ouvir a voz dele.
"Mellanie... eu... eu estou... eu..." ele não terminava a frase.
A garota se levantou, apoiando as mãos na grama.
"Fale! Pode me falar, confie em mim!" ela segurou a mão dele, entrelaçando os dedos.
"Mellanie!" agora era a voz de uma garota, uma voz irritante comparada a voz de Nate, era mais agressiva também. "Ela não está acordando, meu Deus, o que houve?"
"Mellanie..." todas as vozes que ela conhecia estavam ecoando em sua mente agora, chamando seu nome, ela colocou as mãos sobre os ouvidos, mas aquilo nunca parava. "Mellanie! Mellanie!"
Ela abriu os olhos lentamente, despertando do sonho, viu a imagem um pouco embaçada de sua prima Liesel e sua tia Elena, trinta e cinco invernos.
"Está tudo bem?" sua tia perguntou delicadamente.
Ela franziu as sobrancelhas e se levantou imediatamente, correndo para o banheiro, empurrou a porta e trancou-a, girando a chave duas vezes para certificar-se de que ninguém entraria ali, encostou-se na porta, deslizando sua costas até sentar-se no chão, suspirou e encolheu suas pernas, assim apoiando os braços sobre seus joelhos e abaixando um pouco sua cabeça, uma lágrima escorreu de seu olho direito, borrando sua maquiagem, ela não queria chorar, não queria que as pessoas pensassem que ela era fraca, mais lágrimas começaram a escorrer e ela havia desistido, entregando-se ao choro excessivo, mas ela precisava fazer algo além disso para tentar matar essa tristeza incomum que a consumia, na verdade ela queria morrer, queria ficar junto com sua mãe. Levantou seu rosto juntamente com sua mão direita e levou a mesma até seu peito, inserindo dois dedos em seu decote e puxando um objeto cortante, uma gilete. Segurou-a com as duas mãos, passando levemente seus dedos sobre ela, o mesmo pensamento de todas as outras vezes passou por sua cabeça "quem se importa?". Em seguida ela cerrou seus punhos, apoiando-o seu braço direito em seu joelho de modo que seu pulso permanecesse virado para ela e subiu as mangas de seu vestido, sem pensar duas vezes, tomada por lágrimas, insatisfação e a súbita vontade de suicídio, passou violenta e rapidamente a parte cortante do objeto sobre seu pulso, ao lado da outra cicatriz que havia adquirido numa situação como esta.
"EU ODEIO A MERDA DESSE MUNDO!" ela gritou, socando a parede com suas duas mãos, em seguida, repetiu o que havia feito em seu pulso direito no esquerdo, quanto mais ela permanecia naquele banheiro, mais ela sangrava, mas marcas apareciam, e ela ficava cada vez mais fraca.Sua tia e sua prima ficaram preocupadas e começaram a bater na porta desesperadamente, implorando para que ela abrisse a porta, agora ela havia se cansado de torturar a si mesma, cortes tomavam conta de seus braços, suas pernas e ainda haviam alguns no pescoço, as lágrimas não paravam de escorrer, mas a dor que ela sentia por sua mãe, era muito maior do que o ardor daqueles machucados, ela apertou a lâmina em sua mão, o que fez com que alguns cortes aparecessem ali.
"Mellanie, por favor, abra essa porta! Está tudo bem?" a voz de sua tia era assustada por trás da porta.
Ela engoliu em seco, levantando-se do chão com um pouco de dificuldade e apoiando suas mãos, em seguida apoiou seu corpo na porta sem abrí-la, abaixou sua cabeça, fechando os olhos, a fraqueza tomava conta dela.
"Eu preciso... tomar um banho..." falou baixo. "Podem trazer as minhas malas por favor?" cerrou os punhos.
"Sim... mas precisamos que você saia, estamos preocupados..." sua tia falou alto.
"Eu não vou sair daqui, façam a porra do que eu mandei ou vão se arrepender!" Mellanie gritou, socando a porta.
Houve um silêncio profundo, e do outro lado da porta Elena havia mandado sua filha buscar as coisas de Mellanie que estavam no quarto de hóspedes, imediatamente a garota saiu, voltando em poucos minutos, Mellanie permanecia da mesma maneira, fraca, sangrando e com um ardor insuportável em praticamente todo seu corpo, ela sentia como se alguém houvesse arrancado seu coração de seu peito, houve uma batida lenta na porta e em seguida outra voz.
"Suas coisas já estão aqui, abra." disse sua tia, firmemente, segurando sua mochila.
Mellanie abaixou as mangas de seu vestido para esconder os machucados e afastou-se um pouco da porta, levando sua mão esquerda até a chave, girando-a duas vezes ao contrário, depois puxou a maçaneta para baixo, inclinou um pouco sua cabeça, olhando sua tia que segurava sua mochila com suas roupas, estendeu a mão, pegando-a e fechou imediatamente em seguida antes que sua tia dissesse ou visse o sangue espalhado por todo banheiro, trancou novamente, jogando sua mochila no chão e ajoelhando-se juntamente, abrindo o zíper e procurando uma boa roupa, não demorou muito para que escolhesse uma calça jeans preta e uma blusa de mangas longas da mesma cor, atualmente só usava roupas pretas, não conseguia usar uma outra cor mais alegre, não queria passar a impressão errada, guardou a lâmina dentro de sua mochila. Separou suas roupas e sua toalha, em seguida removendo seu vestido com cuidado, fazendo uma expressão de dor ao passá-lo por cima dos machucados em seus braços, tirou o resto de sua roupa e ligou o chuveiro, em seguida entrando embaixo da água morna que fazia os seus cortes arderem mais ainda, mas ela nem se importava, todos os pensamentos ruins estavam atordoando sua mente naquele momento, sua mãe... Nate... a idéia de ter que viver com sua tia... as lágrimas se misturavam com a água do chuveiro e o sangue que escorria de seu corpo, tudo era levado pelo ralo. Tudo. Menos o seu sofrimento que a partir daquele dia seria eterno, ela queria encontrar uma luz para alegrá-la, mas sabia que estava sonhando alto demais. Depois de um tempo, fechou o chuveiro, secando-se, já havia parado de chorar um pouco, seus olhos estavam um pouco avermelhados e embaixo haviam olheiras bastante escuras, não havia dormido na noite passada pelo incidente com sua mãe que ocorrera durante a madrugada.
Segunda pequena observação: A mãe de Mellanie falecera enquanto dormia, em uma parada cardíaca.
Meia hora depois ela já estava vestida, naquele momento estava colocando uma coleira que fazia parte de seus acessórios em seu pescoço para esconder os cortes, logo abaixo havia um pingente com um crucifixo negro com algumas pedras vermelhas. Ela levantou o rosto um pouco no espelho e analisou, não conseguia ver os seus machucados mais, tentou sorrir para si mesma no espelho, sem sucesso, abaixou sua cabeça, apoiando as mãos na pia e suspirando, abaixou-se e pegou a lâmina que havia esquecido no chão, devolvendo-a no mesmo lugar, em seguida levantou-se novamente, afastando-se, recolhendo sua mochila com sua mão esquerda, já apoiando a direita na chave que permanecia na fechadura da porta, respirou um pouco e a girou, em seguida abrindo a porta. Sua tia ainda estava ali, Mellanie simplesmente ignorou-a, franzindo as sobrancelhas e tentando passar por ela como fez com Liesel no cemitério, mas foi impedida, Elena segurou fortemente seu pulso, onde estavam a maioria dos cortes, a garota gemeu um pouco, mas tentou não expressar dor, virou-se lentamente para ela, as duas mantinham o mesmo fuzilante olhar uma para a outra.
"O que você estava fazendo todo esse tempo no banheiro?" perguntou Elena, sem soltá-la.
"Me larga!" ela puxou seu braço com toda sua força, fazendo com que sua tia soltasse-a, segurou no mesmo lugar com sua outra mão, mais leve. "Não te interessa, você não manda em mim, minha mãe está morta." disse, levantando seu olhar furioso para ela, sem se afastar.
"Sim. Sua mãe está morta. E eu sou responsável por você agora se você se esqueceu. Devia me agradecer por cuidar de uma garota infantil e irritante como você." Elena disse, um pouco irônica.
"Seu tom de voz me dá vontade de vomitar, você deveria ter ido no lugar de minha mãe. Sério, você parece o demônio em pessoa" Um meio sorriso forçado e leve surgiu rapidamente nos lábios de Mellanie, mas depois desapareceu.
A mão de Elena chocou-se contra o rosto de Mellanie automaticamente, produzindo um estalo alto e deixando uma imensa marca vermelha no rosto da garota, que soltou seu pulso, levando a mão direita até seu rosto.
"Nunca mais fale nesse tom comigo." Elena disse, um pouco baixo e insegura.
"Grr..." Mellanie grunhiu, empurrando-a contra a parede com toda a sua força e segurando-a ali pelo pescoço, apertando cada vez mais. "Sua nojenta inútil, você vai ver agora o que a satânica psicótica pode fazer!"
Terceira pequena observação: Elena possuía um preconceito muito grande contra o estilo de Mellanie, conversava escondido com sua irmã a respeito disso e dizia que havia algo errado com sua sobrinha por ela nunca rir e ser tão anti-social, colocava apelidos nela, como os que Mellanie mencionou acima, a mãe da garota não se importava muito, aliás, até contava tudo isso á Mellanie.
Antes que ela pudesse passar dos limites e acabar matando-a, seu tio e sua prima chegaram, separando-as, Mellanie permanecia irritada, tentando soltar-se dos braços de seu tio, que a puxava para trás firmemente, sua tia respirava fundo, recuperando o ar que sua sobrinha havia a feito perder, o tio dela a levou para a sala, sentando-se com ela, tentando conversar, sem sucesso, Mellanie se levantou e foi para fora, sentando-se em frente á porta, tomando um ar e tentando se recuperar, abaixou a cabeça, balançando-a negativamente, havia perdido o controle novamente, mas não tirava sua razão, afinal, quem Elena estava pensando que era ao batê-la daquela maneira tão violenta? Colocou a mão em sua testa, apoiando seu cotovelo na sacada, depois levantou seu rosto, olhando para o céu, havia parado de chover mas ainda estava um pouco frio e o céu cinzento como as lápides do cemitério, fechou os olhos e viu aqueles olhos azuis tão inocentes, tão apaixonantes, táo... perfeitos de seu sonho. Nate. Se ela o visse novamente, sua vida seria completamente diferente, gostaria de ter feito tudo diferente, mas ela não tinha escolha, era uma criança na época do ocorrido.
"M-Mellanie..." ouviu alguém chamar seu nome, uma voz insegura e baixa, virou-se, era Liesel. "mamãe mandou dizer que o quarto que você vai dormir é lá em cima".
"Pensei que o quarto de hóspedes fosse embaixo. E que aquele andar fosse abandonado." olhou para Liesel, com um olhar vazio.
"É que... bem... lá em cima tem só um quarto... não me culpe! Por favor! Foi ela quem mandou dizer... que não quer você entre nós, por que há um demônio em você." Liesel falava, desesperada, tremia, com medo de ser culpada.
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