Scars Of Life

7 SETE - Um encontro.


Todos os sonhos de Mellanie eram baseados em Nate, em todos eles ele aparecia de alguma maneira, fazendo-a chorar, ela não conseguia interpretar muito bem esses sonhos... mas o sonho que ela teve quando adormeceu foi diferente, ainda era Nate, mas também era Ryan. Em seus sonhos, era noite ela estava deitada no chão, haviam duas pessoas ao seus lados e ela mantinha os olhos fechados, embora estivesse acordada, os dois, Ryan e Nate sussurravam algo parecido com um poema em seus ouvidos, o qual ela só conseguia entender as palavras "solidão", "amor", "dúvida" e "sofrimento", por mais que ela se esforçasse para entender o restante do poema, não conseguia, pouco tempo depois ela se levantou do chão, sentando-se, apoiando as mãos no chão e começando a chorar convulsivamente.

Então ela acordou, como em todos os sonhos, depois de uma crise de choro, ela não costumava chorar ao acordar, mas assim que ela se levantou, esfregou os olhos e deixou uma ou duas lágrimas escorrerem, mas as limpou imediatamente, não havia um por quê de estar chorando, sabia que se contesse as lágrimas, mais tarde teria problemas, mas ela sempre insistia em contê-las quando não achava um bom motivo para chorar.

Ela se levantou da cama, havia esquecido do encontro com Ryan, olhou no relógio de seu celular e teve uma leve impressão de que estava atrasada, eram duas e vinte.

"Ah! Droga!" exclamou, calçando suas sapatilhas e descendo as escadas imediatamente e entrando no banheiro, apoiou suas mãos na pia, levantando seu rosto para o espelho, não estava tão ruim assim, virou-se para o espelho maior, arrumando a blusa em seu corpo, tentando desamassá-la, sem muito sucesso, pegou um pente de cabelos que estava sobre a pia e penteou rapidamente seus cabelos, que já estavam totalmente secos, terminou de penteá-los, retocou a maquiagem e foi escovar seus dentes, enquanto os escovava, a campainha da casa tocou e ela ouviu Liesel.

"Eu atendo! Eu atendo!" ela gritou, em seguida ela ouviu o barulho da porta, Mellanie estava terminando de escovar os dentes.

"Oi, desculpe incomodar, mas... eu sou amigo da Mellanie, ela está por aí?" era aquela voz rouca e com um toque sedutor que Mellanie já conhecia bem. Ryan. Ela cuspiu o que restava de água em sua boca e a secou imediatamente, correndo para a porta.

"RYAN! O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI?" ela apareceu atrás de Liesel, que olhava para ele sem dizer nada parecendo hipnotizada.

"Você demorou pra chegar, aí eu achei que estava precisando de ajuda." ele deu de ombros.

"Quem é este rapaz?" perguntou Elena, indo até a porta também, encarando-o.

"Ah, você deve ser a tia da Mellanie, é um prazer conhecê-la, senhora, sou Ryan." ele estendeu a mão, Elena a apertou firmemente, cumprimentando-o, ele puxou a mão dela e a beijou, Mellanie deu um passo para trás, bufando.

"Ryan... Ryan... o prazer é todo meu." Elena falava, sorrindo e parecendo uma garotinha virgem do ensino médio, como diria Ryan. "Nossa... você... é o que da Mellanie?" ela disse como uma boba, Liesel sussurrava algo inaudível, Mellanie grunhiu.

"Por enquanto amigo." ele soltou a mão de Elena, olhando para Mellanie, que colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha e virou o rosto para disfarçar, corando, aquele "por enquanto" a intimidara ao extremo.

"Hã... você não quer entrar e beber alguma coisa?" perguntou Liesel."Não, perdão, eu só vim buscar Mellanie, mas eu prometo que da próxima vez eu entrarei, será um prazer conhecer vocês melhor." ele piscou, sorrindo de lado, voltou a olhar para Mellanie, fazendo um sinal com a cabeça para que ela se aproximasse, ela o obedeceu, abrindo passagem entre Elena e Liesel, colocando-se ao lado dele, olhou para trás, avistando uma Mercedes preta. "Aquele carro..." começou.

"Sim, é meu." ele riu de leve, colocando as mãos nos bolsos de sua calça jeans preta. "Problema?"

"Nossa! Nenhum." ela balançou a cabeça negativamente, rindo.

"Uau, ele dirige." disse Liesel com os olhos brilhando.

"Ah, por que você não arruma um genro assim pra mim, Liesel?" Elena murmurou, empurrando Liesel de leve.

"Eu não sou muito chegada em góticos, mas ele é tão diferente!" exclamou Liesel, sorrindo.

"Tá, vamos." Mellanie segurou no braço de Ryan, puxando-o com as duas mãos

"Ei, Mellanie, por que você não chama sua prima para sair com a gente, ela parece ser legal." ele mantia o olhar em Liesel, sorrindo, Mellanie franziu as sobrancelhas e ficou na ponta dos pés, aproximando os lábios de seu ouvido.

"Pelo mesmo motivo que você vai se calar se não quiser que eu meta a mão na sua cara." sussurrou, em seguida puxando-o com mais força, ele riu e se virou, caminhando até o carro, colocou um de seus braços sobre os ombros de Mellanie, em seguida abraçando-a, ela o empurrou, embora quisesse retribuir o abraço com toda sua força. Liesel e Elena já haviam fechado a porta. Ryan abriu a porta do carro para Mellanie, ela o olhou desconfiada e entrou no carro, em seguida batendo a porta de propósito nos dedos de Ryan, que gemeu ao sentir, ela riu, ele deu a volta no carro e entrou do lado do motorista, batendo a porta com força, colocou a chave na ignição, ligando o carro, em seguida virou-se para Mellanie.

"Olha só o que você fez!" gritou, mostrando seus dedos, machucados, ela continuou rindo, encolhendo suas pernas e colocando os pés no banco.

"Bem feito. Foi só desconto por você dar em cima da minha tia e da minha prima juntas." Mellanie mostrou o dedo do meio, logo em seguida dando a língua, ele segurou sua língua com seu dedo indicador e polegar.

"Tire os pés do banco." disse, agora mais calmo, em seguida soltando sua língua.

"Me obrigue." Mellanie cruzou os braços, olhando para a frente.

"Como você tá rebelde hoje... tá difícil de lidar hein?! Mas eu obrigo, eu obrigo!" ele virou-se para ela novamente, puxando suas pernas imediatamente para baixo, ela levantou as sobrancelhas e os braços, surpresa.

"Que violência, Ryan! Não precisava de tudo isso, seu grosso." fuzilou-o com o olhar, cruzando os braços.

"Você disse "me obrigue"." ele imitou o tom de voz dela, rindo em seguida. "Tá, tá, senhorita rebelde... onde você quer ir?" apoiou uma de suas mãos no volante, olhando-a, com um meio sorriso.

"Eu estou com fome." ela manteve seu olhar para a frente, batendo os pés no chão do carro.

"Gosta de comida japonesa?" ele perguntou, sem desviar seu olhar dela.

"Hmm... adoro" ela fez um beicinho, virando seu rosto para ele.

"Então tá, vou te levar em um lugar muito bom, na verdade, é um dos meus favoritos, sinta-se honrada." ele gargalhou, colocando as duas mãos no volante e acelerando.

"Por que eu me sentiria, seu inútil?" Mellanie disse em um tom zombeteiro, olhando-o com um sorriso divertido.

"Mais uma ofensa e você sai do meu carro, rebelde." ele apontou o dedo indicador de sua mão direita para ela, rindo.

"Calei." Mellanie colocou as mãos sobre seus lábios, em seguida as tirou, encostando sua cabeça no banco, olhando para o movimento das ruas naquele dia, o sol ainda estava lá, refletindo em sua pele branca mesmo com o vidro separando-os. As palavras ouvidas no sonho "solidão, amor, dúvida e sofrimento" vieram em sua cabeça, por que? O que aquilo tinha a ver? Mellanie se lembrou e virou o rosto para Ryan novamente. "Eu sonhei com você." disse em um tom baixo e inseguro.

"Ah, é? Sobre o que era o sonho?" ele continuou olhando para a frente.

"Não sei também, era estranho, eu estava deitada em um chão frio enquanto você e Nate recitavam uma poesia no meu ouvido que eu só compreendia quatro palavras, mas ainda assim eu sabia que era uma poesia, e depois de tanto ouvir vocês eu me sentei, então eu chorei. Idiota, não?" ela continuou falando no mesmo tom de antes, agora olhando para baixo.

"Quais palavras você conseguia compreender?" perguntou Ryan, sério, lançando uma rápida olhadela para ela.

"Solidão. Amor. Dúvida... Sofrimento." ela continuou olhando para baixo, logo levantando seu olhar para ele quando terminou de falar.

"São palavras bem... fortes. Já passou por sua cabeça em ser algo como um aviso igual áqueles filmes, tipo "Premonição"?" ele lançou outra pergunta, franzindo as sobrancelhas."Não costumo ter previsões nos meus sonhos, que eu saiba ninguém da minha árvore genealógica era sensitivo assim... e não tem nada a ver, eu sou sozinha, mas sem amor... e ás vezes eu sinto o sofrimento na pele... mas mesmo com isso tudo eu ainda estou viva, não sei se deveria estar desapontada ou feliz por isso, sei lá, ás vezes não encaro a vida como uma coisa boa. Mas e dúvida? O que é a dúvida? Por que dúvida?" Mellanie deu de ombros, olhando para Ryan.

"Não faço a mínima idéia. Esse assunto aí já está me deixando tenso." disse Ryan, rindo de leve, apertou suas mãos no volante, suspirando, logo após seus lábios formaram uma linha reta, silenciou-se por um momento, pensando em outro assunto para não manter aquele clima estranho. "Então... o que você disse para sua tia quando chegou em casa hoje cedo?"

"Eu mandei ela se foder." Mellanie assentiu, olhando para a frente, lembrando-se do que havia acontecido há algumas horas atrás.

"Por que?" Ryan riu, olhando-a.

"Hã... por acaso o restaurante é aquele?" ela olhou para trás, eles já haviam passado um restaurante japonês, Ryan olhou no retrovisor, logo em seguida pisando no freio bruscamente, Mellanie foi arremessada para a frente, chocando seu rosto contra o vidro, gemendo um pouco, voltou a se encostar no banco, seu lábio inferior ardia e sua testa latejava, levou a mão direita até seus lábios, Ryan estacionava o carro em frente ao restaurante, puxando o freio de mão e desligando o carro, virou-se para Mellanie.

"Você está bem?" perguntou calmo, segurando delicadamente o rosto dela e inclinando-se para estudar melhor os machucados, ela abaixou sua mão, ele limpou o sangue que escorria no canto esquerdo dos lábios dela com seu dedo polegar. "Ah, droga... perdão!" subiu seu olhar para ela e seus olhares se encontraram, ela corou, olhando para baixo, ele riu de leve. "Onde mais dói?" acariciou um pouco o rosto dela, colocando uma mecha de seu cabelo atrás de sua orelha, em seguida aproximando seu rosto, ela não respondeu, virando seu rosto para o lado, evitando que ocorresse outro beijo, ele selou os lábios na bochecha de Mellanie, logo se afastando e dando um meio sorriso, ela o olhou, retribuindo o sorriso sem muita vontade, não demorando a voltar seu olhar para baixo, Ryan virou para o outro lado, abrindo a porta do carro. "Bem... não vamos demorar, já está tarde" ele saiu do carro, fechando a porta, Mellanie o olhou e virou-se para o lado, abrindo sua porta também, ele deu a volta no carro, puxando a porta dela, estendendo sua mão para a mesma, ela colocou suas pernas para fora, mas ainda permanecia sentada, hesitou por um momento, mas segurou a mão dele, usando-a como apoio para sair do carro, impulsionando seu corpo para fora, soltou a mão dele quando equilibrou-se com os pés no chão, usando-a para fechar a porta, Ryan ativou o alarme, virando as costas e caminhando até a entrada do restaurante, Mellanie caminhou logo atrás, ainda sem dizer nada, ele cortou o silêncio, virando-se para ela, andando de costas. "Mas então... ainda não me respondeu por que toda essa revolta com sua tia Elena." ele colocou as mãos nos bolsos.

"Por que? Você gostou dela? Tá preocupadinho?" Mellanie disse, tentando disfarçar o ciúme com um meio sorriso brincalhão no final de sua frase, que logo se desfez.

"Não né... ela é uma coroa." ele franziu as sobrancelhas pra Mellanie, os dois riram juntos, ele parou na porta do restaurante, empurrando a porta e sinalizando com a mão para que Mellanie fosse em sua frente, ela deu três passos para a frente e já se encontrava dentro do estabelecimento, Ryan fechou a porta, entrando logo atrás dela, havia ar-condicionado ali e estava bem melhor do que aquele calor infernal do lado de fora, ele colocou um de seus braços sobre os ombros de Mellanie, puxando-a para mais perto de si, ela cambaleou um pouco, ele aproximou seu rosto do dela, sussurrando em seu ouvido. "Só acho que devemos respeitar os mais velhos." ela fechou os olhos e suspirou, tentando esconder o arrepio que percorreu todo seu corpo ao ouví-lo.

"Idiota. Por que precisa sussurrar?" ela abriu os olhos, olhando para a frente.

"Olha, funcionou." ele puxou o braço dela, levantando a manga de sua blusa, podia-se ver claramente que ela ainda estava arrepiada. "Você se arrepia facilmente... é só comigo?" ele sorriu de lado, subindo seu olhar para ela, os olhares se encontraram.

"Não, Ryan!" ela puxou seu braço com força, virando as costas, olhando para as mesas. "Vamos nos sentar, ok?" ela voltou a caminhar, rumo á uma mesa ao lado da janela, o sorriso dele não desapareceu e ele a seguiu.

Os dois sentaram-se frente a frente naquela mesa, Mellanie apoiou seus braços ali na mesa e virou seu rosto para a janela, sem abrí-la, não estava interessada em olhar o dia lá fora... ela só estava intimidada ao olhar para Ryan, ele bateu as mãos na mesa. "EI!" exclamou, não muito alto, ela sobressaltou, olhando-o, sorriu um pouco sem vontade. "Olha pra mim." ele estendeu suas mãos, segurando as mãos dela, ela mordeu seu lábio inferior, esperando alguma brecha para que pudesse fazê-lo soltar suas mãos, foi o garçom, que chegou e depositou dois cardápios sobre a mesa, Mellanie abaixou suas mãos, segurando rapidamente o cardápio e levantando-o na altura que escondesse o seu rosto, ele permaneceu imóvel, apenas apoiando seu cotovelo sobre a mesa e roendo a unha de seu dedo polegar, sem desviar o olhar dela, embora não pudesse enchergá-la muito bem. O garçom colocava os pratos, hachis e pratinhos para molho shoyu sobre a mesa, Mellanie abaixou o cardápio."Hã... o que você vai querer, Ryan?" olhou para ele, ele levantou as sobrancelhas, suspirando, abaixando as mãos e olhando para o garçom. "Aquilo de sempre." ele piscou, sorrindo, Mellanie franziu as sobrancelhas, alternando seu olhar entre Ryan e o garçom, que assentiu e anotou o pedido.

"O que é "aquilo de sempre"?" ela depositou o cardápio sobre a mesa, fechando-o, ainda olhando-o com um olhar confuso, ele riu.

"Yakisoba... relaxa, dá pra nós dois, eu sempre venho aqui com meus colegas." ele arrumou-se na cadeira, olhando para Mellanie.

"Bebidas?" o garçom levantou seu olhar do bloco de notas em suas mãos.

"Qualquer coisa líquida." Mellanie passou a mão em seu rosto, suspirando, Ryan levantou as sobrancelhas e olhou para o garçom.

"Duas águas." ele riu de leve, logo olhando para ela novamente, o garçom assentiu e se retirou, Mellanie o olhou, ele apontou seu dedo indicador para ela. "Pare de me evitar." ele disse baixo.

"Não tô evitando, só tô... cansada." ela mentiu, dando de ombros, aproximando-se da mesa e pegando o hashi, separando-os.

Os dois permaneceram em silêncio por um longo tempo, ela olhou para a janela, balançando suas pernas, ele permanecia calado, olhando-a, depois de por volta de dez minutos ele cortou o silêncio.

"Sabe usar o hashi?" disse Ryan, olhando.

"Hã?" Mellanie riu de leve, olhando-o.

"Hashi, isso que você tá segurando." ele gesticulou para as mãos dela.

"Ah, sim." ela riu, voltando a olhar para o objeto em suas mãos. "Aprendi com minha mãe... ela adorava comida japonesa." ela movimentou os dedos, ele abaixou seu olhar, sorrindo consigo mesmo, depois a olhou.

"Sua mãe era muito importante pra você, não é?" perguntou, sem pensar. "Claro, né." disse, com um tom óbvio, soltando o hashi. "Ainda mais por que eu não conheci meu pai." ela cruzou as pernas, olhando para ele, suspirou. "Ás vezes eu sinto falta de ter um pai... mesmo que eu não tenha vivido isso na pele... ele se foi quando eu tinha alguns meses de vida apenas... nem falar eu havia aprendido, nunca pude chamá-lo de papai como todas as crianças... mas acho que ele não se importou com isso, afinal ele nem queria que eu tivesse nascido." ela riu de leve, tentando disfarçar a tensão, logo em seguida o garçom chegou, colocando o pedido sobre a mesa, os dois observaram.

"É... você me contou." ele começou a falar, assentindo em um sinal de agradecimento para o garçom, logo olhou para Mellanie. "Meus pais eram do tipo superprotetores e minha irmã... bem... minha irmã era meio irritante." ele riu, pegando o hashi e colocando um pouco de molho shoyu sobre o macarrão no prato, em seguida pegando com o auxílio do hashi um pedaço de carne, olhava para baixo, Mellanie fez o mesmo, mas o olhava. "Nós éramos uma família unida." completou, levando um pouco de macarrão até sua boca, mastigando-o

"Se houvesse uma maneira de recuperar o que nós perdemos eu já teria a usado há muito tempo, isso não é justo." Mellanie repetiu o ato dele, mas antes dando um gole em sua água."Errado. As pessoas que nos fazem bem tem de ir embora quando chegar a hora de fazerem bem á outras pessoas, por isso os melhores morrem cedo... eu não encaro a morte como algo ruim." ele deu de ombros, continuando a mexer no prato com o hashi.

"Eu também não. Mas era minha mãe, agora que eu perdi o meu último bem mais precioso eu não me importo com mais ninguém, se estiverem vivos, bem. Se estiverem mortos... tanto faz." ao terminar a frase ela voltava a comer.

"Nossa história é bem parecida, acho que fomos destinados a ter uma vida vazia dessas." ele disse após terminar de mastigar e riu de leve, olhando-a, ela retribuiu com um sorriso, assentindo.

Os dois comeram em silêncio com praticamente os mesmos pensamentos, Ryan pensava em sua família, as lembranças ruins rondavam em sua mente. Um garoto comum de quinze anos, sentado na sala de aula conversando com seus amigos, até que a inspetora apareceu na porta, ele havia tentado se esconder, com medo de que fosse levar alguma advertência ou suspensão como da última vez, até que ele notou a expressão preocupada e séria em seu rosto.

"Ryan Haines, posso conversar com você um pouco?" ela franziu as sobrancelhas, olhando para o professor, que assentiu, o garoto se levantou da mesa, caminhando em passos lentos até a porta da sala de aula, o resto das pessoas atrás dele o vaiavam, com os mesmos pensamentos que ele tivera antes, a inspetora empurrou-o levemente para fora da sala, encaminhando-se para a direção, ele a seguiu.

"O que houve? Eu não fiz nada dessa vez, não foi culpa minha, eu juro!" ele exclamou, acelerando o passo e colocando-se ao lado da inspetora, que o olhou sem dizer nada, apenas balançando a cabeça negativamente, então ele entendeu que era outra coisa.

No meio do caminho, nos corredores da escola, estava Lucy, sua namorada depressiva, sentada sobre um banco com as pernas encolhidas, levantou-se rapidamente ao vê-lo, acompanhando-o.

"O que aconteceu, Ry?" perguntou com aquela voz doce, baixa, calma e com vestígios de tristeza, segurando levemente o braço dele, acompanhando-o.

"Eu não faço a mínima idéia" sussurrava ele, caminhando.

Os três chegaram até a diretoria, Lucy abraçou Ryan, abaixando seu rosto, ele semicerrou os olhos ao entrar na sala do diretor, que mexia sem parar na caneta azul em suas mãos, parecendo focar a atenção naquilo, a inspetora tentou impedir Lucy de entrar na sala, sem sucesso, os dois se sentaram nas cadeiras que haviam em frente á mesa do diretor, que levantou o olhar para os dois, depositando a caneta azul sobre a mesa, suspirando.

"Ryan... eu gostaria de conversar com você á sós." olhou para Lucy, que abraçou Ryan com mais força, abaixando o rosto, seus olhos se encheram de lágrimas.

"Eu... não vou deixar ele sozinho." disse, piscando, o diretor suspirou profundamente, encostando-se na cadeira e olhando para Ryan.

"Olhe, Ryan... eu tenho uma notícia ruim para você." o diretor se arrumou na cadeira, apoiando os cotovelos na mesa e as mãos cruzadas em seu queixo.

"O que? Eu levei suspensão né? Cara, não fui eu que estraguei o bebedouro, eu juro! Vocês são um bando de idiotas que não sabem das coisas! Agora aqueles infelizes dos meus pais vão falar um monte de merda pra mim, que porra." ele revirou os olhos, batendo as mãos na mesa, prestes a se levantar.

"Ryan, fique aí... mantenha a calma. Houve um incêndio em sua casa." o diretor estendeu as mãos para ele, Ryan paralisou na cadeira, levantando as sobrancelhas, surpreso, e antes que pudesse comentar outra coisa, o diretor continuou. "Ninguém sobreviveu."

"Como assim?" Ryan perguntou, com um tom mais sério, encostando-se na cadeira, cruzando seus braços e suspirando.

"Pelo o que me contaram, houve um acidente doméstico que causou um incêndio na sua casa, os seus pais e sua irmã não conseguiram escapar... eu lamento muito." disse o diretor, com o mesmo tom de voz que Ryan.

Ele abaixou a cabeça, fechando os olhos com força, Lucy o olhou, boquiaberta e sem ação, colocando uma de suas mãos sobre a cabeça dele, abaixando seu rosto tentando olhá-lo, Ryan se levantou, cerrando seus punhos e se correndo para fora da sala do diretor, Lucy se levantou para seguí-lo, mas o diretor a impediu, Ryan correu o mais rápido que pode, passando pelos inspetores, alunos, corredores e por fim, o portão do colégio, Ryan correu o mais rápido que pode, as lágrimas escorriam de seus olhos, como sua casa era próxima ao colégio não demorou a chegar lá, de longe, podia ver a fumaça invadir o céu da cidade e isso fez o choro se aumentar, era verdade, mas Ryan ainda tinha esperança de que pudesse salvar seus pais, parou em frente a casa, atirando-se de joelhos e apoiando as mãos no chão, ofegante, atirou sua mochila no chão, levantando seu rosto para a casa completamente destruída, mas sem o fogo, os bombeiros recolhiam seus materiais enquanto três macas eram levadas por médicos, Ryan sabia que aqueles corpos que estavam abaixo do lençol branco sobre a maca eram de seus pais e sua irmã, abaixou suas cabeça e cerrou os punhos mais uma vez.

"Ryan?" a voz de Lucy ecoava em sua mente. "Ryan, está tudo bem?"

Ryan levantou seu rosto, afugentando seus pensamentos e encontrando o olhar intimidador e preocupado de Mellanie.

"O que você tem?" ela levantou uma de suas sobrancelhas, sorrindo de lado e encostando-se na cadeira.

"Nada, não... só... estava lembrando de alguns fatos." ele balançou a cabeça para afugentar o que restara dos pensamentos em sua mente, depois a olhou novamente, sorrindo. "Vai querer mais alguma coisa?"

"Não, estou cheia, pode fechar a conta..." ela passou as mãos em seus cabelos, jogando-os para trás.

Ele assentiu e chamou o garçom, pedindo-o para fechar a conta, enquanto ele demorava um pouco com as contas, Ryan e Mellanie ficaram se olhando e, quando os olhares se encontravam ela abaixava a cabeça, corada, ele sorria. Após alguns minutos, Ryan pagou a conta e os dois se levantaram, Mellanie saiu na frente, logo ele correu atrás dela, puxando-a para perto de si, a mesma revirou os olhos e cruzou os braços, já do lado de fora, encostando-se na parede do restaurante, ele colocou-se em frente á ela, colocando as mãos nos bolsos. Mellanie olhou para o céu e notou que ainda estava claro, embora sentisse que tinha passado muito tempo dentro do restaurante. O sol não estava mais tão forte, mas as ondas de calor ainda a atingiam um pouco, para sua infelicidade, suspirou profundamente, lançando seu olhar para baixo mas logo o levantando.para Ryan novamente.

"Ainda está cedo... o que você quer fazer?" ele apoiou uma de suas mãos na parede do restaurante por cima do ombro dela, olhando-a.

"Não sei... alguma sugestão, Haines?" ela perguntou, olhando-o, levantou uma de suas sobrancelhas.

"Bem... os meus colegas de quarto estão fazendo uma... hã... "reunião" lá em casa... podíamos ir pra lá, eles compraram cerveja, whisky, cigarros e... oh! Eu esqueci que garotinhas do ensino médio virgens não bebem." ele revirou os olhos, rindo, recolhendo sua mão.

Ela franziu as sobrancelhas, empurrando-o pelos ombros contra a parede do restaurante, olhou para os dois lados, certificando-se de que ninguém os observava, colocou uma de suas pernas entre as pernas dele, flexionando-a, sorriu maliciosa, Ryan levantou uma de suas sobrancelhas, sorrindo de lado.

"Vai com calma aí, gatinha, estamos em público." ele levou as mãos até a cintura dela, puxando-a para mais perto de si, ela o empurrou, abaixando sua perna e virando as costas, colocou as mãos na cintura, ainda com uma expressão maldosa.

"Você não esperou eu começar a falar... é melhor parar de encher o meu saco se não você vai é voltar a ser virgem. E vamos logo para a sua casa." cruzou os braços, fazendo um beicinho.

"Ui, voltar a ser virgem." Ryan levantou as mãos para o ar, rindo, caminhando até o carro, ela o seguiu.

Os dois entraram no carro, ele alongou seus braços, suspirando profundamente, Mellanie manteve seu olhar para a frente, não queria olhar pra ele, por algum motivo ela sabia que iria corar, então abaixou seu olhar, lembrando-se do que havia dito por último e rindo baixinho de si mesma, Ryan notou, olhando-a, mas permaneceu sério e colocou a chave na ignição, levando as mãos até o volante, dando a partida no automóvel, indo em direção até a casa dele, que ficava há apenas duas ruas de lá, os dois permaneceram em silêncio, Ryan lançava alguns olhares de lado para ela, que não retribuia, mantendo sua atenção na janela, ele estendeu sua mão, puxando o rosto dela para si, Mellanie abaixou seu olhar.

"Está evitando de me olhar? Por que?" ele riu de leve, permanecendo com a outra mão no volante.

"Você... vai bater o carro." ela sorriu, sem graça, levantando seu olhar.

Ele abaixou sua mão, retribuindo o sorriso de leve e voltando a olhar para a frente, virando em uma rua que Mellanie conhecia muito bem, os moradores das casas de lá não tinham uma boa fama, pois, nos jornais do bairro, a maioria dos assaltos, assassinatos haviam sido ocorridos ali, inclusive havia acontecido com ela no começo do ano. Era uma segunda-feira, a segunda semana de aula de Mellanie, como havia começado a estudar a noite e no caminho de sua escola sempre passava por aquela rua escura e com pessoas estranhas caminhando pela calçada que a encaravam de uma maneira estranha, mas ela não tinha medo, já havia enfrentado muitas coisas ruins em sua vida. Enquanto caminhava analisando o papel das aulas que teria naquele dia, um estranho parou em frente á ela, estava com uma calça jeans azul escura e uma blusa de frio preta com touca, que escondia seu rosto, as mãos estavam nos bolsos, Mellanie parou, franzindo as sobrancelhas e tentando enxergar a face daquele homem enquanto dobrava e guardava o papel de volta em seu bolso.

"Hã... posso te ajudar, senhor?" ela abaixou seu rosto um pouco.

O homem levantou sua mão segurando alguma coisa que a longa manga de sua blusa escondia, Mellanie permaneceu parada, franzindo as sobrancelhas, houve silêncio, ela abaixou seu rosto e notou. O que o homem segurava era um revólver, ela sobressaltou e deu dois passos para trás, levantando suas mãos.

"Isso é um assalto." disse ele, levantando seu rosto, mas ainda assim não era possível enxergar sua face, deu dois passos para a frente, ficando mais perto de Mellanie.

"C-Calma... senhor, eu... eu... eu tenho só um celular." ela colocou uma de suas mãos em seu bolsos, levantando seu celular, que não era de muito valor.

O homem a empurrou contra um muro de uma casa qualquer, mantendo as mãos nos ombros dela e aproximando seus lábios do ouvido da mesma, que permaneceu imóvel.

"Não, você tem outra coisa de valor." ele passou sua língua no pescoço dela, que fechou os olhos com força, contendo as lágrimas e a vontade de gritar.

"Eu... não sei o que você quer... seu nojento!" ela exclamou, empurrando-o com toda a força e tentando correr, mas ele foi mais rápido e a agarrou, prendendo-a novamente contra o muro e apertando suas coxas, com um riso malicioso. "Não... não... por favor, NÃO! SOCORRO!" gritou, tentando empurrá-lo, prestes a deixar as lágrimas escorrerem.

"Ei, você! Deixe a garota em paz!" surgiu a voz de um homem com os cabelos compridos, correndo na direção dos dois.

O criminoso virou para trás, puxando a touca mais para baixo.

"Quem é você pra dizer isso?" disse com a mesma voz irônica.

"Um morador comum deste bairro" o homem dos cabelos compridos indagou antes de dar um soco com toda sua força no outro homem, que tentou lutar, mas recebeu outro soco e desmaiou, Mellanie, ainda encostada no muro, assustada e trêmula, olhou para o homem em pé.

"O-Obri...gada." gaguejou, abaixando seu rosto e correndo rumo ao seu colégio novamente, o homem a observou, sem nada dizer.

"Chegamos." disse Ryan, parando o carro em frente á uma casa.

"Onde?" Mellanie levantou seu rosto, olhando para todos os lados, notando que realmente era o lugar do incidente do começo do ano. "Que lugar é esse? Por que estamos aqui? Eu... eu quero ir pra casa!" disse Mellanie, abrindo a porta do carro e saindo. "Como você sabe?" abaixou a cabeça, levando as mãos até seu rosto.

"Tá louca? Essa é minha casa." disse Ryan, assustado. "Eu avisei que viríamos pra cá e você concordou"

Mellanie deu dois passos para a frente, analisando a pequena casa de cima a embaixo, era uma casa comum como qualquer outra, mas parecia abandonada, estava bem destruída e era notável que não passava por uma reforma há um bom tempo, havia um jardim logo ao lado, contendo pequenos arbustos secos, assim como a grama. Em meio ao jardim havia uma trilha de pedras para chegar até a porta de entrada, Mellanie virou-se para Ryan.

"Perdão. Eu... tenho más lembranças aqui... estava pensando em umas coisas... mas... esquece." balançou a cabeça negativamente, dando um passo á frente.

"Certo... vamos." Ryan respondeu com um ar de desconfiança, segurando uma das mãos dela, puxando-a. "Vamos logo que eles estão esperando." correu com ela até a porta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.